Curativos genéticos

Por Redação Super

Flávio Dieguez

Devagar, sem fazer muito barulho, bioquímicos e geneticistas estão criando uma nova revolução na Medicina. É a terapia gênica, nome que se dá à técnica de fazer curativos nos genes para remediar os males do corpo.

Imagine que um cidadão quebrou o braço. E, em vez de engessar e esperar a regeneração natural dos tecidos, o médico implanta em algumas células da vítima, como as do sangue, um pedaço de DNA corretivo. Este fragmento fabrica uma proteína que faz a soldagem de um modo muito mais simples e rápido que o tradicional. Em ratos, esse tipo de remendo genético foi experimentado com sucesso. Mas isso é apenas um meio de ilustrar uma técnica revolucionária, que pode fazer muito mais do que colar ossos. Em poucas palavras, não importa se os sintomas são os da Aids, da gripe, do câncer ou de uma doença hereditária. Sempre vai dar para arranjar um gene que ajuda a eliminar o mal ou a aliviar as suas conseqüências.

A essa técnica se dá o nome de terapia gênica. Ela vem sendo aprimorada em silêncio, nos últimos anos, em milhares de experiências, com animais ou com alguns pacientes humanos. Nenhum dos testes deu resultado conclusivo, e seria uma falha ética imperdoável exagerar as esperanças que eles criam para milhões de pacientes. “A nova terapia só deve chegar aos hospitais na primeira década do próximo milênio”, declarou à SUPER o bioquímico Theodore Friedmann, da Universidade da Califórnia, o mais respeitado especialista no assunto. “Mas, aí, as mudanças na Medicina vão ser fenomenais”, disse o cientista. “Comparáveis às das grandes revoluções do passado, como a das vacinas e a dos antibióticos.” Para ter uma idéia dos avanços já feitos na terapia gênica, você só precisa seguir a hélice de DNA desenhada nestas páginas e acompanhar as suas voltas ao longo das seguintes.

Reforma nas células

A molécula de DNA pode ser reparada para corrigir um mal hereditário. Melhor ainda, pode ganhar um gene inteiramente novo, feito sob medida num laboratório, com o objetivo de combater uma infecção como a Aids, ou as células enlouquecidas do câncer.

Milhões de peças

Cada um dos 50 000 a 100 000 genes é formado por milhões de moléculas menores. São os nucleotídeos, representados na ilustração por estas “pontes”entre as hélices de DNA. Implantar um gene significa colocar, no lugar exato, um conjunto completo de nucleotídeos.

O remédio que, vem de dentro das células

A melhor maneira de entender os curativos genéticos, ou a terapia gênica, como dizem os especialistas, é comparar o organismo humano com um computador. Essa analogia é possível porque tanto um como o outro precisam de instruções para trabalhar. Assim, enquanto a máquina lê os comandos gravados nos programas, o corpo segue as ordens escritas nos genes. Isso quer dizer que não é preciso mexer diretamente nos órgãos para tentar eliminar os males de um cidadão. Basta instalar nas células um novo programa – ou seja, um novo gene – e deixar que, daí para a frente, o próprio organismo resolva os seus problemas.

Não é difícil perceber o potencial revolucionário desse tipo de tratamento. Antes de mais nada, ele cria a primeira oportunidade de atacar pela raiz as doenças hereditárias. Ou seja, aquelas em que o paciente já vem ao mundo com um “software” imperfeito. O ideal, aqui, seria trocar o gene enguiçado por uma cópia em boas condições. Agora, se o gene não foi identificado, ou se ninguém sabe direito como ele funciona, sempre existe a alternativa de achar algum outro pedaço de DNA que possa, pelo menos, eliminar os sintomas.

Só o começo da história

Basta essa possibilidade para explicar o entusiasmo com a terapia gênica, pois há registro de mais de 4 000 moléstias associadas a defeitos nos genes, muitas delas incuráveis. Mas isso é só o começo da história, como se vê pela Aids, que não é hereditária e não tem nada a ver com mutações ou estragos feitos no DNA por radiação ou qualquer outro acidente. Apesar de ser causada por um vírus, o HIV, ela também pode ser combatida com fragmentos de DNA que, de alguma forma, prejudiquem o vírus. Até já se conhecem proteínas que atrapalham a proliferação do micróbio. Os pesquisadores estão tentando implantar no organismo dos pacientes o gene que fabrica essas substâncias. E aí, se der certo, as próprias células poderão fabricar antídotos contra o HIV.

