Seu destino por 1000 dólares

O que dizem os seus genes? Agora você já pode saber

Por Redação Super

Texto Salvador Nogueira

Ele indica coisas que você deve evitar, aponta os momentos mais críticos da sua vida e também diz muito sobre a sua personalidade. É uma verdadeira jornada de autoconhecimento. Não, não estamos falando do seu mapa astral. É uma coisa muito mais visionária: a leitura do seu próprio genoma. Isso mesmo. O estudo personalizado de DNA, que até ontem parecia coisa de filme, finalmente chegou ao alcance das pessoas comuns. Tudo graças a dois novos serviços: o deCODEme e o 23andMe, que fazem leitura de DNA “para as massas”.

Até recentemente, a leitura de DNA custava US$ 300 mil. Agora, por US$ 1 000, o que equivale a cerca de R$ 1 800, você já pode saber o que tem dentro do seu código genético. E as conseqüências disso são profundas. Você poderá driblar (ou pelo menos tentar evitar) as doenças para as quais tenha predisposição genética – e também entender melhor as características que fazem você ser quem é. Propensão a diabetes? Maneire nos doces. Risco de problemas cardíacos? Comece já a fazer exercícios todos os dias. Ter essas informações enquanto você ainda é jovem e saudável pode fazer toda a diferença na sua vida. E, de quebra, revolucionar a medicina. “Ao contrário da medicina atual, cujo foco está nas doenças, a medicina genômica procura manter a saúde das pessoas. Ela é preventiva”, conta o geneticista Sergio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais.

Segundo ele, “duas áreas têm se destacado muito: a farmacogenômica e a nutrigenômica”. É o seguinte: de acordo com o que está escrito no seu DNA, os médicos vão saber quais remédios, e em que doses, funcionarão melhor com você. Com a alimentação, a mesma coisa: será possível montar uma dieta superpersonalizada, com a quantidade exata dos nutrientes mais importantes para o organismo. Segundo Pena, em 5 anos isso já será realidade, e quem tiver feito a análise de DNA poderá aproveitar.

Só isso já valeria os US$ 1 000 cobrados pela análise de DNA. Mas, de quebra, ela também aponta as suas origens – mostra de onde vieram, no mundo, os seus ancestrais – e cria até uma espécie de orkut do DNA, para que você compare suas características genéticas com as de outros usuários. Os novos serviços pegam carona nas promessas do geneticista Craig Venter – que, ano passado, se tornou o primeiro ser humano a ter seu DNA completamente decifrado, num processo que custou mais de US$ 300 mil. Como são muito mais baratos, o deCODE e o 23andMe ainda não fazem uma leitura completa do genoma. Mas, mesmo sem ler todos os 6 bilhões de letrinhas do seu DNA, eles garimpam informações inéditas.

Como funciona?

Tudo começa na internet. Você acessa o site do 23andMe ou o deCODEme, paga US$ 1 000 usando um cartão de crédito, e recebe pelo correio um kit para coleta de DNA. O 23andMe, que não entrega kits no Brasil, funciona com saliva – você precisa ficar cerca de 5 minutos cuspindo até encher, com 2,5 mililitros, o copinho enviado pela empresa. O deCODEme, que já aceita pedidos de brasileiros, promete uma solução mais simples: basta passar um cotonete especial dentro da boca para coletar algumas células da mucosa bucal. Depois é só mandar essas amostras de volta, pelo correio, para as empresas. Em no máximo 4 semanas, você recebe um e-mail avisando. Basta acessar o site 23andme.com ou o decode.com, digitar sua senha pessoal e começar a brincar de “conhece-te a ti mesmo”.

Os dados são divididos em 4 seções. Na primeira delas, você pode fazer uma navegação livre pelo seu próprio código genético, acessando diretamente as informações contidas em cada um dos cromossomos. É possível, por exemplo, pegar o nome de um gene que acabou de ser mencionado numa pesquisa científica e ver se ele consta do seu DNA.

Também dá para ver as informações de forma um pouco mais mastigada. Aparece uma tabelinha com várias doenças – problemas cardíacos, vários tipos de câncer, diabetes tipo 1 e 2, obesidade etc. – e também outras condições, como o seu risco de ficar careca. Basta clicar em uma delas para ver o que o seu DNA tem a dizer a respeito, ou seja, se você tem maior ou menor risco de desenvolver aquele problema.

