Vitaminas: Você tem que tomar

Quem não toma pode estar perdendo ¿ pela falta de alimentos vitaminados no mercado brasileiro, pela prática de esportes, pela poluição das cidades, pelo fumo, pelo álcool. Trinta por cento dos brasileiros de classes média e alta têm algum tipo de carência vitamínica.

por Lúcia Helena de Oliveira

Dois bilhões dos cinco bilhões de habitantes no planeta têm deficiência de uma ou mais vitaminas. OK, a maioria dessa gente está no Terceiro Mundo e, no prato dos pobres, não faltam apenas vitaminas — falta comida mesmo, com todo tipo de nutriente. Mas o fato é que outro bilhão da população mundial padece da chamada fome oculta. O conceito se aplica a uma multidão que pode reclamar de barriga cheia: afinal, apesar de fazer as refeições normalmente, seu organismo funciona aos trancos e barrancos por falta de vitaminas. E essa falta não é alardeada pela sensação de estômago vazio. Eis o motivo de a fome ser oculta.

Será que os alimentos não são mais os mesmos que forneciam aos nossos avós tudo o que eles precisavam para viver? Não, não são. Mas, principalmente, nós não somos mais como nossos avós. O ritmo da vida moderna é um notório ladrão de nutrientes. Em primeiro lugar, porque quase ninguém tem tempo para fazer uma refeição como manda o figurino dos nutricionistas. Em segundo, porque o estressante corre-corre se traduz no corpo como uma descarga de hormônios que atrapalham — e muito — a ação das vitaminas. Sem contar outros hábitos que prejudicam essas substâncias. Um comprimido de aspirina faz com que a vitamina C de um suco de laranja tenha um prazo três vezes menor para agir, antes de ser eliminada pela urina. Outro exemplo: os componentes das pílulas anticoncepcionais aniquilam boa parte das moléculas de vitamina B disponíveis no sangue.

O pior é que as refeições do nosso dia-a-dia já são desvitaminadas. “A comida pode conter menos vitaminas do que prometem as tabelas nutricionais”, afirma o engenheiro de alimentos Cesar Romeu Araújo, da indústria farmacêutica Roche. “No Brasil, as pessoas preferem uma farinha de trigo branquinha e ela é puro amido”. As vitaminas B1 e B2, de que o trigo seria em tese uma boa fonte, vão se embora com a casca endurecida dos grãos.

Desde a II Guerra Mundial, de olho na saúde de seus soldados, os Estados Unidos passaram a devolver essas vitaminas perdidas à farinha, acrescentando-as depois da refinação. Na década de 50, a maioria dos países europeus copiou a idéia. No Brasil, até hoje, a farinha não é vitaminada.

“Por causa disso, tivemos dificuldades”, conta Regina Helena Braga, da Interbakers, empresa que, desde 1988, produz pães para hambúrgueres do McDonald’s. A maior rede de fast-food do mundo anunciava que o seu sanduíche tinha a mesma qualidade em qualquer parte do globo. E isso não era verdade, porque a farinha brasileira era bem mais pobre que a de outros países. “Levamos dois anos até conseguir incluir o complexo B na receita”, diz Regina. Hoje, o pão de um Big Mac fornece mais de 60% das necessidades diárias desses nutrientes.

“Parece justo repor as perdas”, diz a nutricionista Silvia Franciscato Cozzolino, professora da Universidade de São Paulo. “Mas, em vez de biscoitos e chocolates, os produtos vitaminados deveriam ser aqueles de grande consumo popular, como o arroz e o açúcar.” Os fabricantes alegam que isso afetaria o preço para o consumidor. “O aumento seria inferior a 1% nas gôndolas dos supermercados”, garante Cesar Araújo, da Roche.

Enquanto se discute, a gente pode estar passando fome — a fome oculta. E esta pode ser ainda mais agravada pelo processo de preparo das refeições.

Para a Organização Mundial da Saúde, o Haiti é aqui, como no verso cantado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. Pois, em matéria de falta de vitamina A, nós empatamos com os haitianos no primeiro lugar. Em certas regiões brasileiras, metade da população tem menos dessa vitamina do que seria adequado. A primeira conseqüência é a cegueira noturna: à noite, fica impossível enxergar direito. Porque, para formar imagens com nitidez, é necessário um pigmento, fabricado no fundo dos olhos, usando a vitamina A como matéria-prima. Se a deficiência se prolonga, a pessoa perde a visão.

