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Assassinos remotos

Muita gente famosa teria sido morta por cobaias humanas do MK Ultra, o programa confidencial da CIA para manipular a distância os espiões encarregados de fazer o jogo sujo.

Patrícia Queiroz

TEORIA – Controle mental de criminosos

OBJETIVO – Criar agentes capazes de cumprir qualquer missão

O que os irmãos John e Robert Kennedy, o ex-beatle John Lennon e o ativista negro Martin Luther King têm em comum? Todos, de acordo com a teoria conspiratória, foram assassinados por pessoas mentalmente controladas por um projeto secreto da CIA, o MK Ultra. Há dúvidas sobre o real envolvimento de cobaias humanas nas quatro mortes. Mas o MK Ultra, de fato, existiu. O programa teve início em abril de 1953 e deixou pelo menos uma vítima conhecida: o cientista americano Frank Olson. Nove dias depois de participar de uma reunião com homens da CIA, em novembro de 1953, Olson se jogou misteriosamente pela janela do décimo andar de um hotel de Nova York. Foi uma morte improvável para alguém como ele, funcionário da divisão de operações químicas do Exército americano. Naqueles dias, Olson vinha apresentando uma mudança brusca de comportamento. Sua personalidade marcante e sempre bem-humorada havia dado lugar a sinais de depressão e sintomas psicóticos.

As circunstâncias da morte de Olson permanecem desconhecidas. Na semana anterior, ele e outros cientistas haviam participado de uma reunião com Sidney Gottlieb, então diretor técnico da agência de inteligência dos Estados Unidos e chefe do MK Ultra. Na ocasião, segundo conspirólogos, Gottlieb teria colocado LSD na bebida de Olson para testar os efeitos da droga em humanos. Como conseqüência das doses, Olson pirou dias antes de morrer. Por que ele foi o escolhido? Porque teria descoberto que a CIA estava usando prisioneiros nazistas nas experiências de controle mental. Indignado, ameaçou abandonar o projeto MK Ultra. O problema é que Olson já sabia demais. Assim, Gottlieb decidiu não apenas testar o poder do LSD, como também colocou em ação o plano de eliminar uma futura testemunha indiscreta. Com Olson dopado, foi fácil para os capangas da CIA jogarem o cientista pela janela do hotel e simular um suicídio.

Queima de arquivo ou não, os conspirólogos afirmam que Olson foi uma das primeiras cobaias de Gottlieb, o mentor do MK Ultra. O objetivo era cruel: o serviço secreto pretendia fabricar suicidas ou assassinos por meio da ingestão de drogas e técnicas de hipnose. As pesquisas teriam evoluído. Em 1964, o MK Ultra foi rebatizado de MK-Search e subdividido em 149 subprojetos para apagar memórias, implantar lembranças falsas e incentivar personalidades múltiplas. Usava ainda ondas de radiofreqüência de VHF, UHF e HF para guiar as mentes dominadas. Outras drogas teriam sido experimentadas, além do LSD. A CIA queria criar um agente fácil de ser manipulado e capaz de cumprir qualquer ordem. Essa fase foi batizada de Manchurian Candidate, que consistia na produção de assassinos que se transformariam em agentes da CIA sem saber.

TERAPIA DO NO

O complô tornou-se um dos mais populares entre os que envolvem o serviço secreto dos Estados Unidos. Hoje, existem dezenas de livros que contam em detalhes as técnicas da turma de Gottlieb. Qualquer um podia se transformar em “candidato”: civis ou militares, americanos ou estrangeiros, ricos ou pobres. Eles eram submetidos ao estado vegetativo antes de suas memórias serem apagadas por meio de um coquetel diário de drogas, administrado pelos cientistas da CIA. O processo chamava-se “terapia do sono”. Durante duas a quatro semanas, de duas até três vezes por dia, os pacientes do MK Ultra recebiam doses cavalares de medicamentos, como nembutal e fenergan, além de eletrochoques de 110 volts. Alguns simpatizantes da teoria conspiratória juram que a experiência saiu dos laboratórios para o mundo real. Muitos dos soldados americanos que combateram no Vietnã teriam sido controlados mentalmente. Poucos fatos ficaram documentados, pois Richard Helms, então diretor da CIA, mandou destruir todos os registros do MK Ultra em 1972. Entretanto, parte da papelada sobreviveu, alimentando a literatura conspiratória.

Em 1973, comissões do Congresso americano investigaram o tal programa de controle mental. Os diretores da CIA afirmaram que o projeto nunca progrediu e jamais alcançou o objetivo de controle remoto. O uso de cobaias humanas também foi negado. Mas uma série de crimes famosos, com assassinos supostamente alucinados, indicaria que o MK Ultra deu certo e começou a ser implantado nos anos 60 e 70. Aqui entra a conspiração que escolheu como alvos John e Robert Kennedy, Martin Luther King e John Lennon. Todos os assassinos dessas personalidades – respectivamente, Lee Harvey Oswald, Sirhan Bishara Sirhan, James Earl Ray e Mark David Chapman – teriam agido sob manipulação mental a distância.

As únicas “provas” existentes são os depoimentos dos criminosos. Sirhan declarou ter atirado inconscientemente em Bob Kennedy, em 5 de julho de 1968. As três balas que disparou no senador apenas serviram para distrair as testemunhas presentes no hotel Ambassador, em Los Angeles. O verdadeiro assassino teria dado um balaço de perto nas costas da vítima, o que explicaria a estranha perfuração na nuca de Bob encontrada durante a necropsia. No caso de Lennon, Chapman disse que ouvia vozes que o incentivavam a matar o músico naquele trágico 8 de dezembro de 1980 (leia mais na página 46).

Isso significa que a CIA criou os seus agentes-zumbis? Eric Olson, filho do cientista Frank Olson, não tem dúvidas de que seu pai foi eliminado porque pretendia denunciar o uso de humanos no MK Ultra. “Eles (a CIA) não podiam correr o risco de deixar o meu pai envolvido ou, considerando tudo o que ele sabia, permitir que pedisse demissão”, disse Eric em uma entrevista para o jornal London Mail, em agosto de 1998. Ele comparou o programa de controle mental ao projeto Manhattan, que construiu a bomba atômica em 1945. Como se sabe, a bomba ficou pronta e foi detonada. Os agentes também?

Conspirólogos acreditam que os pesquisadores não cessaram as experiências depois da investigação no Congresso. Nos anos seguintes, eles teriam obtido resultados significativos com a estimulação eletrônica do cérebro por meio do implante de uma pequena sonda na cabeça. Um dispositivo eletrônico acionado por ondas de rádio controlaria emoções como a ira, o desejo sexual e o cansaço. Novos avanços introduziram as microondas, combinadas com os conhecidos estudos do MK Ultra sobre hipnose. As palavras do hipnotizador chegariam ao cérebro por eletromagnetismo, sem nenhum dispositivo receptor implantado. Assim, o serviço de inteligência interviria na mente a distância, sem que a pessoa controlada percebesse, e acabaria com provas materiais, como chips e sondas. Os documentos recuperados da fogueira em 1972 não esclarecem muito. O que se sabe é que a CIA trabalhou no MK Ultra em plena Guerra Fria, visando conter o avanço do comunismo. O alvo principal seria Fidel Castro. Ironicamente, o líder cubano está vivo até hoje.