O delicado equilíbrio dos minerais no corpo humano

"Na tentativa de fazer bem à saúde, as pessoas comem demais e ainda engolem suplementos, o que só causa confusão no organismo"

Por Redação Super

Lúcia Helena de Oliveira

No último mês de dezembro, o nutricionista americano Dennis Gordon pisou pela primeira vez na América do Sul—mais especificamente, visitou São Paulo, para participar do Simpósio Internacional sobre Fibras, promovido pela empresa Kellogg. Professor da Universidade de Missouri, ele é um dos mais respeitados especialistas do mundo em ciência dos alimentos. "Diante de uma mesa brasileira, eu me sinto como um garotinho na frente de uma vitrine de doces", diz risonho. Acabou cedendo à tentação: experimentou — e repetiu — a feijoada, sem dispensar a caipirinha, que definiu como "simplesmente deliciosa". Na sobremesa, mordiscou diversas frutas típicas e ainda lamentou não poder levá-las para a mulher, Lisa, estudante de Jornalismo, que ficou na pacata cidade de Columbia, no Estado de Missouri, cuja principal fonte de renda é a agricultura.

Apesar da aparente gula, Dennis Gordon é um crítico mordaz quando o assunto são os excessos à mesa. "Os americanos têm idéias fixas a respeito da alimentação" dispara. "Atualmente, qualquer garotinho de três anos, nos Estados Unidos, sabe dizer que colesterol faz mal à saúde. Mas, enquanto se preocupam com isso, as pessoas se esquecem de todo o resto." O professor elogia o hábito do brasileiro de comer frutas. Só uma coisa em sua curta temporada paulistana, que durou apenas três dias, o deixou descontente: a constatação de que, no Brasil, os suplementos de vitaminas e sais minerais começam a ganhar um espaço cada vez maior nas prateleiras das farmácias. "Especialmente os de minerais, algo que venho estudando nos últimos anos, podem fazer mais mal do que bem", afirma.

 

 

SUPER — Como especialista em nutrição, por que o senhor se interessa tanto pelos minerais?

GORDON — Eu acho que os minerais são intrigantes para qualquer pesquisador da minha área. Para começo de conversa, porque são diferentes dos outros nutrientes, já que não têm origem orgânica. Ou seja, como substâncias inorgânicas, eles jamais se transformam em energia para o organismo, embora possam ser importantes para o seu funcionamento. Os cientistas até conseguiam, dessa maneira, medir o consumo de minerais de uma pessoa: bastava comparar a ingestão dessas substâncias com a quantidade jogada fora, pelas fezes, pela urina e pelo suor. Mas essa era apenas parte da resposta, porque como essa quantidade consumida não se traduz em energia, eles ficavam sem saber como cada mineral estava sendo aproveitado dentro do corpo. Além disso, apesar de todas as pessoas, hoje em dia, falarem em minerais a torto e a direito, muitas vezes engolindo suplementos indiscriminadamente, o fato é que nós cientistas ainda nem sequer sabemos como a maioria dessas substâncias é absorvida pelo intestino.

 

 

 

SUPER — Então, ingerir suplementos de minerais pode ser nocivo?

GORDON — Esta é uma longa resposta, em que vale a pena prestar atenção, porque é um dos melhores exemplos de como as pessoas, na tentativa de fazer bem à saúde, acabam causando a maior confusão no organismo. Os minerais, em si, não fazem mal. Existem 25 dessas substâncias com alguma função para a saúde. Elas se dividem em três categorias: existem minerais cujas necessidades diárias são muito bem estabelecidas; outros minerais, por enquanto, têm uma dosagem apenas aproximada do ideal; finalmente, alguns minerais estão sendo examinados porque certos estudos sugerem que eles também sejam essenciais, mas os dados disponíveis ainda são insuficientes para elevá-los a tal categoria. Todas essas substâncias, no entanto, são muito peculiares: hoje está provado que quanto maior sua ingestão, menor a absorção pelo organismo. Portanto, além de ser perda de dinheiro, tomar suplementos pode significar, na prática, dar menos minerais ao organismo, em vez de Ihe fornecer doses extras, como se pretendia.

 

 

 

SUPER — Qual o mecanismo que regula a absorção?

