Biologia

A vida dentro de um ovo

Só agora os embriologistas começam compreender como o corpo humano esculpido, durante os primeiros meses de gestação

por Lúcia Helena de Oliveira

Um milésimo de milímetro à esquerda e, depois, dois milésimos de milímetro acima—indicações assim eram dadas ao micromanipulador, um aparelho criado para realizar, com precisão, movimentos imperceptíveis a olho nu. Com isso, não havia como errar na pontaria: a agulha de vidro alfinetou e seqüestrou uma célula, muito menor do que um grão de poeira. No prato sob o microscópio, boiando ilesas em um meio de cultura, restaram outras três células, grudadas entre si, que poderiam ser implantadas, mais tarde, no útero de uma mulher portadora de um defeito genético capaz de se manifestar apenas em seus filhos homens. Sim, os médicos do Hospital de Hammersmith, na Inglaterra, estavam roubando a célula de um ovo humano, fecundado em proveta no dia anterior. Tudo para testar se o embrião seria menino ou menina, garantindo desde o princípio a gestação de uma criança sadia. Apenas embriões femininos foram implantados na paciente, hoje mãe de duas garotinhas gêmeas, que devem apagar sua primeira velinha de aniversário no próximo mês.

As gêmeas nasceram perfeitas, como se o organismo esnobasse a célula embrionária extraída. "Até o décimo quinto dia de vida, as células do embrião são idênticas e totipotentes, isto é, capazes de originar qualquer órgão", explica o embriologista pernambucano Reinaldo Azoubel, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Ou seja, nessa fase, pode-se arrancar impunemente um quarto do embrião, sem que por isso venha ao mundo uma criança, por exemplo, sem perna nem coração. Como e quando essas células totipotentes se diferenciam são algumas das questões a que, até hoje, não se conseguiu responder. Nenhum cientista é capaz de explicar por que uma daquelas primeiras células se transforma em um pé, e não em uma mão.

"A Embriologia foi a área médica que mais evoluiu, nos últimos treze anos", insiste, mesmo assim, Azoubel. Ao assinalar um prazo tão exato, o médico pensava no nascimento, em 1978, da inglesinha Louise Brown, o primeiro bebê de proveta. Desde então, os embriologistas aprimoraram as técnicas de exames pré-natais e das chamadas fertilizações assistidas, ou in vitro, em que o laboratório substitui as trompas do aparelho reprodutor feminino como ponto de encontro do espermatozóide com o óvulo. "Há cinco anos, os médicos congelam embriões humanos a -190° Celsius, preservando-os durante três anos", exemplifica o obstetra, especialista em infertilidade, Dirceu Mendes Pereira, do Hospital Pró-Matre Paulista. Recentemente, chegou-se ao extremo de se perfurar o óvulo para injetar o espermatozóide, numa espécie de entrega a domicílio. "Ao permitir a manipulação de embriões humanos em laboratório", comenta Pereira, "esses avanços sobre bebês de proveta possibilitam, entre outras coisas, que os cientistas arrisquem explicações sobre como uma célula escolheria o seu destino até a oitava semana de gestação—a partir daí, o embrião se transforma em feto, porque já possui todos os órgãos formados." Esses só irão crescer e aprender a funcionar direito nos sete meses seguintes, até o parto.

Cerca de catorze horas depois da fecundação, o ovo inicia um processo de divisão, cada célula sempre se quebrando em duas. O embrião reúne 32 células e lembra uma amora—por isso, é chamado mórula—, seis dias mais tarde. "Metade desse tempo é consumida descendo o caminho da trompa; nos outros três dias, o embrião fica vagando, solto, de um lado para outro no útero", descreve Reinaldo Azoubel, com sua fala repleta de pausas "Quando se fixa na parede uterina, surge uma cavidade cheia de líquido no interior da mórula, que agora passa a se chamar blástula", explica o médico. Nesse instante, ocorre a primeiríssima diferenciação, pois as células externas da blástula se alongam, talvez estimuladas pelo contato direto com o útero, gerando o chamado trofoblasto, o tecido que dá origem a tudo o que não é embrião, ou seja, aos anexos como a placenta, o saco vitelino, o líquido amniótico.Já as células do interior da blástula, que permanecem rechonchudas e iguaizinhas entre si, são conhecidas por massa celular interna—a matéria-prima da futura criança propriamente dita. Só quando o embrião completa três semanas de idade, essa massa celular interna se distingue em três camadas—feito três grandes avenidas que vão se bifurcando em caminhos diversos, em mão única, sem retorno. 

