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Afinal, os zoológicos são bons ou ruins?

No último dia 29, o gorila Harambe foi executado em frente ao visitantes, por oferecer risco a uma criança que caiu em sua jaula. A ação trouxe de volta a questão: os zoos são mesmo necessários?

O significado da palavra “zoológico” é relativamente simples; o substantivo vem da junção de três termos gregos: zoom, logía e ico, e remete a algo como “local para o estudo de animais”. De acordo com a lei Nº 7.173, de 1983, considera-se jardim zoológico “Qualquer coleção de animais silvestres mantidos vivos em cativeiro ou em semi-liberdade e expostos à visitação pública”, que tem como finalidade “atender a finalidades sócio-culturais e objetivos científicos”. Fora dos livros, porém, a coisa é um pouco mais complexa. Os zoológicos são, ao mesmo tempo, polos de entretenimento e de encarceramentos abusivos, locais responsáveis pelo salvamento de espécies e pela morte de animais. A discussão sobre as múltiplas faces desses estabelecimentos sempre é reacendida depois de casos como do gorila Harambe. No último domingo, 29, um garoto de quatro anos caiu dentro da jaula do animal  em um zoológico de Cincinatti, nos Estados Unidos. Harambe foi executado na frente de todo o público, trazendo a tona a questão: os animais deveriam realmente ser mantidos em zoológicos?

Antes e depois de Cristo
Os zoos não são uma novidade, e, aparentemente, são controversos desde sempre. O estabelecimento mais antigo de que se tem notícia estaria localizado em Hierakonpolis, no Egito. Escavações apontam que o local foi palco de um zoológico que surgiu perto de 3.500 A.C., com proporções nada pequenas: eram cerca de 113 animais, incluindo babuínos, elefantes e até um filhote de hipopótamo. Mas nem mesmo o zoo de egípcio conseguiu fugir das dualidades: pesquisadores relatam que os animais ali mantidos eram extremamente bem cuidados – da mesma forma que os zoológicos atuais, o estabelecimento era responsável pela cura de animais machucados – ao mesmo tempo, esses mesmo bichos eram constantemente executados no local. O objetivo das mortes variava: ora eram sacrifícios, ora eram simplesmente porque o dono do local queria mostrar que podia matar seus animais, se quisesse.

No Brasil atual as coisas não funcionam assim. Se algum dono de um dos 127 zoológicos que temos por  por aqui resolvesse imitar as práticas do zoo egípcio, a ação poderia acarretar em seis anos no xadrez. A legislação brasileira é bem clara e específica sobre o que está liberado ou não fazer. Por exemplo, colocar um crocodilo com mais de 100 cm em uma área inferior a 50m²? Proibido. Criar ambientes privados com animais silvestres? Liberado, desde que o público possa pagar para visitar. Possuir menos de três doses de antídoto para o veneno de seus animais peçonhentos? Nem pensar. Quem determina tudo isso é o Ibama, e a ideia é que as normas sejam cada vez mais atuais. “A regulamentação, é algo dinâmico que está sempre sendo revisada”, afirma Maria Isabel Gomes, Coordenadora de Geração de Conhecimento dos Recursos Faunísticos do Ibama.

A instituição quer que a vigilância a respeito das irregularidades saiam gradativamente de suas mãos. O plano é que as operações sejam cada vez mais locais, “A fiscalização acontece não só em nível federal, mas estaduais também, com a polícia ambiental e as secretarias do meio ambiente. O Ibama está se distanciando das fiscalizações por denúncia, e focando em ocorrências federais, que abarcam trafico, situações mais  sérias. Os empreendimentos menores são fiscalizados pelo âmbito municipal”, afirma Isabel.

Os erros
Mesmo com as regras bem definidas não é difícil achar problemas com zoológicos Brasil afora. Em 2016, o zoológico Municipal do Rio de Janeiro ficou três meses interditado por falta de condições de receber animais e visitantes. De acordo com declarações de representantes do Ibama, no período do fechamento, o estabelecimento não conseguia isolar animais que estivessem feridos ou estressados – além do fato de que foram encontradas telas e grades quebradas no local. O mesmo estabelecimento foi alvo de críticas alguns meses antes, quando o governo  chinês resolveu presentear o Brasil com um casal de ursos pandas para o zoo carioca. O pessoal não gostou muito. Uma petição no site Change.org reuniu quase 30 mil assinaturas de pessoas que questionavam o uso de animais como presentes diplomáticos – ainda mais quando se pensava nas condições do lugar. O prefeito da cidade, Eduardo Paes, resolveu abandonar o assunto.

Os problemas não se limitam à cidade maravilhosa. No final de março, o zoológico de Salvador também foi interditado, visando uma melhora nos espaços tanto dos animais quanto dos visitantes. O zoológico de Belo Horizonte talvez seja ainda mais emblemático, nos últimos três anos 940 animais morreram no local –  apesar das críticas de ambientalistas, a direção do parque afirma que a causa das mortes de animais emblemáticos, como o leão Simba, e do camelo do local foram de causa natural.

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Essas questões também aparecem fora do Brasil. Queridinho dos turistas brasileiros, o zoológico de  Lujan, localizado a 70 km de Buenos Aires é famoso pelo fácil contato dos humanos com os bichos. Se jogar o nome do estabelecimento no Google, você provavelmente encontrará alguém abraçado com um leão – isso se essa postagem não aparecer na sua timeline do Facebook. Porém, Ongs e e publicações, como a Atlas Obscura, clamam que os animais só se comportam dessa maneira porque estão dopados. Do outro lado do mundo, no ano passado, a cidade de Tbilisi, na Georgia, sofreu inundações que fizeram com que animais conseguissem escapar. Os policiais locais, então, mataram os animais e se vangloriaram das atitudes – apesar dos protestos de ambientalistas que reclamaram do excesso de disparos, por exemplo.

