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Ter muitos motivos para alcançar um objetivo faz mal para a sua motivação (!)

14 de julho de 2014

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Uma escola militar acaba de receber uma nova turma de alunos. Alguns deles estavam ali porque sempre tiveram vontade de servir seu país; outros, embora tivessem esse desejo, também foram atraídos pelo status e bons salários. Qual dos dois grupos você acha que seria mais bem-sucedido na escola e na carreira militar? Embora possamos ser levados a acreditar que ter vários motivos para fazer algo seja melhor do que ter um só, uma pesquisa de proporções respeitáveis concluiu que o primeiro grupo foi o que obteve maior sucesso.

O estudo em questão, publicado recentemente no periódico “Proceedings of the National Academy of Sciences”, foi feito por pesquisadores da Universidade de Yale e do Swarthmore College. Eles acompanharam 10.238 cadetes da Academia Militar de West Point dos Estados Unidos por um período de uma década (!), analisando os motivos por que eles haviam decidido ir para lá, sua performance acadêmica e seu sucesso e longevidade na carreira militar.

Realizar esse estudo por tanto tempo permitiu fazer algo que não havia sido muito explorado em outros experimentos sobre o tema: diferenciar os tipos de motivação envolvidos nas ações dos voluntários. “Parece óbvio e inegável que, se a pessoa tem dois ou mais motivos para fazer alguma coisa, ela será mais propensa a fazê-la, e vai fazê-la melhor, do que se só tivesse um”, diz o estudo. “(…) Porém, essa lógica deixa passar o fato de que, na vida real, as pessoas aparecem com múltiplas razões para quase qualquer ação – frequentemente ações muito mais significativas do que aquelas alcançadas por estudos experimentais de motivação”, completa. Além disso, estudos feitos até então envolvem motivos que, além de muitas vezes serem específicos e ligados a fatores externos, são temporários. Portanto, sua aplicabilidade na vida real pode ficar comprometida.

Neste trabalho, os autores diferenciaram dois tipos de motivação: os extrínsecos ou instrumentais, que vêm de fatores externos ao indivíduo, e os intrínsecos, que são internos e ligados a gostos pessoais. Um cara que sonha em ser um astro do rock para ter fama, dinheiro e garotas é movido por motivações extrínsecas; alguém que está nessa principalmente porque ama fazer música é movido por motivações intrínsecas. E ficou comprovado que, embora ter metas seja, de forma geral, algo positivo, ter motivos instrumentais para alcançá-los pode enfraquecer os efeitos positivos da motivação interna, prejudicando a persistência e o desempenho – pelo menos em contextos de educação e carreira a longo prazo.

Diferentes formas de encarar o trabalho

O artigo dos pesquisadores contesta a ideia popular de que, se formos pagos para fazer uma atividade de que gostamos, passaremos a odiá-la. “A maioria dos contextos em que as pessoas operam oferecem múltiplos resultados para a sua performance. Estudantes diligentes aprendem e também conseguem boas notas. Médicos aliviam o sofrimento das pessoas e também podem conseguir dinheiro e status. Entre os cadetes analisados, persistência e esforço levariam à excelência enquanto oficiais e também a carreiras materiais bem sucedidas. É difícil imaginar uma atividade humana que não tenha consequências instrumentais, materiais”, escrevem eles. Sim, mas vamos combinar aqui que, embora isso possa não ser a razão por que nos levantamos para ir trabalhar todos os dias, ter dinheiro e status trazem privilégios que facilitam a vida. E agora? Eles respondem: “Só porque essas atividades têm os dois tipos de resultados não significa que as pessoas tenham necessariamente os dois tipos de motivação. (…) Nós enfatizamos o impacto negativo de motivos instrumentais sobre os efeitos dos motivos internos, mas, colocando de outra forma, também podemos dizer que motivos internos ajudam a conter o efeito negativo dos efeitos instrumentais”.

