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Fóssil de 3,3 milhões de anos já tinha coluna vertebral moderna

3,1 milhões de anos antes da ascenção do Homo sapiens, o Australopithecus já tinha o esqueleto adequado para andar em só duas pernas

Um fóssil de hominídeo da espécie Australopithecus afarensis com 3,3 milhões de anos encontrado na Etiópia tem características anatômicas – em especial a disposição das vértebras na coluna – muito próximas das dos seres humanos contemporâneos.

Selan, como foi apelidado (o nome significa “paz” em amárico, uma língua local com a mesma origem do árabe) tinha 2 anos e meio quando morreu. Crânio, caixa torácica, costelas e vértebras ainda estão em ótimo estado, o que o torna o mais completo e bem preservado registro de sua época – e permitiu analisar quais características do Homo sapiens atual estavam ou não presentes em um dos nossos antepassados mais antigos.

Acontece o seguinte: em algum ponto da pré-história se tornou mais vantajoso para os primatas que dariam origem a nós andar com só duas patas em vez de quatro. Isso não aconteceu de uma hora para a outra, é claro. Para que alcançássemos a postura ereta sem levar um tombo de dois em dois minutos, foram necessários centenas de milhares de anos de evolução, com alterações lentas e constantes na disposição dos ossos e músculos.

Sem fósseis completos, é difícil preencher as lacunas dessa linha do tempo. E é aí que entra Selam. Sabemos por dedução que, para alcançar o equilíbrio em duas patas, ao longo do tempo o número de vértebras da parte mais alta da coluna, onde se encaixam as costelas, precisou diminuir. Esses ossos extras “desceram” para a lombar – a parte mais baixa –, fornecendo a flexibilidade necessária para os movimentos de uma caminhada.

Seres humanos modernos têm 12 pares de costelas – e, por consequência, 12 vértebras, uma sustentando cada par. Outros primatas modernos, como os gorilas, têm pelo menos 13. Salem, no meio do caminho, já tinha 12 – o que significa que há 3,3 milhões de anos o Australopithecus afarensis já tinha uma coluna muito mais próxima da atual do que antes se pensava.

Vale lembrar que isso é muito, muito antigo: nossa espécie surgiu há “meros” 190 mil anos – 3,1 milhões de anos depois de Salem. 

“Por muitos anos, fragmentos [de fósseis] apenas sugeriam que as vértebras da lombar de hominídeos mais antigos ficava posicionada mais alto na coluna. Mas nós nunca havíamos conseguido determinar quantas vértebras tinham nossos ancestrais”, afirmou Carol Ward, professora de anatomia da Universidade de Missouri e uma das autoras do estudo. Ela passou 13 anos trabalhando em Salem. “Ele nos deu a primeira oportunidade de ver como a espinha dos nossos antepassados era organizada.”

“Essa descoberta jogou uma luz sobre um dos pontos de virada da evolução humana”, afirmou Zeresenay Alemseged, pesquisador da Universidade de Chicago e o responsável pela descoberta dos ossos há mais de uma década. “Esse grau de preservação não tem precedentes, particularmente considerando que o indivíduo era tão jovem e suas vértebras não haviam se desenvolvido completamente.