Água Governo

Água que puxa água

Com a construção de miniaçudes para coletar a água das chuvas, um projeto da Embrapa promete rejuvenescer os lençóis subterrâneos, revitalizando os rios e solos das regiões secas. Com vocês, o melhor projeto ambiental do Brasil.

por Lauro Henriques Jr., de Minas Novas, MG

Há alguns meses, o agricultor Leonardo Oliveira, do município de MInas Novas, não via uma gota d’água cair do céu. Na terra seca, repleta de sulcos causados pela erosão, repousavam os restos de um milharal que nem chegou a brotar direito. Tudo indicava que Leonardo seria mais um dos milhares de agricultores que todos os anos abandonam o campo para tentar a sorte em uma cidade grande. Seria. Graças à construção das barraginhas – como o nome diz, minibarragens –, um projeto desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, essa história teve um fim diferente. “Pensei em ir embora, mas, com a construção da barragem, resolvi esperar para ver se a situação melhorava”, diz Leonardo. E melhorou. “Hoje, não saio mais daqui. Nossa esperança voltou.”

O projeto da Embrapa se baseia em uma idéia simples e genial: construir miniaçudes ao longo dos sulcos das enxurradas para coletar as águas das chuvas, evitando que elas se percam como vinha ocorrendo há décadas. Com o desmatamento intensivo, muitas terras em todo país ficaram compactadas, diminuindo a capacidade de infiltração de água pelo solo. É como se o terreno fosse um telhado, onde a água da chuva cai e já vai escorrendo, causando a famigerada lixiviação – a lavagem dos nutrientes da terra. O resultado são solos cada vez mais erodidos, secos e improdutivos.

“O que se vê é que, em muitas áreas, a seca não é um problema decorrente da falta de água, mas, sim, do seu não aproveitamento”, afirma o engenheiro agrônomo Luciano Cordoval de Barros, coordenador do projeto. Um exemplo: em Minas Novas, onde, só no ano passado foram construídas 250 barraginhas, a quantidade anual de chuva passa dos 1 000 milímetros (aproximadamente cinco vezes mais do que nas regiões secas do Brasil). O problema é que as chuvas estão concentradas em apenas três meses do ano. Por isso, uma solução seria impedir o desperdício da água da chuva, dando a ela um destino útil.

É aí que entram as barraginhas. Ao armazenar a água das enxurradas, os miniaçudes permitem que o líquido vá se infiltrando lentamente na terra, provocando o rejuvenescimento dos lençóis subterrâneos e recuperando a umidade dos solos, que voltam a ser recobertos pela vegetação. Além disso, e de imediato, as pessoas ganham uma fonte de água de que antes não dispunham, podendo usá-la para irrigação. “Antes eu não tinha essa horta aqui, não. Já havia tentado, mas o sol vinha e a água ia embora”, diz a agricultora Maria Oliveira Ferreira. E tem mais. Ao furar uma cisterna perto da barragem, evitam as penosas caminhadas até os açudes, onde conseguem água quase sempre contaminada, e deixam de depender dos caminhões-pipa.

Os caminhões-pipa, aliás, dão uma boa medida da eficácia das barraginhas. Cada uma delas retém, em média, 1 000 milímetros cúbicos de água por ano, o que equivale à capacidade de cem caminhões-pipa. Ou seja, com as 250 barragens construídas em 2002, nada mais, nada menos do que o volume de 25 mil caminhões-pipa de água foi revertido de forma correta para o solo de Minas Novas. O custo foi mínimo: 300 reais por barraginha – que requer cerca de duas horas do trabalho de um trator para ficar pronta. Outro mérito do programa é a mobilização da comunidade. Em Minas Novas, por exemplo, foi a própria população que optou por investir as verbas da cidade na construção das barraginhas. No total, o projeto já construiu, desde 1995, 25 mil miniaçudes em Minas Gerais, sendo que mais de 10 mil deles estão na região do projeto piloto, em Sete Lagoas.

De uma só tacada, portanto, o projeto atua em várias frentes: recuperação dos lençóis subterrâneos, rejuvenescimento dos solos, melhora da saúde pública, aumento da produção, redução do êxodo rural e organização das comunidades. Não é à toa que ele foi escolhido o grande vencedor de 2003 no Prêmio Super Ecologia. “Esse é o nosso tesouro”, diz Telma Blandina Wenceslau, prefeita de Minas Novas. “As pessoas estão adquirindo nova concepção: resguardar e proteger o meio ambiente, e não apenas sugá-lo.” Como diz um ditado muito popular nas regiões áridas: água puxa água. Que essa fonte continue a jorrar.

 

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