Agressividade e homossexualismo: O que os genes podem explicar

Foi precipitado o anúncio de que o comportamento agressivo e o homossexualismo são determinados pela química da hereditariedade, como pensavam ter descoberto alguns cientistas.

Por Redação Super

Ivan Martins, Lúcia Helena de Oliveira, Marcelo Affini, Paula Cleto

Afinal, homossexualismo e violência são características hereditárias ou comportamentos adquiridos? Melhor perguntando, a pessoa nasce gay ou criminosa, ou torna-se gay ou criminosa? A questão rende panos para mangas há muito tempo, mas ganhou especial destaque nos últimos cinco anos, quando foi lançado o projeto internacional de mapeamento do DNA humano, batizado Genoma: desde então, constantemente pesquisadores anunciam a descoberta de genes que seriam responsáveis pelo alcoolismo, a depressão, a criminalidade, a esquizofrenia, mesmo o autismo. Em julho passado, uma equipe do Laboratório de Bioquímica do Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, liderada por Dean Hamer, anunciou a descoberta de evidências de que o homossexualismo estaria inscrito em um gene do cromossomo X. Publicado na revista Science, órgão oficial da Associação Americana para o Progresso da Ciência, o estudo foi saudado pelos editores como capaz, “eventualmente, de levar a um melhor entendimento das bases biológicas da homossexualidade e da orientação sexual em geral”. A frase, em todo caso, fôra precedida pela ressalva “se confirmado”. E isso não parece fácil.

“As pessoas têm cada vez mais reservas com relação aos resultados desse tipo de pesquisa”, informa o psiquiatra brasileiro Homero Valladan, que trabalha no Instituto de Psiquiatria de Londres, na Inglaterra, engajado na seção do Projeto Genoma que procura causas genéticas para doenças mentais. Valladan está comparando o cromossomo 22 de diversas pessoas esquizofrênicas, tentando encontrar uma mutação que seja comum a todas. A esquizofrenia é uma doença mental, provoca alucinações e não tem cura. Mas a tarefa é enorme, quase insuperável. Se um dia conseguir descobrir uma mutação genética comum a todos os doentes que estuda, Valladan terá em seguida de provar que ela não aparece em pessoas não doentes. Todas essas pesquisas revelam evidências, em geral baseadas em dados estatísticos, mas ninguém ainda conseguiu provar que algum desses comportamentos tenha origem exclusivamente genética. Filhos de pais alcoólatras ou violentos podem se tornar também alcoólatras ou violentos por influência do meio em que vivem. Steven Rose, professor da Open University de Londres, especialista em desenvolvimento do cérebro e autor de sucessos literários científicos como A química da vida e Não em nossos genes, defende esse ponto de vista com entu-siasmo. “Na Grã-Bretanha, os crimes estão aumentando na mesma proporção em que crescem a pobreza e a desigualdade. Do mesmo modo, ouço dizer que há mais violência nas favelas do Rio de Janeiro do que nos bairros chiques da cidade”.

A psicóloga Bina Coid, também do Instituto de Psiquiatria de Londres, concorda inteiramente. Ela está conduzindo uma pesquisa sobre comportamento criminal violento de gêmeos criados em famílias diferentes. “Não vejo na minha investigação ou na literatura da área nenhuma evidência de que esse tipo de comportamento seja geneticamente transmissível”, garante. No entanto, apesar da oposição de importantes cientistas, parece ganhar terreno a idéia de que alguns, ou todos os aspectos do comportamento humano podem ser explicados geneticamente.

O trabalho da equipe comandada por Dean Hamer é um bom exemplo dessa nova linhagem. Ele envolveu a análise genética de 76 famílias de homossexuais, que permitiu identificar “uma significativa correlação entre herança genética e orientação sexual”. Pelo menos 7,5% dos homossexuais tinham tios ou primos do lado materno também homossexuais. O geneticista Oswaldo Frotta-Pessoa, professor da Universidade de São Paulo, discorda da idéia de que um gene específico possa ser responsável pelo homossexualismo — “deve haver vários genes envolvidos, ou seja, esse seria um comportamento poligênico”. Mas não acredita, também, que possa ser condicionado apenas pelo meio ambiente.

Por isso, muitos cientistas reagem com desconfiança a pesquisas desse tipo, mesmo quando não tratam de tema tão explosivo quanto o homossexualismo. A do geneticista holandês Han Brunner, por exemplo, que teria “descoberto o gene da agressão”, é sempre comentada com reservas. Há quatro anos, Brunner foi procurado por uma família em que cinco dos dezessete homens sofriam incontroláveis explosões de violência. Os cientistas descobriram que os cinco homens violentos carregam uma rara mutação genética que, segundo publicaram, altera a química cerebral e provoca uma espécie de superexcitação das células nervosas. Como o estudo envolve uma única família, a descoberta pode revelar apenas uma coincidência; e também não foi possível demonstrar que mutação igual não ocorre em pessoas não violentas.