“O irônico é que, no Norte e no Nordeste, onde a situação é mais grave, existem frutas típicas com alto teor dessa substância”, diz a nutricionista Eliete Salomon Tudisco, da Universidade Federal de São Paulo (ex-Escola Paulista de Medicina). “O jeito é ensinar as pessoas a procurar os alimentos certos.” Há quem diga, porém, que essa luta pela boa dieta é inglória. E não apenas por questões econômicas. Nos Estados Unidos, onde as pessoas comem até demais — é o país com o maior índice de obesidade do mundo —, não se come direito. Em cada cem americanos, 35 têm falta de vitaminas.

“Às vezes, os suplementos na forma de cápsulas são inevitáveis, como no caso de grávidas e pessoas sob regimes alimentares severos”, admite, cauteloso, Hélio Vanucchi, da Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, interior do Estado. Vanucchi é nutrólogo, ou seja, médico especializado em nutrição. Mas como será que ficam as pessoas com saúde normal, que confiam no almoço apressado do dia-a-dia? Elas também deveriam apelar para suplementos? “O melhor caminho é corrigir a dieta”, defende Vanucchi. “Se isso for impossível, as cápsulas sempre serão uma opção.”

A questão mais difícil, para o médico, é detectar quem está precisando de vitaminas extras — na maioria das vezes, é quem nem dá bola para o assunto. Calcula-se que, para cada caso de deficiência diagnosticado, existam outros nove na mesma situação, sem desconfiar. O problema é que entre um indivíduo sadio e um doente — com algum mal reconhecidamente causado pela ausência de vitaminas — existe uma larga faixa de pessoas com a chamada deficiência marginal. Elas têm vitamina de menos, mas não chegaram ao ponto de apresentar sinais de doença. Sentem coisas tão diversas como cansaço, falta de apetite e irritação constante. Sintomas que os médicos costumam rotular de estresse, sem ver neles uma causa física.

O organismo, nesses casos, é comparável a um carro com carburador sujo e motor mal regulado — até segue em frente, mas engasgando aqui, pifando acolá. Não é à toa. As vitaminas são dignas do nome dado, em 1911, pelo bioquímico polonês Casimir Funk (1884-1967). Vita, em latim, significa vida. Funk acertou: elas são imprescindíveis para várias reações químicas nos seres vivos. Na segunda metade da palavra, amina, Funk se precipitou um pouco: ele pensava que todas elas eram derivadas da amônia, o que não é verdade.

Aliás, divididas em solúveis em água e solúveis em óleo, as vitaminas não são nada parecidas umas com as outras. O único ponto em comum entre elas é que são fundamentais para o organismo em pequenas quantidades. “Há mais de cinqüenta delas, mas só treze são essenciais para o homem, ou pela sua importância ou pelo fato de seu corpo não conseguir produzi-las”, explica Vanucchi.

Infelizmente, está provado: de 2% a 5% do oxigênio que respiramos se transformam em radicais livres. Anarquistas do organismo, esses radicais reagem com tudo o que encontram pela frente para roubar um elétron.E a molécula roubada, então, também passa a ser um radical livre. “Só três substâncias podem quebrar essa cadeia destruidora”, conta o médico ortomolecular paulista Wagner Fiori. “Elas são a vitamina E, a vitamina C e o beta-caroteno, a matéria-prima da vitamina A.”

Por causa disso, os especialistas em Medicina Ortomolecular — área que trata da bioquímica do organismo humano — não se cansam de prescrever o trio. “De fato, vitaminas não são remédios. Mas seu uso contínuo pode evitar uma série de males”, garante Fiori. Essa idéia, que já provocou arrepios na comunidade científica, hoje encontra cada vez menos resistência.

“Estão surgindo diversas evidências de que essas três vitaminas protegem contra enfartes”, admite o médico Claude Lenfant, que dirige o Instituto Nacional do Coração, nos Estados Unidos. “Existe uma explicação: os radicais livres participam das reações que levam o colesterol a se acumular nas artérias.”

Na verdade, essas moléculas bandidas não se limitam a prejudicar o coração. Parece que por trás de todas as doenças degenerativas — e até mesmo do câncer — há uma pilha de estragos feitos pelos radicais livres ao longo da vida. A dúvida dos cientistas é até que ponto se devem aumentar as doses das vitaminas para combatê-los, sem correr riscos.

