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Existe vida em outros planetas?

Uma análise aprofundada das ferramentas que dispomos para descobrir se estamos ou não sozinhos no universo

Não é todo mundo que pode se vangloriar de ter presenciado uma revolução científica das grandes acontecer ao longo de um par de décadas do seu tempo de vida, mas você e eu estamos entre esses felizardos. Talvez você tenha nascido nos anos 90; em 1995, eu estava no segundo ano do ensino médio, preparando-me para prestar vestibular para valer pela primeira vez no ano seguinte. Pouco importa: o fato é que, até o dia 6 de outubro de 1995, falar em planetas fora do nosso Sistema Solar, girando em torno de estrelas como o Sol, era especulação teórica ou simples ficção científica. A julgar apenas pelos dados concretos, a Terra e seus vizinhos podiam muito bem ser os únicos planetas da galáxia.

A coisa começou a mudar naquele dia fatídico de outubro, quando os astrônomos Michel Mayor e Didier Queloz, da Universidade de Genebra, na Suíça, anunciaram ao mundo a detecção de um planeta gigante, uma enorme bola de gás semelhante a Júpiter, girando em torno da estrela 51 Pegasi, a uns 50 anos-luz de distância daqui. Vinte anos depois desse anúncio histórico, parece que os planetas extrassolares, ou exoplanetas, como também são chamados, resolveram bancar os coelhos e se multiplicaram alucinadamente.

Enquanto escrevo estas linhas, já são cerca de 1.800 os planetas extrassolares com existência confirmada, e uma única missão de caça a esses astros, a do telescópio espacial Kepler, da Nasa, já detectou uns 3 mil outros “planetas candidatos”, os quais ainda carecem de confirmação por outros métodos, mas que, na imensa maioria dos casos, de fato devem corresponder a novos exoplanetas. (Para você ter uma ideia de como essa área de pesquisa caminha a passos alucinados, eu tive de mudar os números de um dia para o outro enquanto escrevia este capítulo: os dados originais eram 1.100 planetas confirmados e 3.600 candidatos, mas o pessoal do Kepler resolveu fazer um anúncio bombástico no meio do caminho. Acredite, a chance de que os meus novos números fiquem desatualizados quando este livro chegar às suas mãos são enormes.)

Já são centenas de “sistemas solares” com múltiplos planetas girando em torno da mesma estrela, mais ou menos como o nosso. Se os dados obtidos na pequena fatia do céu decentemente examinada até agora forem representativos da nossa galáxia como um todo, a Via Láctea abrigaria 100 bilhões de planetas – ao menos um por estrela, em média. Ou seja: a existência de vida fora do Sistema Solar é quase uma certeza matemática, e não seria loucura apostar uma boa grana na presença de outras civilizações como a nossa galáxia afora. Pelos séculos dos séculos, esta ficará conhecida como a época na qual a humanidade finalmente acabou com a sua solidão cósmica, né?

Bem, mais ou menos. Só para citar outro clássico dos anos 90, nunca estivemos “tão longe, tão perto” (nome de um filme cabeça alemão e de uma música do U2 de 1993) de realizar essa façanha grandiosa. Apesar da crescente massa de dados vinda da caça aos exoplanetas, parece que estamos chegando ao limite do que as técnicas atuais conseguem fazer em termos de detecção a partir da Terra, e os projetos para obter imagens diretas de planetas extrassolares e decifrar o que existe em suas atmosferas a partir do espaço andam sofrendo com dificuldades técnicas, brigas políticas dentro da comunidade internacional de astrônomos e, principalmente, falta crônica de grana. O Kepler (que quebrou, coitado) e outras missões semelhantes, de orçamento relativamente baixo, continuarão a detectar planetas pelos próximos anos, mas as perspectivas de realmente ter uma ideia mais clara de que cara esses astros têm, e do que (ou de quem) pode estar por lá, não parecem as melhores neste momento.

É claro que toda essa dor de cabeça poderia ser tranquilamente deixada de lado se, por um golpe de sorte, realizássemos enfim o sonho dos cientistas do Instituto Seti (sigla inglesa de “busca por inteligência extraterrestre”): a detecção de um sinal de rádio produzido por ETs, emitido das profundezas do espaço e captado por antenas terráqueas. Como você provavelmente sabe, essa sorte grande continua a nos escapar por entre os dedos. É difícil dizer se estamos fazendo algo errado, tentando “escutar” frequências que só os seres humanos curtem usar; se é preciso pensar em formas totalmente diferentes de comunicação interestelar; se recebemos um sinal, mas não conseguimos enxergá-lo como tal e decodificá-lo; ou se simplesmente não tem ninguém cosmos afora usando tecnologias como o nosso rádio. O fato inescapável, porém, é que a coisa parece silenciosa lá fora – o que pode ter implicações não muito animadoras para a busca por vida extraterrestre, como tentarei discutir a seguir.

Mas, antes de entrar nessas questões filosóficas e sombrias, vamos tentar detalhar o lado mais pé no chão da coisa: como, afinal, é possível flagrar planetas fora do Sistema Solar? E algum deles poderia ser considerado sósia da Terra?