Brunner, em todo caso, acredita que tenha descoberto apenas o metabolismo geral da agressividade, que seria causada quando, em certa região do cérebro, houvesse um acúmulo indevido de neurotransmissores, moléculas que levam sinais de um neurônio a outro. Mas o pesquisador muda o tom da voz quando perguntado se a descoberta pode ajudar a família investigada, de alguma forma. “Em teoria, é possível”, esquiva-se, sabendo que na prática não é. Pois mesmo acreditando que descobriu a causa do problema que afeta seus pacientes, ele não tem idéia de como pode solucioná-lo. Essa não é uma situação nova. Há muitos anos sabe-se da causa genética de doenças como distrofia muscular e cistofibrose, sem que se consiga fazer nada para evitá-las. Como no caso do câncer, criam-se métodos de diagnóstico, avançam-se novas teorias, usam-se tecnologias e drogas cada vez mais sofisticadas, mas a doença continua incurável em boa parte dos casos.

Há quem veja na distância entre diagnóstico e cura um dos principais problemas éticos das pesquisas genéticas sobre comportamento humano e doenças mentais. “A abordagem da Genética certamente vai produzir um frenesi de novos medicamentos no mercado”, escreveu o biólogo molecular alemão Benno Muller-Hill numa das edições da revista inglesa Nature de abril passado. “É muito mais fácil prescrever uma pílula do que alterar as condições sociais que podem ser responsáveis pela severidade dos sintomas, como o da violência. Quem sabe vão criar testes baratinhos de diagnóstico. Mas, de uma hora para outra, a injustiça genética vai se tornar um fato.”

Os cientistas que pesquisam a genética insistem que o fruto de seu trabalho não deve levar à discriminação. Mas isso não é simples. Em setembro, anunciou-se na Inglaterra um teste capaz de reconhecer pessoas com propensão genética para o Mal de Alzheimer, doença incurável que afeta as funções cerebrais e lentamente inutiliza suas vítimas. A associação de parentes dos doentes britânicos foi pedir ao governo a proibição dos testes em candidatos a empregos, assim como por parte das companhias de seguros. Negação do pensamento, o preconceito faz as pessoas se esquecerem de fatos óbvios. A agressividade, por exemplo, quase sempre é entendida como sinônimo de mal, o que não é verdade.

“Comportamento violento não significa comportamento criminoso”, adverte o psicológo social Luís Carlos da Rocha, professor da Universidade Estadual Paulista, em Assis, interior do Estado. Ele demonstra sua idéia com um exemplo: “Quando um animal é caçado, ele tem reações violentas de defesa, enquanto o caçador se mantém tranqüilo, de cabeça fria”. Ou seja, todos são capazes de reações agressivas, principalmente como forma de proteção.

Pesados os prós e os contras, resta fazer uma reflexão sobre os caminhos da ciência nesse terreno delicado. Eles não são fáceis, lembra a psicóloga paulista Lídia Rosenberg Aratangy. Para ela, é fácil atribuir aos genes mais influência do que têm — mas acha, também, que os cientistas têm o dever de investigar todas as possibilidades, não importa o que se possa fazer com suas descobertas. Assim, a pesquisa sobre as raízes genéticas de qualquer comportamento humano não pode parar por causa do perigo de que usem apressadamente seus dados — como, por exemplo, definir a homossexualidade como uma doença. É um absurdo — mas não se pode esquecer que até 1974 ela estava na relação das enfermidades mentais referendada por ninguém menos que a Associação Americana de Psiquiatria. Usos, costumes, certezas variam com o tempo e o desenvolvimento cultural. A esta altura, o mais indicado é admitir que por trás de cada comportamento existem genes, as ainda não bem conhecidas regras da evolução, o meio ambiente, as relações sociais e pessoais. Como qualquer obeso pode explicar, há um gene responsável por sua irresistível tendência a engordar; mas o verdadeiro tamanho de sua cintura tem mais a ver com o número e o tamanho das refeições que faz, e o tipo de alimentos que aprendeu a preferir desde criancinha.

Para saber mais

O livro da vida, edição integral

(SUPER número 6, ano 2)

O milagre da multiplicação

(SUPER número 1, ano 8)

A sentença é genética

(SUPER número 11, ano 8)

Tempo de violência

(SUPER número 11, ano 10)

O sucesso de um erro há 150 anos

A idéia de que a criminalidade é hereditária chegou a ser a principal teoria “científica” sobre a criminalidade. Cesare Lombroso, autor da idéia, nascido em Verona, Itália, em 1835, fez tanto sucesso que, de médico de prisão passou a catedrático de Medicina Legal na Universidade de Turim e se tornou símbolo da criminologia científica. Lombroso dizia saber identificar um criminoso por certos traços como a forma do crânio (assimétrico), orelhas de abano, narizes chatos ou baixa sensibilidade à dor, entre muitos outros. Assim, chegou a inspirar condutas educacionais e de saúde pública em vários países. Onde fosse possível, sugeria ele, se deviam observar e “medir” as características das pessoas. A começar pelas crianças, nas escolas. Conforme o caso, se usaria o confinamento perpétuo, a execução ou mesmo a castração dos indivíduos para isolar o perigo latente.