No 23andMe, você pode consultar os resultados de 58 testes. Eles são classificados pelo grau de confiabilidade, que varia de 1 a 4 estrelas. O câncer de mama, por exemplo, tem 4 estrelas – isso significa que, segundo a ciência, essa doença tem causas genéticas bem estabelecidas. No outro extremo, com apenas uma estrelinha, estão coisas como infertilidade masculina e transtorno obsessivo-compulsivo – cuja relação com o DNA ainda é muito incerta, pois se baseia em estudos incompletos. O deCODEme faz menos testes, 23, pois só se interessa pelas doenças cuja influência genômica já foi mais ou menos provada.

Também é possível acessar uma espécie de rede social genômica, para comparar as suas características com as de outros usuários (somente quem você adicionar como “amigo” poderá ver o seu DNA). Aliás, falando em parentesco, os serviços de leitura de DNA também mostram informações sobre o seu passado genético. Teria o leitor alguma relação com a turma do Gêngis Khan ou quem sabe um traço indígena na família? Aqui estarão as respostas. Para completar, o 23andMe está prometendo um recurso que é pura diversão: os usuários poderão comparar o seu DNA com o de celebridades, como o cantor da banda U2, Bono Vox.

É confiável?

Os novos serviços não fazem uma leitura exata do DNA. Eles analisam os chamados “polimorfismos de nucleotídeo único”. O nome técnico disso é SNP; ou, na gíria dos cientistas, “snip”. Uma snip nada mais é do que um erro de cópia – uma modificação, de uma única letrinha, na sua seqüência genética. E os cientistas estão descobrindo que é justamente nessas mudanças que pode estar a chave para entender as diferenças entre as pessoas. Elas servem como faróis, indicando a presença de determinada versão de um determinado gene – basta ver as snips existentes num pedaço de DNA e já dá para ter uma idéia do que está rolando (ou pode rolar) nele.

As snips são bem freqüentes, o tipo mais comum de variação genética, e ocorrem em média a cada 200 “letras” do DNA. Cada uma dessas “letras” corresponde a uma substância química. E, nos 6 bilhões de “letras” que formam código genético humano, há cerca de 30 milhões de snips. O 23andMe lê 500 mil delas, e o deCODEme diz analisar 1 milhão. Pode parecer pouco – e é mesmo. Os testes de US$ 1 000 ainda estão longe de mapear tudo o que existe no código genético humano.

Mas, talvez, isso nem seja um problema. “O genoma é enorme, mas só 0,5% dele é variável, ou seja, muda de uma pessoa para outra. E são justamente essas variações que interessam, pois elas é que determinam as suscetibilidades de cada um”, diz Pena. Então os testes já são perfeitos e realmente mostram o seu “destino” genético? Ainda não.

Isso porque há coisas que não estão ligadas a mudanças de uma única letrinha no DNA e mesmo assim podem ter muito impacto na sua saúde. Como os genes BRCA1 e BRCA2, que têm versões comprovadamente ligadas ao câncer de mama. Você pode ter essas versões e, portanto, um risco aumentado da doença. Mas a 23andMe e suas concorrentes jamais diriam uma palavra a respeito – simplesmente porque, nesse caso, não há uma snip para acusar o perigo.

A leitura completa do DNA resolveria o problema. E ela também vai, um dia, estar ao nosso alcance. Segundo o geneticista Craig Venter, em 2015 a tecnologia terá avançado tanto que será possível fazer uma leitura completa de DNA, letrinha por letrinha, gastando menos de US$ 1 000. Talvez a coisa esteja até mais próxima: recentemente, a empresa Applied Biosystems, que fabrica os equipamentos usados nas análises genéticas, disse que conseguiu fazer uma leitura completa de DNA por US$ 60 mil.

Seja como for, o 23andMe está indo com calma. Os criadores do serviço dizem que não querem fazer diagnósticos, ou mesmo prognósticos, sobre a saúde das pessoas. “Muitas associações entre as snips e certas doenças ainda estão sendo descobertas e testadas”, afirma Alex Coonce, do 23andMe. “Conforme essas asssociações forem sendo validadas pela ciência, nós realmente acreditamos que a análise do genoma possa ser usada num contexto clínico. Mas o teste precisaria ser projetado exatamente com esse objetivo.” Ou seja: até para evitar problemas jurídicos, o site diz que sua meta é revelar informações interessantes sobre o DNA do usuário. Nada mais do que isso.

E as conseqüências?

A análise de DNA traz muitas informações interessantes – e, certamente, vai ficar ainda melhor no futuro. Mas também tem um lado negro. E se as empresas começarem a pedir uma avaliação genômica antes de contratar seus funcionários, rejeitando aqueles que tenham propensão a determinados problemas? Afinal, hoje em dia já existem empresas que exigem exame de sangue dos funcionários durante o processo de contratação. Tanto o 23andMe como o deCODEme juram que os dados são 100% confidenciais e não serão compartilhados com empresas. Essas condições são estipuladas por contrato, ou seja, os laboratórios não podem sair vendendo o seu DNA.