Bambolê e sombras

Pode-se dizer que a área de pesquisa em torno da busca por planetas extrassolares só nasceu por causa da relativa praticidade de observar, a partir da Terra, uma forma de bambolê estelar.

Não é que as estrelas andem por aí girando gigantescos aros de plástico em torno de suas “cinturas”, bem entendido. O que acontece é que a interação gravitacional entre as estrelas e os planetas que as circundam fazem a estrela bambolear – muito ligeiramente, é claro, visto que mesmo os planetas mais avantajados não passam de tampinhas quando comparados ao seu astro-rei.

Pois muito bem: o planeta faz com que sua estrela dê uma bambeada. É claro que, além de ser sutil, esse fenômeno acontece a anos-luz de nós, o que obviamente torna impossível a observação direta do bamboleio estelar.

Vem em socorro dos cientistas, no entanto, o efeito Doppler, do qual talvez você esteja lembrado (falamos dele ao discutir o Big Bang e os dados sobre a origem e expansão do nosso Universo). Relembrando: o efeito Doppler é o fenômeno físico que pode ser facilmente observado quando escutamos os carros fazerem “vuóóóómmm” ao passar debaixo da nossa janela de madrugada. O som dos automóveis em movimento se propaga como ondas pelo ar (assim como faz a luz pelo espaço, com a diferença importantíssima de que a luz não precisa de um meio, como o ar, para se propagar).

Essas ondas, tais como as do mar, são formadas por uma sucessão de cristas, entremeadas por vales, e a distância entre as cristas é conhecida como comprimento de onda. Eis, agora, o pulo do gato da história toda: as ondas emitidas por um objeto que se movimenta na sua direção são afetadas por esse movimento, de tal forma que o comprimento de onda parece encolher quando o troço emitindo as ondas está vindo em direção a você e esticar quando o treco está se afastando de você. É por isso, por exemplo, que a sirene de uma ambulância parece mais aguda quando ela está se aproximando, enquanto soa mais grave quando ela vira a esquina e vai embora rumo ao hospital.

Ora, como já dissemos, a luz também é uma onda (é também partículas, os chamados fótons, o que costuma fazer as pessoas quebrarem a cabeça, mas essa conversa fica pra outra hora) e sofre esse mesmíssimo efeito. Só que, no caso da luz visível, em vez de sons mais agudos ou mais graves, o que temos é um desvio, uma espécie de “torcida” na luz chega das estrelas para nós, de maneira que, se o astro bamboleia para perto de nós, a frequência de sua luz fica desviada em direção à faixa da cor azul no espectro luminoso; se, por outro lado, a estrela sofre um ligeiro afastamento de nós, esse desvio se dá rumo à faixa vermelha do espectro luminoso.

E é detectando esses leves desvios no espectro luminoso das estrelas que o bamboleio induzido pela presença de planetas é flagrado. Fácil, hein? Só é preciso um grau de precisão absurdo e instrumentos ridiculamente estáveis e confiáveis para não achar que você descobriu um novo planeta quando a estrela só soltou um pum (por assim dizer). Hoje, a partir de telescópios na Terra, já dá para flagrar planetas que causam uma variação de movimento em suas estrelas da ordem de menos de 1 m/s, ou seja, mais ou menos a velocidade com que um ser humano caminha. O método permite ter uma ideia de qual seria a massa máxima do planeta detectado (embora não seja suficiente para dizer qual a massa exata dele).

O segundo método mais comum, que deu frutos a rodo graças à presença do Kepler em órbita e também é usado pelo CoRoT, um satélite francês com participação brasileira, é bem mais fácil de explicar. Depende dos chamados trânsitos – basicamente a passagem do planeta na frente do disco de sua estrela, de maneira a induzir uma minúscula, ainda que detectável, diminuição de luminosidade do astro maior. Os observadores do lado de cá dos telescópios detectam esse pequeno “sombreamento” da estrela e conseguem inferir a presença de um planeta como causa do fenômeno.

De novo, o método tem potencialidades e limitações próprias. É preciso tomar cuidado para não confundir a queda de luminosidade que viria da passagem de um planeta com a coisa parecida gerada por uma companheira estelar (muitas estrelas são binárias, ou seja, giram em torno de outra estrela, diferentemente do nosso solitário Sol). Com o método do trânsito, é possível ter ideia do diâmetro do planeta, mas não dá para inferir sua massa. Por outro lado, se a luz estelar bater “de jeito” na atmosfera planetária e chegar até nossos telescópios, acabará carregando até aqui uma espécie de assinatura luminosa da química desse planeta, o que dá pistas sobre o ambiente predominante lá e, com muita sorte, sobre a presença ou não de vida. (Por enquanto, as pistas advindas dessa possibilidade ainda são relativamente escassas, infelizmente.)