Ou seja, depende do que você coloca como o mais importante. A forma como se encara a atividade profissional faz toda a diferença: ela pode ser vista simplesmente como um trabalho, como uma carreira ou como uma vocação. Estudos anteriores concluíram que pessoas que encaram como uma vocação encontram mais satisfação e fazem um trabalho melhor do que os outros dois tipos. E algo importante que difere a “vocação” dos demais é a relativa insignificância de fatores instrumentais para determinar por que as pessoas estão trabalhando. Em vez disso, elas focam no sentimento de realização que obtêm daquela atividade, o que geralmente vem acompanhado da sensação de que se está contribuindo para a vida de outras pessoas de uma forma significativa.

Leia o estudo: “Múltiplos tipos de motivos não multiplicam a motivação de cadetes de West Point”


Somos péssimos em detectar flertes

3 de julho de 2014

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Se você é ruim em perceber quando é alvo de um flerte, fique tranquilo: a maioria das pessoas não sabe também. Somos bem melhores em perceber quando os outros não estão interessados. Essas foram algumas das conclusões que Jeffrey Hall, um professor de estudos da comunicação da Universidade do Kansas, obteve em seu estudo recente sobre a paquera.

Para isso, ele e seus colegas formaram 52 pares (um homem e uma mulher) de estudantes universitários solteiros e heterossexuais que não se conheciam previamente. Cada dupla foi para uma sala e teve entre dez e doze minutos para conversar a sós, pensando estar participando de um estudo sobre primeiras impressões. Depois da conversa, cada um respondeu um questionário em que, entre outras coisas, tinha de dizer se havia paquerado o seu par e se achava que havia sido paquerado por ele. O resultado? Mais de 80% dos voluntários  estavam certos quando diziam achar que o outro não estava interessado, mas foram muito menos bem-sucedidos em detectar quando estavam de fato sendo desejados: só 36% dos homens julgaram corretamente, e entre as mulheres o índice foi ainda menor: 18%.

Por que é difícil perceber o flerte

A dificuldade em perceber um flerte persiste mesmo entre quem está de fora só observando. O autor pediu a mais de 250 pessoas para que assistissem a seis vídeos de um minuto com as interações dos pares do primeiro estudo, mostrando apenas uma pessoa de cada vez. Os observadores não foram mais eficientes em perceber o que estava acontecendo do que aqueles que haviam participado da interação. Quando a paquera não havia acontecido, eles foram precisos em 66% dos casos. Quando rolava um clima, só 38% o identificaram.

A menor taxa de precisão foi encontrada em mulheres ao observar os homens: elas identificaram corretamente o flerte em apenas 22% das vezes. E ambos os sexos tiveram mais facilidade em detectar quando a paquera vinha da parte feminina. Segundo o autor do estudo, isso não se deve a qualquer tipo de “intuição” que os homens tenham melhor que as mulheres, mas sim ao fato de que elas talvez sejam um pouco mais claras se estão interessadas ou não.

O fato é que “o flerte é um comportamento difícil de perceber”, diz Jeffrey. “Se você acha que alguém não está interessado em você, provavelmente está certo. Mas, se alguém estiver, é bem provável que você nem tenha percebido”. Para ele, um dos motivos dessa dificuldade é o fato de as pessoas não costumarem mostrar seu interesse de formas óbvias porque não querem se sentir envergonhadas. Mas não é só isso: “A maioria das pessoas, na maioria dos dias, não dá em cima de todo mundo que encontra, embora alguns façam isso. Então você simplesmente não assume que todos estão te querendo”, diz ele, numa tradução livre da autora deste blog.

Esteja aberto

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Jeffrey conta que, no primeiro estudo, houve casos em que tanto o homem quanto a mulher revelaram ter flertado um com o outro, mas nenhum dos dois percebeu. “Oportunidade perdida!”, comentou. É claro que precisamos levar em conta diferenças culturais e ambientais: ele foi feito nos Estados Unidos, com estudantes universitários que pensavam estar participando de um estudo sobre primeiras impressões. Mas as conclusões são muito razoáveis – quem de nós nunca esteve lá?

