Amor de verão, filhos de primavera

Pesquisas mundiais concluíram que as pessoas transam mais no verão; ainda, o comportamento no Brasil.

Por Redação Super

Jean-Paul Sardon

A culpa não é da praia, nem do carnaval: mesmo em países próximos ao Pólo Norte, as pessoas transam mais no verão. Ao menos, as estatísticas de diversos países europeus mostram que nascem mais bebês nove meses depois dessa estação.

Há algum tempo, os especialistas em demografia, isto é, no estudo estatístico das populações, observam que em certas épocas as maternidades parecem ficar muito mias movimentadas. Isso porque os partos se concentram em determinados meses e essa distribuição costuma ser constante, quando se compara um ano e outro qualquer. Na Fraca, por exemplo, desde os tempos de Napoleão Bonaparte, nota-se que a maioria das crianças nasce entre o final do inverno e o início da primavera. Subtraindo-se nove meses, a conclusão é óbvia: o baby-boom é resultado do amor do verão. Mas, se no gráfico os números aparecem com nitidez, não são tão claras as explicações para o fenômeno.

Isto é, não se pode pensar que a explosão dos nascimentos de bebês na primavera tenha simplesmente a ver com o calor na famosa Costa Azul francesa, em cujas areias, aliás, surgiu pela primeira vez o topless. Afinal, um estudo a respeito da Europa mostra que em diversos países existe o mesmo pico de nascimentos na primavera.
Ao contrário do que se podia imaginar, curiosamente nos países escandinavos, sobretudo na Suécia e na Dinamarca, onde o clima quente do verão se intimida pela proximidade com o pólo, os valores máximos nos meses de março e abril (primavera no Hemisfério Norte) são mais acentuados em relação a outros países do velho continente, privilegiados pelo sol. Em contrapartida, na Espanha, na Áustria, na Inglaterra, na Alemanha e nos Países Baixos, o pico da primavera existe, mas não é tão evidente. Os países restantes mostram flutuações intermediárias entre esses dois padrões extremos. Em geral, existe um outro pico de nascimentos em pleno mês de setembro, no início do outono europeu – apenas na Polônia e, em menor grau, na França, esse segundo pico não parece ser tão importante. Uma vez que dispõe dessas estatísticas, o papel do demógrafo também é levantar hipóteses para justificar esses números.

No caso, vale tudo: desde estudar fatores climáticos e biológicos a analisar o comportamento de uma sociedade. Por exemplo, em alguns países como na Itália e na França, observa-se uma queda brusca nos nascimentos em dezembro. Durante muito tempo, os cientistas desconfiaram de que essa diminuição no número de partos em dezembro era devido à influência da Igreja, ou seja, as pessoas tenderiam a abster-se de sexo durante o período da quaresma, no mês de março. A suspeita não pode ser deixada de lado, uma vez que, até hoje, em países de religião ortodoxa, onde as tradições religiosas se mantêm rígidas, a taxa de natalidade em dezembro é espantosamente baixa. É o caso da Grécia. Por outro lado, não se pode esquecer que, no mundo moderno, a influência da Igreja é bem mais fraca – e, portanto, deve-se cogitar a possibilidade de os casais, por livre e espontânea vontade, planejarem ter filhos longe do frio do inverno, evitando de propósito os nascimentos em dezembro, quando a estação começa para quem está ao norte da linha do Equador.

Essa, aliás, é a única influência climática, por assim dizer, de que se tem certeza. Ao se observarem as estatísticas italianas, por exemplo, nota-se uma inversão quase total no ciclo sazonal dos nascimentos nos últimos trinta anos, enquanto o clima nesse período permaneceu o mesmo. Por sinal, sempre que se estudam alterações ao longo dos anos, aprende-se esta ligação: os especialistas precisam tomar cuidado, ao buscar explicações para aquilo que está nos gráficos. Muitas vezes, como no caso do clima, temos uma suspeita que pode ser falsa. Outro exemplo: hoje se sabe que a distribuição dos nascimentos pelos meses do ano não tem nada a ver com os níveis de fecundidade – o número de crianças dividido pelo número de mulheres em idade de procriar em determinado país. Se existisse uma relação, os países com nível de fecundidade elevado teriam maior probabilidade – pela quantidade de partos – de ter os nascimentos espalhados de maneira mais regular ao longo dos meses. E não é isso o que os demógrafos constatam. Outros estudos negam a influência da taxa de fecundidade, ao comparar países diversos. Com o final da Segunda Guerra, as antigas Alemanha Oriental e Ocidental tinham tanto níveis de fecundidade como ciclos de nascimentos idênticos. Mais tarde, porém, surgiram diferenças na distribuição dos nascimentos, sem terem ocorrido grandes mudanças nos níveis de fecundidade dos dois países.

