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Não confie no que seus olhos dizem (principalmente se você estiver muito concentrado)

Ana Carolina Prado 13 de setembro de 2011

É universal: quando vamos mostrar algo muito importante ou complicado a alguém, pedimos para essa pessoa “prestar atenção”. Geralmente, fazemos isso porque acreditamos que manter um foco mais intenso ou um contato visual mais cuidadoso vai nos ajudar a perceber o mundo de uma forma mais precisa. Mas tome cuidado com essa ideia: a ciência acabou de descobrir que não é bem assim que a coisa funciona. Um novo estudo da Universidade de Yale, que será publicado em breve no periódico Psychological Science, mostrou que manter um foco muito intenso em algo pode é provocar o efeito contrário e distorcer a nossa percepção espacial. A pesquisa, conduzida pelos psicólogos cognitivos Brandon Liverance e Brian Scholl, é surpreendente porque mostra que mesmo algo relativamente simples, como perceber onde um objeto está em relação a outros, pode ser distorcido pela nossa mente.

Em três experimentos, 10 voluntários foram orientados a focar sua atenção em alguns objetos, mas não em outros.  No teste com os resultados mais reveladores, havia quatro círculos se movendo em uma tela de computador enquanto mudavam rapidamente de cor. Dois deles podiam ser ignorados, mas os outros dois deviam receber atenção especial e os voluntários tinham de pressionar uma tecla sempre que ficassem com a cor vermelha ou azul. Depois de alguns segundos de movimento, todos os círculos desapareciam e os participantes precisavam clicar com o mouse sobre os locais onde os dois círculos-alvos haviam aparecido pela última vez. E foi aí que se evidenciaram as distorções. Uma delas já era esperada: como pesquisas anteriores já haviam mostrado, os círculos eram sempre indicados como se estivessem comprimidos em direção ao centro da tela – como se a representação que nossa mente faz do mundo fosse ligeiramente reduzida.

A outra distorção foi a que surpreendeu os cientistas: os voluntários relataram ter visto os círculos-alvos como se estivessem mais próximos uns dos outros do que realmente estavam e observaram os outros dois círculos (nos quais não haviam focado sua atenção) mais afastados do que a realidade.

Esses resultados fortalecem um campo crescente da psicologia cognitiva que desestabiliza nossa confiança na ideia de que sabemos algo com certeza – e coloca em xeque nossos métodos para compreender o mundo com mais exatidão. “A atenção é a forma como as nossas mentes se conectam com as coisas no ambiente”, explicou para a MedicalXpress o pesquisador Liverence, um dos autores do estudo. “Nós tendemos a pensar que a atenção esclarece o que está lá fora. Mas ela também distorce”. Não confie tanto no que seus olhos dizem: eles também podem ser enganados pela sua mente.

 


Pesquisadores conseguem ler mentes a partir de mapas do cérebro

Ana Carolina Prado 8 de setembro de 2011

Você já imaginou como seria se desse para descobrir no que você está pensando só pela análise de imagens de ressonância magnética do seu cérebro? Se isso lhe parece assustador, então respire fundo. Cientistas do Instituto de Neurociência de Princeton já conseguiram esse feito – sim, isso significa que eles já podem, quase literalmente, ler pensamentos.

A ideia básica é que tudo o que estiver na nossa mente, incluindo ideias, conceitos, emoções ou planos, se reflete no padrão de atividade do nosso cérebro. Assim, analisar o comportamento cerebral de alguém que esteja pensando em determinado assunto e mapear as áreas ativadas permitiria descobrir qual é esse assunto.

Os pesquisadores trabalharam em cima de imagens de ressonância magnética feitos com nove pessoas toda vez que olhavam para a imagem e a descrição da Wikipedia de 60 objetos, divididos em 12 categorias. A ideia era descobrir quais eram os padrões de atividade cerebral para cada uma dessas categorias. Por exemplo, pensamentos sobre “olho” e “pé” produziam conexões neurais semelhantes a outras palavras relacionadas a partes do corpo.