Esses dois métodos são, disparado, os que mais renderam descobertas de planetas até hoje. No caso de sistemas estelares que abrigam diversos planetas, é possível levar em conta variações no tempo de trânsito de um planeta já conhecido para estimar a existência de companheiros dele em outras órbitas – de novo, o que conta aqui é o efeito gravitacional do planeta desconhecido sobre o conhecido, o que leva a essas alterações de seu giro. Foi mais ou menos o mesmo princípio que levou à descoberta de Netuno no nosso Sistema Solar no século 19.

Com milhares de planetas extrassolares já detectados, dá para ter uma ideia de quão comum são os corpos celestes como a Terra, e os Sistemas Solares parecidos com o nosso, nesta galáxia?

Bem, ao menos por enquanto, os planetas grandalhões são os mais detectados. Cerca de 700 são os que têm o tamanho de Júpiter ou são ainda maiores (o que dá seis vezes ou mais o raio da Terra). É virtualmente certo que estejamos falando, nesses casos, de astros cuja composição é basicamente gasosa, predominando o hidrogênio e o hélio, talvez com um pequeno núcleo sólido soterrado debaixo de uma atmosfera ridiculamente densa. Logo atrás, com cerca de 600 planetas detectados, estão os astros da mesma “divisão” que Netuno, com raio entre duas vezes e seis vezes o da Terra. Também haveria uma densa camada de gases nesse tipo de planeta, mas poderia haver também muitas moléculas na forma líquida, com uma contribuição maior de metano e água à mistura de componentes.

A próxima categoria na lista, em termos de número de planetas já descobertos, é a dos corpos celestes com raio que vai de duas vezes a 1,25 vez o da Terra, e há certa aura de mistério ao redor deles (bem, ao redor dos demais também, mas o caso destes é ainda mais sério). É comum chamá-los de “super-Terras”, porque muita gente acredita que eles teriam basicamente a mesma composição rochosa do nosso planeta, com a diferença, claro, da massa maior e da gravidade mais forte (uma consequência direta da massa). Mas há teóricos que apontam a possibilidade de que eles poderiam estar mais para “planetas-água”, cobertos com um oceano planetário muito mais profundo que o nosso (o qual, em sua fundura mais abissal, mal chega a
11 km do topo ao solo marinho). E há ainda quem prefira considerar que as super-Terras não passariam de mini-Netunos, sendo, portanto, mundos bem diferentes do nosso. A conta no caso deles: uns 350 planetas já detectados.       

OK, você já deve estar querendo cortar a minha jugular e se deleitar com o meu sangue tipo AB positivo por ficar enrolando e não dizer, de uma vez, o número que realmente interessa: quantos planetas com tamanho comparável ao da Terra já foram encontrados por aí? Não seja por isso: o número, por enquanto, é de cerca de 150.

O cenário fica mais animador quando levamos em conta as estimativas feitas pela equipe do Kepler para a galáxia toda (coisa que o telescópio espacial da Nasa jamais conseguiria fazer sozinho, já que são 100 bilhões de estrelas só na Via Láctea; o Kepler tem como missão examinar “apenas” 145 mil). Se o que o Kepler “viu” nesse cantinho galáctico for um representativo do cenário na Via Láctea como um todo, ao menos uma em cada dez estrelas do mesmo tipo do Sol (o tipo G, popularmente chamado de “anã amarela”) nesta galáxia teria um planeta do tamanho do nosso na chamada zona habitável.

Grosso modo, e bota incerteza nisso, quando falamos de “zona habitável”, estamos falando da região em torno da estrela na qual seria possível existir água em estado líquido na superfície do planeta, bem como uma atmosfera de dimensões respeitáveis, capazes de proteger o astro do bombardeio de radiação vindo de sua estrela-mãe. Se, além dos planetas que circundam estrelas semelhantes ao Sol, também foram contados os que orbitam as chamadas anãs vermelhas (que chegam, no máximo, a 50% da massa solar), estrelas extremamente comuns, o número dispara: seriam cerca de 40 bilhões de planetas “terrestres” galáxia afora. É muita coisa.

Uma visão de conjunto dos sistemas solares alienígenas descobertos até agora produz um quadro um pouco menos otimista quanto à possibilidade da existência de uma vizinhança tão hospitaleira para a vida quanto a nossa. Muitas estrelas, por exemplo, parecem abrigar os chamados “Júpiteres quentes” (sério, o acento tem de ficar nesse lugar esquisito mesmo; eu juro que preferia “Júpiteres”, mas não existe acento na quarta sílaba a partir do fim da palavra em português). São planetas gasosos gigantes que, muitas vezes, estão tão ou mais próximos de suas estrelas quanto o nosso Mercúrio, vizinho de porta do Sol.

Isso tem cheiro de problema para o surgimento da vida porque, segundo as hipóteses mais aceitas de formação planetária, dificilmente um balão de gás tão gorducho quanto Júpiter conseguiria se formar e continuar estável tão colado a uma estrela. A ideia é que, nos primórdios de qualquer sistema planetário, a “fração gasosa” não aproveitada pela estrela para atiçar sua fornalha termonuclear seria expulso para a periferia dos domínios estelares. Os “Jupíteres quentes”, portanto, seriam migrantes, tendo vindo de longe, por conta de algum processo de desestabilização gravitacional daquele sistema solar. Ou seja: planetas rochosos que estivessem no caminho dos monstros teriam sido esmigalhados, feito formigas pisoteadas por elefantes.

