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Contém: besouros, plástico, cimento,fungos, bactérias e bombas!

Texto Aryane Cararo

Ketchup com ingredientes do cimento, insetos para dar cor à salsicha, gases bélicos no creme de barbear. Calma! Ao contrário do que se pensa, poucos aditivos químicos fazem mal e muitos são tão naturais quanto um alface. Conheça a ciência bizarra dos produtos mais comuns na sua casa.

KATCHUP – Ele é mais natural do que você imagina.

COMPOSIÇÃO: polpa de tomate, vinagre, sal, espessantes (goma xantana e pectina) açúcar, conservantes (ácido sórbico e cloreto de cálcio).

Goma xantana

Trata-se de meleca de bactérias. Esse carboidrato gelatinoso vem das bactérias Xanthomonas, uma praga que ataca verduras e a cana-de-açúcar, vivendo de sacarose. Na indústria, elas são criadas para virar uma gosma, que dá consistência a sucos, sorvetes, xaropes, cremes dentais. Também é usada em tintas de parede e até para lubrificar brocas de perfuração de petróleo.

Ácido sórbico

Sem ele, o ketchup ficaria com uma camada branca ou cinza em poucos dias. O ácido sórbico evita que apareçam bolores e leveduras em alimentos ácidos, como refrigerantes, iogurtes e maionese. Extraído da tramazeira, uma árvore que dá frutinhos vermelhos, é um dos conservantes mais eficientes e menos tóxicos que existem – faz menos mal que o sal de cozinha ou o vinagre.

Cloreto de cálcio

Esconde do sabor a acidez do ketchup – mas não a elimina, já que a acidez inibe microorganismos. O cloreto de cálcio une os ingredientes, evitando que a água se separe da mistura. Fora da cozinha, aparece no extintor de incêndio e até em misturas de concreto, para reduzir o tempo de endurecimento do cimento. Na concentração usada em alimentos, não faz mal à saúde.

Pectina

Sabe aquela casca branca da laranja? Ela é cheia do polissacarídeo pectina, o principal componente da parede celular dos vegetais. Da casca da laranja e dos resíduos da polpa da maçã, se extrai o suco de pectina. Quando está em meios ácidos e doces, como o ketchup, esse suco deixa a massa cremosa, ajudando a goma xantana a tornar o resultado mais consistente.

CREME DE BARBEAR – Das bombas de guerra para o seu rosto.

COMPOSIÇÃO: gordura (ácido palmítico e ácido esteárico), estabilizantes (BHT , hidroxietilcelulose e sílica), base (trietanolamina), fragrâncias, corante CI 42090, gases propelentes (isopentano e isobutano), solventes (água e propileno glicol), óleo de Melaleuca alternifolia (anti-séptico), hidratantes (oleato de glicerila, sorbitol e PEG-90M.

Ácidos palmítico e esteárico

Os dois são gordura vegetal: o primeiro vem da palma e o segundo é extraído principal­mente da mamona. É a reação desses ácidos com uma base que forma o sabão. Por isso, os dois são usados para dar corpo a várias loções cremosas. O ácido palmítico também protege a pele dos efeitos irritantes das matérias-primas detergentes.

Trietanolamina

A espuma que sai do recipiente é, em grande parte, obra desse ingrediente. Em contato com o ar, ele reage com os ácidos e forma o sabão. É controlado pelo Exército, já que é um componente do nitrogênio mostarda, usado no tratamento de câncer e no gás mostarda, arma conhecida desde a 1a Guerra Mundial.

Isopentano e isobutano

Com a crise da camada de ozônio, as fábricas tiveram de trocar o CFC por gases menos nocivos, como esses dois. Inflamáveis, eles se expandem rapidamente e expulsam a espuma do frasco. Não são tóxicos, mas asfixiam em concentração alta, já que deslocam o oxigênio.

Sílica

A sílica em pó é vilã das doenças pulmonares, mas, no estado líquido, serve como um estabilizante. Dentro da embalagem, sob pressão, o produto precisa de agentes como a sílica para evitar que os gases, sob forma líquida, se misturem.

Oleato de Glicerila, sorbitol e PEG-90M

O rosto dos homens seria como o de um Frankenstein não fossem esses 3 amigos. Eles hidratam as células da pele, deixando-a escorregadia e protegida para que a lâmina de barbear deslize na boa.

SABONETE ESFOLIANTE – Tira gordura, repõe gordura.

COMPOSIÇÃO: polietileno, gordura (ácido esteárico, ácido de coco e cocoato de sódio), detergentes (isetionato de sódio e estearato de sódio), água, hidratantes (sebato de sódio e cocoilisetionato de sódio), dióxido de titânio, óleo de amêndoa, óleo de semente de girassol, sal, óxido de zinco e conservante EDTA.

