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True Detective, Sense8, e a importância de dar uma segunda chance às séries

Eu não gostei do primeiro episódio de Breaking Bad. Calma aí. Sei apreciar um bom roteiro, tenho uma noção geral de direção, fotografia, e todos os elementos básicos de um episódio redondinho. Mas a história não me pegou. Eu simplesmente achava que a série não era pra mim, como tantos outros sucessos de crítica que […]

Eu não gostei do primeiro episódio de Breaking Bad.

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Calma aí. Sei apreciar um bom roteiro, tenho uma noção geral de direção, fotografia, e todos os elementos básicos de um episódio redondinho. Mas a história não me pegou. Eu simplesmente achava que a série não era pra mim, como tantos outros sucessos de crítica que eu decidi não assistir. Mas resolvi dar uma chance. Fui vendo o segundo, o terceiro. Em três meses, eu já tinha alcançado meus colegas de redação, que já acompanhavam a quarta temporada em tempo real. Melhor decisão da minha vida – e, se você ainda acha que Breaking Bad não é uma obra prima, bom…

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Corta para 2015. Fui convidado pela HBO para assistir aos três primeiros episódios de True Detective numa sessão de imprensa. A expectativa era alta. O primeiro bloco de episódios da série, em 2014, fez tanto barulho que qualquer coisa abaixo de excelente decepcionaria os 3,5 milhões de fãs de Rust Cohle que assistiram nos EUA ao final da primeira temproada. Foi mais ou menos o que aconteceu. No meu Twitter, vi gente dizendo até que o maior mistério da segunda temporada é “quem assassinou o roteiro de True Detective”, em referência ao texto supostamente mal acabado do episódio de estreia.

Até dá para entender. Em vez de colocar dois detetives atormentados em função de uma série de crimes macabros e flashbacks intrincados que fazem com que o tempo seja, de fato, um círculo achatado, a segunda temporada traz quatro protagonistas. Um deles é um ex-bandido que agora está tentando entrar nos eixos (ainda que não seja do jeito mais correto do mundo). Os outros são três investigadores (um policial estadual, um tira local e um agente rodoviário) que se desdobram para desvendar o assassinato de um cara corrupto e exótico, que, lógico, tem ligações fortes com o tal ex-bandido. O problema é que o tal crime não fica claro até o final do primeiro episódio, que gasta um tempão tentando construir os quatro personagens. Acaba que nenhuma das tarefas é bem executada. Os personagens não têm tanta profundidade e o crime não parece tão instigante quanto os estupros das jovens moças que guiavam a primeira temporada.

 

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Rust tem uma mensagem para os roteiristas da segunda temporada.

Aí veio o segundo episódio. Nos EUA, a audiência chegou a 3,2 milhões, segunda melhor marca da série. E a porra começa a ficar mais séria. Eu confesso, só resolvi dar uma chance a True Detective na última cena do S02E02. Eu já tinha sacado que a série precisava de mais tempo pra chegar às questões mais complexas dos quatro protagonistas e que, a exemplo do fim da primeira temporada, a resolução do crime importava muito menos do que as mudanças dramáticas e as filosofias proferidas pelos detetives. Mas, até então, tinha decidido não acompanhar os próximos episódios. A reviravolta veio no (spoilers, claro) suposto assassinato do detetive vivido por Colin Farrell, aparentemente o mais perturbado dos três. Ninguém matava um protagonista assim desde Alfred Hitchcock, em Psicose. As consequências desse atentado que vêm no terceiro episódio – sobre o qual ainda não posso dizer nada – me convenceram a ficar mais. A segunda temporada de True Detective pode não entrar para a história como a primeira. Mas, ruim, não é.

Quem curtiu a aventura de Cohle e Marty aprendeu a prestar atenção nos detalhes. E é assim, com atenção, que você percebe que há mil qualidades nos dois primeiros episódios da segunda. A analogia das histórias cruzadas dos protagonistas com estradas locais emboladas numa grande rodovia é bastante óbvia, mas me pareceu suficiente para guiar a trama. Até o crime principal aconteceu numa estrada. Mas quem ataca as frases feitas pseudofilosóficas dessa segunda parte da série deve ter esquecido as falas do personagem de Matthew McConaughey. Sei lá vocês, mas eu quero saber mais sobre a família hippie de Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e seu passado de tragédia grega. Quero entender melhor as motivações do ex-criminoso Frank Semyon (Vince Vaughn). Quero mais informações sobre os trauma de Paul Woodrough (Taylor Kitsch). E, principalmente, quero ver mais vezes essa abertura maravilhosa:

Enquanto o que desestimulou os haters de True Detective foi a trama lenta e o roteiro apático, provavelmente o que afastou a audiência de Sense8 depois do episódio 1 foi, bem, o fato de ser tudo meio nonsense, à primeira vista. E é mesmo. Você fica uma hora diante da tela tentando adivinhar o que está acontecendo, como se estivesse assistindo a um filme do David Lynch. Só que não: é uma história que saiu das mãos dos mesmos criadores de Matrix. Beleza que Andy e Lana já erraram a mão em outras obras, depois da primeira aventura de Neo no cinema. Mas o primeiro filme da trilogia é tão bom que eu sempre dou um crédito para a dupla. E o primeiro episódio de Sense8 realmente não entrega uma narrativa à altura. Pelo menos não sozinho.

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É que as séries do Netflix são feitas para você assistir em maratona. Então, os Wachowski, que assinam a série junto com J. Michael Straczynski, devem ter achado que podiam gastar uns dois episódios apresentando seus protagonistas – 8 pessoas bem diferentes. Eu acho justo esperar um pouquinho até as coisas começarem a “fazer sentido”. E, pode notar: a partir do segundo episódio, as histórias começam a se desenrolar, uma por uma.

O problema de Sense8 é outro. Na primeira metade da temporada, os autores se esforçam tanto para construir os mundos muito diferentes em que os personagens vivem que parece que você está vendo 8 séries diferentes. O núcleo mexicano tem uma linguagem própria e movimentos sincronizados que imploram pela sua risada. O núcleo indiano tem cores vibrantes de Bollywood e o núcleo londrino apenas tons escuros. Mas, se você for paciente, vai ver como eles se entrelaçam de maneiras às vezes óbvias, às vezes surpreendentes. A outra grande vantagem são os personagens. A moça transexual é a minha preferida. Vale a pena aguentar alguns episódios para saber o que vai acontecer com ela.

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Aliás, a inclusão de uma personagem transexual interpretada por uma atriz transexual é mais um grande passo do Netflix na representatividade de gêneros em Hollywood. O fato de Lana Wachowski, uma cineasta transexual, estar entre os criadores ajuda, é claro. A diversidade dos protagonistas de Sense8 contribui muito para a produção audiovisual no mundo e, só por isso, a série deveria entrar para a história. Claro que algumas construções estereotipadas incomodam, como a moça coreana que é (surpresa!) ótima em artes marciais. Mas um passo é um passo. “Todos nós somos seres humanos, todos nós vivemos, amamos, sentimos. E parece que algumas pessoas são cínicas, ou amargas, e elas separam quem é diferente. Não quero parecer muito exagerado, mas parece que os inimigos dessa série são fascistas”, brinca Naveen Andrews, ator da série que visitou o Brasil em junho.

Miguel Ángel Silvestre, que interpreta o ator gay Lito, também falou sobre a importância da diversidade e sobre seu relacionamento na tela com Hernando (vivido pelo ex-RBD Alfonso Herrera). “Eu venho da Espanha, onde houve uma ditadura. Havia muita gente se escondendo e sendo reprimida pelo governo. E aí, depois, houve uma grande explosão e celebração da diversidade sexual. Nós sabemos que estamos no presente agora, mas muita gente já sofreu e ainda sofre com isso. E por isso tentamos tratar essa relação com carinho, para que seja o mais realista possível”, disse, num evento da Netflix em São Paulo.

 

Sense8 não é a série perfeita. Em alguns episódios, apesar de você se empolgar com a maneira com que as histórias se entrelaçam, ficam sobrando umas pontas soltas, que depõem contra a própria mitologia interna que a série criou. Eu sei, com tanta série na fila, insistir para que a gente aguarde uns episódios até a trama melhorar é pedir demais. Mas fenômenos de qualidade como Breaking Bad não aparecem aos montes por aí. Então, não dá pra dizer que você está realmente perdendo tempo quando se vicia numa série que demora a engatar (e confessa aí, você acompanha pelo menos uma série que te dá vergonha.) Temporada irregular não é motivo para abandonar série. Se fosse assim, todo mundo já teria desistido de The Walking Dead ou Game of Thrones. Sucesso de crítica também não garante audiência firme. Eu tive que me esforçar pra chegar ao final (excelente, na minha opinião) de House of Cards. Julgar a temporada inteira apenas pelo primeiro episódio, então, me parece bem injusto. Se, mesmo assim, você não achar que True Detective e Sense8 merecem uma segunda chance, tudo bem. Sorte a nossa que, em tempos de Netflix, opção é o que não falta.

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