Para evitar esse vacilo, pelo menos agora você já sabe: não seja tão sutil, já que seu alvo provavelmente nem está percebendo suas intenções. (É claro que não estamos falando de trogloditas que chegam pegando pelo braço etc. Se for o seu caso, pare e recomece do zero porque está tudo errado). Por outro lado, o conselho do professor é também estar aberto à possibilidade de outros estarem flertando com você, especialmente em locais onde a paquera é comum, como uma festa ou bar (mantendo o devido bom senso, é claro).

O estudo foi publicado no periódico Communication Research.

 


O segredo das amizades que duram

30 de abril de 2014

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O que faz com que as pessoas virem amigas? E por que algumas amizades duram e outras não? Um artigo do site Psychology Today reuniu alguns estudos que trazem bons esclarecimentos sobre o tema. Os pontos principais, bem práticos, estão listados a seguir:

Condições para começar uma amizade

Além de alguns fatores básicos, como ter contato com a pessoa com alguma regularidade (afinal, assim temos mais chance de conhecê-la melhor e aprofundar nossos laços) e ter coisas em comum, dois aspectos são fundamentais para que se passe do posto de conhecido para o de amigo:

1. Disposição de se abrir.  

Segundo Beverley Fehr, pesquisadora da Universidade de Winnipeg e autora do livro “Friendship Processes”, o que determina que passemos de meros conhecidos a amigos é a disposição de se abrir e revelar coisas mais pessoais ao outro – e isso precisa vir dos dois lados. “Nos estágios iniciais da amizade, isso tende a ser um processo gradual. Uma pessoa aceita o risco de revelar uma informação pessoal e ‘testa’ se a outra faz o mesmo”, diz ela. Aqui, a reciprocidade é essencial para a coisa funcionar, porque leva a outra condição importante:

2. Intimidade.

De acordo com a pesquisa de Fehr, pessoas com boas amizades envolvendo o mesmo sexo têm uma boa compreensão do que envolve a intimidade: elas sabem se abrir e expressar suas emoções, sabem o que dizer quando o amigo lhes conta algo e respeitam os limites – entendem, por exemplo, que sinceridade não significa falar tudo o que lhes vêm à cabeça, especialmente no que se refere a opiniões sobre a vida e os gostos do outro. Até porque outras condições apontadas foram aceitação, lealdade e confiança. Essas qualidades foram consideradas mais importantes do que ajudas práticas, como emprestar dinheiro.

Por que algumas amizades duram e outras não?

Ok, entendemos o que dá aquele pontapé inicial às amizades. Mas há outro fator, descoberto pelas psicólogas sociais Carolyn Weisz e Lisa F. Wood, da Universidade de Puget Sound, em Tacoma, Washington, que é fundamental para fazer com que as nossas relações durem: o apoio à nossa identidade social. Em outras palavras, procuramos amigos que entendam e validem a ideia que temos sobre nós mesmos e sobre o nosso papel na sociedade ou grupo de que fazemos parte – o que pode estar associado à religião, etnia, profissão ou mesmo participação em algum clube.

Para chegar a essa conclusão, elas acompanharam um grupo de estudantes universitários por anos durante toda a sua graduação, sempre pedindo a eles que descrevessem níveis de proximidade, contato, apoio geral e apoio à identidade social que sentiam em relação a amigos do mesmo sexo. A conclusão foi que todos esses fatores ajudaram a predizer se a amizade seria mantida ou não. Mas um único fator pôde predizer quem seria elevado à posição de melhor amigo: a pessoa, nesses casos, era parte de um mesmo grupo (fraternidade, time etc.) ou pelo menos apoiava e reafirmava o papel do amigo dentro desse grupo. Um cristão podia ter como melhor amigo alguém que não tivesse religião, desde que esse amigo apoiasse sua identidade como cristão. E, como temos vários papeis na vida, é mais provável que nosso melhor amigo esteja ligado ao papel que é mais importante para nós, que melhor representa a nossa identidade.

