Mundo Novo Mundo Novo

Por Atualizado em 03/10/2014

Domingo 27 de outubro de 2002 foi um dia inesquecível para mim. A eleição presidencial tinha sido uma festa, Lula havia sido eleito com um sorrisão na cara, a economia estava estável e nos permitia sonhar. FHC deixava o governo orgulhoso da importância histórica de passar a faixa a um rival tão simbólico. O país olhava para a frente.

Lembro com meu corpo inteiro da festa que tomou conta de tudo depois que anoiteceu. Havia naquela época um disco do Tim Maia chamado Racional, que todo mundo adorava, mas ninguém tinha, porque era muito raro. Dei sorte de ir parar numa pista de som improvisada na madrugada, sob as picapes competentes do dj Ramiro, um dos poucos detentores do Racional, antes que o CD fosse lançado, em 2006. A festa toda pulsava ao ritmo das batidas de “We’re gonna rule the world / don’t you know / don’t you know / we’re gonna rule it together.” Naquele momento, tudo parecia possível. Íamos reger o mundo, juntos.

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O Brasil mudou de maneira inacreditável de lá para cá, isso ninguém honesto nega, não importa a coloração política. Com mais de 50% da população instalada na classe média, quase nenhuma fome, escolas e hospitais bastante dignos espalhados por cada vilarejo, o país ficou mais exigente, mais rico, mais justo. Mas a profecia que emanou das caixas de som do DJ Ramiro não se cumpriu: we don’t rule the world.

Veja por exemplo essas cidades opressivas nas quais vivemos. Não regemos nossas cidades. Quem rege é o setor imobiliário, que faz o que bem entende do espaço. Nós mal conseguimos nos mover, sufocados que estamos no trânsito. Aí eu olho lá para o governo federal e vejo que tem um Ministério das Cidades, e vejo que o dito ministério não pertence a Dilma: pertence ao PP. PP, PDS, Arena, partido tão filho da p*** que precisa mudar de nome a cada punhado de anos, partido do Maluf. Gente que entende de cidades: é de sua lavra o Minhocão, cicatriz funda no peito de São Paulo, símbolo máximo de tudo o que está errado nos espaços urbanos nacionais.

É que cidades foi um dos temas dos quais o governo federal abriu mão, nas negociações para compor bancada e aprovar projetos. Diante disso, entregou-as para quem tem a lucrar com elas – justamente aqueles que as mantém como são. Também abriu mão do meio ambiente, e por causa disso o clima brasileiro está entrando em colapso, porque muito provavelmente a umidade que nos mantém vivos é suprida pela Floresta Amazônica, e os mesmos padrões absurdos de ocupação do solo se repetem no Brasil todo. Abriu mão de tentar rever o modelo produtivo do Brasil, estimulando a criação de uma economia inovadora e sustentável. Abriu mão, em parte, dos direitos humanos, para não chatear os aliados evangélicos e evitar situações incômodas durante a Copa.

“Abrir mão” não é negociar em busca de um acordo aceitável para todos – é literalmente entregar para os inimigos. Não é por acaso que Feliciano dirigiu a comissão de direitos humanos, Renan Calheiros dirigiu o conselho de ética, Blairo Maggi dirigiu a comissão do meio ambiente – tem um padrão aí. They rule the world. Sinto que a lista das coisas das quais estamos abrindo mão ficou maior do que a lista das coisas que recebemos em troca.

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Nos últimos anos, estou vendo um monte de coisas novas aparecerem à minha volta: articulações de gente com gente, sem governo ou com muito pouco dele, fazendo praças, melhorando escolas, traçando ciclovias, fundando cenas culturais, inaugurando mercados, inventando. Quase sempre, essas coisas novas têm alguma conexão com a Rede, a articulação que tentou fundar em partido político no ano passado.

A Rede escolheu Marina como sua líder e planejou elegê-la presidente numa onda de esperança, como aquela que venceu o medo em 2002. Não saiu como o esperado. O tal partido se perdeu no labirinto burocrático da democracia brasileira e nunca surgiu.

O programa de governo de Marina, apresentado às pressas quando a tragédia mudou a história, é bom mas não muito – na hora de conciliar os interesses diversos da Rede com as estruturas partidárias do PSB e os cálculos de marketing dos assessores, quase tudo de ousado ficou de fora. Eduardo Jorge tem ideias melhores (Dilma e Aécio não).

