Como a mitologia e o feminismo fizeram de Mad Max: Estrada da Fúria o melhor filme de ação do ano

Por Atualizado em 13/05/2015

De Los Angeles

Quando Max Rockatansky pisou nos desertos de uma Austrália futurista pela última vez, ficção científica ainda era coisa de nerd e o público ainda não entendia muito bem essa coisa de universo pós-apocalíptico. Um ano antes, Duna, inspirado no clássico da literatura sci-fi, havia fracassado nas bilheterias. Mas Max resistia, apesar do ambiente hostil que encontrava dentro e fora da tela. Em 1985, o terceiro filme da série estreou, fechando a trilogia que ajudou a moldar um tipo diferente de ficção científica, a distopia. Nos anos 1980, também não havia muitas mulheres em papéis centrais em filmes de ação. Stallone, Van Damme e Schwarzenegger dominavam a indústria, Charles Bronson e Chuck Norris viviam no auge, enquanto astros como Mel Gibson e Harrison Ford corriam por fora. Ellen Ripley, personagem de Sigourney Weaver em Alien, era uma exceção. Três décadas depois, Max Rockatansky está de volta, de carona nas revoluções que ajudou a estabelecer no gênero. O mundo de Mad Max: Estrada da Fúria é uma distopia sólida completamente verossímil. E a protagonista do filme é uma mulher.

Depois de 120 minutos, ninguém vai negar. Furiosa, personagem de Charlize Theron, é quem guia a história. Literalmente. Vamos aos indícios.

Confira uma entrevista exclusiva com Charlize Theron

Logo na primeira cena, narrada em off por Tom Hardy com aquela voz de Bane, Max é alvo de uma perseguição implacável que curiosamente dura muito pouco. Ele é capturado, seus cabelos são cortados e seu carro, desmembrado. A princípio, não dá pra saber quem são os homens branquelos que estão no encalço do herói – nem mesmo dá pra sacar se eles são bons ou ruins. Mas a resposta logo vem quando esse cara aparece:

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– Sou bonzinho, juro!

Pois então. Esse é o Immortan Joe, um tirano que controla uma tribo num lugar em que água, gasolina e armamento são preciosidades. Na primeira hora de filme, dá para entender mais ou menos o funcionamento da hierarquia da tribo. Mas não espere uma explicação literal, porque no meio de tantas perseguições, ninguém vai ter tempo de parar e te contar exatamente o que está acontecendo. Aliás, tentar compreender a complexidade da tribo é uma parte importante da experiência. Então, vamos falar só do básico. Immortan Joe e seu povo moram num pequeno oásis no deserto. Na montanha que ele usa como palácio real há uma nascente de água que ele só abre de vez em quando para mostrar como é um líder bondoso. Enquanto isso, milhares de pessoas vivem em condições péssimas, enquanto os warboys (os tais branquelos do início) são uma raça criada especificamente para o trabalho e para a guerra (óbvio). A tribo de Immortan Joe tem uma relação comercial com os grupos vizinhos. No início do filme, há um comboio saindo da tribo em direção a uma outra cidade, em busca de armas e gasolina. Furiosa está no comando dessa missão – mas o que ela realmente quer fazer, Immortan Joe só vai descobrir tarde demais. Escondidas no veículo de guerra de Furiosa estão as Cinco Esposas, moças bonitas que Immortan Joe usa como parideiras e escravas sexuais.

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Indignada com essa situação, Furiosa quer levá-las para longe do tirano. E essa missão secreta é, obviamente, o grande plot do filme.

Sentiu falta de alguma coisa? Pois é, dá pra explicar toda a premissa sem nem falar de Max Rockatansky. E não tem nenhum problema nisso.

 

Mulheres no volante

O nome do filme ainda é Mad Max. Então, é claro que, eventualmente, Max se torna uma peça chave no plano de fuga de Furiosa, principalmente quando a cidade inteira descobre que ela traiu Immortan Joe e um milhão de carros de guerra (muito incríveis, por sinal!) passam a persegui-la. Mas a motivação de Furiosa é muito mais importante do que as proezas que Max faz no volante ou empunhando armas. Ela quer livrar cinco moças que viveram uma vida inteira de abuso e privação. E para onde ela quer levá-las? Para uma mítica cidade onde as mulheres estão no comando.

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Os sinais da luta feminista estão por toda parte. A primeira vez em que as esposas de Immortan Joe aparecem de corpo inteiro, estão as cinco de pé, iluminadas pelo pôr do Sol, com roupas curtas e movimentando-se em câmera lenta. Puro fetiche, o que reflete a situação de objetificação com a qual essas moças (e tantas outras do mundo real) estão acostumadas. Mas essa imagem é desconstruída rapidinho. No terceiro ato (calma, não tem spoiler), as mesmas moças se convencem de que não há motivos para voltar para a vida de exploração, empunham armas e lutam como podem pela independência. Começam seminuas, terminam vestidas. Ver mulheres mais velhas, de cabelos brancos, lutando de igual para igual com fortões é, por si só, uma pequena vitória do cinema.