Há ainda o fato de que, como vimos no caso das super-Terras (ou mini-Netunos, como queira), muitos desses sistemas planetários abrigam astros que parecem não se encaixar em nenhuma categoria conhecida do Sistema Solar, com repercussões difíceis de prever para possibilidades de vida por lá. E muitos possuem órbitas esquisitonas, literalmente excêntricas (no sentido de ficarem “fora do centro” mesmo: são muuuuito ovaladas, diferentemente da órbita da Terra, que é quase um círculo, embora, na verdade, seja classificada geometricamente como uma elipse). Isso significa uma variação bem maior na luminosidade recebida pelo planeta ao longo do “ano” (entendido aqui simplesmente como o tempo que o corpo celeste leva para dar uma volta completa em torno de sua estrela, e não como o nosso ano de 365 dias e algumas horas) e, provavelmente, um ambiente menos estável para qualquer forma de vida. 

Vieses e mais vieses 

Tudo isso é um bocado intrigante, sem dúvida, mas as limitações metodológicas e técnicas que os astrônomos precisam enfrentar inevitavelmente fazem com que as estatísticas que eu desfiei acima sejam apenas sugestivas, e não conclusivas. O grande problema é o chamado viés de observação, coisa que é uma pedra no sapato de qualquer cientista que se vê forçado a lidar com um objeto de estudo que seja relativamente escasso, ou apenas muito difícil de encontrar. Talvez seja melhor explicar esse problema usando um exemplo bem mais pé no chão (literalmente, até) do que estrelas e planetas: a paleontologia, o estudo dos seres vivos do passado, que deixaram seu rastro por aí na forma de fósseis em camadas de rocha.

A questão é que se fossilizar não é para qualquer um. Sem uma série de condições um bocado especiais – o sepultamento rápido do cadáver, a ausência de bichos carniceiros e bactérias devoradoras de defuntos, clima favorável, entre outras coisas –, qualquer criatura volta ao pó do qual veio (como dizem nos funerais) em dois tempos. Preservação do esqueleto inteiro com os ossos encaixadinhos, então? É quase como ganhar sozinho na Mega-Sena, gentil leitor.

A consequência lógica disso tudo é que dificilmente algum paleontólogo terá um retrato decente da diversidade de tamanhos e formas de uma espécie, sendo forçado a lidar com o tal viés de observação, ou seja, tendo de se contentar em descrever aquele animal ou planta isolado como o representante “típico” de tal e tal forma de vida, quando é totalmente possível que aquele sujeito seja idiossincrásico, fora de esquadro. Acredita-se que essa dificuldade de amostragem atrapalhe, por exemplo, a compreensão de como a linhagem dos nossos ancestrais diretos, os chamados hominídeos, apareceu pela primeira vez – isso porque, muito provavelmente, os primatas que estão na raiz da nossa árvore genealógica viviam em florestas tropicais fechadas e úmidas, lugares nos quais a preservação de fósseis é ainda mais incomum do que na média dos ambientes que existem por aí.

O único jeito de tornar esse tipo de cenário duvidoso mais confiável é, como dizem os cientistas, aumentar o seu “n”, ou seja, o número de exemplares do que você quer estudar. Por enquanto, para voltar ao tema deste capítulo, o surgimento da vida cosmos afora, temos de engolir um nada empolgante “n = 1” – afinal, só temos o caso da Terra para examinar.

O viés de observação, no caso da caça aos planetas extrassolares, é especialmente chato porque a tecnologia atual ainda depende de técnicas que favorecem muito mais a detecção de planetas trambolhos, em detrimento dos que possuem dimensões mais modestas, como a Terra. Lembre-se que a metodologia mais “produtiva” nos primeiros dez anos de pesquisas sólidas nessa área – e ainda muito importante para tentar confirmar a massa dos exoplanetas – é a da velocidade radial, que depende da nossa capacidade de inferir a ação da gravidade dos planetas sobre suas estrelas-mães. Ou seja, quanto mais roliço o astro-filho, mais ele exercerá sua atração sobre a estrela que o pariu e, desse modo, ficará exposto à curiosidade terrestre.

Tenha em conta ainda a formulação clássica da lei da gravidade na versão de sir Isaac Newton, o britânico do século 17 que a descobriu: “A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias”. A coisa da “razão direta das massas” a gente já viu no parágrafo de cima; já a segunda parte dessa frase um tanto desconjuntada quer dizer simplesmente que, quanto mais perto um objeto está do outro, maior a atração gravitacional entre eles – e, se a distância entre os objetos diminui, a atração aumenta na mesma proporção, só que elevada ao quadrado.