Segundo o líder do estudo, Francisco Pereira, o nosso cérebro tende naturalmente ao devaneio, com vários processos ocorrendo ao mesmo tempo e indo parar em conceitos bem distantes do original. Tipo o que acontece na seção “Conexões” da SUPER – começamos pensando em Salomão e vamos parar no salaminho.  “Nós acreditamos que, se quisermos entender o que está na mente de uma pessoa quando ela pensa em algo de concreto, podemos seguir essas palavras”, explicou Pereira.

Tendo traçado um mapa da atividade cerebral relacionada a determinada categoria, os pesquisadores conseguiram traduzi-lo em palavras e descobrir, só com base nele, os assuntos em que os voluntários estavam pensando. Houve limitações: deu para identificar a categoria, mas não o objeto específico que estava em jogo. Por exemplo, dava para saber quando um participante estava pensando em algo do grupo “vegetal”, mas não foi possível descobrir qual.


Imagem ilustra a probabilidade de certas palavras dentro de um artigo da Wikipedia estarem  realmente associadas, em nossa atividade cerebral, ao objeto que descrevem. Quanto mais vermelha, mais provável é que a palavra seja associada, no caso, a “vaca”. Por outro lado, azul brilhante sugere uma forte correlação com a “cenoura”. Preto e cinza indicam palavras neutras que não tiveram nenhuma associação específica. Crédito: Francisco Pereira / Universidade de Princeton

Ainda assim, os resultados foram impressionantes. A técnica permite saber mais sobre a maneira como as ideias são representadas em nível neural e de que maneira se relacionam entre si. “E podemos pensar em fazer isso com qualquer conteúdo mental que possa ser verbalizado – não só objetos, mas também com pessoas, ações, conceitos abstratos e relacionamentos. Este estudo é um primeiro passo para esse objetivo mais geral”, disse ao site da Universidade de Princeton o professor Matthew Botvinick, que participou da pesquisa. E ele se anima ainda mais em pensar que, em longo prazo, poderá ser possível ajudar pessoas que têm dificuldade para se comunicar traduzindo a sua atividade cerebral em palavras.


Conselhos errados que as pessoas dão: Chorar faz bem

Ana Carolina Prado 2 de setembro de 2011

“Chore, coloque tudo para fora que você vai se sentir melhor”. Quem é que nunca ouviu um conselho parecido num momento em que estava deprê? A ideia geral é a de que chorar é um processo catártico: as lágrimas “lavam” a tristeza e a levam embora. Pesquisas anteriores que pediam às pessoas para descrever como se sentiram após crises de choro confirmavam essa crença. Mas estudos de laboratório que envolviam colocar voluntários para ver filmes tristes, por outro lado, tiveram resultado oposto. As duas abordagens tinham problemas, no entanto: enquanto a primeira estava propensa a distorções na memória dos participantes (eles podiam ser influenciados pela ideia difundida de que chorar é bom e acabariam isso poderia afetar sua lembrança), a segunda sofre com a falta de realismo, uma vez que a situação ali é forçada.

Um método mais adequado seria pedir a voluntários que mantivessem um diário, por um período razoável, em que registrassem a cada noite os seus episódios de choro e como se sentiram depois. Não seria tão intrusivo a ponto de interferir no comportamento dessas pessoas (coisa que pode acontecer quando estão sendo observadas chorando em um laboratório). E as chances de as memórias estarem distorcidas seriam menores, caso as voluntárias escrevessem sobre o choro no dia em que ele ocorresse.

Foi isso que a pesquisadora Lauren Bylsma, da Universidade do Sul da Flórida, e seus colegas fizeram. 97 graduandas do sexo feminino completaram um diário por 40 a 73 dias no qual respondiam a perguntas sobre seu humor diário. Se elas choraram no dia, tinham de descrever o motivo, quanto tempo durou o choro e qual sua intensidade, se havia outras pessoas junto e como se sentiram depois. Ao todo, 1.004 episódios foram documentados e todas as voluntárias choraram pelo menos uma vez. A maioria das crises foi causada por conflitos com outras pessoas; perdas e fracassos pessoais foram o segundo e terceiro motivo mais frequentes.