Quando o tema é nutrição, nada gera mais discussões do que as megadoses vitamínicas e seus efeitos contra doenças causadas pelos radicais livres. “Amanhã ou depois, pode ser que os benefícios dessas doses gigantes se confirmem”, diz a nutricionista Sílvia Cozzolino, da USP. “Por enquanto, quem decide tomá-las está servindo de cobaia.” Para dar um fim à polêmica, o Ministério da Saúde, na França, disparou um enorme projeto, orçado em 12 milhões de dólares, envolvendo 1 100 pesquisadores.

O Suvimax, como está sendo chamado, começou há exatamente um ano, quando os cientistas passaram a escolher voluntários num grupo de 100 000 indivíduos. “Pinçamos apenas 15 000 deles , entre 35 e 60 anos de idade”, explica o médico Serge Wecberg, em entrevista a SUPER. O cuidado com a seleção faz sentido. É difícil comparar os benefícios de um nutriente em cidadãos que levam uma vida completamente diferente entre si. “Se a gente dá vitamina para um executivo estressado, usando como base de comparação alguém que vive calmamente no campo, podemos chegar à conclusão distorcida de que tomar ou não tomar suplementos é indiferente”, diz Wecberg.

Este mês, a investigação dos franceses deve esquentar. A partir de agora, os voluntários vão tomar dia-riamente suplementos de vitamina C , E e beta-caroteno (matéria-prima da vitamina A). Isto é, só metade deles — o resto irá engolir comprimidos falsos. Essa rotina só será interrompida no ano 2003. É quando sairá o relatório sobre o que aconteceu com o organismo de uns e de outros durante esse período de nove anos.

Os consumidores não estão a fim de esperar todo esse tempo pela resposta. O mercado mundial de suplementos vitamínicos vem crescendo 8% ao ano — só nos Estados Unidos movimenta anualmente 4 bilhões de dólares. A mania gera alguns equívocos.

“Sem ouvir um médico ou um nutricionista, pode-se engolir uma vitamina de que o organismo não está precisando e deixar de lado outra, que realmente está fazendo falta”, alerta o professor Hélio Vanucchi, da USP. Com a ajuda de reagentes químicos, os exames de sangue apontam as deficiências de cada vitamina separadamente. Os médicos ortomoleculares, por sua vez, fazem um diagnóstico menos específico, com o microscópio.

De qualquer modo, só exames indicam o melhor suplemento com total segurança. Para os que compram vitaminas sem orientação, vale o alerta: o efeito de combinar diversos multivitamínicos por conta própria pode ser um tiro pela culatra. “Não adianta ingerir vitamina A, sem dispor de zinco no organismo”, exemplifica a nutricionista Sílvia Cozzolino. Se isso ocorre, a vitamina é absorvida no intestino e vai ser estocada no fígado — mas dali não passa. Isso porque, para viajar pelo corpo, sua molécula pega carona em outra — uma molécula de zinco — que por acaso esteja circulando nos vasos. Enfim, sem zinco, ter ou não ter vitamina A não faz diferença.

Muitas vezes, o consumidor escolhe certo. Mas erra na marca e paga caro por isso. É quando compra aquela “vitamina natural”, de preferência extraída de alguma fruta exótica, em vez de levar para casa uma versão sintética mais barata. “É uma bobagem”, ensina Vanucchi. “Sintética ou natural, o corpo vai reagir àquela molécula como sendo uma vitamina.”

Muitas vezes, os cientistas examinam estatísticas e percebem que o uso de certa vitamina diminui o risco de uma doença, mas não explicam os mecanismos dessa ação protetora. O que não invalida a primeira observação. E nem sequer significa que as vitaminas sejam um modismo. O Instituto Nacional do Saúde, nos Estados Unidos, revelou que o hábito de comer vegetais ricos em vitamina C diminui 13% o risco de enfartes. Agora, esse bom hábito à mesa somado a comprimidos da mesma vitamina faz a incidência despencar 37%. Não se sabe a dose extra exata para se obter esse efeito preventivo. Mas a dúvida não apaga o fato: 37% menos chance de se morrer do coração.