As restrições rígidas também ajudam em um ponto importante: a segurança. Casos como os do gorila Harambe,  não são únicos – pelo contrário, eles estão bem próximos a nossa realidade. Na cidade de Cascavel, no Paraná, o menino Vrajamany Fernandes teve um braço arrancado pelo tigre do zoológico local. O objetivo, no entanto, é evitar cada vez mais esse tipo de fatalidade. “Temos a ETAC – Equipe Tática de Captura, que é treinada para atuar nesses casos. Os planos que variam e analisam diferente níveis de periculosidade, e vão atirador anestético até o abate do animal.”, afirma Mara Cristina Marques, bióloga do Departamento técnico do Zoológico de São Paulo. Se o caso Harambe tivesse ocorrido em uma jaula paulistana? “É difícil de avaliar, porque cada caso é um caso. Mas nós realizamos treinos todo mês para estarmos aptos a agirmos sempre da melhor forma sempre”.

Os acertos
Mesmo com as críticas, os zoos brasileiros ainda desempenham um papel importante na preservação das espécies. “Os zoológicos são um grande parceiro do Ibama na questão do abandono de animais. Alguns até mesmo servem no processo de reintegração de fauna, são centros de reabilitação, ajudam na libertação de volta à natureza”, afirma Isabel . Na verdade, esse fator chega a destacar o Brasil internacionalmente. “Os zoológicos do resto do mundo não são mais tão ricos em termos de animais remanescentes; os animais selvagens europeus morreram, em geral, há 800 anos”, afirma Carmel Croukamp, diretora do Parque das Aves – zoo dedicado à aves, localizado em Foz do Iguaçu. “Os zoológicos brasileiros têm sido muito efetivos em salvar espécies com reprodução em cativeiro. Um exemplo disso é o caso do mutum-de-alagoas, que foi extinto da natureza. Só existiam 200 animais no planeta, recebemos 10 casais e conseguimos gerar 22 filhotes. Parece pouco, mas é um aumento de 10% da população mundial”, afirma Carmel.

A reprodução ainda pode ser  utilizada em animais que não estão correndo perigo de desaparecerem – ainda. “Existe um monitoramento constante das espécies. Há casos de animais que hoje estão em abundância, mas por motivos genéticos, ou desastres como incêndios, podem deixar de se reproduzir – é papel então dos zoológicos auxiliar no repovoamento, utilizando espécimes reproduzidos em cativeiro”, afirma Mara.

Regras cumpridas ou não, quando se pensa em zoos, uma questão custa a chegar em consenso: a moral de prender animais. Além, dos já citados resgate e reabilitação de animais, a educação é sempre citada como produto dos zoológicos. A ideia é que a pessoa que visita um animal consegue entender mais a biologia que nos cerca enquanto pode sentir um pouco mais de empatia pelo animal selvagem a sua frente. Depois de ver como é uma girafa de verdade, e descobrir um pouco de seus hábitos (placas contendo os nomes comum e científico,  distribuição geográfica e a indicação quando se tratar de espécies ameaçadas de extinção, são obrigadas por lei), é mais fácil ser contra a morte do bichão.  

A argumentação não fica só no campo das idéias. Já foi provada. De acordo com o pesquisador social da Universidade de Warwick, Eric Jensen, entrevistou 6 mil pessoas espalhadas por 30 zoológicos em 19 países  e comprovou: depois de uma visita aos estabelecimentos, as pessoas acertavam quase 10% a mais questões sobre biologia.

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Muita gente discorda. Em tempos de internet, muito se questiona sobre a necessidade de haver zoológicos como uma ferramenta educativa. “O zoológico é uma coisa do passado que não cabe mais na nossa sociedade”, afirma Lorenzo Junqueira que criou um abaixo-assinado pedindo o fim dos zoológicos no Brasil. A petição acumula mais de 60 mil apoiadores. “O foco é mostrar para nossos senadores e deputado federais que a população não quer mais zoológico. A gente pode transformar as áreas que já existem em praças, parques”, afirma.

O futuro
É difícil entender qual os próximos passos dos zoológicos no cenário brasileiro, mas nada indica que mudanças radicais na legislação estão por vir. “Não existe nenhum tipo de movimento, por parte do Ibama,  sobre uma possível  extinção dos zoológicos. A instituição não possui nenhum posicionamento a repeito”, afirma Maria. Mesmo no exterior, as cursos não são claros. Pelo contrário – os pensamentos tendem a ser polarizados. Enquanto o governo Federal da Costa Rica briga desde 2013 pelo fechamento de todos os zoológicos do país, o zoológico de St. Louis, nos Estados Unidos, anunciou, também em 2013, que irá se expandir pelos próximos 30 anos – até atingir mais de 54mil m².

Por enquanto, pelo menos na teoria, a ideia é que se priorize sempre o animal. “Tudo é pensado para ver o bem estar do animal: clima, alimentação, manejo dos filhotes. Em segundo lugar vem a educação ambiental dos visitantes. Depois nos perguntamos como que aquele animal pode ter algum benefício com o zoológico”. Que aconteça seja melhor para os bichinhos. Afinal, na selva de pedra, o leão é prisioneiro, não rei.