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Conselhos errados que as pessoas dão: Várias cabeças pensam melhor do que uma

Ana Carolina Prado 8 de março de 2012

Essa você já ouviu: diante de uma decisão difícil, o ideal é pedir ajuda. Afinal, ter duas pessoas quebrando a cabeça para resolver um problema é melhor do que uma só, dizem. Três, então, é ainda melhor do que duas, e assim por diante. Mas esse não é um bom conselho. Por que? Porque nem sempre.

Enrolações à parte, a explicação é bem simples: ao buscar uma solução com outras pessoas, você acaba confiando mais naquilo que for consenso e dá menos importância a opiniões individuais. Isso pode te fazer ignorar pontos importantes ou soluções mais espertas. “O processo colaborativo é o próprio problema”, explica a psicóloga Julia A. Minson, que conduziu um estudo sobre o tema na Universidade da Pensilvânia.

Na pesquisa, publicada na revista Psychological Science, Minson e a psicóloga Jennifer S. Mueller pediram a 252 pessoas que estimassem nove números relacionados com a geografia, demografia e o comércio dos Estados Unidos. Essas estimativas foram feitas individualmente e após discussões em grupos, e cada pessoa também teve que classificar o nível de confiança em suas respostas.

Depois, os voluntários puderam ver as estimativas de outros e fazer alterações nas suas próprias, se quisessem. Para deixar a brincadeira mais legal – e engajar ainda mais o pessoal – cada um ganhava US$30 a cada duas rodadas, mas perdia US$1 para cada ponto percentual que desviasse da resposta correta.

Os resultados: 1) Quem trabalhou em grupos de quatro pessoas (ou teve “mais cérebros pensando sobre um problema”) não se saiu melhor do que as duplas ou trios e 2) nas primeiras tentativas, quem trabalhou em dupla acertou um pouquinho mais do que quem estava sozinho. Mas essa diferença sumiu depois que os participantes puderam comparar seus palpites com os dos outros e alterá-los.

O segundo ponto pode ser explicado pelo terceiro: 3) Aqueles que trabalharam com um parceiro eram mais confiantes em suas estimativas e menos dispostos a aceitar influência de fora.

Segundo as pesquisadoras, esse excesso de confiança custou caro: se essas pessoas tivessem prestado mais atenção aos números que vieram de fora e reconsiderassem seus palpites, provavelmente teriam se saído melhor. Foi o que aconteceu com quem trabalhou sozinho.

Então não, um grupo de 10 pessoas não é 10 vezes melhor. Na verdade, ocorre o oposto: “Matematicamente, tem-se um resultado melhor quando a decisão é tomada a dois. Para cada pessoa adicional, esse benefício cai em uma curva descendente”, disse Julia Minson.

Mas que fique claro que isso não significa que devemos abolir o trabalho em equipe. O segredo, segundo o estudo, é saber dessa desvantagem (o excesso de confiança) e procurar formas de compensá-la. As equipes podem ser incentivadas, por exemplo, a ouvir mais as opiniões individuais e as de fora.

A mesma coisa vale para um casal que toma uma decisão financeira, por exemplo. “Só porque você tomou uma decisão com outra pessoa e se sente bem com isso, não tenha tanta certeza de que já resolveu o problema e não precisará da ajuda de ninguém”, disse Minson. Em outras palavras, tenha bom senso e não se feche em um mundinho com sua dupla ou equipe.

Via Psychological Science

 

 


Conselhos errados que as pessoas dão: nunca desista dos seus sonhos

Ana Carolina Prado 15 de setembro de 2011

Muitos de nós crescemos ouvindo apresentadores de TV, cantores, personagens de programas infantis e toda espécie de espalhadores profissionais de clichês repetindo à exaustão o mantra: “nunca desista dos seus sonhos”. Há variações, como “persiga os seus objetivos até o fim” ou “tenha fé, que um dia você vai chegar lá”.  Como sempre, sabemos que a intenção é boa – e é importante receber encorajamento desse tipo. Mas é preciso ser racional e equilibrado. Não queremos destruir o sonho de ninguém, mas a ciência nos insta a dizer: nem sempre você vai alcançar os seus objetivos e é preciso aceitar isso. Senão, corre o risco de se tornar um velhinho ranzinza e amargurado.

Séries e filmes vivem explorando a figura do velhinho ranzinza, como Shit my Dad Says e Up. Personagens assim fazem sucesso e parecem divertidos na cultura pop, mas vamos combinar que ninguém curte se imaginar virando um desses na vida real. A amargura na idade avançada não é um comportamento normal que acontece com todo mundo, e sim um indício de depressão. Um estudo da Universidade de Colúmbia Britânica feito pelos psicólogos Erin Dunne e Carsten Wrosch sugere que, no geral, uma das principais causas do mau-humor é essa coisa de perseguir incansavelmente um objetivo que você nunca será capaz de alcançar.

