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Charlize Theron: a verdadeira protagonista de Mad Max: Estrada da Fúria

De Los Angeles

Charlize Theron tem um Oscar na estante. Em 2003, ela apareceu nos cinemas irreconhecível como a serial killer Aileen Wuornos. Além da estatueta, a carreira da atriz sul-africana tem vários outros highlights. Tem dramas românticos, tem sucessos cult, tem blockbusters duvidosos. Mas é em Mad Max: Estrada da Fúria que ela encena seu papel mais importante: uma revolucionária que tenta salvar as mulheres de sua tribo das garras de um tirano. Em 120 minutos de ação, perseguição e explosões, Furiosa coloca o personagem-título no banco do carona e guia a trama rumo a um oásis de qualidade no cinema de ação.

A SUPER foi até Los Angeles conversar com Charlize Theron sobre sua carreira e seu papel em Mad Max. Veja o que ela disse.

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As características físicas de Furiosa são marcantes e importantes para a personagem. Você precisou usar o cabelo curto e um braço mecânico. Como isso beneficiou sua performance?

Passar por uma transformação física para um personagem ajuda muito. É sempre um bom ponto de partida encontrar um material que te dá esse tipo de informação. É interessante, porque você pode começar a entender o personagem por fora e, em seguida, perceber como ele é por dentro. Levou um tempo até eu aprender a usar a mão mecânica. Houve momentos em que eu tentei usar a minha mão real e levei bronca de George Miller. Acho que a parte mais difícil foram as cenas em que eu estava sem a mão mecânica. Eu gravei cenas de luta e me atrapalhei bastante nessas horas. É mais difícil levantar do chão. Você nem percebe o quanto você usa as mãos quando pula, ou leva um tiro, ou se joga para cima de alguém. Todos nós passamos por transformações físicas. Eu tive que ganhar peso. O aspecto físico é importante no filme, principalmente se você contracena com alguém como Tom Hardy. Eu não curto muito a ideia de uma menina esbelta lutar contra um homem e sair ganhando. Então, eu fiz muita yoga para fortalecer a parte de cima do corpo. Treinava três vezes por dia, para tentar conseguir um ombro mais largo, um pescoço mais forte. Eu pareço um jogador de futebol americano na tela. Quando você trabalha com pessoas como George Miller, é preciso entender que você está realmente entrando em um universo. E todos nós entramos de cabeça nisso. Ninguém fez corpo mole.

 

Alguém se machucou?

Claro! Todos nós passamos por tudo, rolaram vários casos de doenças e pessoas machucadas no set. Desidratação era um grande problema. Eu mesma perdi uns dois dias por causa de desidratação. Você está no deserto, e está frio, você simplesmente se esquece de beber água. Foi um filme difícil, fisicamente falando.

 

Mas sua personagem é bem durona, não se deixa abalar por um ferimento. Você também é assim?

De jeito nenhum! Eu sou uma covarde! Houve momentos durante a filmagem em que eu cheguei e falei ‘isso eu não vou fazer, desculpa aí, galera’. Eu definitivamente não acho que consigo fazer tudo. Eu era assim aos 20 anos, já me machuquei pra caramba, já aprendi a lição. Sou muito mente aberta, mas também sou adulta e sei que tem umas coisas que não preciso fazer. Não preciso capotar um carro duzentas vezes para fazer um take perfeito, porque preciso voltar pra casa no final do dia. Teve momentos em que os dublês nem acreditavam nas coisas que eu me recusava a fazer. A verdade é que eu não estou nem aí. Eu virava pra eles e dizia ‘pelo menos eu vou conseguir caminhar amanhã’.

 

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Mad Max: Estrada da Fúria tem mensagens profundas sobre as mulheres e o feminismo. Por que você achou importante fazer parte de um projeto assim?