Da camada interna, o endoderma, aparecem o aparelho respiratório, os genitais, parte do aparelho digestivo; a camada intermediária, ou mesoderma, por sua vez, se transforma em músculos, ossos, cartilagens, sangue, vasos, coração e rins; a camada externa, ou ectoderma, constrói coisas tão diferentes como o sistema nervoso, a pele e seus anexos."Talvez as células já tenham um endereço determinado muito antes do que a gente consegue perceber com a tecnologia atual", divaga o obstetra José Rafael Macéa, que desde os anos 70 ensina Embriologia na Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo. Pesquisas realizadas em diversos países sobre uma mosca, a drosófila, incrementam suspeitas como essa. É relativamente comum aparecerem anomalias no desenvolvimento embrionário desse inseto, como um par de asas extra ou patas em lugares inesperados. E, sempre que algo está fora de lugar no organismo ou surge em quantidade inadequada, significa que houve engano na diferenciação celular. Na caça aos responsáveis pelo erro, os cientistas chegaram a um grupo de genes, que chamaram, em inglês, homeobox: como interruptores, eles indicam o papel certo de uma célula, ao ligar ou desligar outros genes.

Existem diversas teorias sobre como eles agiriam. A mais recente foi elaborada, no último mês de abril, por uma equipe da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Intrigados ao observar no microscópio que muitas células morrem nas primeiras semanas de vida do embrião, os cientistas levantam a hipótese de ocorrer uma legítima competição celular. Desse modo, em vez de programadas para desempenhar uma função específica—e, portanto, formar esse e não aquele órgão—, as células teriam seus genes ativados aleatoriamente pelos homeoboxes. Ou seja, uma célula pode ter 100% dos genes ativados para se tornar um neurônio, enquanto sua vizinha teria somente, por exemplo, 70% deles recrutados. No final, acabam selecionadas, por substancial como hormônios, aquelas células que, por mero acaso, teriam vocação genética para desempenhar determinado papel. As restantes, desprezadas, morreriam.

José Rafael Macéa chama a atenção para o fato de que o ambiente onde cresce o embrião, no caso, o organismo materno, também é um fator importante na diferenciação: "Em mulheres diabéticas, o risco de malformações congênitas é três a quatro vezes maior", lembra. Outra questão é desvendar como essas células encontram no embrião o seu lugar certo—por que uma perna fica embaixo dos quadris, e não pendurada no ombro. "A notocorda, uma estrutura que aparece na terceira semana de gestação, é fundamental para o processo de migração celular, embora se desconheçam os mecanismos", diz Macéa. A notocorda funciona como eixo longitudinal no embrião, garantindo sua simetria: as células parecem compreender que devem caminhar e estacionar em um ponto exato dessa régua, de um lado ou de outro. "Quando se arranca a notocorda de cobaias, crescem fetos com defeitos horripilantes", conta Macéa.

Depois do nascimento, da notocorda só resta uma massa gelatinosa, que recheia os discos da espinha dorsal, verdadeiros amortecedores entre as vértebras. "Para caminhar, as células do embrião devem usar os mesmos mecanismos das células cancerosas, ao se espalharem no organismo", especula o obstetra paulista, especialista em Genética, Thomaz Raphael Gollop. “ Entender seu processo ajudará a descobrir novos tratamentos para a doença. " Ao saber exatamente quando esse ou aquele órgão se forma, os médicos também podem, muitas vezes, evitar o aparecimento de anomalias.

Nesse sentido, a esperança está nas recentes experiências com vírus, realizadas no Instituto Pasteur, na França. Os vírus recebem o gene de uma proteína inócua, mas que o corpo humano não tem a receita para fabricar. Além disso, são incapazes de se multiplicar, ou seja, permanecem estáticos nas células que infectam. No final do ano passado, os cientistas injetaram esses vírus, através do útero, diretamente em embriões humanos. Assim, meses mais tarde, puderam notar em exames de ultra- sonografia, com injeções de substâncias marcadoras especiais, onde existia aquela proteína estranha—ela estava na mãozinha. Só tem um problema: os pesquisadores não sabem qual foi o ponto de partida, isto é, injetaram o vírus às cegas no embrião. Por isso, ainda não respondem, afinal, qual célula construiu aquela mão.