GORDON — Por enquanto, não sabemos, pois desconhecemos como ocorre a própria absorção, isto é, que tipo de reação acontece na parede do intestino que faz a molécula de um mineral saltar para a circulação sangüínea. Uma coisa ficou clara, recentemente: a maioria dos minerais acaba sempre sendo aproveitada somente em parte. Minerais com 100% de aproveitamento podem ser considerados uma exceção— eles são o sódio, o potássio, o iodo e o cloro. O restante se comporta de maneira diferente. Apenas 10% a 20% do ferro presente no feijão, por exemplo, é absorvido pelo organismo; entre um quarto e a metade do magnésio de uma banana consegue chegar ao sangue. O cromo, por sua vez, é o pior deles—menos de 1% é absorvido. E essa absorção pode se tornar ainda menor, quanto maior for a dosagem em determinada refeição. Na realidade, os cientistas só passaram a ter certeza de que essa inversão acontecia, graças às pesquisas sobre os efeitos das fibras na dieta, realizadas nos últimos anos. Aliás, devemos ao estudo das fibras uma série de novos conceitos sobre nutrição, especialmente no que diz respeito aos minerais.

 

 

 

SUPER — O que têm a ver as fibras com os minerais?

GORDON — Há algum tempo, vários estudos começaram a apontar os benefícios das fibras, presentes nas frutas, nos vegetais, nos cereais integrais. Elas são capazes, entre outras coisas, de diminuir o volume de colesterol no sangue, evitar o câncer de intestino, facilitar a digestão dos alimentos em geral. Mesmo assim, os nutricionistas tinham dois problemas, na hora de recomendar às pessoas que aumentassem a proporção de fibras na dieta do dia-a-dia. O primeiro é que, até hoje, ninguém sabe qual a porção máxima de fibras que alguém deve consumir diariamente. Mas o maior fantasma era a preocupação com a nutrição de minerais, pois algumas experiências mostravam que a ingestão de fibras atrapalharia a absorção dessas substâncias no intestino. Quando fomos verificar se isso de fato acontecia, acabamos compreendendo melhor os mecanismos dos minerais dentro do corpo humano.

 

 

 

SUPER — E, afinal, as fibras prejudicam a nutrição mineral?

GORDON — Minha equipe defende a teoria de que isso não acontece. Essa relação negativa começou ainda em 1942, quando dois pesquisadores americanos compararam pessoas que comiam pão integral, rico em fibras, com pessoas que comiam pão branco, feito de farinha refinada e, portanto, pobre em fibras. Esses cientistas notaram que as que ingeriam mais fibras, absorviam menos cálcio, fósforo e magnésio. Desde então, surgiram estudos parecidos, com conclusões semelhantes. Alguns cientistas chegaram a demonstrar que, ao menos em tubos de ensaio, as fibras se ligariam aos minerais; assim, supunham, as fibras agarrariam essas moléculas, arrastando-as para fora consigo, já que não são digeridas pelo organismo humano. No entanto, eu sempre critiquei esses estudos. Em primeiro lugar, porque o grande argumento dos colegas que realizaram essas experiências era de que, ao acelerar o trânsito dos alimentos no intestino, as fibras diminuíam o tempo de contato das moléculas de minerais com as áreas ou sítios de absorção. Desse modo, segundo eles, muitas moléculas não tinham tempo de ser absorvidas. Mas nunca ninguém provou que, aumentando a velocidade da digestão, aumentaria também o volume de excreção de minerais. Por isso comecei a ficar inquieto. Eu queria bancar o detetive e resolver esse mistério.

 

 

 

SUPER — Como é possível investigar a ação dos minerais no organismo?

GORDON — Na Universidade de Missouri, temos um reator nuclear que permitiu a produção de uma variedade de radionuclídeos—no caso moléculas de minerais, como cálcio, zinco, selênio e ferro, que se tornaram levemente radioativas. Desse modo elas podem ser observadas no organismo, como se estivessem sendo perseguidas, por um aparelho chamado espectômetro de raios gama de alta resolução. Pela radiação captada, esse equipamento mede a quantidade absorvida de determinado mineral e, ainda, mostra com precisão as regiões do corpo em que ele se concentra.

 

 

 

SUPER — O que esses estudos com minerais radioativos ensinaram?

GORDON — Essas experiências provaram, de uma vez por todas, que ao engolir maiores quantidades de minerais, você estará, na verdade, aproveitando menos minerais. Mais do que isso: esses novos estudos deixam claro que essa redução na absorção deve ser um mecanismo de defesa do próprio organismo. Pois, quando você aumenta a dosagem de um único mineral, quebra um delicado equilíbrio existente entre todos os minerais. O que está em maioria, em número de moléculas no organismo, prejudica o outro.