Por outro lado, o 23andMe já disse que pretende usar as informações em pesquisas científicas, supostamente mantendo o anonimato dos usuários. Ou seja: ao fazer um teste de DNA, você automaticamente se torna uma cobaia anônima. Isso pode parecer desagradável, mas não tem nenhuma conseqüência prática – exceto para os cientistas, que poderão fazer muitas pesquisas para buscar novas maneiras de prevenir e tratar doenças.

Outro perigo é o possível ataque de hackers, que poderiam invadir os sites onde estão armazenadas as informações genéticas de milhões de pessoas. Mas esse risco é inerente à internet (e ninguém deixa de usar a rede por causa dele). No futuro, fazer a análise do próprio DNA vai acabar se tornando um procedimento médico tão trivial quanto os atuais exames de sangue, que não assustam ninguém. Deixe o receio de lado e se prepare: a era da genômica está para começar.

Cuspe: Mil e uma utilidades

A nova geração de testes clínicos, mais acessível às pessoas comuns, não serve apenas ara varrer o DNA em busca de laços ancestrais e propensão a doenças. A empresa americana Identigene acaba de lançar um kit que permite fazer testes de paternidade sem sair de casa. E, no Brasil, a Vigilância Sanitária acaba de aprovar o OraQuick, um teste que detecta o vírus da aids a partir da saliva.

No caso da Identigene, que por enquanto só comercializa seu produto em parte dos EUA, a coisa funciona assim. Você compra, por US$ 30, um kit com 3 escovinhas: uma para você, uma para sua esposa e outra para a criança cuja paternidade será testada. Aí, é só esfregar a escovinha dentro da boca para coletar amostras de DNA, colocar dentro da embalagem especial que vem com o kit, enviar para a Identigene e pagar mais US$ 150. Em no máximo uma semana, você recebe o resultado. Sem precisar doar sangue nem ir a clínicas (ou ao Programa do Ratinho). Por US$ 100 extras, a empresa promete fornecer um atestado com validade judicial - ele pode ser usado para quebrar o pau com cônjuges infiéis.

Já o OraQuick promete revolu­cionar o diagnóstico de aids. Basta esfregar o aparelho, que parece um palitinho, na sua gengiva. Vinte minutos depois ele indica a presença, ou não, do vírus HIV. O OraQuick, que promete 99% de precisão, deverá custar R$ 35. Mas não será vendido diretamente aos pacientes: se quiser fazer o teste, você terá de pedir ao seu médico.

Mapa da vida - e da morte

O teste analisa os cromossomos que formam o seu DNA (representados pelas barrinhas abaixo) e mostra as informações mais relevantes. Por exemplo

Esclerose múltipla

Uma variação aqui, no gene IL7RA, predispõe a essa doença.

Problemas cardíacos

Dois genes que podem aumentar, ou reduzir, o risco de infarto.

Câncer de mama

O teste não achou variações no seu gene FGFR2? Pode dormir tranqüila.

Cor dos olhos

O gene HERC2 desempenha um papel importante na pigmentação da íris.

Obesidade

Defeitos no gene FTO? Má notícia: seu risco de engordar é acima da média.

Análise de risco

Além de apontar quais doenças você pode ter, o teste também diz a probabilidade de isso acontecer – comparando os seus dados com a média da população. Por exemplo:

2,9 pessoas, a cada 100, em média, têm algum tipo de propen­são genética a desenvolver diabetes ao longo da vida.

Mas, se o DNA de todo mundo fosse igual ao seu, 4,9 em cada 100 teri­am diabetes. É 68% mais. Ou seja: o seu risco é 68% acima da média.

Orkut do DNA

O teste monta uma rede social genética, apontando as pessoas que têm mais a ver com você

1. CABELO

Complexado pelo seu aeroporto de mosquitos? Encontre outros pouca-telha e faça novos amigos.

2. NO

Gosta de ficar batendo papo até altas horas? Procure pessoas com alterações no gene que controla o relógio biológico.

3. FORÇA

Está pensando em montar um timinho de futebol? É só ver quem tem um gene que turbina os músculos.

4. PALADAR

Loucos por chocolate, uni-vos! Alterações em dois genes elevam a sensibilidade a doces.

5. SEXO

Está procurando esposa? As mulheres daqui têm mais chances de engravidar.

Para saber mais

23andMe e deCODEme

Os sites das empresas têm áreas de teste, onde você pode navegar pelo DNA de voluntários.

23andme.com e decodeme.com