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Duas ideias erradas que você tem sobre sua capacidade de julgamento

27 de março de 2014

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A gente pode admitir que é ruim em esporte, que não tem o menor talento musical ou que tem gosto duvidoso para escolher roupas, mas uma qualidade dificilmente abriríamos mão de defender sem falsa modéstia: nossa inteligência. Se você concorda com isso, leitor, este post pode abalar um pouco suas estruturas. Porque ele tem o objetivo de provar que você não é tão esperto quanto pensa. Não leve para o lado pessoal, estamos todos nessa – incluindo Einstein e Stephen Hawking.

É que nossos cérebros estão cheios de noções preconcebidas e padrões de pensamento que nos influenciam sem que percebamos. Como explica o livro “Você não é tão esperto quanto pensa”, do jornalista David McRaney (Editora Leya), somos cheios de crenças que parecem boas no papel, mas desmoronam na prática – e, mesmo quando elas desmoronam, nós tendemos a não notar. Temos esse desejo profundo de estarmos sempre certos e nos vermos sob uma luz positiva em termos morais e comportamentais – e isso norteia em muito a forma como a nossa mente funciona. Quer ver como? Leia dois exemplos tirados do livro:

1. A ideia errada: “Minhas opiniões são o resultado de anos de análise racional de objetiva dos fatos”.

A verdade: Suas opiniões são resultado de anos em que você prestou atenção a informações que confirmavam o que você acreditava. :/

Imagine a situação: você está de bobeira em casa e, em vez de ficar navegando para sempre pelo catálogo do Netflix, resolve realmente assistir a um filme e escolhe algum clássico oitentista, tipo “Os goonies”. Você vê e, no dia seguinte, encontra por acaso um texto que faz alguma referência ao filme. Coincidência engraçada, justo agora. Dois dias depois, vê um comercial na TV dizendo que vão exibir o filme naquela tarde. Eita. Para completar, um amigo seu, que não sabia que você havia assistido ao filme nos últimos dias, posta no Facebook uma matéria que fala sobre um dos atores que estavam lá. Gente, será que é o universo tentando te mandar uma mensagem? Seria legal (e estranho), mas não. Trata-se simplesmente de um negócio chamado “viés da confirmação”.

Você lê vários textos fazendo referência a várias coisas todos os dias, o Facebook está lotado de posts com notícias sobre pessoas famosas, os canais de TV estão sempre transmitindo algum filme. Mas, porque “Os goonies” estava na sua cabeça, você estava mais sensível a coisas que lhe fizessem referência e descartou as outras. Antes disso, você provavelmente passou várias vezes por conversas e textos e vídeos que mencionassem algo relacionado ao filme, mas na época tudo passou despercebido.

Algo parecido acontece em relação a outros temas – incluindo os que envolvem ideologias. É por causa desse viés que teorias da conspiração se mantêm: se você procurar APENAS provas de que o homem não foi à Lua, que a Avril Lavigne e a Anitta morreram e foram substituídas ou que o governo federal tem um plano de ocupação comunista no país, você vai encontrar.

Essa tendência também foi a responsável por fazer com que os apoiadores de Barack Obama comprassem livros que o retratavam de uma forma positiva durante a época da eleição presidencial norte-americana de 2008, enquanto aqueles que não o curtiam compraram livros que o mostravam de uma forma negativa. O pesquisador Valdis Krebs chegou a essa conclusão analisando tendências de compras na Amazon e o comportamento de pessoas nas redes sociais, e continuou o estudo por anos, chegando à conclusão de que as pessoas compravam livros para ter a confirmação de suas ideias, não para obter novas. A tendência dos humanos é querer estar certo sobre como veem o mundo, então procuram informações que confirmam suas crenças e evitam provas e opiniões que as contradizem.

Confirmando isso, um estudo de 2009 da Universidade de Ohio mostrou que pessoas passam 36% mais tempo lendo um ensaio se ele se alinha com sua opinião. Em outras palavras, prestamos mais atenção a materiais que validem nossa visão de mundo – até que ficamos tão confiantes dela que ninguém consegue nos fazer mudar de ideia. E isso é bem ruim. “Na ciência, você se aproxima mais da verdade ao procurar evidências contrárias. O mesmo método talvez devesse ser usado para formar suas opiniões”, diz David McRaney.

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2. A ideia errada: Você entende como o mundo funciona baseando-se em estatísticas e fatos selecionados a partir de muitos exemplos.