A boa notícia é que dá para evitar que nós nos tornemos velhinhos e velhinas ranzinzas no futuro se mudarmos a forma como encaramos as coisas desde já. E a principal delas envolve o que os pesquisadores chamaram de “desengajamento objetivo”, ou a decisão de abrir mão de certas metas quando for o caso. O pesquisador Carsten Wrosch deu dicas nesse sentido para o site TheAtlantic.com. Listamos algumas delas:

1. Assuma a responsabilidade pelos seus próprios erros.
Segundo Wrosch, a amargura é consequência de experiências ruins (como falhas, decepções ou fracassos) que são considerados fora do controle. A pessoa se sente vítima do mundo e acha que é impotente frente às situações. Quando reconhecemos que a culpa por coisas assim terem acontecido às vezes é nossa, podemos nos sentir arrependidos e tristes por um tempo – o que é normal, mas passa e, se permitirmos, acaba nos ajudando a tomar decisões melhores no futuro. (Desde que você não pese a mão na autocrítica e comece a se condenar eternamente, como já dissemos anteriormente) Já quando jogamos a culpa em outra pessoa, podemos sentir uma raiva e/ou amargura que vai se acumulando com o tempo.

2. Se você falhou em um objetivo, seja razoável e avalie suas reais chances de conseguir alcançá-lo antes de decidir tentar de novo.
É preciso ser realista. É claro que, muitas vezes, vale a pena persistir em um objetivo e tentar muitas outras vezes até consegui-lo. Passar no vestibular, conseguir uma promoção ou arranjar um emprego em uma área que você deseja pode exigir esforço e muitas tentativas fracassadas antes. Afinal, essas coisas não são fáceis. Mas pode haver ocasiões em que não há muito o que fazer – e a melhor opção é desistir. Caso contrário, o preço a se pagar é a amargura.

3. Se o seu objetivo é pouco realista, parta para outras metas.
O “desengajamento” pode poupar você do fracasso recorrente e das emoções negativas que vêm associadas a isso. Pesquisas mostram que isso tem sido associado a níveis mais baixos de hormônios relacionados ao estresse e menos relatos de problemas de saúde. Mas que fique claro: isso não significa viver por aí sem objetivo – significa estabelecer novas metas. Fazer isso, por sua vez, promove níveis mais elevados de emoções positivas nas pessoas.

4. Se você já costuma culpar outras pessoas, faça as pazes com ela
Além de tomar a responsabilidade pelas coisas que você faz e parar de culpar outros, é importante também fazer as pazes com a pessoa que você costuma culpar pelas suas derrotas. Muitas vezes, você vai precisar delas para resolver o problema (como em um casamento em crise, que necessita do trabalho de ambos os cônjuges para dar certo).

Nota: A amargura também pode ser resultado de algum estresse pós-traumático. Nesse caso, a pessoa se sente intensamente injustiçada e impotente e aí é necessário procurar ajuda psicológica.

Leia também:
Conselho errado #1: Extravasar a raiva faz bem
Conselho errado #2: Você só vai vencer na vida se for muito exigente consigo mesmo
Conselho errado #3: Chorar faz bem


Conselhos errados que as pessoas dão: Chorar faz bem

Ana Carolina Prado 2 de setembro de 2011

“Chore, coloque tudo para fora que você vai se sentir melhor”. Quem é que nunca ouviu um conselho parecido num momento em que estava deprê? A ideia geral é a de que chorar é um processo catártico: as lágrimas “lavam” a tristeza e a levam embora. Pesquisas anteriores que pediam às pessoas para descrever como se sentiram após crises de choro confirmavam essa crença. Mas estudos de laboratório que envolviam colocar voluntários para ver filmes tristes, por outro lado, tiveram resultado oposto. As duas abordagens tinham problemas, no entanto: enquanto a primeira estava propensa a distorções na memória dos participantes (eles podiam ser influenciados pela ideia difundida de que chorar é bom e acabariam isso poderia afetar sua lembrança), a segunda sofre com a falta de realismo, uma vez que a situação ali é forçada.