Ou seja, o método da velocidade radial não só cria um viés em favor de exoplanetas gorduchos como também torna mais “enxergáveis” os astros extrassolares que estão especialmente abraçadinhos às suas estrelas. Ora, sabemos que, ao menos no caso da Terra e do Sistema Solar – nosso indefectível “n = 1” –, a vida surgiu num planeta a uma distância considerável de sua estrela, e não sentado no colo dela, por assim dizer. Mesmo que achemos um caminhão de aparentes exoplanetas rochosos posicionados no que parece ser a zona habitável de estrelas pequenas, menos energéticas que o Sol, ninguém garante que esse namoro tão próximo entre os dois astros não crie toda sorte de dor de cabeça para formas rudimentares de vida que tentarem colocar as manguinhas de fora por lá.

O que tem sido inferido para o caso de planetas tão apaixonados por suas estrelas é o chamado efeito de maré, um fenômeno que lembra o namoro Terra-Lua: tal qual amantes dançando um minueto (e eu juro por São Tomás de Aquino que essa é a última metáfora amorosa brega que eu vou usar neste capítulo), o astro menor mantém sempre a mesma face voltada para o maior (é por isso que sempre enxergamos o mesmo lado da Lua).

No caso de um par planeta-satélite, não há consequência mais severa disso do que o surgimento de lendas urbanas bisonhas sobre bases alienígenas no “lado escuro da Lua”, mas um planeta perpetuamente encarando sua estrela por conta do efeito de maré acaba sendo dividido entre uma face torrada o tempo todo pela luz estelar e outra mergulhada em escuridão que nunca termina, com um pequeno filete de penumbra no meio. Esse tipo de extremo não parece a coisa mais legal do mundo para o aparecimento de seres vivos – embora, de novo, a gente nunca possa dizer com certeza que tipo de maluquice nos espera galáxia afora, considerando os ambientes aparentemente inóspitos que bactérias e invertebrados terrestres conseguem colonizar, de fontes de água fervente a lagos antárticos gélidos e perpetuamente no escuro.

Outro ponto que merece ser mencionado: muitos desses planetas têm, por conta de sua proximidade com seu astro-rei, “anos” curtíssimos, de apenas alguns meses. Ninguém sabe dizer com certeza que papel um ano comprido como o nosso, com a alternância lenta e gradual das estações, acabou desempenhando para o florescimento da diversidade de vida terráquea – mas não é impossível que esse também tenha sido um fator importante para a nossa rica história biológica.

Dá para dizer que problemas parecidos também afetam as tentativas atuais de achar gêmeas da Terra com o método do trânsito. De novo, a relação de tamanho – mais precisamente, nesse caso, a da área do disco do planeta versus a área do disco da estrela, conforme ambas são vistas aqui da Terra – faz uma diferença considerável para a detecção e leva a um certo jogo de cartas marcadas em favor dos planetões, embora o efeito não seja tão preponderante quanto o do método gravitacional. Cria-se ainda, como vimos no caso da velocidade radial, uma visibilidade maior para os sistemas planetários que eclodiram em torno de estrelas relativamente pequenas e, nesse aspecto, diferentes do Sol, que é rigorosamente uma estrela de “classe média”.

Eis um exemplo bem concreto de como todos esses vieses de observação nos levaram, por enquanto, a detectar “Terras” alienígenas que talvez não sejam lá muito terráqueas. Trata-se de uma lista dos planetas mais semelhantes ao nosso descobertos até agora, feita por pesquisadores do Laboratório de Habitabilidade Planetária da Universidade de Porto Rico em Arecibo (lar, não por acaso, de um legendário radiotelescópio que tenta fuçar o cosmos em busca de sinais emitidos por extraterrestres). O pessoal de Arecibo usou uma métrica já existente, o IST (Índice de Similaridade com a Terra). Uma gêmea perfeita da Terra teria o índice 1 (ou seja, 100% de semelhança).

Ocorre que o planeta mais próximo desse número mágico até agora é o glorioso Gliese 667Cc, com IST de 0,84, situado a 23 anos-luz de nós. Ele orbita uma estrela M, ou seja, uma anã vermelha, e não uma estrela do tipo do Sol. Tem 1,7 vez o raio da Terra e quase quatro vezes a massa do nosso planeta (esses números são estimativas, é bom ressaltar). A temperatura média ficaria em torno dos 12 graus Celsius – aí até animei, afinal a nossa é de 15 graus Celsius – e dá uma volta completa em torno de seu astro-rei em 28,1 dias dos nossos.

Ou seja, o melhor análogo da Terra encontrado até agora é um planeta terrestre obeso com uma gravidade acachapante e um ano que dura um mês. Em tempo: Vênus, um lugar recomendadíssimo como colônia de férias (a temperatura é suficiente para derreter chumbo, e a pressão da atmosfera equivale a afundar 1 quilômetro no nosso oceano), tem IST de 0,72. Ainda precisamos ralar muito caçando planeta por aí.   