Marina chega triste à eleição – cansada de remar contra a maré, magoada com o ataque dos antigos aliados, ainda enlutada com a perda trágica do companheiro de chapa, pouco à vontade no papel de alguém que tem que ser agressiva para se defender. Ela não pulsa como o groove do Tim Maia.

Mas, por ser um nó de rede, e não alguém entranhado na hierarquia, continuo achando que ela é nossa maior chance de mudar o jeito como pensamos nossa estrutura de poder – nossa relação entre as pessoas e o governo, nosso modo de nos organizarmos, nossa maneira de ocupar o espaço e de pensar o país. Ela ainda é minha única esperança de voltar a sentir na alma de novo o que senti naquela noite de domingo, em 2002: a possibilidade de, junto com os outros 200 milhões, ser dono deste país.

Por Atualizado em 29/08/2014

Enquanto o país fundado pelas vítimas do Holocausto transformou-se em vilão, a pátria de Hitler virou exemplo de fofura. Afinal, os israelenses são bons ou maus? E os alemães? A resposta não está neles: está no ambiente.

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Se um viajante do tempo saísse de 1950 e viesse bater em 2014, e calhasse de lhe cair em mãos a pesquisa da BBC que mede a popularidade dos países, talvez achasse que os dados estavam de cabeça para baixo. Segundo a pesquisa, realizada com 25 mil pessoas de 24 países, a nação mais popular que existe, vista por 60% das pessoas como “uma influência positiva” para o planeta, é a Alemanha. Já os países mais malvistos, considerados por mais da metade dos terráqueos como uma “influência negativa”, são Irã, Paquistão, Coreia do Norte e… Israel.

O viajante do tempo não entenderia nada. Os alemães, portadores da mesma carga genética da nação que elegeu e apoiou Hitler no mais horripilante projeto de genocídio industrial da história, transformaram-se nos fofos do mundo (e olha que a pesquisa foi realizada antes da Copa de 2014). E Israel, fundado em 1948 em nome da liberdade, da justiça e da paz, pelas próprias vítimas do nazismo, com amplo apoio dos progressistas, disputa hoje a lanterna da vilania global apenas com ditaduras fundamentalistas (e olha que a pesquisa foi realizada antes que bombardeios israelenses matassem crianças palestinas brincando em Gaza).

Se as pessoas que vivem em Israel e na Alemanha possuem os mesmos genes e as mesmas tradições de seus avós, que passaram pela guerra encarnando respectivamente “o bem” e “o mal”, o que mudou em meros 70 anos? Nosso viajante, se quisesse descobrir a resposta, poderia ajustar sua máquina do tempo para as 10 horas do dia 14 de agosto de 1971.

Naquela manhã de sol, a tranquilidade da rica cidadezinha californiana de Palo Alto foi subitamente quebrada por uma visão rara: policiais algemando um estudante branco e firmemente conduzindo-o ao banco de trás da viatura, sob o olhar assustado dos vizinhos. Aquele seria o primeiro de nove jovens levados presos.

Nenhum dos nove tinha cometido crime algum – eram estudantes saudáveis e comuns que tinham se voluntariado para uma pena de duas semanas numa prisão simulada, montada num porão da Universidade Stanford, em troca de US$ 15 por dia. Os guardas dessa prisão seriam 15 rapazes tão saudáveis e comuns quanto os prisioneiros, contratados pelo mesmo salário. O autor da pesquisa, o psicólogo Philip Zimbardo, definiu por sorteio quem seria guarda e quem seria prisioneiro. A partir daí, os prisioneiros seriam tratados apenas por números, e foram obrigados a referir-se aos guardas como “senhor oficial correcional”. Nada de nomes.

Apenas seis dias depois, o Stanford Prison Experiment teve que ser encerrado prematuramente, após vários prisioneiros sofrerem colapsos nervosos. A convivência entre os dois grupos de rapazes comuns tinha degringolado para a hostilidade aberta. Os guardas abusaram de torturas, humilhações e atos de crueldade gratuita. Já os prisioneiros sentiam-se impotentes, deprimidos e se tornaram dissimulados e amargos.