É isso o que faz a nova terapia: descobrir genes que, de uma maneira ou de outra, fabricam proteínas benéficas à saúde. Essa orientação, nos últimos anos, já levou à descoberta de substâncias incríveis. Algumas induzem as células cancerígenas ao sucídio, outras apressam a regeneração de ossos quebrados e outras ainda fortalecem células musculares atrofiadas. No fim das contas, o futuro da terapia gênica depende do arsenal de genes úteis que vêm sendo identificados em número cada vez maior. Daí sairá a matéria-prima para forjar softwares químicos capazes de transformar a maquinaria celular em uma farmácia que funciona sozinha dentro do corpo.

Quando os bandidos viram mocinhos

A cena é extraordinária. Primeiro, uma seringa cheia de vírus penetra na pele de alguns ratos, injetando um enxame de microrganismos diretamente no tecido muscular dos animais.

Uma vez lá dentro, os invasores aproveitam sua habilidade natural para assaltar os organismos alheios, esburacam a membrana das células e dão início à infecção. Essa experiência foi realizada em abril, no Laboratório Axel Kahn, em Paris, um dos mais bem equipados do mundo. Mas a meta não era provocar uma doença. Ao contrário, os vírus foram usados para transportar até as células dos animais dois pedaços de DNA capazes de reverter a atrofia dos seus músculos, que é o sintoma central do chamado mal de Duchenne.

Na França, em julho passado, a SUPER ouviu do geneticista Georg Haase, coordenador do trabalho, uma explicação completa sobre a participação dos ratos e dos vírus em suas pesquisas. “Eles nos ajudaram a dar uma demonstração clara de que o mal de Duchenne pode ser tratado por meio de um implante de genes”, disse o cientista. Só que para isso, bem antes da experiência, foi preciso preparar os ratos para fazer o papel de pacientes. Isso mesmo: quando ainda eram embriões, os bichos haviam sido submetidos a um enxerto de genes que, mais tarde, simulariam os sintomas da doença. Assim, na hora certa, os roedores fizeram o papel de pacientes a serem curados.

O segundo passo foi preparar os vírus, que, antes de serem injetados nos animais, também ganharam genes novos. Dessa vez, eram pedaços de DNA benéficos, destinados a corrigir o mal imposto aos ratos na fase anterior. E foi o que aconteceu. Logo que os vírus entregaram a encomenda, os genes passaram a produzir duas proteínas, conhecidas pelas siglas NT-3 e CNTF, que, por sua vez, brecaram a degeneração muscular.

Perdidos no organismo

Assim, além de comprovar a eficiência da nova terapia, Haase também obteve uma vitória ao empregar os vírus como uma espécie de táxi para transportar os genes até seu local de trabalho, que é o interior das células. Os vírus são muito bons nisso. Mas volta e meia erram o alvo: perdem-se no organismo infectado por motivo desconhecido. Outras vezes, embora os pesquisadores sempre tomem a precaução de extirpar a parte perigosa do seu DNA, os micróbios destroem a própria célula que eles deveriam ajudar.

A proeza francesa ilustra um dos dois métodos empregados atualmente para aprimorar os curativos genéticos. É que Haase prefere fazer seus estudos em cobaias. Outros pesquisadores partem diretamente para os testes com pacientes de verdade.

A vantagem de usar animais é poder testar idéias ousadas e arriscadas, que nunca poderiam ser experimentadas num cidadão. A desvantagem é que o que dá certo num bicho nem sempre serve para nós. Então, os resultados têm de ser confirmados, mais tarde, no organismo de um paciente real.

Já nos testes com gente, os progressos podem ser considerados definitivos, mas os cientistas ficam limitados pela necessidade de proteger o ser humano. Num método e no outro, a meta não muda: vencer o desafio que é instalar genes novos num organismo e fazê-los funcionar de maneira adequada.