A verdade: Sentimos informar, mas a sua visão de mundo não foi construída de forma tão ciente e cuidadosa. Na verdade, você é mais propenso a acreditar que algo é senso comum se puder encontrar só um exemplo disso e muito menos propenso a acreditar em algo que nunca viu antes.

Essa tendência se chama “heurística da disponibilidade” e é bastante usada por políticos, como quando eles contam, em um discurso, alguma anedota envolvendo uma situação que é familiar aos ouvintes. Ao fazer isso, eles estão apostando que aqueles que os ouvem entenderão esse exemplo como um indicativo de que existem muitos outros casos semelhantes.

É o mesmo princípio que faz as pessoas acharem, logo após algum caso envolvendo um atirador em uma escola, por exemplo, que isso virou uma espécie de “epidemia” – e faz com que os pais ignorem que seus filhos têm três vezes mais chance de serem atingidos por um raio do que receber um tiro de um colega. Na época em que aconteceu o caso de Columbine, uma pesquisa feita por Barry Glassner, autor do livro “Cultura do Medo”, mostrou que a violência nas escolas tinha caído 30% e que era mais fácil um estudante levar um tiro antes desse caso acontecer. Mas ninguém deu atenção a isso, já que haviam acabado de testemunhar a tragédia. A frase “só acredito vendo” também está relacionada à heurística da disponibilidade. Ter visto ou ouvido um caso que comprove uma ideia torna você muito mais propenso a adotá-la do que ler por alto outros 10 fatos distantes que provem o contrário. “Você não pensa em estatísticas, pensa em exemplos, em histórias”, escreve David McRaney.

Essa tendência foi apontada em 1973, no estudo dos pesquisadores Amos Tverksy e Daniel Kahneman. Os voluntários ouviram uma gravação com nomes de homens sendo ditos em voz alta, sendo 19 deles de pessoas famosas e 20 de desconhecidos. O estudo foi repetido depois com nomes de mulheres. Depois, eles tiveram de lembrar o máximo de nomes possível ou identificá-los a partir de um banco de palavras. Cerca de 66% das pessoas se lembraram dos nomes de pessoas famosas com maior frequência que os nomes desconhecidos e 80% disseram que a lista tinha mais nomes de famosos do que de não-famosos. Para os autores, isso mostrou que, quanto mais disponível estiver a informação, mais rápido você a processa e, assim, mais acredita nela e maior sua tendência a ignorar outras informações que a contradigam.

 

 


Guia prático (que realmente funciona) para ter uma rotina mais produtiva

14 de fevereiro de 2014

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Os comentários que recebi no post anterior mostraram que muita gente está passando pelo mesmo problema: temos muitas ideias e vontade de fazer muitas coisas, mas não conseguimos nos organizar para concretizá-las. Daí pode vir a insatisfação com o trabalho e/ou com a vida. Nem sempre conseguimos entender de primeira, mas é bem possível que ela tenha menos a ver com questões existenciais e mais com o fato de não conseguirmos nos organizar o suficiente para traçar metas e cumpri-las. E é comum culparmos fatores externos – temos muita coisa pra fazer em pouco tempo, a empresa em que trabalhamos é pequena demais e não permite experimentalismos, a empresa em que trabalhamos é grande demais e não permite experimentalismos, nossos amigos, familiares e namorado (a) nos cobram atenção demais etc.

Mas, como não existem lugar e situação perfeitos e ainda assim sabemos que há pessoas sendo produtivas por aí, podemos concluir que a solução é muito mais pessoal e talvez precisemos parar de reclamar e tomar responsabilidade pelo que está acontecendo. Isso é o que defende o livro “Manage your day-today: Build your routine, find your focus and sharpen your creative mind” (Amazon Publishing). Editado por Jocelyn Glei, editora-chefe do projeto 99U, o livro traz contribuições de várias pessoas conhecidas por serem eficientes em fazer as coisas acontecerem.

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Destaco, a seguir, alguns pontos para ajudar você a construir uma rotina produtiva (e que têm funcionado para mim):

Passo 1: Diferencie trabalho reativo de trabalho criativo
Esse é um conceito importante que faz toda a diferença se você quer organizar seu tempo. Um dos maiores (e mais comuns) erros que cometemos é colocar todas as tarefas no mesmo saco e tratá-las da mesma forma – ou, no máximo, separá-las por ordem de importância. O problema é que essa importância, de modo geral, é ditada por outros – pelos e-mails, mensagens e pedidos que recebemos. A ideia aqui é diferenciar o que é trabalho reativo (tarefas mais simples que envolvem responder ou reagir a pedidos) do que é trabalho criativo (aquele que exige mais de nossa capacidade e realmente nos desafia e anima).