Gente mais empolgada com a possibilidade de vida galáxia afora – e isso inclui gente respeitabilíssima, como boa parte dos atuais caçadores de exoplanetas e o saudoso astrônomo pop Carl Sagan (1934-1996), criador da série de TV Cosmos e membro de inúmeras missões robóticas da Nasa que exploraram o Sistema Solar – dirá que só chatos de galocha exigiriam um análogo perfeito da Terra como condição para o florescimento dos seres vivos. No nosso próprio Sistema Solar, argumentará esse pessoal, não é nada impossível que ao menos alguns micróbios estejam se ocultando no subsolo de Marte, nos oceanos de água soterrados por camadas quilométricas de gelo das luas de Júpiter (a mais pop é Europa) ou até na baba de compostos de carbono liquefeitos de Titã, satélite de Saturno. Há coisas quase tão estranhas quanto isso acontecendo na própria Terra.

E, claro, se isso vale para o Sistema Solar, vale mais ainda para o resto da Via Láctea, dizem eles. Pode ser que planetas arrancados da órbita de suas estrelas, vagando permanentemente pelo vácuo interestelar, sejam estáveis o suficiente para gerar vida em seus mares gelados, desde que tenham uma massa apreciável. Pode até ser que a presença de água seja uma condição favorável, mas não indispensável, para o surgimento da vida – outras químicas possíveis levariam ao surgimento de micróbios e outras criaturas.
E longe de nós, assim como na nossa vizinhança planetária, as luas de gigantes gasosos localizados na zona habitável também poderiam abrigar ao menos alguns micro-organismos, certo?

São todas especulações plausíveis, mas praticamente impossíveis de testar com os dados e a tecnologia atuais. E é justamente esse o problema no momento: ao menos pelos próximos dez anos, a chance de que dados mais precisos sobre a atmosfera, a composição química e as possibilidades de vida em exoplanetas sejam obtidos parece baixa, infelizmente.

A questão é que, para garimpar essa informações, vamos precisar de tecnologias ainda mais sofisticadas – e caras – do que as que permitiram que o Kepler achasse milhares de exoplanetas. Tudo depende da capacidade técnica para conseguir enxergar diretamente a luz que vem dos planetas extrassolares, o que deixa os astrônomos com uma enxaqueca das bravas, porque as estrelas costumam ser ao menos 1 milhão de vezes mais brilhantes do que os planetas que as circundam. Do ponto de vista de quem está a anos-luz de distância, como nós, é mais ou menos como olhar para lâmpada de um poste de luz a 1 quilômetro de distância e teimar em distinguir o brilho suave de um vagalume voando em torno dessa lâmpada.

O único jeito de realizar essa façanha, portanto, é utilizar estratégias para diminuir o brilho irritante da estrela. O jeito mais simples de fazer isso é tão simples que parece ridículo: enfiar uma espécie de para-sol (para-estrela, no caso?) ou sombrinha na frente do telescópio que vai ser usado para captar a imagem do exoplaneta. O nome técnico dessa traquitana é coronógrafo, porque ele tapa todo o disco da estrela e deixa à mostra apenas suas bordas, a chamada coroa (ou corona, em latim). Com isso, a luminosidade que vem do astro-rei cai muito, sobrando mais luz do planeta extrassolar para ser detectada. Em vez de um simples disco de papelão preto estrategicamente posicionado, no entanto, os astrônomos de hoje são capazes de projetar estruturas mais complexas, que lembram vagamente pétalas de flor, para seus coronógrafos. O formato do objeto é pensado para levar em contas as propriedades da luz estelar e as dos exoplanetas, de modo que a luz desejada ricocheteie pelo coronógrafo e chegue ao espelho do telescópio, enquanto a indesejada é bloqueada.

A outra estratégia é ainda mais elegante (e complicadinha) do ponto de vista físico. A ideia é colocar no espaço uma verdadeira frota de telescópios espaciais, cada um deles de um tamanho relativamente modesto (em parte para evitar as complicações técnicas de construir um único telescópio monstrão). Entretanto, e eis a chave da estratégia, os telescópios voariam numa formação precisa, alinhados de tal maneira que as ondas luminosas vindas dos exoplanetas ficariam perfeitamente alinhadas, uma crista de onda em cima da outra. Os resultados desse processo são muito bem conhecidos dos físicos: as ondas se reforçam, o que faz com que mais informação luminosa chegue aos “olhos” dos telescópios. E pronto: daria para tirar uma “foto” dos exoplanetas (provavelmente seria bem mais fácil fazer isso na faixa do infravermelho, como nos óculos de visão noturna aqui na Terra, por conta dos tipos de radiação emitidos pelos planetas e por suas estrelas).

No papel, tudo isso é lindo e maravilhoso, mas ia custar um dinheiro lascado, isso sem falar nas dificuldades técnicas para alcançar o nível de precisão necessário para que missões espaciais tão complicadas sejam um sucesso. O resumo da ópera é que, por pura falta de caixa, os grandes projetos do tipo foram, por ora, engavetados pela Nasa e pela ESA, a agência espacial da União Europeia.

Quando um plano desse naipe finalmente sair do chão, o que os astrônomos vão procurar, afinal de contas? Numa única palavra: desequilíbrio. A verdade é que, ao menos do ponto de vista químico, poucas coisas são mais “equilibradas” do que um planeta morto. Todas as substâncias que podem realizar reações químicas com outras o fazem, e o resultado é um mundo relativamente estático, onde pouca coisa muda para valer.