“Uma a cada três mulheres no mundo será estuprada ou agredida ao longo da vida – é um tema central do nosso tempo, e a violência contra mulheres tem a ver com injustiça econômica e racial. Esse filme encara de frente esses assuntos”, disse à revista Time a ativista feminista Eve Ensler, autora da internacionalmente famosa peça ‘Monólogos da Vagina’. Ensler foi convidada por George Miller a visitar o local de filmagens do filme na Namíbia e contribuir para o tratamento dos assuntos femininos no roteiro. Dá pra ver a diferença que a participação dela fez.

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– Não tô aqui pra enfeitar o filme!

Colocar o personagem-título em segundo plano, no banco do passageiro, é uma sacada tão genial quanto necessária. Desde que o feminismo começou a receber mais atenção dos produtos pop (tipo shows da Beyoncé), uma porção bem significativa de homens, sobretudo jovens, começaram a torcer ainda mais o nariz pras moças que levantam a voz em busca de igualdade de direitos e oportunidades. Tanto que várias artistas começaram a negar que são “feministas” só porque acham o termo “forte demais” ou por considerar que não são feministas porque não “odeiam os homens”. Mas odiar homens não tem a ver com feminismo, e George Miller sabe disso. Falar de temas feministas no reboot de uma franquia que cheira a gasolina e pólvora sem nem mesmo citar o termo “feminismo” é um grande serviço social. Ao longo do filme, Max perde o cabelo, o carro, o sangue, o protagonismo – e tantos outros símbolos de virilidade. Mesmo assim, continua sendo um herói corajoso e habilidoso. Max não é menos homem por acreditar na causa de Furiosa. E ninguém na plateia será menos homem por gostar de um roteiro que resiste à tentação de tornar Furiosa e Max um casal ou de mostrar a protagonista feminina de um jeito sensual.

(A gente sabe: o envolvimento de homens na causa feminista às vezes é uma questão delicada para quem levanta as bandeiras. E a necessidade de incluir uma questão tão séria num filme normalmente associado ao universo masculino e dirigido por um homem pode ser um pouco desconfortável para as mulheres, que não precisam de mais um herói para salvá-las do perigo. Mas se Furiosa se tornar a Ripley do nosso tempo – o que é bem possível que aconteça – estaremos todos um passinho mais perto da igualdade de direitos e oportunidades no cinema hollywoodiano.)

 

A obra prima de George Miller

Um tema tão importante talvez perdesse força nas mãos de outro diretor. Mas, além de tentar compreender o feminismo, George Miller também entende muito bem do mundo fictício que ele mesmo ajudou a criar décadas atrás. O Mad Max original, de 1979, foi o primeiro longa de sua carreira. Depois vieram outros filmes aclamados pela crítica, mas distantes de universos pós-apocalípticos. Lembra de Babe – O porquinho atrapalhado na cidade? É dele. As Bruxas de Eastwick, aquele clássico de humor negro? Também foi ele quem dirigiu. Mas, de alguma maneira, parece que toda a carreira do cineasta o levou até Mad Max: Estrada da Fúria. As marcas de autor estão lá: a fotografia exuberante e quase etérea, as explosões bem mais classudas do que as que Michael Bay costuma fazer, os diálogos curtíssimos e pouco literais que fazem a imaginação trabalhar.

Falando em imaginação, os elementos mitológicos da distopia são tão naturais que nem precisam de explicação. Diversos personagens secundários têm potencial para se tornarem clássicos nas sessões da tarde do futuro. No comboio que persegue Furiosa, um guitarrista mascarado bem doidão manuseia um misto de guitarra e lança-chamas que parece não ter nenhuma outra função a não ser enfeitar a tela e entreter o público infantil. Mas se você olhar bem, notará que cada detalhe – inclusive os mais bobos, servem para a construção iconográfica daquela sociedade. O solo de guitarra funciona como um grito de guerra ritualístico. Os mantras, os trejeitos, a maquiagem – tudo tem um propósito. A atitude de cada personagem reflete o funcionamento da sociedade. O melhor exemplo são os warboys. Ludibriados pela promessa de vida eterna no paraíso, estão dispostos a dar a vida em nome da guerra.

“George Miller nos deu tantos detalhes e tantas informações, que ficou muito fácil nos transportar para o mundo do filme no momento da filmagem”, disse o ator Nicholas Hoult em entrevista à SUPER, em Los Angeles. Hoult vive Nux, um dos warboys que por acaso se envolve na causa de Furiosa. A princípio, o personagem reluta: a lavagem cerebral pela qual passou funcionou bem. Mas, no convívio com os protagonistas, ele encontra em si uma humanidade que nem imaginava possível. Hoult defende a ingenuidade de Nux: “Num mundo em crise, onde falta água, as pessoas ficam desesperadas pela sobrevivência, dispostas a morrer em nome daquilo em que acreditam”, diz.

nux

Mad Max: Estrada da Fúria estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros. Não viu os três filmes anteriores? Não tem problema. Não é tarde demais para embarcar na franquia. Boa viagem.