Passo 2: Não desperdice seu período de melhor energia e concentração com trabalhos reativos

Depois de fazer essa separação de tarefas, é hora de mudar o tratamento dado a elas. Pode ser tentador começar o dia com as tarefas mais bobas para poder riscar itens de sua lista, mas, fazendo isso, você usa a melhor parte do seu tempo e de sua energia com as demandas de outras pessoas e com trabalhos mais mecânicos que não vão te acrescentar nada. Quando você finalmente estiver livre para fazer as suas coisas, seu nível de energia já estará baixo e você produzirá pouco (ou nada). E aí a frustração só vai crescer. Em outras palavras, é melhor começar o dia escrevendo aquele texto legal e deixar para ver o que tem de novo no Facebook mais tarde, por exemplo – porque a gente bem sabe que, nas redes sociais, um post leva a outro post, que leva a um link, que leva a um vídeo, e quando você percebe já desperdiçou vários minutos de energia e concentração com coisas inúteis.

Contando sobre como essa mudança o transformou de um escritor frustrado a um escritor produtivo, Mark McGuinness, um dos colaboradores do livro, escreveu:

 

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Ele admite que não é fácil deixar as pessoas esperando, mas não se deve abrir mão desse tempo só seu. “É melhor desapontar algumas pessoas em pequenas coisas do que renunciar aos seus maiores sonhos e seu potencial só pra ter uma caixa de e-mail vazia”, completa. Isso pode exigir mudanças, como chegar mais cedo ao trabalho para aproveitar o tempo silencioso antes de o pessoal todo chegar, por exemplo. Ou simplesmente avisar seus colegas de que não pode ser incomodado durante determinado período. Veja o que funciona melhor para você.

 

Passo 3 – Tenha um ritual

Eis um conselho meio clichê que funciona. Ter um ritual faz com que sua mente se acostume a associá-lo ao trabalho criativo e ficará cada vez mais fácil se concentrar. O livro menciona o ritual do escritor Stephen King:

 

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Passo 4 – Anote seus compromissos

Anote cada compromisso que firmar com você mesmo ou com outros e deixe num lugar fácil de ver. A ideia aqui não é fazer com que você se sinta pressionado pelo número de tarefas, mas sim lhe dar a tranquilidade de saber que não está esquecendo nada. Assim, poderá se concentrar na tarefa que está em suas mãos no momento com a consciência tranquila.

 

Passo 5 – Estabeleça horários fixos para começar e terminar os trabalhos. Ser workaholic não é sinônimo de ser produtivo

É importante ter um horário fixo para começar e terminar os trabalhos mesmo se você trabalha em casa. Separe seu dia de acordo com o tipo de trabalho: uma parte só para o criativo, outra para reuniões, outra para troca de mensagens, trabalho administrativo etc. Isso evita que as tarefas menos importantes levem mais tempo do que o necessário e evita que você se torne um workaholic, que é bem menos produtivo do que parece – sua capacidade é limitada e você precisa de descanso. Acredite: você está trabalhando menos a favor da sua produtividade quando almoça em 15 minutos e corre pra voltar ao trabalho do que se usasse um tempo maior para comer com calma, caminhar, conversar com os amigos. Além disso, parar por uns cinco ou dez minutos a cada ciclo de 90 minutos de trabalho é uma necessidade do seu corpo, não um luxo. E jamais sacrifique suas horas de sono – mesmo uma pequena privação já pode afetar consideravelmente sua capacidade cognitiva. Manter uma rotina saudável de sono é a melhor coisa que você pode fazer pela sua produtividade.

 

Passo 6 – Seja constante. E não espere por inspiração – apenas faça.

Depois de diferenciar o tratamento aos trabalhos reativos e criativos, eis o conselho mais importante desta lista. Nós temos a tendência a superestimar o que podemos fazer em um período curto de tempo e subestimar o que podemos fazer em um longo período se trabalharmos consistentemente, sem esperar até que se sinta inspirado. Mas a verdade é que, se você fizer uma tarefa todos os dias, mesmo que por um curto período diário, vai realizar muito mais e melhor. Em longo prazo, a frequência aumenta tanto a produtividade quanto – pasmem – a criatividade e a inspiração. É de novo aquela história do post anterior de aprender a dominar a sua própria mente.

