
Uma das gigantes de comida fast-food dos EUA anunciou mudanças em sua cadeia de fornecimento de ovos e carne de porco. Em um prazo de cinco anos, a empresa não comprará carne de fornecedores que mantêm as porcas reprodutoras nas chamadas “celas de gestação” e as galinhas poedeiras (que têm por finalidade colocar ovos) em “gaiolas de bateria”.
A nova política da empresa prevê que 100% dos ovos utilizados nas lojas norte-americanas serão provenientes de galinhas criadas fora de gaiolas e a carne suína virá de fornecedores que tenham planos concretos de eliminar o uso das celas. Há algumas semanas, o McDonald’s também adotou medidas de pressão aos fornecedores de carne de porco.
Para entender um pouco melhor…
O que são as celas de gestação?
São baias individuais de metal de 60 centímetros de largura por 2 metros de comprimento em que as porcas grávidas são mantidas durante os quatro meses de gestação. Segundo a Humane Society Internacional (HSI), uma das maiores organizações de proteção animal do mundo, “as celas são tão pequenas que as porcas não conseguem sequer se virar dentro delas”. No Brasil, cerca de 1,5 milhões de animais são mantidos nestas condições.

(Foto: Gerson Sobreira)
O relatório O Bem-estar de Animais Confinados Intensivamente em Gaiolas em Bateria, Celas de Gestação e Gaiolas para Vitelo explica que porcas criadas neste sistema sofrem inúmeros problemas relacionados ao bem-estar, como elevado risco de infecção do trato urinário, ossos enfraquecidos, restrições comportamentais e estereotipias (ou “comportamentos estereotipados”: movimentos anormais, repetitivos e que aparentemente não têm qualquer função. Pesquisadores atribuem esses comportamentos ao tédio e frustração resultantes de um ambiente empobrecido, de confinamento, de imobilização e de necessidades não satisfeitas).
Além disso, normalmente as porcas urinam e defecam no mesmo lugar onde estão deitadas, devido ao tamanho da cela. “O piso de concreto é muitas vezes parcial ou totalmente ripado, concebido para permitir que os resíduos caiam através dele. Viver diretamente acima do poço de excremento pode expor as porcas a níveis aversivamente elevados de amônia e tem sido observado que as doenças respiratórias são um importante problema de saúde para os suínos mantidos em confinamento”, explica o relatório.
O que são as gaiolas em bateria?
São estruturas de arame onde são mantidas as galinhas poedeiras, que produzem ovos. As gaiolas, superlotadas (cada uma comporta de 5 a 10 galinhas), não permitem movimentos básicos aos animais, como andar, ciscar, empoleirar, saltar ou esticar as asas. “Cada galinha tem um espaço minúsculo, menor do que a superfície de uma folha de papel ofício, no qual é obrigada a permanecer durante sua vida inteira”, compara o relatório. No Brasil, mais de 70 milhões de galinhas são confinadas em gaiolas em bateria como esta:
(Foto: Ana M. A. Mitidiero)
Segundo a HSI, o problema central das gaiolas é “a severa restrição do movimento e a privação da oportunidade de exibir comportamentos naturais importantes”.
Por exemplo: esse tipo de sistema impede a nidificação, ato de buscar uma área isolada em que o animal possa cuidadosamente limpar uma superfície de solo para preparar seu ninho. Este é um dos comportamentos mais naturais e importantes para as galinhas e sua restrição é uma das que mais causa sofrimentos.
Além disso, galinhas engaioladas sofrem com a perda de resistência óssea e fadiga de gaiola – distúrbio em que o sistema esquelético se enfraquece e pode levar a fraturas, paralisia e morte.

Padrões mínimos de bem-estar animal: sistema de criação de galinhas sem gaiolas. Granja da Korin, em SP. (Foto: Elissa Lane/HSI)
Por que a ação do Burger King é uma boa notícia?
A mudança promovida pela empresa chama a atenção para uma nova forma de pensar a produção de alimentos e o bem-estar animal no mundo. Dentro do sistema moderno, que abastece a grande maioria dos nossos supermercados, a produção em série e o demasiado crescimento dos animais em um tempo curto é visto como algo positivo, mesmo que isso seja feito em detrimento do bem-estar dos animais e da saúde das pessoas que vão consumir as carnes e ovos.
O relatório da HSI, no entanto, é enfático: “produtividade não é sinônimo de bem-estar. Igualar um ao outro não tem respaldo científico. A produtividade é muitas vezes medida em nível de grupo, o que não reflete com exatidão o bem-estar individual”.
Para o professor de Bem-Estar Animal da Cambridge University, Donald Broom, citado no relatório, “os esforços para obter um crescimento mais rápido e precoce, uma maior produção por indivíduo, reprodução, conversão alimentar eficientes e prolificidade elevada são as causas de alguns dos piores problemas de bem-estar animal”.
O bom é que não para nas redes de fast-food: a União Européia deve proibir a utilização das celas de gestação para porcas até 2013 e a medida já é adotada em alguns Estados e grandes produtores dos EUA. Embora localizada, a medida pode ser vista como o avanço de uma mentalidade diferente – mais humana, saudável e conectada com os ciclos naturais da Terra e com o respeito à vida.
Falando nisso…
O assunto não está relacionado apenas à produção de alimentos. Na última semana, o Daily Mail publicou uma reportagem que impressiona: uma mulher se propôs a participar de procedimentos iguais aos que são feitos em cobaias usadas para a fabricação de cosméticos.

(Foto: Reprodução/Daily Mail)
A ação foi feita frente a uma vitrine, em Londres, para que as pessoas pudessem presenciar momentos de sofrimento - como quando cosméticos em teste são pingados nos olhos de animais. Você pode acessar a matéria em português, divulgada no site da ANDA (Agências de Notícias de Direitos Animais), e em inglês, no MailOnline, que mostra outras fotos e um vídeo.
E você, o que pensa sobre o assunto? Decisões como a do Burger King influenciam os seus hábitos de consumo?
(1ª imagem: Commons Wikimedia)
Tags: bem-estar animal | burger king | carne de porco | celas de gestação | gaiolas em bateria | galinhas poedeiras | HSI | Humane Society Internacional | ovos | porcas reprodutoras
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