Ao fim do experimento, havia desaparecido qualquer sinal de empatia entre um lado e outro. Um guarda resumiu como uns viam os outros: “esqueci que os prisioneiros eram gente”. Esse fenômeno é conhecido pelos psicólogos como “desumanização”. Segundo Zimbardo, a desumanização desliga nosso senso moral. Em seu livro O Efeito Lúcifer, ele explica que, quando isso acontece, pessoas comuns tornam-se capazes de cometer atrocidades.

Para que a desumanização ocorra, é importante apagar a individualidade de quem está do outro lado. É o que revelou um outro experimento clássico, realizado em 1963 por Stanley Milgram, na Universidade Yale. Nesse estudo, os sujeitos de pesquisa tinham a tarefa de administrar choques elétricos em voluntários vistos através de um vidro (os voluntários na verdade eram atores fingindo estrebuchar). Em alguns dos testes, uma pessoa na sala comentava de passagem que os sujeitos tomando choques eram “legais”. Em outros, o comentário era: “eles parecem animais”. Embora os atores fingindo levar choque fossem sempre os mesmos, os sujeitos da pesquisa estavam muito mais dispostos a eletrocutar o outro quando ele era descrito como “animal”.

É que o primeiro passo para a desumanização é rotular o sujeito do outro lado. A partir do momento em que acreditamos que o outro não é um ser humano, mas um animal, tornamo-nos capazes de basicamente tudo. Um ambiente onde há uma grande desigualdade de poder – como uma prisão – é o lugar perfeito para que ocorra rotulagem e, portanto, desumanização. É exatamente o que existe hoje no Oriente Médio, onde, na prática, todo um povo (os palestinos) virou prisioneiro de um país (Israel).

O que as pesquisas mostram é que, nessas situações, não adianta procurar culpados. Não interessa saber quem começou a briga ou quem tem mais razão – o que interessa é o ambiente. Enquanto os dois povos se relacionarem como se estivessem numa prisão, é inevitável que um não enxergue a humanidade do outro. Os mais poderosos tendem a perder a compaixão pelo outro lado, e acabam achando normal ser brutal. Os menos poderosos tendem a acreditar que seus rivais são todos maus e precisam ser destruídos. A única solução para uma situação assim é mudar o ambiente. Foi o que a Alemanha fez nas últimas três décadas, quando uma sociedade tolerante, igualitária e largamente desmilitarizada foi instituída.

Nós humanos fomos geneticamente programados para acreditar que há pessoas boas e más, e que um abismo separa umas das outras. A realidade é que o mal mora em cada um de nós. O primeiro passo para liberá-lo é acreditar que os inimigos são animais — ou algum outro rótulo, como “reacionários”, “comunistas”, “petralhas”, “tucanalhas”, “macacos”, “argentinos”, “feminazis”, “falocratas”, “talibikers”, “burgueses”, “evangélicos”, “judeus”, “terroristas”.

Isso dito, nosso viajante do tempo, depois de ter presenciado a carnificina da Segunda Guerra Mundial, talvez se assustasse ao ver o tom desumanizador dos comentários no Facebook de 2014.

Por Atualizado em 29/07/2014

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Pouco mais de um ano atrás, em junho de 2013, a SUPER publicou o texto “Alemanha, o País do Futebol”, escrito por Guilherme Pavarin e Alexandre Versignassi. O artigo fazia uma análise profunda da gestão do futebol na Alemanha, e comparava-a com o que acontece no Brasil, onde o esporte está nas mãos de gente da laia de José Maria Marin. O texto terminava prevendo que a Alemanha seria tetracampeã em 2014, no Brasil, que teria que se conformar com o título de “país da corrupção no futebol”.

Acertamos a previsão na mosca. Mas não porque ela estivesse escrita nos astros. Nosso acerto foi fruto de trabalho: entrevistas, pesquisas, análises. O título da Alemanha também: ele é consequência de mais de dez anos de planejamento. E a derrota acachapante do Brasil foi sem dúvida consequência de trabalho mal feito, a começar pela gestão do futebol nacional, hoje nas mãos do pior tipo de ser humano desta vasta nação.

Este mês, a SUPER ousou dedicar sua reportagem de capa a um assunto apaixonante que sempre foi tabu por aqui: astrologia. Procuramos nos despir de preconceitos e olhar para o tema com seriedade. A repórter Karin Hueck, que aliás é cidadã alemã, trabalhou duro na pesquisa. Sua conclusão: pelo conhecimento científico atual, não há como crer que estrelas e planetas localizados a milhões de quilômetros de distância possam reger nossa vida aqui na Terra.