A escritora Gretchen Rubin, autora de “The Happiness Project” e uma das colaboradoras do livro, é uma entusiasta dessa ideia e um de seus lemas é “O que eu faço todos os dias importa mais do que aquilo que eu faço de vez em quando”. Ela listou algumas razões por que trabalhar um pouquinho todo dia naquele seu projeto do coração <3 (escrevendo, no caso dela) vale a pena:

- A frequência faz com que começar o trabalho fique mais fácil. Vira um hábito, algo natural. Fora que a coisa está sempre fresca na sua cabeça e você não se sente distante do seu projeto, tendo que recapitular o que já fez e aonde quer chegar.

- A frequência torna mais fácil ter ideias e mais raro ter bloqueios. Quando estamos profundamente ligados a alguma coisa, tudo parece ter relação com ela e você fica mais propenso a ter ideias originais.

- A frequência diminui a sua insegurança. A lógica é simples: se você só vai escrever uma página ou post ou o que for por semana, você espera que o resultado seja ótimo, e começa a ficar inseguro em relação à qualidade do seu trabalho e à sua própria capacidade. Assim, torna-se mais crítico de si mesmo e acaba produzindo menos. “Como eu escrevo todos os dias, nenhum dia é particularmente importante. Eu tenho dias bons e ruins. Alguns dias eu não consigo fazer muita coisa, mas tudo bem porque eu sei que estou trabalhando de uma forma consistente. Minha consequente falta de ansiedade me deixa mais relaxada e me permite experimentar e arriscar. Se algo não funciona como eu gostaria, eu tenho tempo suficiente para tentar de outra forma”, diz Gretchen.

- A frequência melhora a qualidade do seu trabalho. Trabalhar um pouco todos os dias em um projeto, estando inspirado ou não, lhe dará tempo para aperfeiçoar o que já fez.

- A frequência aumenta a produtividade – não só porque você está fazendo algo todos os dias, mas porque torna todo o processo mais fácil e prazeroso. Nada é mais prazeroso do que se ver caminhando em direção a um grande objetivo: perceber que estamos fazendo progresso é inspirador e confortante; ficar parado no mesmo lugar, por outro lado, é desanimador. E a ansiedade da procrastinação às vezes é desesperadora. Nesses casos, a frequência parece ser o melhor remédio.

 


O que a série Girls diz sobre a dificuldade de organizar a vida

31 de janeiro de 2014

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A estreia da terceira temporada da série Girls, da HBO, casou muito bem com uma das minhas resoluções para este ano (promessa de Ano-Novo pode ser brega, mas é útil, gente). Desta vez minha lista ficou bem pequena, mas inclui mudanças que terão um impacto considerável no meu dia a dia. Uma delas envolve construir uma rotina mais produtiva, dificuldade que tenho observado em muita gente.

O que Girls tem a ver com isso? Hannah, a personagem principal, encarna muito bem (e extrapola muitas vezes) várias características irritantes dos Millennials (vulgo nós, o pessoal que nasceu entre 1980 e 2000, está conectado à internet 24/7, vive de oversharing nas redes sociais e adora tecnologia). Ela é egocêntrica, um tanto egoísta, se acha especial, é meio preguiçosa e acha que a sua vida (e a dos que a rodeiam) é um grande esboço de um livro que ela, sendo a voz de sua geração, vai transformar em uma obra-prima. No segundo episódio da terceira temporada (calma, não tem spoiler aqui, por enquanto), parte para uma viagem de carro com o namorado Adam e a amiga esquisita Shoshanna achando que vai ser algum tipo de jornada inspiradora sobre a qual vai escrever depois, mas logo se cansa e desanima reclamando que aquilo está sendo banal demais e “igual a outras viagens já vistas em diversas mídias”. No entanto, ela se recusa a participar da exploração que Adam, ~~aventureiro~~, decide fazer ao bosque próximo à estrada e literalmente prefere ficar deitada sobre o chão recoberto de folhas ouvindo um programa cultural de rádio no seu iPhone.