 

 

 

 

 

Para saber mais:

A vida de um atleta sexual

(SUPER número 11, ano 5)

 

 

 

 

 

A escultura do corpo humano na fase embrionária, aparecem todos os órgãos

Quatro dias

O ovo ainda não cresceu, apenas se subdividiu em doze a dezesseis células idênticas entre si. Graças à sua aparência, que lembra uma amora, nessa fase, o embrião é chamado mórula

 

Seis dias

Na fase de blástula, as células externas fixam o embrião no útero - mais tarde, elas formarão os anexos, como a placenta. A massa celular interna é que dará origem à criança

 

Quatro semanas

A cabeça, o tronco e uma cauda somam cerca de 7 milímetros de comprimento. Surgem os vasos sangüíneos, as vértebras primitivas. Dois gomos laterais são a semente dos braços

 

Cinco semanas

Agora com 12 milímetros, o embrião já tem braços e pernas—embora os dedos ainda não estejam separados entre si. A face começa a ser moldada e, mais importante, o cérebro se desenvolve

 

Oito semanas

O embrião se transforma em um feto, com cerca de 4 centímetros de comprimento e todos os órgãos formados. Eles, apenas, terão de crescer e aprender a funcionar até a hora do parto.

 

 

 

 

 

Um estranho no útero

Parecia um quadro surrealista: do útero, cercado por homens vestidos de azul, emergia o braço de um feto, erguido pelo punho fechado, do tamanho de uma bola de gude. O bisturi fez um corte de 2 centímetros na barriga do futuro bebê, com apenas 24 semanas de vida e um defeito fatal no diafragma. Para que isso acontecesse, bastou o pequeno braço ficar para fora do útero, previamente esvaziado do líquido amnéstico. O restante do corpo do feto pode permanecer naquele ambiente acolhedor, pois a mão do cirurgião foi alcançá-lo ali. Essa intrusão ocorreu, pela primeira vez, em junho de 1989, na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Só foi divulgada, no entanto, um ano mais tarde, quando se teve certeza que a criança, Blake Schultz, nascida sete semanas depois da cirurgia, era sadia.Tamanha cautela faz sentido, ao se tratar de uma área da ciência que mal começa a andar—a Medicina fetal. A dificuldade nesse tipo de cirurgia não está na fragilidade do feto, cujas cicatrizes, aliás, desaparecem antes do nascimento, tamanha a velocidade de reposição de seus tecidos. "O maior obstáculo é o útero da mulher grávida", conta o obstetra paulista Thomaz Raphael Gollop. "Ele detesta ser tocado e reage com uma série de contrações. Mesmo se, com o auxílio de drogas, o feto não é expulso logo depois da operação, o parto prematuro acaba sendo inevitável.

"Às vezes, contudo, o risco da cirurgia vale a pena. Tratar fetos, afinal, não é uma questão de pressa: muitos problemas, que se manifestaram já no organismo em formação, não têm conserto depois do parto. Um diafragma defeituoso, por exemplo, pode ser corrigido depois do nascimento, mas então a criança já estará condenada a uma grave insuficiência respiratória, com 75% de chances de morrer. "Nos anos 90, vamos passar do simples diagnóstico de anomalias para o tratamento de fetos, com injeções de remédios ou até driblando os riscos nas cirurgias", aposta Gollop.1- uma vez aberto o útero, os médicos ergueram para fora o braço esquerdo do feto para ligar aparelhos de monitoração—um de eletrocardiograrna e outro, o oxímetro, que mede o consumo de oxigênio. Ao mesmo tempo, o líquido amniótico foi retirado com uma seringa e preservado2-Os cirurgiões, então, fizeram um corte no abdome do feto, cujos órgãos subiram para o tórax, aproveitando uma brecha do diafragma. Os pulmões, nesse estado, tinham pouco espaço para crescer3-Os médicos empurraram os órgãos abdominais para o lugar certo4-Depois de se fechar o buraco no diafragma, a cavidade do tórax quase vazia, foi preenchida com uma solução salina5- 0 abdome do teto foi emendado com um material à prova d’água para ampliar seu volume e acomodar todos os órgãos. Com o útero costurado os médicos reinjetararm. o líquido amniótico.

 

 

 

 

 

 

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