Anos depois, diz o psicólogo social Luiz Carlos da Rocha, seria cabalmente comprovado que as marcas lombrosianas ocorriam em pessoas de todos os tipos. “Não importa se criminosos, juízes, médicos ou pacientes”, ironiza. Mas o simplismo de se acreditar numa tendência hereditária ao crime continuou a seduzir muita gente, lamenta Rocha. Mesmo depois de gente de peso, como o biólogo alemão Franz Exner, na década de 30, ter denun-ciado os meios capciosos, usados nessas pesquisas.

Primeiro, cita Exner, se planta a informação de que é característica do delinqüente uma perturbação qualquer. Depois se manipulam as comprovações de que a mesma característica também se manifesta nos não-criminosos. Enfim, fica-se com o resultado de que, em todo caso, as anormalidades são um pouco mais freqüentes nos criminosos.

A defesa violenta dos próprios genes

A violência de padrastos com seus enteados pode ter razões evolutivas. Essa é a teoria de dois psicólogos da Universidade McMaster, na Inglaterra. A dupla de pesquisadores baseou-se em estatísticas policiais do Canadá e da Grã-Bretanha, realizadas nas últimas duas décadas. Assim, concluíram que enteados correm um risco muito maior de serem assassinados por seus padrastos do que filhos legítimos por seus pais. Os dados canadenses mostram, por exemplo, que crianças com menos de 2 anos estão sessenta a setenta vezes mais sujei-tas a serem molestadas sexualmente e mortas por seus padrastos do que crianças da mesma idade que moram com seus pais genéticos.

Os cientistas explicam a violência dos padastros com teorias sobre a evolução. Na perspectiva evolutiva, se dá bem aquele que tem o maior número de crias. Por isso é que pássaros, ratos e macacos — espécies observadas pelos pesquisadores — tendem a matar os filhotes de seu companheiro ou campanheira, quando estes são frutos de outras ligações. Em geral, é o macho que possui esse instinto assassino, liberando a fêmea para cuidar dos herdeiros de seus genes. Para os psicólogos, os seres humanos não são muito diferentes: “As pessoas são menos pacientes com o choro de bebês que não são seus filhos biológicos”, exemplifica Margo Wilson, uma das responsáveis pelo estudo.

“É um erro básico pensar que a homossexualidade, a agressividade ou mesmo outras características de personalidade resultem exclusivamente dos genes. A genética não é algo fatal, que não há como alterar, pois em todos esees casos está claramente demonstrada a influência do modo de vida e do ambiente”.

Oswaldo Frota-Pessoa, geneticista

“Os genes e o meio em que se vive são igualmente importantes. Antes, havia cientistas que acreditavam no inatismo, ou seja, que as pessoas já nasciam fadadas a expressar determinada personalidade. Outros cientistas defendiam o comportamentismo, isto é, tudo era determinado pelo ambiente. Esse confronto, em voga no final do século passado, não existe mais.”

Newton Freire Maia, geneticista

“Diversas teorias tentam explicar as causas da homossexualidade. A dos genes é defendida dentro da própria comunidade gay. Seja como for, há um lado positivo na tese dos geneticistas: ela descarta a homossexualidade como um desvio moral. O lado negativo, porém, é supor um controle na gravidez, que permita o aborto dos futuros homossexuais”.

Luiz Mott, antropólogo, presidente do Grupo Gay da Bahia

“A biologia não é destino em se tratando de seres humanos. No caso da estatura, os genes não definem a altura, mas um leque de probabilidades de tamanhos. Se a pessoa for subnutrida, chegará apenas à altura mínima. E quanto às emoções, também há várias maneiras do ser humano expressá-las. A agressividade, por exemplo, não é necessariamente ruim. Sem ela, Van Gogh não teria produzido quadros maravilhosos.”

Lídia Rosemberg Aratangy, psicóloga

“Como definir a homossexualidade? Pode ser uma forma de relação sexual ou uma paixão platônica por alguém do mesmo sexo, por exemplo. O fato é que a atração homossexual ocorre de diversas maneiras. As diferenças entre os comportamentos sexuais são tantas que parece impossível a idéia de um único gene reunir todas as suas características”.

Jurandir Freire Costa, psicólogo