Por que escolhemos assim os amigos? Segundo o estudo, além de isso estar relacionado a níveis maiores de intimidade e compreensão, também envolve o aumento da autoestima. Esse senso de identidade que influencia até o comportamento de viciados em drogas. Outro estudo de Weisz concluiu que as pessoas eram mais propensas a se livrar de seus vícios depois de três meses quando sentiam que seus papéis sociais e senso de identidade entravam em conflito com o uso de drogas.

Nossas identidades sociais são tão importantes para nós que estamos dispostos a ficar com as pessoas que apoiam a nossa identidade social e nos afastar daqueles que não fazem isso. Podemos até mudar de amigos, quando os antigos não apoiam nossa visão atual de nós mesmos”, diz o artigo do Psychology Today. “A sabedoria popular diz que escolhemos os amigos por causa de quem eles são. Mas acontece que nós realmente os amamos por causa da maneira como eles apoiam quem nós somos.”

Como manter a amizade

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De acordo com Debra Oswald, psicóloga da Universidade de Marquette (em Wisconsin, EUA), que estudou o relacionamento entre voluntários que estavam no ensino médio e seus melhores amigos, há quatro comportamentos básicos necessários para manter o vínculo – que valem para todo mundo, não importa se você tem 15 ou 70 anos.

Os dois primeiros são pontos que exploramos bastante até agora: tomar a iniciativa de se abrir e apoiar nossos amigos. O terceiro ponto é a interação. Não importa se o amigo é seu vizinho ou mora em outro continente: você precisa estar em contato com ele, seja escrevendo, conversando ao telefone, visitando. Felizmente, com a internet, a proximidade física tem pouco efeito sobre nossa capacidade de manter uma amizade.

Por fim, é importante ser positivo. Precisamos nos abrir com nossos amigos, mas isso não significa que está tudo bem ficar choramingando por horas e só ver o lado negativo de tudo. É claro que faz parte de ser amigo segurar a onda durante os perrengues da vida, mas, no final das contas, a intimidade que faz com que uma amizade prospere deve ser algo agradável e que faça bem para os dois lados.


Conselhos errados que as pessoas dão: Pare de ser tão pessimista e pense positivo!

4 de abril de 2014

Para ler outros posts da série Conselhos errados, clique aqui.

O problema aqui não é com o conselho em si – pensar positivo é ótimo, é importante, é sucesso – , mas com o ato de aconselhar o tipo de pessoa que precisaria desse conselho. Sacou? Calma que explico melhor.

Você é daqueles que conseguem ver o lado bom das coisas ou é do time que vê o copo sempre meio vazio? É comum jogar a responsabilidade na própria pessoa pela sua atitude em relação à vida, mas um novo estudo da Michigan State University descobriu que isso já vem programado no cérebro de cada um. “É a primeira vez que conseguimos encontrar um marcador cerebral que realmente distingue as pessoas que pensam positivo das que pensam negativo”, diz o professor assistente de psicologia e principal autor da pesquisa, Jason Moser.

O estudo foi feito com 71 mulheres, que, antes de tudo, passaram por uma entrevista para que os pesquisadores definissem quais tinham tendência a ver tudo sob uma luz positiva e quais eram mais negativas ou preocupadas. Em seguida, elas observaram imagens mostrando situações tensas e tiveram de dar um final positivo para elas, enquanto sua atividade cerebral era monitorada. Havia entre as imagens, por exemplo, um homem mascarado segurando uma faca na garganta de uma mulher. Uma interpretação positiva possível seria dizer que a mulher se libertaria e fugiria.

Os pesquisadores optaram por usar apenas pessoas do sexo feminino porque elas são duas vezes mais propensas que os homens a sofrerem de problemas de ansiedade. Além disso diferenças na estrutura cerebral entre os sexos encontradas em estudos anteriores poderiam confundir os resultados.

