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Por que a adaptação da série “A Amiga Genial” vai ser incrível

Se você está em dúvida se quer assistir à adaptação da série de Elena Ferrante ou não, este post é para você.

Todo leitor tem um livro intocável. Aquela obra que não quer que ninguém tire do papel, que não vire filme, série, peça nem música. O problema é que as boas narrativas não se findam em si mesmas, elas extrapolam a escrita e chamam por adaptações em outros formatos. Como consequência disso, muitos leitores acabam vendo suas obras intocáveis violadas, transformadas em produtos que não a própria imaginação.

Na semana passada, a HBO anunciou que vai produzir uma série inspirada na tetralogia A Amiga Genial, da escritora misteriosa Elena Ferrante (discussão que virá em outro post, logo logo). A série que narra a amizade e o amadurecimento de Elena Greco e Lila Cerullo na Itália do pós-guerra é composta pelos livros A Amiga Genial, A História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de quem Fica e A História da Menina Perdida.

Os romances foram publicados entre 2012 e 2014 e são um dos maiores sucessos editorais dos últimos anos, sendo traduzidos para diversos idiomas. O primeiro volume ganhou uma versão brasileira em 2015, editado pela Globo Livros com o selo Biblioteca Azul e, de acordo com a assessoria da editora, o último será lançado em maio.

A rede americana vai coproduzir a série em conjunto com o grupo de televisão RAI, sob a direção do italiano Saverio Constanzo, que também dirigiu filmes como Corações Famintos (2014) e A Solidão dos Números Primos (2010).

Até agora, o esperado é que os quatro livros virem 32 episódios de 50 minutos – a primeira temporada terá oito episódios, com potencial para mais. As gravações começam em junho em Nápoles e o programa deve ir ao ar no próximo ano.

A notícia de que veremos a relação ambígua de Lila e Lenu adolescer e se ramificar pela diversidade de problemas da vida adulta literalmente diante dos nossos olhos deixou os fãs da série em polvorosa. Mas para outros entusiastas da tetralogia napolitana, a excitação virou medo de que a materialização da narrativa acabe com a beleza e a força do que tinham imaginado.

Para estes últimos e para quem ainda não decidiu se quer ou não ver a série fora dos livros, eis alguns motivos para dar uma chance à adaptação televisiva:

(ATENÇÃO: o texto a seguir pode ser um campo minado de spoilers)

 

A série será filmada em italiano e isso faz toda a diferença! Não entrarei aqui em pormenores de quanto se perde de sentido nas traduções, até porque a tradução de Maurício Santana Dias não deixa nada a desejar. Mas, em se tratando de A Amiga Genial, assistir à história no idioma original pode ser fundamental para preencher uma lacuna da versão brasileira e para dar um novo sentido à trama.

A linguagem dos livros é simples e sutil. Eles não são tomados por grandes afetações de vocabulário ou construções inovadoras. Mas trata-se de uma narrativa forte, doída e violenta. E essa violência também é escancarada em diálogos, não apenas em ações, rancores e pensamentos filtrados pela narradora. Nem sempre é fácil encontrar palavrões e interjeições polidas de sarcasmo que tenham semelhante força em línguas diferentes.

Se você perguntar a qualquer um que tenha lido a série de Ferrante sobre a temática dos romances, é muito provável que a pessoa responda “amizade entre duas mulheres”. Mas eu diria que também é sobre sobrevivência e que a linguagem é a corda bamba das personagens principais. Lenu e Lila tentam sobreviver à opressão católico-patriarcal do subúrbio, ao peso de serem mulheres ambiciosas na Itália na década de 1950, ao posicionamento político e à luta de classes presente desde a primeira infância.

Uma das grandes promessas de ver isso tudo na televisão é que muito da força delas é verbal e esse é um recurso que tem tudo para ser bem explorado – Elena Ferrante está participando da adaptação da saga junto com Costanzo e outros dois autores italianos, Laura Paolucci e Francesco Piccolo.

Quando Lenu narra o esforço para falar em italiano formal com a elite intelectual da qual deseja fazer parte, quando descreve a vulgaridade do dialeto usado pela mãe ou, mesmo depois de virar escritora, quando parte para o dialeto nos momentos de descontrole, é ela deslizando pela corda bamba da linguagem, retornando para a brutalidade das origens que deseja esconder dos outros e de si mesma. Vai ser ótimo vê-las e ouvi-las em italiano.

Apesar de terem escolhido caminhos bastante diferentes, Lila sempre foi a referência de Lenu em tudo. É a ela que Lenu se compara na inteligência, na aparência, na originalidade, na criação dos filhos, na desenvoltura política e até mesmo sexual. Em todas as fases da vida, Lila é o ponto de partida e o de chegada. É ela quem valida as vitórias e decreta as falhas da narradora. No romance, Lenu conta em primeira pessoa sobre a interferência direta e indireta de sua amiga genial.

A HBO ainda não divulgou se a adaptação seguirá o formato dos livros. Mas, mesmo que seguir, teremos mais elementos para discernir o quanto da influência de Lila é um reflexo da baixa estima de Lenu e o quão magnética Lila de fato é a ponto de despertar sentimentos tão extremos em todos que a conhecem. Será que a Lila televisiva provocará o mesmo abalo sísmico que a personagem literária? A busca por uma atriz que dê a genialidade (de gênio e brilhantismo) que Lila carece deve estar sendo uma tarefa hercúlea.

Em entrevista ao jornal The New York Times, o diretor Saverio Costanzo disse que espera se comunicar com Elena Ferrante por e-mail, admitindo não se interessar por sua verdadeira identidade, mas com sua literatura e afirmou que o maior desafio para adaptar os romances é transmitir as mesmas emoções que os livros evocam de uma maneira cinematográfica.

Se a versão visual da história fará tanto sucesso quanto a escrita, é cedo para prever. Mas ainda dá tempo de se envolver na trama, ler o desfecho de Lenu e Lila e esperar que as atrizes que as personificarem sejam tão ou mais geniais que as personagens formadas pela nossa imaginação.

P.S.: As locações serão atrações à parte. Três imagens falam mais que mil argumentos.

Florença (tbrill/iStock)

 

Nápoles (holgs/iStock)

 

Ischia (IvanBastien/iStock)

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