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Gatos sempre caem em pé

Sempre, não. Quase sempre. Mas isso não impede que eles se arrebentem no impacto contra o solo

Texto Eduardo Szklarz

Não, os gatos nem sempre caem de pé. Eles precisam de uma altura mínima para ter tempo de virar o corpo. E “altura mínima”, nesse caso, quer dizer “mínima” mesmo: apenas 30 centímetros são suficientes. Acima disso, a maioria dos bichanos já é capaz de corrigir a postura e cair sobre as próprias patas. O segredo está em seu apurado sistema vestibular – um conjunto de órgãos do ouvido interno que cuida do equilíbrio (veja o infográfico ao lado).

Isso não significa, contudo, que os gatos saiam sempre ilesos de uma queda. Na verdade, eles se machucam menos quando despencam de lugares mais altos – a janela de um apartamento no 7º andar, por exemplo. Quedas de uma altura entre o 2º e o 6º andares de um prédio costumam ser as piores, ainda que o impacto contra o solo seja aparentemente mais leve.

Paraquedistas

Eis a explicação para esse fenômeno. Quando cai de uma altura entre o 2º e o 6º andares, o gato normalmente não atinge sua velocidade máxima em queda livre (média de 96 km/h). E isso faz toda a diferença. Até atingi-la, o animal se ajeita para o impacto corrigindo a postura e estendendo as patas para baixo. Resultado: ao se chocar contra o solo, ele está com a musculatura rígida, o que aumenta o risco de fratura.

Em quedas do 7º andar para cima, no entanto, os 96 km/h costumam ser alcançados. Quando isso acontece, o gato instintivamente alinha seus membros na horizontal e relaxa a musculatura. “Nessa posição, aumenta o atrito com o ar e o animal tende a desacelerar”, diz a veterinária Roberta Oliveira de Carvalho, da UFMG. É o que se chama de síndrome do gato paraquedista. “Relaxado na hora do impacto, o risco de fratura é menor.”

No final da década de 1980, dois veterinários da clínica Animal Medical Center, em Nova York, examinaram 132 gatos que haviam caído do 2º ao 32º andares. Notaram que 90% deles tinham sobrevivido, embora muitos com lesões sérias. Mas continuaram vivos – graças, sobretudo, à tal síndrome do paraquedas.

Uma limitação desse estudo é que os pesquisadores avaliaram apenas os gatos levados à clínica. Aqueles que morreram no tombo ficaram de fora das estatísticas. Por isso, não custa prevenir. Se você tem um gatinho e mora nos primeiros andares de um prédio, cuide bem para que ele não despenque da janela ou da varanda. O estrago pode ser pior que uma queda do último, pois o bichano não terá o mesmo tempo para se habituar ao tombo.

FONTE: JOURNAL OF THE AMERICAN VETERINARY MEDICAL ASCIATION.

A altura do tombo
Os andares mais perigosos para os bichanos vão do 2º ao 6º

QUEDA A PARTIR DO 7º ANDAR
Quando despenca do 7º andar para cima, o gato atinge sua velocidade máxima em queda livre (96 km/h). Instintivamente, ele alinha as pernas na horizontal. Nessa posição, o atrito com o ar é maior e o animal desacelera. Ao bater no chão, está com os músculos relaxados, o que diminui o risco de fraturas e lesões musculares.

QUEDA DO 2º AO 6º ANDARES
A velocidade máxima em queda livre não é atingida antes do impacto. Quando chega ao solo, as pernas do gato estão voltadas para baixo e sua musculatura está rígida – o que aumenta o risco de fratura. Quanto mais alto o andar, mais sérias costumam ser as lesões.

QUEDA DO 2º ANDAR
O gato também não atinge a velocidade máxima em queda livre e chega ao solo do mesmo jeito: com as pernas para baixo e todo rígido, correndo o risco de fraturar vários ossos.

Numa fração de segundo
Saiba como o gato faz para se virar tão rapidamente em plena queda

OLHOS E OUVIDOS
Ao cair, os olhos e os ouvidos internos do gato enviam sinais ao cérebro, avisando que seu corpo está desalinhado em relação ao solo.

CÉREBRO E MÚSCULOS
Rapidamente, o cérebro aciona a musculatura do animal, que corrige sua postura em plena queda. Primeiro, ele vira a cabeça. Depois, o corpo todo – tudo numa fração de segundo.

ACIMA DO PE
E um gato gordão, conseguiria virar o corpo durante uma queda? Segundo os veterinários, sim. Mas lembre-se da lei da física: quanto maior a massa do bichano, maior a força do impacto contra o solo.