E é isso o que mais me chama atenção nela, essa atitude “estou insatisfeita, mas prefiro ficar aqui deitada”. Quem nunca fez isso em algum momento? Bom, eu já. E eu me justificava da mesma forma que ela: pelo menos estou me alimentando de cultura, ouvindo um podcast, lendo um bom livro ou algo do tipo. Não é necessariamente preguiça nem falta de vontade. Quem viu a temporada anterior acompanhou o martírio que Hannah viveu tentando lidar com a ansiedade aterradora que a tomou quando alcançou um de seus maiores sonhos: ser convidada a escrever um livro. Ela própria foi sua pior inimiga e não conseguia se concentrar para escrever uma única linha. A ansiedade deu lugar a um transtorno obsessivo-compulsivo e ela entrou em colapso.

No primeiro episódio desta temporada nova (agora sim tem um pequeno spoiler), ela já conseguiu virar o jogo e seu editor, que havia ameaçado processá-la por não cumprir o contrato, aparece se derretendo em elogios pelo seu trabalho. E ela conclui, satisfeita: “Minha única limitação é minha própria mente. E eu tenho as chaves para a prisão que é a minha mente”.

Fim do spoiler.

O fato é que estamos todos muito propensos a virarmos, em maior ou menor grau, prisioneiros da nossa própria mente. Se nos deixarmos ficar ruminando demais certos pensamentos, podemos facilmente ser consumidos pela insegurança ou até pela inveja (o Facebook e o Instagram só tem gente feliz e bem-sucedida, né?), amargura ou desespero. E aí, se a gente não pirar como a Hannah, pode entrar num estado de apatia mais discreto, mas com um efeito avassalador a longo prazo: o de passar boa parte da vida só existindo em um estado morno e sem concretizar nenhum grande objetivo. Isso me faz lembrar de um discurso que o falecido escritor americano David Foster Wallace, um de meus preferidos, proferiu para uma turma de formandos nos Estados Unidos há alguns anos. Parte dele dizia:

 

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Felizmente, a maioria de nós provavelmente não vai pirar e resolver perfurar os tímpanos com um cotonete e picotar o próprio cabelo como a Hannah – até porque ela tem um transtorno psiquiátrico, o que torna tudo mais complicado. Mas vê-la nesta série sempre me faz pensar sobre o risco de virarmos reféns das limitações que nós mesmos criamos (ou intensificamos) e, assim, de ficarmos apáticos demais para estabelecer objetivos e ir atrás deles. Daí, talvez, venha boa parte da nossa insatisfação com a vida.

E a causa nem precisa ser tão dramática: podemos ficar à deriva por simplesmente nos rendermos ao excesso de estímulos e informações que a vida conectada nesse esquema 24/7 proporciona. Ficamos à mercê de tudo o que está em nossa volta – menos o que realmente importa: nossos objetivos e preferências verdadeiras. Muitas vezes, o problema não é não ter ideias – é ter ideias demais e não saber por onde começar. Ou ter medo de não fazer algo bom o bastante com elas.

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Parece-me que uma das grandes dificuldades não só dos Millennials, mas das pessoas em geral, e em especial aquelas com trabalhos ligados à criatividade, é conseguir organizar e cumprir uma rotina realmente produtiva – não no sentido coxinha/corporativo do termo, mas num sentido de realização pessoal. Antes de achar que a solução para a sua vida está em largar tudo e recomeçar uma vida nova do zero, talvez valha a pena parar para avaliar como você está fazendo as coisas hoje e se algumas mudanças menos drásticas não poderiam resolver seus problemas.

Este post foi só uma reflexão – e quero pedir a opinião de vocês sobre o assunto (quem quiser só conversar sobre a série é super bem vindo também). Mas o da semana que vem vai trazer dicas de profissionais conhecidos mundialmente por saberem muito sobre produtividade – e que têm funcionado para mim.


Seja paciente: as pessoas levam, em média, dois anos para sair de vez da fossa

16 de janeiro de 2014

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Este blog curte apontar conselhos errados que as pessoas dão, mas o post de hoje é sobre um que, apesar de às vezes odiarmos ouvir, está certíssimo, segundo especialistas: o tempo cura tudo. Tá, não é um conselho, mas geralmente vem acompanhado de um “calma, cara”, o que, a partir de agora, podemos tomar como um conselho muito sábio.

O Wall Street Journal entrevistou psicólogos, psiquiatras e outros pesquisadores e chegou à conclusão, neste texto, de que o tempo médio para a maioria das pessoas se recuperarem de um trauma emocional como o fim de um relacionamento ou a perda de um emprego é de 730 dias (ou dois anos). E, se essa perda foi completamente inesperada, o tempo pode ser até maior.