“O erro é achar que as pílulas substituam um almoço”, diz o nutrólogo Hélio Vanucchi. Nada substitui um prato cheio de gorduras, carboidratos e proteínas (os únicos nutrientes que fornecem energia). Mas até os cientistas mais ortodoxos, contrários às megadoses, admitem que os suplementos são úteis em alguns casos.

“Quem não precisa das megadoses por doenças também deve avaliar a sua nutrição”, diz o médico Wagner Fiori. “E, se for o caso, tomar suplementos apenas para manter a dosagem normal.” Entre os consumidores certamente devem estar os fãs de produtos diet, já que eles quase não contêm as vitaminas A, D, E, e K . A poluição, por sua vez, aumenta a produção de radicais livres nos moradores dos centros urbanos, que já vivem sob estresse. A maioria não pode escapar dos suplementos.

 

 

 

 

Para saber mais:

Ilustres desconhecidas

(SUPER número 4, ano 3)

A ameaça dos radicais

(SUPER número 11, ano 4)

Garanta um futuro bem nutrido

(SUPER número 5, ano 10)

 

 

 

 

As vitaminas roubadas no fogão da sua casa

Enquanto são preparadas, elas vão desaparecendo das refeições e quando chegam no prato sua quantidade é bem menor do que apontam as tabelas nutricionais.

 

Verduras cozidas

Por serem solúveis em água, a vitamina C e as do complexo B sempre escapam da comida durante o cozimento. Resultado: verduras cozidas têm 40% menos vitaminas B e 70% menos vitamica C do que verduras cruas. Uma dica é usar o mínimo de água possível para prepará-las.

 

 

Carne ensopada

Quanto mais molho tem a carne, mais nutrientes podem fugir. Motivo: algumas vitaminas se dissolvem rapidamente na água usada como ingrediente para o caldo. Sem contar que parte da gordura da carne também acaba no molho — e nela estão outras tantas vitaminas. Nos ensopados, as perdas costumam ficar entre 40% e 50%. A diferença é pior em relação à vitamina B1 ou tiamina, imprescindível para o cérebro e para os músculos: ela diminui 60%.

 

 

Feijão cozido

Os cereais deveriam ser grandes fornecedores de vitaminas B, mas elas saem dos grãos e vão para a água. Depois, durante o cozimento, parte da água sai da panela em forma de vapor, levando as moléculas de vitaminas junto. Como os cereais demoram até ficar prontos, muito vapor e muita vitamina vão para o espaço. O feijão chega a perder metade de uma de suas maiores riquezas: a vitamina B9 ou ácido fólico [foto 131}, cuja falta causa anemia.

 

 

Peixe frito

Quanto mais quente, pior — o calor “arranca” vitaminas da comida ou, então, estraga as suas moléculas.

A temperatura do óleo para a fritura faz com que os pescados percam cerca de 20% da vitamina B3 ou niacina, que ajuda o corpo a extrair energia dos alimentos. Eles também ficam com 10% menos vitamina B12 [ foto 130], responsável pelo bom funcionamento das células do corpo.

 

 

Ovo frito

Por causa do calor da fritura, 20% da vitamina B6 — essencial para o corpo fabricar suas proteínas — acabam indo embora. A mesma proporção de vitaminas A, D, E e K também some porque, em temperatura alta, suas moléculas se dissolvem no óleo da panela.

 

 

Batatas cozidas

Mais uma vez, a água é a vilã na cozinha: por ela, escapam 40% das moléculas de vitamina C presentes na batata e até metade de todas as vitaminas B. Quando a batata é assada, por não ficar mergulhada na água, as perdas são menores — acontecem apenas pelo vapor.

 

 

 

Linus Pauling, o precursor das superdoses

Um copo de suco de laranja por dia é o que basta — dizemos nutricionistas. Duzentos copos — corrigia um dos cientistas mais brilhantes deste século, o único que ganhou dois prêmios Nobel sozinho.

É claro, o químico americano Linus Carl Pauling (1901-1994) não tomava tanto suco diariamente. Mas engolia o equivalente às laranjas na forma de comprimidos que, juntos, somavam 10 gramas de vitamina C.

 

 

Por que dosagens gigantes

Pauling não se conformava com os 65 miligramas de vitamina C recomendados pela Nutrição tradicional. Dizia que a maioria dos animais fabrica a sua qüota do nutriente no fígado — o homem primitivo teria perdido essa capacidade. “Se as cabras produzem 13 gramas dessa vitamina todo dia, por que o organismo humano, que é muito mais complexo, precisaria de muito menos?”, perguntava.

