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Coleções: passatempo ou obsessão?

Desde que o mundo é mundo, há pessoas que se dedicam a juntar bugigangas. O que se passa na cabeça delas?

Sacos de vômito de avião não têm valor algum, mas tente convencer disso o holandês Niek Vermeulen. Ele não sofre enjôos terríveis durante vôos, sequer tem medo de avião: Vermeulen é um colecionador. Guarda 3 240 sacos de vômito – vazios, pelo menos a maioria deles – que podem dar-lhe o título de maior colecionador do mundo na categoria. Sim, existem outros nessa atividade, assim como há fanáticos por selos ou qualquer outra coisa. Desde que o ato de colecionar deixou de ser restrito a reis e aristocratas, há cinco séculos, é difícil dizer o que ainda não virou coleção. Figurinhas, fetos, latinhas de cerveja, pedras de rim, bolacha de chope, jóias, embalagens usadas, defuntos, nada escapou dos fiéis seguidores da tradição de juntar e guardar bugigangas.

Afinal, por que alguém resolve gastar dinheiro com coisas que não vai usar? Por que é preciso possuí-las, e não só saber que elas existem? Apesar de não colecionar objetos, o historiador alemão Philipp Blom coleciona teorias para explicar essa mania. Seu livro Ter e Manter: Uma História Íntima de Colecionadores e Coleções é um álbum de histórias grotescas e engraçadas dos primeiros e maiores colecionadores. Para Blom, o hábito de juntar quinquilharias tem justificativas históricas, filosóficas e psicológicas – todas tratam o colecionismo como algo mais que um simples passatempo de adolescentes. Tem a ver com sentimento de grupo, competição, medos, fracassos, desejos não realizados, vontade de se isolar num mundo e ser capaz de comandá-lo. Colecionar, para ele, também é uma tentativa de escapar da morte.

“Um mundo diferente, mais significativo, mais ordenado, pode nos falar a partir de coisas humildes, como sapatos ou garrafas, autógrafos ou primeiras edições, os quais, em seu agradável arranjo, em sua estrutura e variedade, nos falam da beleza, da segurança; e cada objeto que tanto desejamos é, de fato, um atributo daquilo que desejamos”, diz o historiador. Ou seja: coleções ajudam a nos livrarmos da impotência de não coordenarmos inteiramente nem mesmo a nossa vida.

Mas não pense que todo colecionador é um sujeito mal-amado, reprimido, solitário. Colecionar quando criança tem lá suas vantagens. Ensina-nos a organizar e controlar as coisas, decidir a vida e a morte de cada objeto. Eis uma boa forma de aprender a tomar decisões e a lidar com o mundo exterior. Colecionar quando criança também funciona como um jeito de se abrir para relações íntimas. “É por isso que muitas crianças param de colecionar na puberdade, quando o sexo passa a ser um novo caminho para se relacionar com o mundo e as coleções são substituídas por pessoas, tratadas com a mesma importância e intimidade”, afirma à Super o historiador Blom.

Quem passa da adolescência e continua colecionando pode ter sido fisgado pelo saudosismo. Muitos colecionadores voltam ao hábito depois de adultos para reviver o tempo que jogavam bafo com o vizinho ou iam de mãos dadas com o pai comprar brinquedos. “Virei colecionador por saudades”, conta o ítalo-brasileiro Antonio Apuzzo, dono de 6 750 carrinhos de brinquedo, que lhe valeram uma participação no Livro Guinness dos Recordes de 1997 como o maior colecionador de miniaturas do mundo. “Gosto muito de lembrar que ia com meu pai para o centro da cidade comprar os carrinhos”, diz ele, que precisa de três cômodos de sua casa para guardar os brinquedos.

Brinquedos? Bem, as peças de Apuzzo não são para brincadeiras. A regra número 1 de um colecionador de respeito é não usar o objeto para seu fim primário. As latas de uma coleção de cervejas, por exemplo, devem estar cheias – embora não haja motivo lógico para isso. Para Blom, esse é um dos lados mais dramáticos do colecionismo: ao tentar recriar mundos passados, o colecionador destrói sua coleção para o mundo. “Tudo o que colecionamos, seja o que for, precisamos matar”, afirma. Ele não se refere só a borboletas, besouros ou animais empalhados. O colecionador, no entanto, não enxerga seus badulaques como objetos mortos. Pelo contrário: quando um selo vai para um álbum, passa a ser visto com olhos mais atenciosos e brilhantes. Um defeito no corte ou na impressão, que passaria despercebido por pessoas comuns e carteiros, passa a ser valorizado. Em coleções de objetos produzidos em massa, imperfeições dão à peça uma individualidade e um preço diferenciado. Com sorte, o objeto pode admitir as palavras preferidas dos colecionadores: “único do mundo”.

Colecionar para descobrir

É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma coleção de crânios como talismãs.

Sabe-se hoje que já existiam colecionadores na Roma antiga e até no Egito – o faraó Tutancâmon tinha o seu acervo de cerâmicas finas. Mas o colecionismo só saiu das mãos dos reis quando a visão medieval do mundo se enfraqueceu, no século 16. Depois de perceber que poderia perseguir a eternidade neste mundo, e não no céu, o homem passou a prestar mais atenção em si mesmo – uma onda de auto-retratos invadiu a Europa – e nas coisas da natureza. É aí que entram a ciência e, na garupa, o colecionismo. “Gabinetes de espécies naturais foram os principais locais de pesquisa e de divulgação científica antes dos laboratórios”, afirma Silvia De Renzi, historiadora da ciência da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Para analisar e conhecer a natureza, era preciso guardar e comparar tudo que havia de estranho pelo mundo. “As coleções foram fundamentais para a organização da natureza como fazemos hoje”, diz Silvia.