No início, eu não sabia exatamente sobre o que era o script. Era tudo meio secreto. Mas todo mundo na indústria estava falando sobre esse projeto do George Miller, e como ele realmente queria voltar a escrever sobre esse mundo. O pessoal já falava, na época, que ele queria uma personagem feminina de destaque, ao lado de Max. Era tudo o que eu sabia, mas fiquei meio ‘opa, uma mulher? Nesse mundo? Não sei não…’. E aí eu conheci George e pensei ‘Estou com um pressentimento sobre esse cara, o jeito que ele fala sobre mulheres, e sobre escalar moças jovens…’. Mas aí eu vi que ele estava pensando em escalar mulheres de várias idades, inclusive algumas com 60, 70 anos. Fiquei achando que seria muito difícil para uma mulher estar num mundo como aquele. E aí eu cheguei à conclusão que essa personagem feminina de destaque poderia ser até melhor que o próprio Max. O mundo que George criou é muito igualitário. E não é fácil encontrar histórias assim em Hollywood.

 

O filme também fala sobre a maternidade. Como foi ajudar a construir essa discussão?

Eu comecei a trabalhar no filme três anos antes de me tornar mãe. Mas desde o primeiro contato com George, eu já estava fascinada pela ideia de falar sobre o valor das mulheres nessa sociedade. Qual é a função de uma mulher num mundo em que não há água, em que as condições de saúde são precárias? A verdade é que a função delas é procriar. Num mundo assim, seria imprescindível que as mulheres fossem saudáveis e aptas a gerar o maior número possível de crianças saudáveis, para manter a sociedade funcionando. Uma garota jovem e fértil é a posse mais valiosa num lugar como esse. E aí uma discussão interessante passou pelas nossas cabeças. E se você não estiver dentro desses padrões? Nesse mundo, Furiosa é considerada fora do padrão, porque ela provavelmente foi roubada e veio do mesmo lugar de onde vieram as outras mulheres do filme, mas ela nunca teve filhos. Ela não se considerava uma peça funcional dentro daquele sistema, por isso ela decidiu lutar contra ele. Minha opinião pessoal é que era muito doloroso para ela ser desvalorizada pelo Immortan Joe pelo fato de estar fora do padrão. Ela é uma grande guerreira, mas também nunca foi reconhecida por isso. Então, ela provavelmente se achava inútil.

 

Mas então por que Furiosa arriscaria a própria vida para salvar outras mulheres supostamente mais valiosas que ela?

Eu nunca quis que Furiosa parecesse a salvadora daquelas moças. Queria passar uma impressão de que ela poderia até matá-las se fosse preciso. Ela nem as chama pelo nome, e às vezes até coloca uma ou outra na mira da arma. Ela não quer se apegar demais às outras.

 

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Em Hollywood, a maior parte das mulheres fortes em filmes de ação têm traços e características masculinas. O que você acha disso?

Para mim, isso tem menos a ver com masculinidade e mais a ver com sobrevivência. Quando o senso de sobrevivência bate, sexo e gênero deixam de ser importantes. Não tem um processo consciente do tipo ‘opa, já que sou mulher, não consigo fazer isso’. Você precisa sobreviver! Você faz o que precisa fazer porque não tem outra saída.

 

Você já se sentiu diminuída ao longo de sua carreira por ser mulher?

Honestamente, eu acho que tive muita sorte na minha carreira. No início, eu sentia que precisava provar que eu era boa o suficiente. Não que isso seja ruim. Mas era como se as pessoas sentissem que sabiam exatamente quem eu era só por causa da minha aparência. Só que hoje eu não trocaria esse processo por nada, porque é muito melhor quando você conquista as coisas por mérito próprio, sem que ninguém te dê nada de bandeja. Faz parte do amadurecimento. Hoje, eu sinto que pude aproveitar bem cada fase da carreira. Quando eu tinha vinte e poucos anos, fiz vários filmes que me deixam muito orgulhosa. E hoje eu sinto que posso explorar coisas diferentes, escolher projetos diferentes.

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