Mas isso não significa que não possamos ler nosso horóscopo de manhã, como um ritual para focar nas questões urgentes do dia. Ou que não possa ser uma experiência reveladora traçar o mapa astral – no mínimo serve de pretexto para refletir sobre as decisões que tomamos na vida. Um pouquinho de mágica pode ajudar a ser feliz – e ser feliz traz ganhos objetivos à vida (à saúde, por exemplo).

O que não pode é confiar tanto nessa mágica a ponto de deixar de se preparar para as coisas. Os astros, os búzios, o polvo Paul – nada disso pode substituir o trabalho.

Na SUPER deste mês, veja o fruto de nosso trabalho na reportagem de capa sobre astrologia, e também no texto “A CBF tem que acabar”, assinado novamente pela dupla Pavarin e Versignassi. Trata-se de uma defesa do fim dessa instituição dominada por picaretas, que, em vez de trabalhar, aposta todas as suas fichas em outro pensamento mágico – a ilusão de que os brasileiros são naturalmente superiores no futebol ao resto do mundo.

Por Atualizado em 04/07/2014

Essa história da falta de musicalidade da torcida, que por isso não consegue empurrar o time na Copa, é típica de um certo modo de tentar resolver problemas no Brasil.

O problema era a violência das torcidas, que levou a muitas mortes em estádios nos anos 1990. Para resolvê-lo, a polícia proibiu que se entrasse no estádio com qualquer objeto que oferecesse qualquer tipo de risco. Uma vez, no Pacaembu, o policial apreendeu a revista que eu estava lendo. “Por quê?”, eu perguntei. Ele respondeu que havia o risco de eu molhar a revista e atirar papel molhado no campo. Um perigo mesmo.

Bom, o resultado dessa proibição ampla, geral e irrestrita, óbvio, foi o banimento de instrumentos musicais e de bandeiras dos estádios.

A tradição brasileira de marcar o ritmo do jogo com o som grave do bumbo e outros instrumentos de percussão é tão antiga e bonita quanto a tradição argentina de empurrar o time com cantos. Os argentinos, bons de tango, gostam de música sem uma forte marcação rítmica – uma voz melodiosa sutilmente empurrando o time. Já os brasileiros, adeptos do samba, têm mais dificuldade de soltar a voz sem um batuque ao fundo. Quando tentam, desafinam.

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Não estou aqui querendo dizer que a violência da torcida não fosse um problema grave, que precisava mesmo de solução. Já me vi encurralado entre torcidas rivais empunhando mastros de bandeira e baquetas e sei bem o perigo que se corria. Mas, quando se fala em riscos à segurança, a tendência por aqui é sempre proibir as coisas. É proibido beber, é proibido carregar chaves, é proibido trazer rádio, é proibido tudo. Tanta proibição, num ambiente complexo como um estádio lotado, acaba causando consequências indesejadas. A música sumiu do futebol, a festa acabou. E isso pode acabar atrapalhando a Seleção.

Recentemente publiquei na Super uma reportagem sobre complexidade. A tese central do texto é que existe um trade-off entre escala e complexidade. Quando você busca grandes aumentos de escala, quase sempre acaba perdendo complexidade. A história da música nos estádios é bem exemplar disso: ao se buscar uma solução de escala para acabar com a violência, perdemos uma porção de características complexas das arquibancadas. Num primeiro momento, parece razoável: a vida dos torcedores realmente vale mais do que a música da torcida. Só que a perda de complexidade vai se acumulando e acaba trazendo consequências graves. Os estádios vão ficando chatos, os torcedores deixam de ir, o jogo vai piorando.

Devíamos lidar de maneira complexa com os riscos que corremos. Em vez de simplesmente proibir tudo aquilo que possa oferecer qualquer tipo de risco, as autoridades deveriam lidar com esse risco. Nesse caso específico: poderiam cadastrar cada bumbeiro na entrada do estádio, e responsabilizá-los por qualquer dano que o instrumento causasse. Assim, não perderíamos a antiga tradição do samba acompanhando o futebol. E todo mundo estaria ainda mais encantado com a Copa do Brasil.

Por Atualizado em 03/07/2014

Está mesmo demais esta Copa. Tão boa que ficou difícil prestar atenção no resto. Só se fala em bola, em gols, em craques, em viradas, em festa.