Um breque nas doenças hereditárias

Theodore Friedmann, atual diretor do Programa de Terapia Gênica da Universidade da Califórnia, em Berkeley, usa as palavras como quem manipula um bisturi. Com precisão. Foi desse modo que ele resumiu para a SUPER em que pé estão as tentativas atuais de fazer reformas curativas nas moléculas de DNA. “Lemos às vezes na imprensa que a terapia gênica já está pronta para virar rotina nos consultórios”, diz ele. “Mas não está.” O que os pesquisadores fizeram, segundo o cientista, foi dar o passo fundamental, mostrando que é possível introduzir genes novos no organismo e conseguir que eles funcionem lá dentro.

Mas daí até a aplicação prática é outra história. É verdade que alguns dos genes transferidos para células humanas, desde 1990, estão produzindo proteínas úteis até hoje, o que é um resultado muito positivo. Apesar disso, nenhum dos testes trouxe a cura definitiva para os mais de 2000 mil pacientes já tratados. E, ainda mais importante, muitas experiências fracassaram, e continuam fracassando, sem que os pesquisadores tenham uma idéia clara sobre o motivo da falha.

Progresso às cegas

Resumindo, já sabemos que é possível fazer remendos na molécula da hereditariedade, mas ainda não descobrimos exatamente como eles operam dentro da complicada máquina que é o organismo humano. O trabalho avança um pouco às cegas. Mesmo assim, na opinião de Friedmann, seria um erro duvidar do imenso potencial da terapia gênica. “A despeito dos obstáculos, os progressos estão acontecendo com rapidez cada vez maior.” Praticamente todos os dias se encontram genes que, de uma maneira ou de outra, podem ajudar a tratar alguma doença. Ao mesmo tempo, os cientistas aprendem novas técnicas sobre a melhor maneira de implantá-los nas células. Ou seja, estão acumulando uma quantidade impressionante de descobertas que, não demora muito, vão constituir um ramo inteiramente novo da Medicina.

Friedmann está convencido de que o resultado vai ser extraordinário. Mesmo sem querer fazer futurologia, ele arrisca um palpite. Diz que a terapia gênica poderá chegar aos hospitais durante a primeira década do século XXI. E, por essa época, talvez já se possa começar a pensar em mudar não apenas os genes das células comuns, mas também os das células sexuais, que são o espermatozóide e o óvulo. Com isso, as alterações genéticas serão transmitidas dos pais para os filhos. Ou seja, uma vez corrigido um mal hereditário num cidadão, não haverá mais a possibilidade de a doença passar às gerações seguintes.

Mesmo antes que essa perspectiva se concretize, porém, as mudanças já serão comparáveis às possibilidades abertas, no passado, pela criação da anestesia, das vacinas, dos antibióticos e dos transplantes. A terapia gênica será então a quinta revolução da história da Medicina. “Estou ansioso para ver nascer essa fascinante área do conhecimento humano” completa Friedmann.

Para saber mais

Genome, Jerry Bishop e Michael Waldholz. Editora Simon and Schuster, Nova York, 1990.

O código Genético, Isaac Asimov, Editora Cultrix, São Paulo, 1992.

The Wisdom of Genes, Christopher Wills, Basic Books, Nova York, 1989.

Quatro alvos, quatro soluções

Veja como os genes podem ser usados para combater doenças dos mais diversos tipos.
Aids

Efeitos externos

• O sistema de defesa do organismo pára de trabalhar e o paciente é tomado por infecções múltiplas.

A origem profunda

• Um vírus, o HIV, especializado em destruir as células de defesa, abre o flanco do organismo para outras invasões.

Recurso convencional

• Aplicar substâncias tóxicas que prejudicam o HIV. Mas as células sadias também sofrem.

Resposta genética

• Há diversas propostas. Uma é apelar para genes que montam, dentro das próprias células, proteínas maléficas contra o HIV. Outros pedaços de DNA criam proteínas que despertam as defesas orgânicas contra o bicho.

Fibrose cística

Efeitos externos

• O pulmão fica cheio de muco, um líquido grosso que abriga germes e facilita as infecções.