Por outro lado, planetas com biosfera, como este no qual escrevo, conseguem realizar o aparente milagre de manter compostos químicos em situação de desequilíbrio, porque a atividade dos seres vivos continua reabastecendo a atmosfera com eles o tempo todo. Se há quantidades apreciáveis de duas substâncias que não deveriam existir juntas por muito tempo na atmosfera, é bom desconfiar. Só para dar um exemplo, a combinação terráquea de oxigênio e metano é “desequilibrada” – deveria acabar desembocando apenas em dióxido de carbono. Mas organismos como algas e vegetais (no caso do oxigênio) e certas bactérias (no caso do metano) continuam reabastecendo nosso planeta com essas moléculas.

Bastaria examinar as faixas do espectro luminoso que emanam dos exoplanetas para verificar a presença dessas substâncias, porque cada molécula absorve e emite luz de acordo um padrão específico, bastante bem conhecido. Essa é a grande esperança nas tentativas de detectar vida fora do Sistema Solar – indiretamente, já que não temos tecnologia para enviar naves não tripuladas ou tripuladas para outras estrelas numa viagem que dure menos do que vários milhares de anos.

A equação de Drake

Não esse Drake, o outro.

Nenhuma narrativa sobre a busca por vida no cosmos fica completa sem ao menos uma menção à equação de Drake, e acho que esta é uma boa hora para apresentar a você (caso ainda não a conheça, claro) essa expressão matemática circundada de mistério. Formulada pelo astrônomo americano Frank Drake (nascido em 1930, ainda firme e forte), a equação é uma forma inteligente de quantificar a nossa ignorância sobre a existência de vida lá fora e, mais importante ainda, sobre a existência de formas de vida inteligentes o suficiente para se comunicarem conosco cá embaixo. Sem mais delongas, ei-la:

N = R*  fp  ne  fl  fi  fc  L       

N é o número mágico que todos desejamos saber: quantas civilizações com capacidade de comunicação interestelar existem na Via Láctea. R* expressa a taxa de formação de estrelas na nossa galáxia natal e fp corresponde à fração dessas estrelas com planetas. Ne se refere ao número de planetas com potencial para abrigar a vida (os situados na zona habitável, digamos, para simplificar) entre essas estrelas com planetas. Desses astros, fl é a fração dos que de fato têm seres vivos, fi são os que possuem não apenas vida, mas vida inteligente, e fc são os que possuem vida inteligente e tecnológica, capaz de mandar sinais de rádio, feito nós. L talvez seja a variável mais misteriosa e potencialmente sombria da equação de Drake: o tempo de vida dessas civilizações tecnológicas – ou, ao menos, o tempo durante o qual elas continuam usando tecnologias que enviam sinais detectáveis para o espaço.

Quando eu falei em “quantificar nossa ignorância”, é porque essa ignorância ainda é, sem trocadilhos, astronômica. Já temos uma ideia relativamente boa dos três primeiros parâmetros da equação: R = sete estrelas por ano “nascendo” na Via Láctea,  fp deve ser próximo de 1 (o que quer dizer que, em média, toda estrela da nossa galáxia tem ao menos um planetinha) e ne deve estar em torno de 0,4 (pouco menos da metade dessas estrelas possuem planetas na zona habitável). Isso quer dizer que, para mais da metade da equação, quaisquer parâmetros que usarmos vão ser chutes, por mais bem dados que forem.

Drake, um dos idealizadores do Instituto Seti, bem como outros colegas ao redor do mundo, há décadas fazem todo o possível para reduzir esse nível de incerteza um tanto patético tentando “escutar” sinais de rádio que poderiam estar sendo enviados, ou ao menos estariam “vazando”, de outros planetas galáxia afora. O pressuposto por trás desse tipo de busca é que as frequências de telecomunicações que usamos na Terra são mais ou menos a escolha lógica para quem quer transmitir mensagens de um ponto ao outro de seu próprio planeta em outros lugares da Via Láctea.

Afinal de contas, são ondas eletromagnéticas que atravessam com facilidade atmosferas parecidas com a nossa e, pelo que sabemos, não costumam causar danos aos seres vivos (por mais que tenha gente por aí achando que usar o celular demais dá câncer de cérebro).

A lógica por trás da ideia em si não é ruim, como você pode ver, mas a verdade é que, até agora, o silêncio vindo do resto da galáxia é desanimador. Por um lado, não ajuda muito o fato de que a pesquisa nessa área vive numa pindaíba tremenda, tendo de mendigar dinheiro de doadores privados porque nenhum governo do mundo hoje (ou, pra ser sincero, nas décadas passadas também) acha prioritário tentar ouvir sinais de rádio do espaço.

Tem também o problema de a nossa galáxia (e que dirá então o resto do Universo) ser tão vasta, com 100 mil anos-luz de diâmetro. Uma mensagem emitida no canto oposto da Via Láctea quando os primeiros membros da nossa espécie estavam apenas ensaiando deixar seu continente natal, a África, estaria chegando apenas agora até nós. Até onde sabemos, apesar das ideias malucas de alguns físicos, não dá para contornar esse limite absoluto de quão rápido algo pode andar no Universo, o limite é a velocidade da luz – o que vale inclusive para uma mensagem de rádio, a qual, por definição, aliás, é luz, embora não seja luz visível para nós.

