Bruno Garattoni é editor da Super. Roda o mundo atrás das últimas novidades, mas não dispensa um passeio na Santa Ifigênia, rua preferida dos geeks em São Paulo. Em Re:Bit, ele comenta as febres do mundo tech
O governo vai fazer hoje, daqui a pouco (10h), um leilão para vender as licenças do serviço 3G: é o celular de terceira geração, que permite enviar e receber dados em altíssima velocidade - até 14 Mbps. Em tese, deveria ser o começo duma revolução. Mas, na prática, não é bem assim:
1. O 3G já existe no Brasil, e não deu certo. Tudo bem que na versão CDMA (uma tecnologia moribunda), mas existe desde 2005. E não vingou.
2. No resto do mundo, o 3G patina. A terceira geração já existe faz tempo - na Europa, que é líder em celular, ela chegou em 2003. Mas, dos 3 bilhões de celulares em uso no mundo, apenas 6,7% (200 milhões) são do tipo 3G. Por que será?
3. Os preços são altíssimos. Na Europa, as operadoras pagaram mais de 100 bilhões de euros pelas licenças do 3G (dá uns 260 BILHÕES de reais). Resultado? Resolveram descontar no consumidor. Na Inglaterra, por exemplo, vc paga R$ 91 pelo plano "top" - que dá direito a baixar meros 7 gigabytes por mês. Isso sem contar as ligações de voz.
4. No Brasil, então... A Claro, que já ligou sua rede 3G (ela não precisa participar do leilão, pois tem espectro - capacidade ociosa - sobrando), cobra R$ 100 por 2 gigabytes de download mensal. Tá, tudo bem, também existe um plano "ilimitado" por R$ 100 - só que aí a velocidade é baixa, 1 Mbps. E as demais operadoras também vão enfiar a faca e/ou miguelar a velocidade. Adivinha porque...
5. Haverá pouca competição. O governo diz que, com o 3G, haverá mais competição: em cada cidade, serão quatro empresas competindo pelo mercado. Em tese, a conta fecha - nove empresas se inscreveram para adquirir os 36 lotes de licenças 3G (cada lote inclui trocentos municípios). Mas, na época da privatização da Telebrás, eu ouvi essa mesma história. E a gente sabe como ela termina: as empresas acabam se juntando, e os preços sobem.
6. O 3G será usado contra a TV digital. A TV digital, que acaba de estrear em São Paulo, pode ser vista no celular - basta comprar um aparelho compatível com o padrão 1seg. Mas esses celulares ainda não chegaram ao país, e sabe por que? As nossas operadoras não querem, pois não ganham nada com isso (o 1seg é aberto, gratuito). Querem, isso sim, que você assista aos canais de TV fornecidos por elas - o serviço virá pela rede 3G, que é fechada, e será pago. Sacou?
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Em suma: gosto do 3G, acho bacana. É um avanço para o Brasil. Mas, ao contrário do que dirão a imprensa e o governo, ele não resolve os nossos maiores problemas: os altos preços (especialmente em celular pré-pago, um roubo), e a má qualidade das ligações (pois as operadoras não instalam antenas suficientes para a quantidade de usuários). Isso, galera, só no dia de são nunca...