E esse estudo descobriu que, ao contrário do que se costuma acreditar, chorar não faz com que você necessariamente se sinta melhor – na verdade, em dois terços dos casos isso não teve nenhum efeito positivo. 61% das voluntárias não sentiu nenhuma mudança de humor nos dois dias seguintes. 30% tiveram uma melhora e 9% sentiram-se pior.

E mais: para aquelas que se sentiram melhor, o que pesou foi a intensidade da crise: chorar mais intensamente é mais eficiente para melhorar o humor do que chorar pouco durante um longo período. Além disso, chorar na companhia de outra pessoa surtiu mais efeito do que fazer isso sozinho ou cercado de muita gente. Por isso, os autores do estudo acreditam que o choro em si não é o responsável pela melhora do humor, mas sim o fato de ele atrair o apoio de outras pessoas e chamar a atenção para problemas importantes.

Apesar de ter limitações (faltou ver como isso se aplica a homens, por exemplo, e o método de classificação do humor dos participantes era limitado), os pesquisadores enfatizaram que esse foi “o primeiro estudo prolongado da relação entre as lágrimas e o humor envolvendo informações contextuais detalhadas de vários episódios de choro”.

Mas o que temos, por enquanto, é isso: pelo menos para as mulheres, botar tudo para fora numa crise de choro tem duas chances em três de não ajudar em nada.

Leia também:
Conselho errado #1: Extravasar a raiva faz bem
Conselho errado #2: Você só vai vencer na vida se for muito exigente consigo mesmo


Expressões faciais não são universais

Ana Carolina Prado 1 de setembro de 2011

Para muitos pesquisadores, a capacidade de interpretar expressões faciais tem origem evolutiva, o que significaria que elas seriam algo como uma “língua universal”.  Mas um estudo feito na Universidade de Glasgow, Escócia, mostrou que não é bem assim. O trabalho, publicado pela American Psychological Association, revelou que povos de diferentes culturas não interpretam expressões faciais de alegria, tristeza ou raiva da mesma maneira: as características levadas em conta para determinar as emoções que o rosto expressa são diferentes.

Na pesquisa, 15 chineses e 15 caucasianos que vivem em Glasgow tiveram que classificar como feliz, triste, surpreso, com medo, com nojo ou com raiva os rostos com expressão neutra que foram previamente alterados em um computador. As respostas permitiram aos pesquisadores identificar os recursos expressivos faciais que os participantes associavam a cada emoção.


Imagem do estudo mostra o que cada povo define (os caucasianos acima e os chineses abaixo) como uma expressão feliz, surpresa, com medo, com nojo, com raiva e triste.

O resultado revelou que os chineses levantavam mais em conta os olhos para determinar o que diziam as expressões, enquanto os ocidentais caucasianos davam mais importância para a boca e as sobrancelhas. Os pesquisadores concluíram, assim, que a cultura influencia e modela a representação mental de expressões faciais comuns. É como se sua expressão facial tivesse um tipo de sotaque.  “A representação mental de uma expressão facial é a imagem que nós temos no nosso ‘olho da mente’ quando imaginamos um rosto triste ou feliz”, explica Rachael E. Jack, que conduziu o estudo.

“Nossos dados mostram diretamente, pela primeira vez, as diferenças na forma como as pessoas de diferentes culturas veem os sinais de expressão facial em diferentes culturas, desafiando a ideia de uma linguagem universal da emoção e revelando uma fonte de confusão em potencial durante a comunicação intercultural”, diz o estudo. Essas diferenças culturais podem fazer com que sinais sejam ignorados ou mal interpretados durante uma conversa entre pessoas de culturas distintas, por exemplo.

O trabalho destacou a importância de compreendermos as diferenças culturais na comunicação. “Esperamos que nosso trabalho ajude a promover uma maior compreensão entre as diversas culturas”, disse Rachael.