Por sua vez, fatos que marcam uma sociedade acabam influenciando as curvas que registram os nascimentos. Entre 1910 e 1950, os gráficos de natalidade na Itália mostram uma grande concentração em janeiro, que seria o auge do inverno. Isso parece ir contra a tendência de as crianças nascerem na primavera, mas faz sentido: a população devia estar traumatizada pelas duas guerras mundiais em que a Itália participou. Como os rapazes deviam se alistar no exército no ano em que completassem a maioridade, as mães italianas atrasavam o registro de nascimento de seus bebês do sexo masculino, numa tentativa de, no futuro, ganhar-lhes doses extras longe dos campos de batalhas. Só a partir de 1955. para ser exato, isso se modifica e volta a aparecer o pico de nascimentos entre maio e julho – como, supõe-se, sempre deve ter acontecido.
Quanto ao pico do outono, aparentemente a enorme quantidade de bebês que nasce em setembro seria decorrência das comemorações do ano-novo – mas nem todas essas crianças são conseqüência do champagne estourado na festa, segundo demógrafos franceses, que resolveram entender detalhes do fenômeno. Para isso, os cientistas levantaram o número de nascimentos dia após dia. Assim, concluíram que as maternidades francesas tendem a estar lotadas entre 20 de setembro e 1º de outubro – especialmente nos dias 25, 26, 27 de setembro. Ocorre que uma gravidez média costuma durar cerca de 266 dias. Ou seja, em qualquer lugar do mundo – é óbvio – há uma grande chance de que uma criança concebida nas primeiras 24 horas do ano nasça no dia 23 de setembro. Portanto, a concentração entre os dias 25 e 26 do mesmo mês indica que muitas crianças são concebidas logo no início do ano, mas não na noite do reveillon necessariamente. Alguns casais talvez levem ao pé da letra o velho ditado “ano novo, vida nova” e tomem a decisão de conceber um filho logo na primeira semana de janeiro.

A primavera como estação eleita da cegonha é que continua sendo o grande mistério. Afinal, no mundo moderno, graças ao avanço dos métodos anticoncepcionais, o homem é capaz de controlar a natalidade. Mas diversos fatores precisam ser levados em conta. As estatísticas mostram que, em mais da metade dos casos, o primeiro filho de um casal costuma nascer entre um ano e um ano e meio a após a noite da lua-de-mel. O fato é que os casamentos se distribuem de maneira quase regular o ano inteiro e isso, portanto, não explicaria os nascimentos na primavera. Portanto, do segundo filho em diante é que pode estar a chave o enigma. A maioria dos casais costuma conceber seus filhos no período das férias – e as férias quase sempre são gozadas no verão. O raciocínio é lógico: porém, ai9dna assim é apenas parta da resposta. Pois, afinal, oito em cada dez crianças nascidas de uma gravidez acidental fazem aniversários na primavera – sinal de que o verão, inexplicavelmente, é a estação mais sujeita a esse tipo de acidente.

Da maternidade ao pediatra

O demógrafo é um cientista que vive afogado em números. A partir dos 5,4 bilhões de pessoas que habitam o planeta, ele realiza uma série de contar: “No caso, observar a sazonalidade dos nascimentos é útil para orientar programas de saúde pública”, explica o demógrafo Jair Lício Ferreira Santos, da Universidade de São Paulo. “Na minha família, existem vários aniversariantes em março”, exemplifica brincando. Segundo ele, ao se conhecer a época do ano em que nascem mais crianças, é possível prever o número de leitos disponíveis que são necessários nos hospitais, mês a mês. “Além disso, os dados servem de parâmetro, quando se planejam campanhas de vacinação”, exemplifica Santos.