Polietileno

Sabe aquela areia do sabonete esfoliante? Não é areia, mas plástico, o mesmo de qualquer saco de supermercado. A diferença é que, na fórmula cosmética, ele está no formato em que é comercializado como matéria-prima: em grânulos.

Isetionato de sódio

Um dos principais componentes do sabonete, o isetionato tem propriedades detergentes. Separa do corpo as partículas de gordura muito finas. Por ter baixo poder de irritação, é o queridinho na fabricação de produtos hidratantes.

Cocoilisetionato de sódio

Sua função é a oposta do item anterior: depositar na pele uma camada de gordura, repondo a proteção natural do corpo e deixando a pele menos exposta à agressão dos detergentes presentes na fórmula.

Dióxido de titânio

No sabonete, o dióxido é o agente que opacifica o produto, ou seja: dá ao sabonete aquele aspecto branco cremoso. Junto ao óxido de zinco, é muito utilizado em protetores solares, pois os dois são capazes de barrar a radiação solar.

Óleo de semente de girassol

Usado em cremes vegetais, como a maionese, entra na fórmula do sabonete porque nutre e hidrata as células da pele.

Estearato de sódio

É o componente que forma o sabão. O estearato é um tensoativo, ou seja, mistura e dissolve a sujeira, o sebo e o suor da superfície da pele, para que sejam todos arrastados pela água ralo abaixo.

XAMPU – Brincando com a energia elétrica do seu cabelo.

COMPOSIÇÃO: água, detergentes (lauril éter sulfato de sódio e cocoamidopropil betaína), reguladores de viscosidade (diestearato de etilenoglicol e carbômero), sal, fragrância, cloreto de guar hidroxipropiltrimônio, palmitato (pró-retinol A), BHT, formaldeído, dimethiconol, vitamina A, ceramida, corante CI 17200, hidróxido de sódio, ácido cítrico.

Ácido cítrico

Ele dá a sensação de frescor no refrigerante, mas na fórmula do xampu regula a acidez para deixá-la idêntica ao pH dos fios de cabelo. Assim, afasta a possibilidade de irritação.

Lauril éter sulfato de sódio

Correntes de internet volta e meia afirmam que o lauril é cancerígeno, mas a Anvisa já deu parecer favorável a esse superdetergente. Ele é carregado com íons que abrem a camada externa dos fios, tirando a sujeira do cabelo. Também é usado em cremes de limpeza da pele, amaciantes de roupas e sorvetes, misturando os ingredientes.

Cocoamidopropil betaína

Controla o tamanho das bolhas de espuma, ajudando a reduzi-las e deixando-as parecidas. Também abre as cutículas dos fios – e, quando faz isso, o cabelo perde o brilho.

Cloreto de guar hidroxipropiltrimônio

Esse aditivo impronunciável é um dos amigos do cabelo. Depois que os tensoativos abrem as cutículas dos fios e tiram a sujeira, o cloreto de guar etc., que tem carga elétrica contrária à do cabelo, neutraliza tudo. Fios fechados e superfícies lisas refletem melhor a luz, gerando brilho.

Formaldeído

Isso mesmo: o formol, usado para embalsamar cadáveres, também vai no xampu. Até 0,2% de concentração, ele não causa dano nenhum. Por volta de 4%, vira um poderoso alisante de cabelos (usado na ilegal escova progressiva), mas pode provocar câncer.

Hidróxido de sódio

Calma! A soda cáustica não vai queimar o cabelo. Sua função é só estabilizar a mistura e ser base para o sabão.

REFRIGERANTE – Água, gás carbônico e cor.

COMPOSIÇÃO: água gaseificada, açúcar, suco natural de laranja 10%, acidulante INS 330, conservante INS 211, estabilizantes INS 444 e INS 480, aroma sintético idêntico ao natural, corante artificial INS 110 (amarelo-crepúsculo), antioxidante INS 300.

Água gaseificada

Para que o refri tenha as famosas bolhas, água a gás carbônico são combinados no carbonizador – um aparelho que comprime e dissolve o CO2 na água. O resultado é um ácido líquido, o ácido carbônico, ou água gaseificada. Já dentro da embalagem, os refrigerantes recebem uma dose extra de gás carbônico para conservar a bebida. Quando você abre a garrafa, ele foge imediatamente.

Acidulante INS 330

A sigla INS vem de International Number System, o sistema numérico padrão para aditivos químicos. O 330 é o velho ácido cítrico. Ele deixa a bebida mais ácida, reduz os micróbios presentes ali e também é responsável pela sensação refrescante do refrigerante. O ácido cítrico é produzido por um fungo, o Aspergillus niger, durante a fermentação do melado de cana-de-açúcar.