A conclusão, publicada recentemente no Journal of Abnormal Psychology, indica que a atividade cerebral das pessoas mais negativas e preocupadas foi muito mais intensa durante essa atividade com as imagens. Segundo Moser, rolava, paradoxalmente, um efeito negativo em seus cérebros quando lhes era pedido que diminuíssem suas emoções negativas. “Isso sugere que elas têm muita dificuldade em ver o lado positivo de situações difíceis e suas emoções negativas ficam ainda piores quando alguém lhes pede para pensar positivamente”, diz ele.

Sacou agora por que esse é um conselho ruim? Moser confirma que isso tem implicações importantes na forma como as pessoas negativas podem encarar as situações, bem como na forma como seus amigos lidam com elas. “Você não pode simplesmente dizer ao seu amigo para pensar positivamente ou não se preocupar – isso provavelmente não vai ajudá-lo”, explica.

Isso não quer dizer que eles não possam aprender a pensar positivamente, mas Moser suspeita que seria necessária uma grande quantidade de tempo e esforço para essa prática começar a fazer alguma diferença. Ok, mas o que fazer, então? Para ele, o ideal seria buscar maneiras diferentes de ver e pensar sobre o problema, não necessariamente com a pressão de torná-lo algo bom. Portanto, se você quiser dar um conselho para um amigo, essa é a melhor saída, segundo a ciência.

 


Duas ideias erradas que você tem sobre sua capacidade de julgamento

27 de março de 2014

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A gente pode admitir que é ruim em esporte, que não tem o menor talento musical ou que tem gosto duvidoso para escolher roupas, mas uma qualidade dificilmente abriríamos mão de defender sem falsa modéstia: nossa inteligência. Se você concorda com isso, leitor, este post pode abalar um pouco suas estruturas. Porque ele tem o objetivo de provar que você não é tão esperto quanto pensa. Não leve para o lado pessoal, estamos todos nessa – incluindo Einstein e Stephen Hawking.

É que nossos cérebros estão cheios de noções preconcebidas e padrões de pensamento que nos influenciam sem que percebamos. Como explica o livro “Você não é tão esperto quanto pensa”, do jornalista David McRaney (Editora Leya), somos cheios de crenças que parecem boas no papel, mas desmoronam na prática – e, mesmo quando elas desmoronam, nós tendemos a não notar. Temos esse desejo profundo de estarmos sempre certos e nos vermos sob uma luz positiva em termos morais e comportamentais – e isso norteia em muito a forma como a nossa mente funciona. Quer ver como? Leia dois exemplos tirados do livro:

1. A ideia errada: “Minhas opiniões são o resultado de anos de análise racional de objetiva dos fatos”.

A verdade: Suas opiniões são resultado de anos em que você prestou atenção a informações que confirmavam o que você acreditava. :/

Imagine a situação: você está de bobeira em casa e, em vez de ficar navegando para sempre pelo catálogo do Netflix, resolve realmente assistir a um filme e escolhe algum clássico oitentista, tipo “Os goonies”. Você vê e, no dia seguinte, encontra por acaso um texto que faz alguma referência ao filme. Coincidência engraçada, justo agora. Dois dias depois, vê um comercial na TV dizendo que vão exibir o filme naquela tarde. Eita. Para completar, um amigo seu, que não sabia que você havia assistido ao filme nos últimos dias, posta no Facebook uma matéria que fala sobre um dos atores que estavam lá. Gente, será que é o universo tentando te mandar uma mensagem? Seria legal (e estranho), mas não. Trata-se simplesmente de um negócio chamado “viés da confirmação”.

Você lê vários textos fazendo referência a várias coisas todos os dias, o Facebook está lotado de posts com notícias sobre pessoas famosas, os canais de TV estão sempre transmitindo algum filme. Mas, porque “Os goonies” estava na sua cabeça, você estava mais sensível a coisas que lhe fizessem referência e descartou as outras. Antes disso, você provavelmente passou várias vezes por conversas e textos e vídeos que mencionassem algo relacionado ao filme, mas na época tudo passou despercebido.

Algo parecido acontece em relação a outros temas – incluindo os que envolvem ideologias. É por causa desse viés que teorias da conspiração se mantêm: se você procurar APENAS provas de que o homem não foi à Lua, que a Avril Lavigne e a Anitta morreram e foram substituídas ou que o governo federal tem um plano de ocupação comunista no país, você vai encontrar.

