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Grama australiana se reveste de areia para afastar insetos

A Phalaris aquatica parece só mais um matinho inocente. Mas para não virar almoço de grilo, ela usa areia para ficar "empanada" e pouco apetitosa

A Austrália é mesmo um lugar fora de série. Lá, há mamíferos com bico de pato que botam ovos, e outros que carregam seus filhotes em bolsas. Mas ser diferentão não é privilégio do reino animal. Na maior ilha do mundo, até a grama é mais criativa que média – e criou seu próprio repelente.

A Phalaris aquatica, que você vê aí na foto, usa suas raízes para tirar silício (Si) do solo. Sim, o mesmo silício que dá nome ao vale da tecnologia na Califórnia. Esse elemento é essencial para vários componentes de celulares e computadores, mas se você juntá-lo com dois átomos de oxigênio (SiO2), como a aquatica faz, conseguirá algo completamente diferente: areia.

Com ela, a superfície do vegetal fica cheia de grãos ásperos e abrasivos. Mais ou menos como quando você se molha na praia para ficar “empanado”. Se um grilo distraído der uma mordidinha na folha para almoçar, ele enche a boca de areia – e nunca mais tenta a sorte. Um truque bem mais saudável que um jato de inseticida.

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Para medir o impacto do golpe baixo na cadeia alimentar, pesquisadores da Universidade Western Sydney, na Austrália, separaram dois grupinhos de aquatica. Um deles ganhou bastante silício para fazer areia, e acabou com uma concentração de 1,16% do elemento no corpo. Outro grupo ficou sem o material favorito de Steve Jobs, e acabou com só 0,86% de sua massa em silício.

Não deu outra: os grilos deram preferência à planta menos empanada. E os que foram obrigados a comer a mais arenosa perderam peso e passaram fome. Eles ficaram tão magros e indesejáveis que até escaparam de virar almoço do próximo degrau da cadeia alimentar: o carnívoro louva-a-deus. Em uma situação experimental normal, o inseto favorito do Kung Fu come cinco grilos por dia. Quando os grilos do almoço são alimentados com aquatica 1,16%, ele come só três (e com muita má vontade).

No artigo científico, os pesquisadores, liderados por James Ryalls, lembram que esse mecanismo de defesa pode servir como termômetro para o aquecimento global. Nas plantas, silício e carbono são elementos intercambiáveis em várias funções. Com o aumento da concentração de CO2 na atmosfera pela ação humana, a concentração do silício no corpo das plantas tende a diminuir – derrubando, por tabela, a produção do repelente de areia. Sem ele, gramas como a aquatica se tornam mais apetitosas para animais herbívoros, e a cadeia alimentar fica desequilibrada.  

“Esse estudo é um bom exemplo das complexidades da interação entre animais e plantas e como essas interações são afetadas pelo ambiente”, afirmou David Guest, outro pesquisador da Universidade de Sidney consultado pela New Scientist. “Mesmo mudanças ambientais delicadas são amplificadas por causa da sensibilidade dessas interações.”