Além dessa lentidão e da dificuldade de mapear todas as frequências que chegam até nós, pode haver também uma mera questão de comunicação: as mensagens estão chegando às pencas, mas não conseguimos enxergá-las como tal, não conseguimos decodificá-las. Nesse ponto, a bola fica no campo de matemáticos, cientistas da computação e outros especialistas capazes de diferenciar simples ruído (que estrelas e outros corpos celestes cospem em várias faixas de rádio o tempo todo) de sinais verdadeiros. Outra possibilidade talvez ainda mais frustrante: a Via Láctea estaria cheia de civilizações inteligentes e de alta tecnologia, mas, conforme esse tipo de civilização amadurece, a dependência de sinais de rádio como forma avançada de comunicação desaparece. Esse processo, aliás, pode ser visto aqui mesmo na Terra, com o uso de fibra óptica. Teriam a internet banda larga e a TV a cabo “matado” nossas chances de sermos detectados por nossos vizinhos galácticos?

Por outro lado, por mais que todos nós sejamos naturalmente apegados aos nossos cérebros inteligentes e a tudo o que eles realizaram, talvez seja bobagem esperar que toda biosfera produza espécies parecidas conosco do ponto de vista mental. Talvez seja facílimo desencadear a vida microbiana, mas muito mais difícil criar animais, por exemplo. Talvez animais como os vertebrados sejam comuns, e até animais inteligentíssimos, como os golfinhos e corvos, mas pode ser que criaturas desse tipo apenas raramente façam o salto de “espertos” para “construtores de pirâmides e telescópios espaciais”. De novo, ainda não temos como saber.

Resolvi deixar os aspectos mais sombrios da equação de Drake para o final, talvez porque eles funcionem, de certa maneira, como uma espécie de choque de realidade, de um espelho da nossa própria condição esquisita e, às vezes, desagradável. Gente que tenta usar os critérios da biologia evolutiva para entender como a psicologia e a história humana funcionam – um exemplo muito respeitado é o biogeógrafo americano Jared Diamond – costuma defender que, ainda que o cosmos esteja enviando mensagens para nós, seria uma ideia de jerico, uma idiotice de proporções galácticas, responder a esse tipo de mensagem.

O raciocínio de Diamond é o seguinte: ao longo da história humana, todo encontro surpreendente entre civilizações antes isoladas acabou em tragédia. Uma tentou dominar a outra, usando meios militares, ou acabou trazendo epidemias e desestruturação social para a outra, mesmo quando o contato foi ostensivamente pacífico. Se a maneira como criaturas biológicas inteligentes se comportam na Terra for o padrão do que acontece na Via Láctea, continuar isolado é, de longe, a ideia mais sensata. Talvez seja por isso que ninguém quer conversar com a gente, afinal: está todo mundo se borrando de medo, sem a menor vontade de bancar os incas e astecas diante dos espanhóis, ou os tupis diante dos portugueses.

Recorde, por fim, qual é o último parâmetro da equação de Drake: o L, equivalente ao tempo de vida médio de uma civilização tecnológica. Não se esqueça de que a expressão matemática foi formulada em 1961, durante o auge da Guerra Fria, um ano antes de os Estados Unidos e a União Soviética colocarem o mundo à beira da guerra nuclear por causa da proposta russa de colocar seus mísseis em Cuba.

Em inglês, a sigla MAD quer dizer “louco”, mas também representava a política insana de “destruição mútua assegurada” (do tipo “beleza, você me destrói com seus mísseis nucleares, mas não antes de eu detonar você com os meus mísseis”), gerada pela corrida armamentista atômica. Talvez esse tipo de cenário maluco, essa corrida suicida rumo ao apocalipse autoinfligido, seja o resultado lógico e natural do aparecimento de civilizações altamente tecnológicas. Desse ponto de vista, a explicação para o silêncio de rádio do resto da Via Láctea não comporta mistério algum: eles estão quietos porque estão mortos. Chegaram à fase de autodestruição antes da gente, simples assim.

Para o bem de todos nós, tomara que esse fedor de inevitabilidade seja só um subproduto do pessimismo e da belicosidade humanas, propriedades das nossas mentes que, no fundo, não sejam características comuns de todas as outras mentes inteligentes da galáxia. Além de todas as implicações existenciais fascinantes da busca por vida extraterrestre, talvez haja outro ponto importante, e bem mais prático, que essas reflexões nos levam a encarar: se quisermos obter respostas, é bom darmos um jeito de continuar vivos pelos próximos séculos. Só isso já vai ser dor de cabeça suficiente.

Este conteúdo faz parte do livro Os 11 Maiores Mistérios do Universo, do jornalista Reinaldo José Lopes.

 

Comentários

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  1. Carlos Gomes

    Com textões assim, os discos voadores demorarão a pousar.

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