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Sobre estrangeirismos inúteis

Emma Watson não falou que "O feminismo é sobre liberdade". Ela disse que o feminismo "diz respeito" a liberdade. Vamos falar português, pessoal.

Quando a Emma Watson falou “Feminism is about freedom”, ela não estava dizendo que “O feminismo é sobre liberdade”, como tem saído por aí. Ela disse que “O feminismo diz respeito a liberdade”.

Não sou purista da língua. Sempre defendo que idioma nenhum está escrito em pedra. As línguas são fluidas. O próprio inglês moderno é um amálgama do germânico antigo com o latim da França medieval. Por volta do ano 1.000, antes de a língua normanda (o francês) ter se embrenhado na língua germânica (o saxão), o pai nosso que os britânicos rezavam era assim:

Fæder ure þu þe eart on heofonum

Si þin nama gehalgod

To becume þin rice

Gewurþe ðin willa, on eorðan swa on heofonum.

No século 16, época de Shakespeare, o saxão já estava irreconhecível. O Pai Nosso passou a ser registrado assim:

Our Father, which art in heaven, Hallowed be thy Name. Thy Kingdom come. Thy will be done in earth, as it is in heaven.

Com o português, você sabe, não é diferente. Se a língua não abraçasse gírias e estrangeirismos ao longo do tempo, estaríamos hoje usando o português das cantigas de amigo (Vós me preguntades polo voss’amigo, e eu ben vos digo que é san’e vivo).

Línguas evoluem. O que hoje é aberração, amanhã pode estar dicionarizado. Mas comunicação diz respeito a fazer-se entender pelo maior número possível de pessoas; e não é adaptando preguiçosamente do inglês expressões que mal fazem sentido na nossa língua que a gente alcança esse objetivo.

O caso do “é sobre” nem é o pior, já que trata-se de uma expressão minimamente inteligível. O mais grotesco entre os estrangeirismos inúteis talvez seja o “eventualmente”. Em inglês, “eventually” significa “finalmente”. Tipo: “Eventually, I finished my thesis” (“Finalmente terminei meu TCC”). Trata-se de um falso cognato, como tantos outros. Mesmo assim, tem hoje quem escreva “Eventualmente, terminei meu TCC”, querendo dizer que “finalmente” acabou a trolha.

Imagino que a intenção de muita gente que comete essas criações gramaticais seja exibir a própria anglofonia. Ótimo. Exiba. Mas tente de outro jeito, porque essa de inventar um novo português não está dando certo.

 

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  1. William Vertuan

    Não existe diferença “sobre” e “a respeito de” é mais mimimi do autor

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  2. Igor Azevedo

    Bom texto!!! Outro falso cognato/neo logismo… “common sense” que traduzem como “senso comum”, mas em português o correto seria “bom senso”

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  3. Martius Vernichten

    Perfeito! Tenho visto traduções horríveis. Galerinha aprende um tico de inglês e sai falando que não há diferença, que o autor tá de mimimi. Chega de fazer nas coxas!

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  4. Danilo Dorini

    hmm… falou da tradução literal e etc.. mas não falou da diferença de significados entre “Feminismo é sobre liberdade” e “Feminismo diz respeito a liberdade”, além de não justificar, baseado no contexto, o motivo de ser a sua tradução ao invez da outra.. me pareceu bem raso e sem sentido

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  5. Alexandre Versignassi

    Não existe “é sobre” em português. Trata-se de uma tradução canhestra de “it´s about”, que significa “diz respeito” – e mais nada.

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  6. Bruno Santos

    Diz respeito à liberdade. Faltou a crase.

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  7. Pedro Gonzalez

    Nem sobre, nem a respeito de. Talvez o tipo de construção da frase que comum em português, mas não vejo problema na adaptação. Me pareceu que tu contradisseste todo o desenvolvimento do texto – é “puro purismo” teu. Abraço.

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  8. Pedro Gonzalez

    *Incomum

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  9. Não acho que seja por exibicionismo – é preguiça ou incompetência do tradutor, que não para pra procurar a melhor tradução, e bitola de quem não questiona o que lê. Isso acontece muito em traduções técnicas – tipo falar “planta” no lugar de fábrica, coisa que já virou jargão no meio industrial. No capítulo dos erros crassos, incluo “actually”, que quer dizer “realmente” mas vira e mexe é traduzido como “atualmente”.

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