Estabilizantes INS 444 e 480

Servem para que o refrigerante não separe a água dos óleos essenciais durante o prazo de validade, mantendo o gosto da bebida. Sem eles, a Fanta teria tudo, menos gosto de laranja. Bebidas energéticas e sucos também agradecem: com esses dois aditivos, cada gole é igual ao outro.

Corante artificial INS 110

Sintetizado a partir da tinta de alcatrão, o corante amarelo-crepúsculo está em quase tudo que é cor de laranja, como balas, cereais, xaropes. Pessoas com asma ou hipersensibilidade à aspirina podem ter reações adversas, como rinite – por isso, o INS 110 foi proibido na Finlândia e na Noruega.

Antioxidante INS 300

Um nome difícil para o ácido ascórbico, também conhecido como vitamina C. Serve para evitar que a bebida sofra oxidação e o aroma permaneça igual.

SALSICHA – Tem besouros em pó, fumaça em pó e até carne.

COMPOSIÇÃO: carne mecanicamente separada de ave, pele e miúdos suínos (fígado, rins, coração), carne suína, gordura de ave, água, proteína texturizada de soja, amido (máx. 2%), sal, açúcar, alho. Estabilizante tripolifosfato de sódio, aroma de fumaça, glutamato monossódico, conservante nitrito de sódio, antioxidante eritorbato de sódio, corantes urucum e carmim de cochonilha.

Carne mecanicamente separada

No início, é o frango. Depois que a desossa manual tira o peito, a coxa e a sobrecoxa, o que sobrou vai para a prensagem mecânica. Ali é extraída a carne dentre os ossos, que sai da peneira em forma de pasta. Sem esse processo, boa parte da carne iria para o lixo. É nojento – e mais barato.

Pele e miúdos suínos

Se só tivesse carne, a salsicha seria dura e cara. A pele de porco cozida é fonte de proteína de gordura e de colágeno (uma gelatina que deixa a mistura macia). O coração dá cor à massa, já que é rico em mioglobina (o pigmento vermelho da carne). Já os outros componentes (fígado e rins) não têm função certa: servem mesmo para encher lingüiça, ou melhor, salsicha.

Água, proteína de soja e amido

Uma invenção brasileira. Para substituir parte da gordura, as indústrias nacionais usam água. Para reter essa água, é preciso adicionar proteína de soja e amido (fécula de mandioca). Essa soma reduz a quantidade de gordura – enquanto as salsichas estrangeiras têm até 30% de gordura, as nacionais levam de 20% a 22%.

Tripolifosfato de sódio

Coadjuvante do sal, ajuda a manter a gordura misturada à massa. A salsicha poderia passar sem o tripolifosfato: ele é prescindível do ponto de vista tecnológico e tem muito sódio – um problema para hipertensos. Por isso, é evitado na Alemanha e na Suíça.

Aroma de fumaça

É como comer fumaça em pó. A fábrica destila a fumaça na água, filtra as impurezas e seca a solução. O pó restante é acrescentado à massa, dando aquele sabor de defumado à lingüiça.

Corante de urucum

Usado como maquiagem por índios brasileiros, o urucum dá a cor da capa da salsicha. O Brasil usa urucum na salsicha porque, aqui, ela só vende se for colorida. Mas a lei proíbe urucum na parte interna – que poderia mascarar uma possível falta de carne.

Carmim de cochonilha (INS 120)

Parece piada, mas esse corante é extraído da fêmea do Dactylopius coccus, um inseto que não mede mais de 5 milímetros. Secado ao sol e depois triturado, o besouro vira um corante vermelho usado em iogurtes, sorvetes, recheios de bolachas. O problema é juntar tantos insetos: para cada quilo do pigmento, vão 150 000 bichos!

PRECAUÇÕES

• Nos desodorantes antitranspirantes, o cloreto e o sulfato de alumínio bloqueiam a produção do suor. Os cientistas ainda não têm certeza se esse bloqueio traz problemas. Na dúvida, melhor preferir os desodorantes que não impedem a transpiração.

• A salsicha pode não ser um primor, já que mistura ave, porco e miúdos de ambos na composição. Mas jornal, definitivamente, ainda não entrou para a fórmula, como as correntes na internet propagam.

• O leite longa-vida não tem conservantes: ele passa por um processo de esterilização a alta temperatura. É fervido a 144 oC por cerca de 3 segundos.

FONTES: Pedro Eduardo de Felício, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp (salsicha); Carmen Silvia Fávaro Trindade, professora de Engenharia de Alimentos da USP (refrigerante e ketchup); empresa Unilever do Brasil (ketchup); Associação Brasileira de Cosmetologia (xampu e creme de barbear); Marcelo Guimarães, professor de farmacotécnica e cosmetologia da Universidade Mackenzie e da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC; e Mônica Camargo, pesquisadora do Centro de Química e Nutrição Aplicada (Ital).