Um método mais adequado seria pedir a voluntários que mantivessem um diário, por um período razoável, em que registrassem a cada noite os seus episódios de choro e como se sentiram depois. Não seria tão intrusivo a ponto de interferir no comportamento dessas pessoas (coisa que pode acontecer quando estão sendo observadas chorando em um laboratório). E as chances de as memórias estarem distorcidas seriam menores, caso as voluntárias escrevessem sobre o choro no dia em que ele ocorresse.

Foi isso que a pesquisadora Lauren Bylsma, da Universidade do Sul da Flórida, e seus colegas fizeram. 97 graduandas do sexo feminino completaram um diário por 40 a 73 dias no qual respondiam a perguntas sobre seu humor diário. Se elas choraram no dia, tinham de descrever o motivo, quanto tempo durou o choro e qual sua intensidade, se havia outras pessoas junto e como se sentiram depois. Ao todo, 1.004 episódios foram documentados e todas as voluntárias choraram pelo menos uma vez. A maioria das crises foi causada por conflitos com outras pessoas; perdas e fracassos pessoais foram o segundo e terceiro motivo mais frequentes.

E esse estudo descobriu que, ao contrário do que se costuma acreditar, chorar não faz com que você necessariamente se sinta melhor – na verdade, em dois terços dos casos isso não teve nenhum efeito positivo. 61% das voluntárias não sentiu nenhuma mudança de humor nos dois dias seguintes. 30% tiveram uma melhora e 9% sentiram-se pior.

E mais: para aquelas que se sentiram melhor, o que pesou foi a intensidade da crise: chorar mais intensamente é mais eficiente para melhorar o humor do que chorar pouco durante um longo período. Além disso, chorar na companhia de outra pessoa surtiu mais efeito do que fazer isso sozinho ou cercado de muita gente. Por isso, os autores do estudo acreditam que o choro em si não é o responsável pela melhora do humor, mas sim o fato de ele atrair o apoio de outras pessoas e chamar a atenção para problemas importantes.

Apesar de ter limitações (faltou ver como isso se aplica a homens, por exemplo, e o método de classificação do humor dos participantes era limitado), os pesquisadores enfatizaram que esse foi “o primeiro estudo prolongado da relação entre as lágrimas e o humor envolvendo informações contextuais detalhadas de vários episódios de choro”.

Mas o que temos, por enquanto, é isso: pelo menos para as mulheres, botar tudo para fora numa crise de choro tem duas chances em três de não ajudar em nada.

Leia também:
Conselho errado #1: Extravasar a raiva faz bem
Conselho errado #2: Você só vai vencer na vida se for muito exigente consigo mesmo


Conselhos errados que as pessoas dão: Você só vai vencer na vida se for muito exigente consigo mesmo

Ana Carolina Prado 3 de agosto de 2011

Continuamos com a série que apresenta conceitos errados de psicologia que estão espalhados por aí disfarçados de conselhos bem-intencionados.

“Acredite em si mesmo e não aceite uma derrota!” “Você precisa ter uma autodisciplina impecável para ter sucesso”. Você já perdeu a conta de quantas vezes ouviu essas frases, certo?  É claro que boas doses de autoconfiança e disciplina são necessárias para atingirmos nossos objetivos. Mas a ciência já descobriu que é preciso pegar leve com essa exigência toda.

Estudos recentes revelaram que quem cobra demais de si mesmo apresenta níveis mais altos de depressão e ansiedade. Enquanto isso, quem é mais compreensivo com as próprias falhas é mais feliz, otimista e, de quebra, ainda tem mais saúde.

A professora de desenvolvimento humano da Universidade do Texas em Austin Kristin Neff, uma das pioneiras nesse novo campo da psicologia chamado autocompaixão, diz que muita gente não é compreensiva consigo mesma porque teme cair na autoindulgência ou baixar seus padrões de excelência.  “Eles acham que a autocrítica é o que os mantêm na linha”, disse ela ao New York Times. Tudo culpa da ideia difundida de que se deve ser extremamente exigente e autocrítico para ter sucesso. Mas a verdade é que, segundo Neff, a autocompaixão estimula as pessoas porque as leva a se cuidarem melhor. Quanto mais você se cuidar – e quanto menos energia gastar se criticando – melhor se sairá.

Agora, como é que vamos saber a medida exata de autocompaixão? Uma boa saída é nos perguntarmos se tratamos nós mesmos tão bem quanto tratamos nossos amigos e familiares. E isso é mais difícil do que parece. Um estudo recente descobriu que, no geral, as pessoas que costumam apoiar e compreender as falhas dos outros são muito mais rígidas com suas próprias falhas.