Dois anos. Pode parecer um tempo longo demais, especialmente para quem acabou de sofrer o baque. Mas, como diz o texto, é bom saber quanto essa crise emocional vai durar porque, uma vez superado o choque de descobrir que será um processo longo, você pode relaxar e parar de se sentir pressionado para ficar bem. É libertador saber que você não é um oTÁrIO por estar sofrendo por um tempo maior do que gostaria (ou maior do que seus amigos gostariam de aturar). E parar de ser duro consigo mesmo é uma das coisas mais importantes ao lidar com crises.

Isso derruba aquele mito bizarro de que as pessoas levam metade do tempo que durou o relacionamento para superar o seu fim. Não se sinta culpado se você está sofrendo há seis meses pelo fim de um namoro que durou seis semanas. “É perfeitamente normal, dizem os especialistas, se sentir deprimido, ansioso e distraído durante esse tempo – ou em outras palavras, estar uma bagunça emocional. (Mas superar a morte de uma pessoa amada é mais complicado e geralmente leva mais que dois anos).”, diz o texto. A “bagunça emocional” inclui a crise de identidade que geralmente acompanha esse período de choque e recuperação. Não significa que você vai passar dois anos chorando numa mesa de bar ou tomando sorvete enquanto assiste a filmes ruins no Netflix. Significa que é um período em que você começa a se reavaliar e se adaptar a rotina e planos novos, o que não é nada fácil.

Ok, mas o que fazer até lá? Os especialistas aconselham: evite mudanças drásticas e permanentes, tipo largar tudo e mudar de cidade ou fazer uma tatuagem (especialmente fazer uma tatuagem). E não é uma boa hora para tentar começar um relacionamento novo. Ignorar o processo, negá-lo ou apressá-lo só vai adiar uma crise que vai chegar de qualquer jeito. Terapia pode ajudar. E estabelecer novas metas é essencial. Ainda é janeiro e o carnaval está longe pra gente poder dizer que o ano já começou de verdade, então dá tempo de fazer (e começar logo a cumprir, é claro) umas resoluções realistas que te ajudem a fazer de 2014 um ano legendary apesar da fossa (li em algum lugar que “legendary” devia ficar em 2013, mas ainda é janeiro e o carnaval está longe etc.). 


Aprender uma segunda língua ajuda a retardar em quase cinco anos o surgimento de demência

8 de novembro de 2013

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Quer manter seu cérebro são e eficiente por muito tempo? Aprender uma segunda língua pode ser uma boa. Pesquisadores da Universidade de Edimburgo (Reino Unido) e do Instituto de Ciências Médicas de Nizam em Hyderabad (Índia) descobriram que falar mais de uma língua ajuda a retardar em quase cinco anos o surgimento de demência – e se mostrou mais eficiente do que o efeito de remédios.

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores acompanharam quase 650 pessoas com demência na Índia, das quais 60% eram bilíngues. Aquelas que falavam mais de uma língua desenvolveram a doença 4,5 anos mais tarde que a média daqueles que só falavam uma (aos 65 anos, contra 61). O atraso variava entre três anos para a doença de Alzheimer e seis anos para a demência frontotemporal.

E a vantagem de ser bilíngue valia inclusive para pessoas analfabetas que não haviam frequentado a escola, o que indica que o efeito não é causado por diferenças na educação formal. Além disso, quem falava mais de duas línguas não teve vantagens sobre quem falava apenas duas.

Outras pesquisas haviam apontado educação, gênero, ocupação e local de moradia (se a pessoa vive no campo ou cidade) como fatores que poderiam influenciar o aparecimento da demência. Este, no entanto, foi o maior estudo a medir o impacto exclusivo do bilinguismo em relação à doença.

Exercício cerebral

Os pesquisadores acreditam que as trocas entre diferentes sons, palavras, conceitos, estruturas gramaticais e normas sociais que os falantes de duas ou mais línguas diferentes precisam fazer acabam sendo uma forma natural de treinamento do cérebro, provendo uma espécie de “reserva cognitiva” que tende a ser mais eficaz do que qualquer treino artificial, como jogos e outros exercícios. Mas outros estudos são necessários para que se entenda melhor como isso acontece.

“Estes resultados sugerem que o bilinguismo pode ter uma influência mais forte sobre a demência do que as drogas atualmente disponíveis. Por isso, o estudo da relação entre bilinguismo e cognição é uma das nossas prioridades agora”, disse Thomas Bak, da Universidade de Edimburgo.

(Via PsyPost)

 


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