No Brasil, o quente é o inverno

Apesar de, no verão, as moças desfilarem de fio dental e os rapazes exibirem músculos bronzeados nas academias, o brasileiro gosta mesmo é de transar no inverno. Segundo dados do país inteiro, contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), varia muito pouco a quantidade de crianças que nasce mês a mês no país. Mesmo assim, 28 em cada 100 delas chega ao mundo no outono, estação líder em nascimentos, enquanto a primavera fica em terceiro lugar na predileção de cegonha, com apenas 23% dos partos. A psicóloga paulista Lúcia Rosenberg não se espanta: “Aqui, tenho a impressão de que, no verão, os relacionamentos são públicos. As pessoas ficam muito preocupadas em se mostrar e não resta tempo par um recolhimento, essencial nos relacionamentos. Já na Europa é um pouco diferente, pois lá, o inverno é tão fechado e cinzento que as pessoas, mal pisam fora de casa. Assim, quando esquenta, elas querem sair e conhecer gente, o que pode resultar em namoro”. Lúcia, uma morena com cabelos cacheados, é mãe de três filhos e, nas duas primeiras vezes, ela engravidou no inverno. “Ainda me lembro do aconchego e do vinho para espantar o frio”, conta com riso ligeiramente maroto.

Os amores de carnaval de acordo com as estatísticas do IBGE, não geram filhos: novembro é um dos meses mais fracos em nascimentos, só perdendo para dezembro. “na folia, as relações são 7passageiras”, diz Lúcia. “Conceber um filho é o oposto disso, pois está mais ligado à sensação de perenidade. É claro que as pessoas transam muito nesse período, mas isso não resulta em novos nascimentos. Eu gostaria de saber quanto sobe o índice de aborto nos meses seguintes ao carnaval”, especula.

A queda brusca no número de nascimento em dezembro equivale à dos países europeus. “Superstições e crenças religiosas influenciam as decisões de um casal brasileiro”, afirma a antropóloga e demógrafa Maria Stella Levy, especialista em dinâmica populacional na Faculdade de Saúde Pública da USP. “Antigamente, as pessoas evitavam casar em anos bissextos porque acreditavam que isso dava azar”, exemplifica. “Desse modo, acho que, especialmente no interior do país, ainda hoje as pessoas continuam evitando ou diminuindo a freqüência das relações sexuais no período da quaresma”

Em 1982, a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) publicou um estudo realizado por Paulo Saad e Bernadette Giraldelli, especialistas em estatísticas, que se dedicaram a coletar informações sobre eventos vitais, como nascimentos e casamentos, no Estado de São Paulo, entre a década de 30 e a de 80. O trabalho aponta que dezembro – e não maio – é o mês das noivas. “Sobra dinheiro para a cerimônia, por causa do décimo terceiro salário”, desconfia Saad. Isso talvez explique o elevado número de nascimento em outubro, um dos meses em que os obstetras brasileiros são mais solicitados, apesar de ser primavera: “Existe um prazo relativamente curto entre o casamento e a concepção”, observa Saad. “Os recém-casados de classe média costumam evitar filhos nos primeiros meses depois de subirem ao altar. No entanto, as pessoas de classes mais baixas, que são a maioria, têm menos acesso aos métodos anticoncepcionais” informa o pesquisador. “Além disso, as estatísticas mostram que as mulheres estão se casando cada vez mais tarde e elas, talvez tenham interesse em engravidar rapidamente para evitar riscos.”




Uma boa época para nascer

Assim como outras espécies costumam se acasalar em determinada estação, para que as crianças também nasçam em meses mais adequados à sobrevivência, o homem escolheu a primavera como estação ideal para ter filhos, ao longo de sua evolução. Ao menos, essa é a teoria dos especialistas em Cronobiologia, a área de ciência que estuda a relação entre os ritmos biológicos e as mudanças ambientais. Um estudo de cronobiologistas franceses aponta que, no verão, aumentam ligeiramente os níveis de andrógenos, hormônios masculinos, que também existem em doses ínfimas no organismo feminino, no qual seriam um dos grandes responsáveis pela sensação física do desejo. Essa alteração hormonal, por sua vez, é disparada não pelo calor, mas sim quando o cérebro percebe uma maior intensidade de luz no ambiente, típica dos dias de verão.