A origem profunda

• Uma falha no gene que controla a saída de substâncias das células pulmonares provoca a enchente de muco.

Recurso convencional

• Batidas nas costas para soltar o muco, limpar os pulmões e combater as infecções com antibióticos.

Resposta genética

• Trocar o gene danificado por outro, em boas condições, copiada de cidadãos saudáveis. A lógica é simples. Mas, como os outros testes da terapia gênica, às vezes funciona, às vezes não, sem que se saiba a razão.

Amiotrofia

Efeitos externos

• Os músculos se degeneram. Perdem a força até atingir a paralisia completa, que é fatal.

A origem profunda

• A superprodução de uma enzima, decorrente de um defeito genético, destrói a estrutura das células.

Recurso convencional

• Algumas drogas favorecem a regeneração, embora não impeçam o desmantelamento das células.

Resposta genética

• Instalar genes fabricantes de proteínas regeneradoras. Embora não façam efeito se forem simplesmente injetadas no paciente, elas reconstroem a célula quando são produzidas sob as ordens do DNA.

Fratura

Efeitos externos

• Às vezes nem é visível. Mas pode acarretar sérias dificuldades ao acidentado.

A origem profunda

• Não é doença. Como os ossos têm pouca flexibilidade, quebram-se com relativa freqüência.

Recurso convencional

• Colocar o osso no lugar à força e imobilizá-lo até que a regeneração natural dos tecidos faça a soldagem.

Resposta genética

• Há dois anos, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia descobriram um pedaço de DNA que monta uma proteína soldadora. Feito o implante em ratos, as próprias células restauraram os ossos partidos.

Táxis com endereço certo

Os vírus são o melhor veículo para levar novos pedaços de DNA até as células.

1. Primeiro, o gene que se quer implantar é colocado dentro de um vírus.

2. Então, injetado no organismo, o bicho infecta as células e entrega a encomenda.

3. Num outro esquema, a célula é retirada do organismo e colocada num recipiente.

4. Aí, ela recebe o DNA do vírus e é colocada de volta no corpo.

O mais comum

Os retrovírus são os mais usados nos testes de terapia gênica. Inserem o DNA curativo diretamente no cromossomo, onde ele funciona melhor. Desvantagem: podem danificar outros genes.

Carga pesada

Os adenovírus levam muitos passageiros, o que aumenta a possibilidade de êxito. Só que deixam a encomenda em qualquer lugar da célula, e os novos genes nem sempre trabalham bem.

Micróbio falso

Lipossomos são esferas de gordura feitas em laboratório. Não causam doença, o que sempre preocupa nos germes reais. Mas as imitações não invadem as células com muita eficiência.

O menor de todos

Os plasmídeos formam uma rodinha com uma série de genes enfileirados. Encontrados nas bactérias, entram nas células sem risco de causar mal. Porém sua capacidade de carga é bem pequena.

Tramóias contra o mal

Vale tudo para atacar o câncer. Conheça algumas das táticas mais sensacionais.
Tumor suicida

Um gene descoberto recentemente faz uma proteína que gruda nos tumores e emite uma mensagem de que o ciclo vital das células doentes está no fim. Estas últimas, com isso, param de se reproduzir ou morrem.

Suprimento cortado

Um outro gene anticâncer é o que produz, dentro dos tumores, substâncias que fazem a manutenção do organismo. Assim, podem cortar o suprimento de sangue de que as células malignas precisam para sobreviver.

Marcação cerrada

Pedaços de DNA sintetizados em laboratório marcam de perto os genes que sofrem mutações cancerígenas. O fragmento sintético impede os genes de fabricar suas proteínas degeneradas, as que disparam o processo da doença.

Alerta geral

Certas células doentes viajam pelo sangue sem ser detectadas pelas defesas orgânicas. Mas existem proteínas que grudam nas viajantes, chamam a atenção do exército protetor e provocam um ataque em massa à doença.

Matadoras

Uma tática muito usada é a que coloca novas instruções genéticas em células tiradas de um paciente. Estas, então, “aprendem” a fazer venenos chamados citocinas. De volta ao corpo, intoxicam os tumores.