Entenda alguns fatores que afetam a sua tolerância ao álcool

Ana Carolina Prado 31 de agosto de 2011

Você já teve a impressão de que é mais tolerante à bebida dependendo do lugar onde está? Já aconteceu de ficar bêbado depois de tomar dois copos de cervejas em um bar diferente, mesmo sabendo que é capaz de beber, sozinho, engradados inteiros em casa? Desde os anos 50, cientistas desenvolviam a hipótese de que é mais difícil ficar bêbado em casa do que em um lugar desconhecido. Mas isso só havia sido provado em pesquisas envolvendo animais, nunca com humanos.  Agora, um estudo da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, deu base empírica a essa teoria.

24 alunos tomaram bebidas alcoólicas em um estabelecimento, por três sessões, para que se familiarizassem com o lugar. Em um cenário diferente, os pesquisadores deram aos voluntários “bebidas placebo” – que tinham gosto de álcool, mas não eram alcoólicas. Depois, os alunos tinham que completar tarefas em um computador projetado para medir inibições. Por exemplo, deveriam apertar um botão sempre que uma palavra com significado feliz aparecesse na tela, mas não podiam fazer isso quando aparecia uma palavra negativa. Apertar o botão na hora errada indicava perda de inibições. É mais ou menos o que acontece quando uma pessoa embriagada xinga alguém, entra em brigas ou continua a beber quando deveria parar.

Os resultados mostraram que os voluntários que bebiam álcool no ambiente onde haviam recebido bebidas placebo anteriormente pressionaram o botão incorretamente cerca de 12 vezes por sessão. Já entre os que haviam tido bebidas alcoólicas de verdade, o número caiu para a metade – o que indica que eles estavam menos bêbados do que o outro grupo.

Segundo o professor Mark Fillmore, da Universidade de Kentucky, a tolerância aumentada em ambientes familiares pode ser provocada por nossas expectativas. Depois de ter bebido em um ambiente determinado, o sistema nervoso central começa a antecipar o recebimento do álcool sempre que você volta para aquele lugar, podendo se tornar hiperexcitado e barrar alguns dos efeitos do álcool. Em outras palavras, seu corpo fica mais tolerante.

O estudo é importante porque mostra que a quantidade de álcool no sistema nervoso central não é o único fator que determina como uma pessoa é afetada pela bebida. A tolerância não é um atributo pessoal imutável. Só porque você pode funcionar bem enquanto bebe em situações conhecidas não significa que vai ser assim em qualquer lugar, com a mesma quantidade de bebida.

Alcoolismo x Estresse

Os resultados confirmam a hipótese de outro estudo, publicado em julho no periódico Alcoholism: Clinical and Experimental Research (Alcoolismo: pesquisa clínica e experimental). Pesquisadores da Universidade de Chicago descobriram que o estresse é um fator importante para determinar como a bebida vai agir em você– se ela vai te deixar falante e cheio de energia ou sonolento.

O estudo mostrou que quando se mistura a bebida com uma dose de estresse, o resultado pode surpreender: os voluntários que normalmente ficavam mais alegres e estimulados pelo álcool se sentiram sonolentos quando foram colocados em uma situação estressante antes de beber. E os que geralmente se sentiam sonolentos com a bebida acabaram ficando mais agitados ao fazer isso depois do estresse. Isso pode explicar, inclusive, por que algumas pessoas bebem mais quando estão estressadas: se elas costumam se sentir agitadas depois de beber e o estresse barra esse efeito, podem acabar bebendo mais para tentar alcançá-lo.  Por outro lado, quem costuma se sentir sonolento quando bebe pode curtir o efeito oposto e bebem ainda mais para potencializá-lo. Se antes a sonolência era um freio no consumo alcoólico, agora essa sensação positiva acaba por aumentá-lo.

Por outro lado, bebida não é remédio. Mesmo nos casos em que o álcool melhora o humor, beber para aliviar o estresse está longe de ser uma boa ideia – além do perigo do alcoolismo, a dose extra pode piorar a situação. É que o álcool amortece a resposta natural do corpo ao estresse hormonal agudo e impede o seu organismo de lidar com o problema de forma eficiente. Lembre-se: esse tipo de estresse é uma ameaça ao organismo. Então, é bom que seu corpo queira se livrar dele.


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