 

 

 

SUPER — Então, existe uma competição entre os minerais?

GORDON — Exatamente, há uma verdadeira corrida, eu diria. Por exemplo, o zinco, o cobre e o ferro são substâncias muito parecidas do ponto de vista químico. Portanto, é natural que disputem uma mesma área de absorção no intestino. Numa experiência com ratos, realizada pela minha equipe, quando aumentávamos a concentração de zinco na dieta—mineral que participa da fabricação do hormônio insulina—, notávamos uma diminuição na dosagem de hemoglobina. Como se sabe, essa molécula sangüínea, responsável pelo transporte do oxigênio da respiração, precisa conter uma molécula de ferro, ou seja, no organismo que ingeriu mais zinco do que o normal, menos ferro ficou disponível para a produção da hemoglobina. O mesmo aconteceu quando aumentamos a proporção de cobre na dieta. E, também, quando aumentamos a dosagem de zinco e de ferro na alimentação, esses dois minerais ocuparam o lugar do cobre armazenado no fígado do rato.

 

 

 

SUPER — Com isso o senhor quer dizer que são os próprios minerais que atrapalham a chamada nutrição mineral?

GORDON — Isso mesmo. Os alimentos ricos em fibras costumam ser igualmente ricos em determinados minerais, daí o mal-entendido dos cientistas. Os cereais integrais, por exemplo, contêm muito zinco, o que talvez prejudique a produção da hemoglobina. Já os legumes proporcionam muito cobre: o feijão e o espinafre, por sua vez, são ricos em ferro. Quando uma pessoa está acostumada a ingerir uma única fonte de fibras, em vez de manter um cardápio variado, o desequilíbrio entre esses três minerais é inevitável.

Existem, óbvio, competições semelhantes entre outros grupos de minerais. Particularmente, sou a favor de que as pessoas até dobrem o consumo diário de fibras, hoje em torno de 25 gramas por dia nos Estados Unidos. Desde que, claro, não troquem um cardápio variado por um único prato de fibras.

 

 

 

SUPER — Quais outros fatores podem influenciar o aproveitamento dos minerais pelo organismo?

GORDON — Eu diria que existem diversos fatores. pois essas substâncias são tão sensíveis que sua disponibilidade dependerá até mesmo de seus acompanhantes—por exemplo, as proteínas presentes em determinada refeição. A idade da pessoa também influencia. Isso fica evidente em relação ao cálcio, por exemplo: todos sabem que os ossos de pessoas idosas tendem à descalcificação, porque seu organismo tem dificuldade em absorver esse mineral.

 

 

 

SUPER — E o sexo, também faz diferença?

GORDON — Sem dúvida. As mulheres, por exemplo, perdem muito ferro pelo sangue. durante o período menstrual — daí que seu organismo possui menores quantidades desse mineral do que o masculino. No entanto, se você oferecer uma mesma refeição, rica em ferro, para um homem e uma mulher, notará que o organismo desta absorve muito mais ferro, numa tentativa de recuperar aquela perda. Ou seja. a absorção de um mineral também é regulada pelo que costumo chamar status da substância no organismo.

 

 

 

SUPER — As pessoas tentam compensar esses fatores ingerindo os tais suplementos, um hábito que o senhor critica, certo?

GORDON — Elas só pioram a situação com essas coleções de cápsulas coloridas. Ingerir mais um mineral do que outro é criar um caos, por causa da competição entre eles.

 

 

 

SUPER — Mas essa competição não continua existindo, mesmo sem os famosos suplementos?

GORDON — É claro que sim. Mas se as pessoas comem porções moderadas de cada prato e se habituam a um cardápio variado, todos os minerais no organismo ficam dentro de uma espécie de faixa de segurança, em que as perdas são calculadas. O grande problema, na minha opinião, é que no mundo atual as pessoas ou passam fome ou comem demais, exagerando naquilo que pensam Ihes fazer bem. A mania de ingerir um grupo limitado de alimentos, considerados saudáveis, viola o princípio básico de uma boa alimentação, que é justamente sua variedade.

 

 

 

 

Para saber mais:

Como o brasileiro se alimenta

(SUPER número 6, ano 5)

O Brasil vai à mesa

(SUPER número 7, ano 5)