É possível ficar muito tempo dentro d’água até derreter?

Por Atualizado em 11/09/2014

Querido e sempre lido Oráculo: Quando ficamos muito tempo na água nossa pele começa a enrugar e tudo volta ao normal em alguns minutos após sair da água. Porém, o que acontece se ignorarmos isso e permanecermos na água, quanto tempo nossa pele aguenta submersa?

Obrigada!
Rita Braga, São Paulo, SP

 

“OLAR”

2177352000_256dbff412_z

ATUALIZAÇÃO EM 02/10/14:

Vários leitores apontaram erros na resposta dada abaixo. Sim, a informação está ultrapassada. No passado, a hipótese mais aceita era a de que o enrugamento era resultado de interações osmóticas no estrato córneo da pele, ou seja, entre a última camada, feita de queratina, e a água. Até que dois estudos recentes desbancaram essa visão.

Uma é do Instituto de Neurociência da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. O outro foi publicado no Brain, Behavior and Evolution Journal por cientistas do Instituto de Pesquisa 2AI Labs. Eles defendem que nossa pele enruga por conta da contração dos vasos sanguíneos, provocada por uma reação neurológica do sistema nervoso autônomo. “Sabe-se disso porque pessoas que têm lesões neurológicas não ficam com os dedos enrugados”, diz a dermatologista Valéria Campos, pós-graduada em Harvard e membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

A mudança na pele dos dedos seria, portanto, uma adaptação evolutiva. De acordo com as duas publicações, a pele enrugada facilita o manuseio e a retenção de objetos debaixo d’água – nossos dedos adquirem maior fricção quando submersos. Valéria observa que a evolução se deu porque nossos antepassados se instalaram pertos de rios e mares, em que a pesca era uma atividade constante: uma melhor aderência dos dedos embaixo d’água ajudaria o caçador a capturar um belo peixe.

Mark Chanzigi, diretor do 2AI Labs, compara a mudança evolutiva à diferença entre um pneu careca e um novo. O último tem mais dificuldade em derrapar em poças assim como nossos dedos imersos em água. Quanto ao tempo que suportamos debaixo d’água, Valéria afirma que não há limites do ponto de vista da pele. Ela é, sim, uma barreira poderosa. Mas fungos adoram umidade para se proliferar. Ou seja, depois de muito tempo embaixo d’água, o risco de você sair com uma micose no pé vai ser bem maior.

Oráculo também erra. Obrigado aos sempre fiéis discípulos que ajudam na empreitada. Conhecimento compartilhado é o melhor conhecimento.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Querida e sempre respondida Rita, nossa pele ficaria tão murcha e fraca que nos tornaríamos extremamente vulneráveis à ação de agentes externos como fungos ou bactérias. Em vez de ficarmos hidratados debaixo da água, ocorre o contrário. Nossa pele fica escamada porque perde água para o meio, por conta da osmose. Esse processo físico-químico acontece porque nosso corpo tem uma maior concentração de elementos (a saber, sódio, potássio e cloro) do que a água do mar, por exemplo. Por isso, a pele desidrata e murcha.

A camada de gordura que envolve a cútis e serve como barreira é a primeira a ser afetada. “Quanto mais tempo ficarmos debaixo d’água, mais fina essa camada fica, porque a gordura se dissipa”, explica a dermatologista Jorgeth de Oliveira Carneiro da Motta, professora da Universidade de Brasília (UnB). Assim, a pele se torna mais ressecada e mais suscetível a feridas e inflamações. Quanto ao tempo de resistência que nossa pele aguenta, não há como precisar. “É uma questão de dias”, afirma a médica. Por via das dúvidas, não tente virar um peixe.

O site Mundo Gump fez uma deliciosa lista de melhores derretimentos do cinema. Gostoso para ver antes de almoçar.

 

 

  • rTatsu

    Existe um equivoco conceitual a cerca do processo de osmose citado pelo autor. Ele justifica na segunda parte do seu texto da seguinte forma:

    “Nossa pele fica escamada porque perde água para o meio, por conta da osmose. Esse processo físico-químico acontece porque nosso corpo tem uma maior concentração de elementos (a saber, sódio, potássio e cloro) do que a água do mar, por exemplo. Por isso, a pele desidrata e murcha.”

    A osmose é fenômeno de transferência de massa entre reservatórios com diferentes concentrações separados por uma membrana semi permeável (um tipo de “peneira para moléculas”). Uma maneira de medir esse fenômeno é através da pressão osmótica que é a pressão necessária para anular o efeito de osmose. A osmose diz que o fluxo de água num sistema separado por membrana semi permeável, por exemplo, ocorre da região menos concentrada para a mais concentrada em soluto (aquilo que é dissolvido no solvente em proporção menor a 50%). Logo, Imaginando-se um experimento no qual um lado A deste recipiente existe somente água (ou uma solução diluída, ou seja, pouco concentrada) e no lado B deste mesmo recipiente existe uma solução de concentração superior à existente no lado A, a osmose surge como uma tentativa do sistema em diminuir o potencial químico (um tipo de energia química que representa a energia potencial, tal como energia potencial que a gravidade imprime numa hidroelétrica, por exemplo) existe entre o lado A e B. Como a membrana semi permeável permite a passagem somente de água e não de soluto, a única forma de diminuir a energia potencial consistiria na difusão de água do lado concentrado em água para o lado diluído em água (ou do lado diluído em soluto para o lado concentrado em soluto). Esta tentativa busca a diluição do lado concentrado em soluto equivalendo ambas as concentrações do lado A e B levando o sistema ao equilíbrio osmótico.

    Através do experimento imaginado acima é possível extrapolar as ideias para membranas biológicas. Membranas biológicas são extremamente seletivas e frágeis. Desta forma, são muitas vezes mais eficientes do que as membranas utilizadas em nosso experimento imaginário. Logo, se estamos em água doce, a concentração intracelular (dentro da célula) de íons e moléculas é maior que a do meio externo. Para evitar a lise osmótica (quebra da célula em decorrência da osmose) a célula, numa tentativa de não morrer, tenta diluir suas concentrações internas adquirindo água do meio externo. Agora, se estamos em água do mar cuja concentração de solutos é muito superior a da célula humana, ocorre a perda de água intracelular (água de dentro da célula) para o meio extracelular (fora da célula) numa tentativa de aumentar a concentração de soluto intracelular.

    O fenômeno de osmose surge como uma tentativa de adaptação de organismos vivos às adversidades do meio para sobreviver.

    Desta forma, corrigindo o texto acima:

    Primeiro, a água do mar possui concentração de soluto maior que a existente nas células humanas. Por isso a célula humana perde água para o meio externo desidratando e murchando como o autor diz.

    Segundo, se fosse verdade que a nossa concentração celular é superior a água do mar, a célula aumentaria de volume pois estaria adquirindo água do meio externo para equilibrar sua pressão osmótica através da diluição dos componentes internos da célula.

    Assim, se estamos imersos em água doce adquirimos água do meio. Se estamos imersos em água salgada perdemos água para o meio. Em ambos os casos existem mudanças de volume da célula e, portanto, da aparência da pele. Em água doce, a pele enruga (fica muito hidratada). Em água salgada, a pele se torna áspera (fica muito desidratada).

    ——————————————————————————————————–

    Espero que tenha ajudado aew o pessoal!! abração gente! ótima reportagem!