 

 

Em prol da vitamina C

Segundo o cientista, que se notabilizou por ter descoberto como os átomos formam ligações químicas, a vitamina C rejuvenesce e evita uma série de males. Tudo começou na década de 60, quando analisou seus efeitos em resfriados. Nos anos 70, passou a estudar as qualidade anticâncer do nutriente — foi quando publicou o seu best-seller Como viver mais e melhor.

 

 

A ira dos adversários

A Academia Nacional de Ciências, nos Estados Unidos, se recusou a publicar seus trabalhos sobre o tema. Os adversários argumentavam que o corpo humano não precisava mais do que poucos miligramas de vitamina C por dia, sendo o excesso da substância eliminado pela urina.

 

 

O contra-ataque dos seguidores

“A vitamina C leva seis horas até ser eliminada”, explica, em entrevista a SUPER, o médico americano Stephen Lawson, diretor do Instituto Linus Pauling de Pesquisas. “Durante esse período, ela fica ativa, circulando pelo sangue. E, depois, na medida que vai embora, o indivíduo já estaria tomando uma segunda dose, mantendo o pico da substância no organismo.”

 

 

A morte, ironizada pelos críticos

Muitos cientistas dizem que, apesar da vitamina C, Pauling morreu de câncer de próstata, no ano passado. Mas morreu lúcido e trabalhou em seu instituto até as últimas semanas de sua longa vida. Ele tinha 93 anos.

 

 

Novas especulações

Nas esteira das idéias de Pauling, surgiram teorias, apontando benefícios de megadoses de outras vitaminas. É possível tomar tranqüilamente quantidades até cem vezes maiores do que as dosagens diárias recomendadas pelos nutricionistas de vitamina B e C. Com as vitaminas A, D, E e K, a história é diferente, porque se acumulam no corpo e isso pode ter efeitos tóxicos. Mesmo nesse caso, pode-se consumir até dez vezes mais do que a dose diária recomendada, sem correr riscos. Até o momento, sabe-se que megadoses são válidas para certos casos. Mas também não há provas de que não funcionem em outras situações.

 

 

Sem vitamina C, o ferro pode não ser aproveitado pelo corpo humano

Há vinte anos, entre 10% e 35% das crianças brasileiras com menos de três anos de idade eram anêmicas. A proporção variava conforme a região do país. Em 1992, um levantamento realizado pela Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo apontou que a situação se agravara terrivelmente: 55% dos paulistas em idade pré-escolar tinham anemia. Atualmente, são 80%. “Essa porcentagem elevadíssima indica que o problema não é privilégio das classes carentes”, diz o médico nutrólogo Mauro Fizberg, professor da Universidade Federal de São Paulo. “A má nutrição é encontrada nas crianças das classes média e alta.”

 

 

As causas do problema

A anemia não tem a ver diretamente com a falta de uma vitamina e, sim, com a ausência de um mineral — no caso, o ferro. “Uma das causas do aumento da incidência pode ser o desmame precoce”, conta Fizberg. “Ao contrário do leite materno, o da vaca é uma fraca fonte de ferro.” Outra suposta causa seria a dieta mal equilibrada — e esta pode ocasionar a falta de vitamina C.

 

 

O que seria do feijão sem a laranja

Sem vitamina C, a quantidade de ferro fornecida pelos vegetais é irrisória.

Qualquer análise de laboratório mostra que o feijão, por exemplo, é rico em ferro. No corpo humano, porém, a sua contribuição é pequena: o intestino consegue absorver apenas cerca de 10% desse mineral contido no cereal. Se, no entanto, o feijão for acompanhado de uns bons goles de suco de laranja ou qualquer fruta cítrica, a história será diferente. “As moléculas de vitamina C do suco dão uma espécie de empurrão para o ferro de origem vegetal entrar no organismo”, explica Fizberg. “Assim, sua absorção pode chegar a 40%.”

 

 

A vantagem das carnes

As carnes são diferentes, pois estão entre as melhores fontes de ferro e, nesse caso, as moléculas do mineral não precisam da ajuda da vitamina. Mas, pelo crescimento das anemias, tudo indica que as carnes não estão chegando no prato das crianças. Pelo menos, não na quantidade que chegava antigamente.

