A revolução do trabalho

Por Atualizado em 16/09/2013

Quando as artes marciais começaram a se desenvolver na Ásia, a roupa de combate já era um quimono largo com uma faixa amarrada na cintura. Essa faixa era branca e ia escurecendo a cada treino, por causa das quedas no tatame. Quanto mais escura, mais experiente se sabia que era o lutador. Essa é a origem da graduação colorida de faixas que conhecemos hoje no karatê, judô e aikidô. Como praticante de Ashtanga Ioga, reforço o ensinamento dessa história: é fundamental praticar para aprender. Só que essa lógica não está restrita aos esportes.

Por exemplo, semana passada li a história de um engenheiro já graduado que não soube o que fazer quando a resistência de seu chuveiro queimou. Ele sabia como calcular a resistência elétrica nos fios de cobre do seu banheiro, mas essa informação não parecia muito útil naquele momento. Os cinco anos de graduação universitária não deram conta desse simples problema cotidiano e ele precisou assistir a um tutorial no youtube para que pudesse terminar seu dia com um banho quente.

Vivemos em um mundo em crise, que precisa urgentemente ser reinventado. Mas nas instituições de ensino, nas empresas e na gestão das cidades, os espaços correspondentes aos tatames para que as pessoas pratiquem suas habilidades são cada vez mais restritos. Temos poucas chances de experimentar ideias e testar modelos. Estudamos e trabalhamos sob a cruel lógica de que existe apenas uma resposta certa para cada questão. E esperamos por “ideias geniais” que resolvam os problemas.

Só que inovação não é ter uma ideia genial. É permitir que a inteligência coletiva aconteça. O escritor Ken Robinson define criatividade como a capacidade de fornecer várias respostas (que funcionem) para uma questão. E inovação como o sistema em que essas ideias podem ser testadas na prática. O sistema que mais permite inovação tem se mostrado a organização em rede. Sei que é um clichê, mas os diagramas de Paul Baran são a melhor forma de perceber isso.

baran

As bolinhas das três imagens acima estão exatamente nos mesmo lugares. Mas há três sistemas diferentes para que elas se liguem entre si. No centralizado, todos têm que passar pelo meio. No descentralizado, que é como funciona a maioria das instituições e empresas, há níveis de hierarquia na centralização. No terceiro, distribuído, qualquer um pode se ligar a qualquer um. Nele, a chance de testar ideias é muito maior, porque as possibilidades de caminho são infinitas.

Há algumas semanas passei por uma experiência profissional que mostra como esse sistema em rede pode criar ambientes de inovação. Fui uma das 12 integrantes do Mesa & Cadeira, um processo criado pela jornalista Bárbara Soalheiro que reúne pessoas com habilidades diversas ao redor de uma mesa por uma semana para realizar uma missão. Sem hierarquia nem salas fechadas: estávamos todos trabalhando juntos. Nossa missão era criar uma plataforma colaborativa on-line que ativasse a rede de pessoas ligadas a uma grande empresa.

A grande descoberta do Mesa & Cadeira é colocar uma série de pessoas com habilidades diferentes – designer, jornalista, programador, ativista – para trabalharem juntas. Esse processo é o oposto espelhado de uma linha de montagem industrial. Em vez de setorizar funções, elas são misturadas. Em vez de reprimir individualidades, elas são celebradas (e necessárias). Em vez de cada um fazer sua parte sem ter muita consciência do produto final, que é padronizado e fabricado em série, todos participam da criação coletiva de um produto único, que carrega um pouco da personalidade de cada um.

Por que isso não acontece nas empresas?

Porque elas desrespeitam a regra de ouro enunciada pelo pesquisador Augusto de Franco: “Primeiro a rede, depois a estrutura. Uma estrutura montada antes da rede para capturar alguma rede conspira contra a rede. É rede de pesca.”

Enquanto trabalharmos em redes a favor de estruturas, a chance de conseguirmos praticar nossas habilidades para melhorá-las é muito pequena. Precisamos, ao contrário, de estruturas que sirvam às redes e que permitam praticar outras respostas possíveis aos problemas que nos cercam. Respostas que podem nos surpreender.

(*texto inspirado por uma conversa com Gui Neves, do Nos.vc)

amoreira
Foto da Carolina Sbrana Sciotti tirada em São Paulo.

 

  • Pingback: A revolução do trabalho – ...()

    • http://halroc@hotmail.com haroldo cesar fernandes

      Otima explanação sobre o assunto.Os resultados obtidos com esta interatividade é traduzido em organizações fortes e eficazes,com maior chance de sobrevivência.

  • Elizandro Oliveira

    Natália, gostei muito do seu texto, foi muito feliz na forma de abordagem dessa reinvenção que temos que aplicar a nós mesmos no nosso cotidiano, só gostaria aqui de fazer uma observação construtiva de um deslize que cometeu, mas que nem por isso tira o mérito e a grandeza de seu texto. Ao citar o conto das faixas nas artes marciais, você denomina ela como fábula, fábula são contos onde necessariamente existe a presença de animais que falam e tem comportamento de humanos, algumas fábulas conhecidas: os três porquinhos, a formiga e a cigarra, a lebre e a tartaruga, e por aí vai….

    Parabéns mais uma vez!

  • christian mehdi

    comer amora no pé é reinventar são paulo..

    • http://cidadesparapessoas.com.br Natália Garcia

      exatamente, Christian

  • Guta de Franco

    O nome do pesquisador que escreveu a frase “Primeiro a rede, depois a estrutura. Uma estrutura montada antes da rede para capturar alguma rede conspira contra a rede. É rede de pesca.” é Augusto de Franco :)

    • http://cidadesparapessoas.com.br Natália Garcia

      corrigido, Guta. Gosto tanto dos dois Augustos e vivo confundindo seus nomes…

  • Bianca Grecco

    Parabéns, adorei a abordagem do tema. Me prendeu mto, consegui ler do início ao fim, isso é algo raro de se fazer quando se está ocupada e sem tempo para ler algum texto..rs..como eu estava!

    Vou continuar lendo seus outros textos, Natália Garcia.

    Grande abraço,
    Bi

  • Guta de Franco

    Legal, Natália! Parabéns pelo texto!

  • lucas tadeu

    bom texto

  • http://www.espaconave.org Rafaela Cappai

    Muito bom seu texto Natália. Só discordo de que os espaços para colocar as habilidades em prática estão cada vez mais restritos. Acho que estão cada vez mais disponíveis. Acho que já estamos fazendo a roda girar ao contrário, as pessoas estão descobrindo e inventando seus espaços. As novas tecnologias permitem isso. Câmeras, notebooks, celulares e afins… A gente está voltando a aprender enquanto faz e isso é incrível! Parabéns pela reflexão!

  • Celso

    Este não é um pé de amora! Só se for de variedade que eu não conheço!

  • rx

    nao entendi o final. mas achei bacana

  • Beatriz Franken

    Muito bom este texto da Natália. Didático, explicativo, esclarecedor mesmo. Uma abordagem extremamente feliz, de como se deve pensar na organização do trabalho, das tarefas do cotidiano, da vida , enfim. Pena que as organizações, aquelas que não dependem de produção em série, não atendem para o sistema distributivo.

  • Pingback: A revolução no trabalho e no aprendizado | X()