E, como está difícil olhar para outras coisas, óbvio, tem gente abusando. Se você olhar à sua volta, vai perceber que Brasil afora há governos desrespeitando a população e botando para quebrar, para aproveitar a desatenção generalizada.

Veja por exemplo o que está acontecendo aqui no meu Estado, São Paulo. A PM, sabe-se lá sob ordens de quem, resolveu arbitrariamente tentar sufocar os focos de insatisfação popular que estão pipocando há um ano, desde as manifestações de junho do ano passado. Os abusos são de assustar, e estão documentados – qualquer um pode verificá-los na internet.

Veja por exemplo o caso de Fabio Hideki Harano, de 26 anos. A polícia de São Paulo prendeu-o faz 10 dias, acusando-o de portar explosivos e de fazer parte de uma quadrilha criminosa. A detenção aconteceu numa estação de metrô cheia de gente, durante uma manifestação. Só que, no meio da confusão, houve quem filmasse a prisão de Fabio – e as imagens parecem desmentir a versão da polícia. Veja só:

A prisão foi em flagrante. “Para se realizar uma prisão em flagrante a pessoa tem que estar cometendo o crime naquele momento”, explica o jurista Pedro Abramovay, diretor da Open Society Foundation, em seu blog. Mas nas imagens não se vê explosivo algum nem sinal de que Fabio fizesse parte de uma quadrilha. “Para se configurar o crime de associação criminosa Fábio teria que estar reunido com pelo menos mais duas pessoas para o fim específico de cometer o crime na hora em que foi preso. Se ele foi preso em flagrante por isso, quem eram as outras duas pessoas? Elas foram presas? Fugiram?” Tudo indica que elas não existem – que a prisão tenha sido arbitrária e ilegal, como forma de assustar os manifestantes e de colar neles o rótulo de “black block”. Não é como a polícia trabalha numa democracia…

Dias depois um grupo de advogados ativistas organizou uma reunião pública para discutir detenções ilegais como a de Fabio. Mais uma vez a polícia apareceu, tocando o terror. O advogado Daniel Biral foi violentamente jogado dentro de uma viatura e, segundo ele, tomou porrada até desmaiar. Quando tentou registrar queixa da agressão, o delegado se recusou.

Alguns casos seriam cômicos, se não fossem trágicos. Na terça-feira, uma manifestação terminou em pancadaria policial. A polícia então alegou que a violência foi causada pelos manifestantes, que teriam impedido que os policiais revistassem a mochila de um deles. “A confusão começou quando um grupo de aproximadamente 50 pessoas investiu com violência contra os policiais, impedindo a realização da revista a um ativista que portava uma mochila de grandes proporções durante o ato”, explicou a PM. Só que, mais uma vez, a ação policial foi filmada, e o vídeo deixa claro que a versão da polícia é mentirosa.

A mochila, como se vê, é pequenininha, e continha inofensivas flautas de bambu. O tal ativista revistado não passava de um músico de rua. Que provavelmente foi escolhido apenas por causa da cor de sua pele.

Histórias como essas têm acontecido em todas as partes do Brasil, em governos de vários partidos. Ações policiais têm sido agendadas para os dias de jogo do Brasil, quando acabam facilmente ignoradas.

Que a polícia esteja cometendo esse tipo de ato, mentindo a respeito, e que ninguém esteja sendo punido, faz a gente pensar. Dá a sensação de que eles não estão agindo por conta própria, mas cumprindo ordens que vêm bem de cima. Num ano de Copa e eleição, pode ter político querendo aproveitar aquela para limpar o terreno para esta.

Nada contra querer ganhar eleição. O que não pode é aproveitar a distração da população para desconstruir direitos democráticos e atropelar a lei. Não quero aqui defender ou atacar as manifestações. Não aprovo a tática black block, não estou satisfeito com nenhum partido político, não acho justo que o direito legítimo de se manifestar prejudique quem precisa circular pela cidade. Mas, num país que respeita sua população, o Estado tem que cumprir a lei e não pode mentir. Simples assim.

Amanhã a Copa volta, depois de dois dias de folga. O Brasil, compreensivelmente, vai se esquecer desses abusos e se concentrar em Neymar e Felipão. Vambora torcer, claro. Mas sem deixar que nos façam de bobos. A Copa vai acabar, o Brasil continua.