 

 

Sarampo e doenças respiratórias

Outra carência que chama a atenção dos médicos é a de vitamina A. No Estado de São Paulo, 20% das crianças sofrem da sua deficiência. Nelas, essa falta não provoca apenas problemas oculares. Ela está relacionada à tendência a diarréias perigosas. “Nessas crianças, o sarampo é mais grave e as crises de doenças respiratórias costumam durar mais”, diz Fizberg.

 

 

A falta de vitamina e as notas ruins

Há indicações de que essa carência também prejudica o Q.I., baixando o rendimento escolar. Por essa e outras razões, os pediatras receitam suplementos em gotas de vitamina A nos primeiros anos de vida.

 

 

As pistas fornecidas pelo sangue

Exames ao microscópio apontam os danos provocados pelos radicais livres. Indiretamente, os testes denunciam a necessidade de suplementos. Pois é a falta de vitaminas que permite a ação devastadora desses radicais

Para os médicos ortomoleculares, como Wagner Fiori, gotas de sangue são como um prato cheio (ou vazio) de vitaminas. Tiradas de uma espetadela no delo , elas acusam a ação dos radicais livres e das vitaminas capazes de bloqueá-los. Primeiro, Fiori analisa o “sangue vivo” no microscópio .

A concentração dos glóbulos vermelhos e a movimentação das células de defesa já dão uma idéia do diagnóstico. A hora da verdade, porém, é a do sangue coagulado, que se altera nas doenças. No caso do câncer, ele apresenta enormes vãos entre as células vermelhas . São áreas destruídas pelos radicais livres. Áreas assim não aparecem em pessoas sadias .

 

 

Os alcoólatras

O alcoolismo é a maior causa de deficiência vitamínica no país. Doze milhões de brasileiros são viciados em bebidas alcóolicas. No seu organismo, as dosagens de complexo B são ridículas. Fica quase impossível extrair esse tipo de vitamina da comida, porque o álcool forma uma barreira no intestino. E as vitaminas B estocadas no corpo serão consumidas para degradar a bebida no fígado. Por isso, alcoólatras devem apelar para megadoses desse complexo.

 

 

Os fumantes

A molécula de vitamina C termina aniquilada pela de nicotina do cigarro, quando as duas se esbarram na corrente sangüínea. De um terço a 100% de toda a vitamina ingerida pode terminar inutilizada desse jeito.

Por esse motivo, o fumante tem necessidades muito maiores desse nutriente do que os não-fumantes. No mínimo, ele precisa consumir o dobro, para manter o funcionamento normal de seu corpo. Infelizmente, essa compensação não diminui o risco de câncer no pulmão, como demonstram as estatísticas da doença.

Ainda assim, a vitamina C está sendo ligada à prevenção de outros tumores. Muitos cientistas suspeitam que a sua queda no organismo dos fumantes é uma boa explicação para o fato desses indivíduos serem mais sujeitos a tipos diferentes de câncer, como o de bexiga.

 

 

Os atletas

Ao suar a camisa, o esportista está perdendo muitas moléculas como a da vitamina B2. Na verdade, ele perde todas as do complexo B e a C, que se dissolvem na água do suor. “E, por ironia, elas estão entre as coisas que mais se precisa para manter a perfomance física”, diz o nutricionista Sérgio Miguel Zucas, professor da Escola da Educação Física da Universidade de São Paulo. As vitaminas do complexo B e a C são importantíssimas para os músculos. “As necessidades impostas pelos treinamentos são maiores do que o normal”, explica o especialista. “Por isso, o certo é os esportistas apelarem para doses dez vezes maiores dessas substâncias em relação à recomendação para não-atletas.”

 

 

Os idosos

Em comparação com os adultos mais jovens, as pessoas acima de sessenta anos devem consumir um terço a mais de vitamina B6 — com o passar do tempo, o sistema nervoso passa a necessitar de doses maiores desse nutriente para continuar saudável. O reforço ajuda a manter a rapidez de raciocínio e a memória.

 

 

As grávidas

Desde 1992, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos passou a recomendar cápsulas de B1 (o ácido fólico) para suplementar a dieta de mulheres grávidas ou que planejam ter filhos. A medida reduz pela metade o risco de se gerar crianças com defeitos congênitos. Isso porque ajuda a regular o desenvolvimento das células do embrião.

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