Em termos práticos: como você agiria se tivesse um filho com dificuldades na escola? Muitos pais dariam apoio e ajudariam com aulas extras. Mas e quando você é quem está nessa situação, talvez com problemas no trabalho ou com dificuldade para emagrecer?  Aí o tratamento muitas vezes é diferente: cai-se num ciclo de negatividade e excesso de crítica. Se essa estratégia é inútil na hora de ajudar outra pessoa, por que haveria de funcionar com nós mesmos?

Um estudo de 2007 da Universidade de Wake Forest mostrou que um pequeno incentivo à autocompaixão já produz resultados.  Os pesquisadores convidaram 84 mulheres para uma experiência de degustação de alguns doces engordativos que são proibidos para quem deseja manter a forma. Um instrutor pediu a algumas voluntárias que não fossem duras consigo mesmas, já que todo mundo naquele estudo comeria aqueles doces e não havia razão nenhuma para se sentirem mal ao fazerem isso também.

No fim, as mulheres que costumavam ter sentimento de culpa a respeito de alimentos proibidos e que ouviram aquela mensagem comeram menos do que as outras.  Os pesquisadores acreditam que isso aconteceu porque, ao se permitirem apreciar os doces, elas os apreciaram melhor e ficaram satisfeitas com menos. Já quem estava com sentimentos de culpa acabou comendo mais para tentar se sentir melhor. Coisa que, no máximo, permitiu só um prazer momentâneo e aumentou o sentimento de culpa posterior, num círculo vicioso. Isso também pode funcionar com o vício na internet, por exemplo. Ou com problemas de concentração.

Leia também:
Conselho errado #1: Extravasar a raiva faz bem


Conselhos errados que as pessoas dão: Extravasar raiva faz bem

Ana Carolina Prado 25 de julho de 2011

A explosão dos livros de autoajuda tornou a psicologia tão popular que, agora, muita gente acha que entende e vive dando pitaco na vida alheia. Por isso, um monte de conceitos errados de psicologia estão sendo espalhados por aí disfarçados de conselhos bem-intencionados. Conheça alguns deles na série que começa a ser publicada hoje.

Grite num travesseiro, xingue alto, parta para cima de um saco de pancada. Você provavelmente ouviu a vida inteira que isso funciona para fazer a pessoa liberar o estresse e se sentir melhor. Afinal, quem engole sapo e guarda a raiva para si, um dia vai explodir e não vai ser legal. Mas não é bem assim.Brad Bushman, um psicólogo da Universidade de Iowa, colocou essa ideia à prova e descobriu que extravasar a raiva é “o pior conselho que você pode dar” a alguém.

Em um teste, Bushman provocou a irritação de um grupo de 600 estudantes universitários ao fazer comentários desagradáveis ​​sobre textos que eles haviam escrito. Depois, ele os dividiu em grupos: um descontou a raiva em um saco de pancadas e outro foi se distrair fazendo outras atividades. No fim, o grupo que usou o saco de pancadas estava mais bravo e agressivo do que o outro.

Segundo o psicólogo, liberar a gressividade “é como usar gasolina para apagar um fogo – isso só alimenta as chamas”. Ao extravasar os sentimentos negativos, a pessoa estaria estimulando uma rede de emoções, pensamentos, sentimentos e ações motoras agressivas, o que não ajuda a acalmar os ânimos. Bushman diz que, às vezes, explodir de raiva pode até fazer você se sentir um pouco aliviado na hora, mas o efeito não dura muito e você só vai fortalecer seus impulsos agressivos.

Um estudo mais recente feito com estudantes perfeccionistas da Universidade de Kent, na Inglaterra, foi nessa mesma direção. Os pesquisadores pediram aos 149 voluntários que fizessem um diário de suas atividades por 3 a 14 dias, relatando suas falhas mais incômodas nesse período, as estratégias que usaram para lidar com o fracasso e como eles se sentiram no final do dia.

Os que tentaram lidar com o estresse desabafando com amigos, extravasando a frustração, sentindo-se culpados ou tentando negar o fato que os incomodava acabaram se sentindo pior do que antes. Assim, o estudo não só derrubou o mito de que extravasar a raiva faz bem, mas também mostrou que nem sempre conversar com um amigo é o melhor modo de se sentir melhor a respeito de um problema.

A estratégia que se mostrou mais eficaz foi se esforçar em ver o lado positivo da situação e desviar a atenção da raiva e da frustração. Assistir a uma comédia ou ler um livro legal também funciona. Atividades físicas podem ajudar, desde que não sejam agressivas – segundo a pesquisa de Brad Bushman, mesmo que a pessoa não esteja pensando no que a irritou, jogar uma partida de rúgbi logo depois de passar raiva pode piorar o seu estado.

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