Essa tendência também foi a responsável por fazer com que os apoiadores de Barack Obama comprassem livros que o retratavam de uma forma positiva durante a época da eleição presidencial norte-americana de 2008, enquanto aqueles que não o curtiam compraram livros que o mostravam de uma forma negativa. O pesquisador Valdis Krebs chegou a essa conclusão analisando tendências de compras na Amazon e o comportamento de pessoas nas redes sociais, e continuou o estudo por anos, chegando à conclusão de que as pessoas compravam livros para ter a confirmação de suas ideias, não para obter novas. A tendência dos humanos é querer estar certo sobre como veem o mundo, então procuram informações que confirmam suas crenças e evitam provas e opiniões que as contradizem.

Confirmando isso, um estudo de 2009 da Universidade de Ohio mostrou que pessoas passam 36% mais tempo lendo um ensaio se ele se alinha com sua opinião. Em outras palavras, prestamos mais atenção a materiais que validem nossa visão de mundo – até que ficamos tão confiantes dela que ninguém consegue nos fazer mudar de ideia. E isso é bem ruim. “Na ciência, você se aproxima mais da verdade ao procurar evidências contrárias. O mesmo método talvez devesse ser usado para formar suas opiniões”, diz David McRaney.

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2. A ideia errada: Você entende como o mundo funciona baseando-se em estatísticas e fatos selecionados a partir de muitos exemplos.

A verdade: Sentimos informar, mas a sua visão de mundo não foi construída de forma tão ciente e cuidadosa. Na verdade, você é mais propenso a acreditar que algo é senso comum se puder encontrar só um exemplo disso e muito menos propenso a acreditar em algo que nunca viu antes.

Essa tendência se chama “heurística da disponibilidade” e é bastante usada por políticos, como quando eles contam, em um discurso, alguma anedota envolvendo uma situação que é familiar aos ouvintes. Ao fazer isso, eles estão apostando que aqueles que os ouvem entenderão esse exemplo como um indicativo de que existem muitos outros casos semelhantes.

É o mesmo princípio que faz as pessoas acharem, logo após algum caso envolvendo um atirador em uma escola, por exemplo, que isso virou uma espécie de “epidemia” – e faz com que os pais ignorem que seus filhos têm três vezes mais chance de serem atingidos por um raio do que receber um tiro de um colega. Na época em que aconteceu o caso de Columbine, uma pesquisa feita por Barry Glassner, autor do livro “Cultura do Medo”, mostrou que a violência nas escolas tinha caído 30% e que era mais fácil um estudante levar um tiro antes desse caso acontecer. Mas ninguém deu atenção a isso, já que haviam acabado de testemunhar a tragédia. A frase “só acredito vendo” também está relacionada à heurística da disponibilidade. Ter visto ou ouvido um caso que comprove uma ideia torna você muito mais propenso a adotá-la do que ler por alto outros 10 fatos distantes que provem o contrário. “Você não pensa em estatísticas, pensa em exemplos, em histórias”, escreve David McRaney.

Essa tendência foi apontada em 1973, no estudo dos pesquisadores Amos Tverksy e Daniel Kahneman. Os voluntários ouviram uma gravação com nomes de homens sendo ditos em voz alta, sendo 19 deles de pessoas famosas e 20 de desconhecidos. O estudo foi repetido depois com nomes de mulheres. Depois, eles tiveram de lembrar o máximo de nomes possível ou identificá-los a partir de um banco de palavras. Cerca de 66% das pessoas se lembraram dos nomes de pessoas famosas com maior frequência que os nomes desconhecidos e 80% disseram que a lista tinha mais nomes de famosos do que de não-famosos. Para os autores, isso mostrou que, quanto mais disponível estiver a informação, mais rápido você a processa e, assim, mais acredita nela e maior sua tendência a ignorar outras informações que a contradigam.

 

 


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