Na euforia de conhecer a natureza e juntar objetos curiosos, os nobres enviavam marinheiros mundo afora para adquirir tudo que fosse digno de nota. Os portos de Roterdã e Amsterdã enchiam-se de coisas maravilhosas e exóticas: conchas, moedas estrangeiras, múmias, artefatos chineses. Essas expedições fizeram a Europa conhecer tecnologias diferentes e se modernizar. Sem elas, hoje, até mesmo a paisagem de alguns países seria diferente. Destacado para encontrar plantas exóticas pelo planeta para enfeitar o palácio de Buckingham, o jardineiro inglês John Tradescant percorria o mundo de carona em navios caça-piratas no século 18. Na volta, levava ao país espécies como a castanha, a tulipa e o limão – além de artigos de vestuário, urnas e o que mais se podia imaginar.

E à época se imaginava muito. O conhecimento científico, na Idade Moderna, ainda engatinhava, por isso não era tão científico assim. Os colecionadores expunham “achados da natureza” que hoje pareceriam puro estelionato. Uma das mais badaladas coleções da Itália, a exposição de Ulisse Aldrovandi, chegou a ter 20 mil objetos, mas apenas um deles era responsável por atrair estudiosos e nobres de toda a Europa no século 14: um corpo de um filhote de dragão. Baseado em sua “relíquia”, o colecionador escreveu o tratado Dracologia, sete tijolões em latim sobre a complexa anatomia do bicho – que, diga-se, não passava de um prosaico lagarto. Seria injusto rotular Aldrovandi de vigarista: ele era apenas um cientista ainda sem o domínio da natureza. Naqueles tempos, outras coleções da Europa também estavam repletas de chifres de unicórnios, aqueles cavalos com um chifre na testa que são atraídos por virgens, vivem em locais mágicos e, sobretudo, não existem.

Não demorou muito para os curiosos descobrirem o corpo humano – e o colecionarem. Acervos de respeito, nos séculos 16 e 17, tinham que ter também pelo menos uma cabeça, um feto ou mesmo um corpo inteiro. Nessa seara, ninguém superou o imperador russo Pedro II, o Grande. Conhecido por surrar quem se recusasse a freqüentar suas festas, incendiar casas para ficar mais calmo e ser o primeiro da frente de batalha nas guerras, Pedro também era dado ao colecionismo. Um dos seus temas preferidos eram dentes, cuja exposição existe até hoje, com o rótulo original: “Dentes extraídos pelo imperador Pedro de diversas pessoas” (o czar mandava capturar súditos para extrair-lhes os dentes). Seu acervo tinha também um diferencial que o destacava de todas as outras coleções européias: gente viva. Um hermafrodita, por exemplo, recebia salário para somente existir e não se distanciar do castelo. A peça predileta do czar, porém, era Foma, o Anão. Além da baixa estatura, Foma tinha só dois dedos em cada mão e pé, parecidos com garras.

À medida que os fenômenos naturais eram explicados, não tinha mais graça guardar esquisitices. No século 19, a nova ordem era catalogar tudo, todos os elementos químicos, todos os seres vivos, todas as partes do corpo humano. As áreas temáticas foram divididas – e assim surgiram os colecionadores especializados. Os colecionadores de tudo passaram a manter coleções de borboletas e só borboletas, pedras e apenas pedras, selos e somente selos.

Um dos últimos e mais famosos dos “colecionadores de tudo” foi o químico e médico inglês Hans Sloane. Sua memorabilia incluía besouros, aranhas, cobras, borboletas, além de 268 focas, 756 cálculos renais e o corpo de uma criança com quatro braços e quatro pernas. Mesmo quando atraíam curiosos de toda parte, coleções assim se tornavam um trambolho com a morte do dono. O destino de coleções como a de Sloane acabava sendo uma instituição que também estava na moda: o museu.

Quando morreu, em 1753, Sloane deixou seu acervo para a Real Sociedade de Londres – a doação resultou no nascimento de nada menos que o Museu Britânico, hoje um dos mais importantes do mundo. Outro museu europeu, o Ashmolean Museum, nasceu da arca de Tradescant, o homem que levou a tulipa e a castanheira para a Inglaterra, por exemplo. Nessas novas galerias, porém, as coleções eram organizadas de modo sistemático – segundo a recém-inventada nomenclatura das espécies que usamos até hoje.

Cem anos depois, as coleções dos museus seriam usadas pelos países colonialistas – Inglaterra e França, notadamente – para afirmarem sua força. A ordem era encher os museus com relíquias pilhadas de nações como a Grécia e o Egito: as peças seriam uma prova da subordinação dos países conquistados. Assim nasceram as coleções de artefatos egípcios no Museu do Louvre, em Paris.

Durante todos esses séculos, a vontade de juntar bricabraques também esteve ligada aos objetos sagrados. O problema é que aquela que seria a principal relíquia cristã – o corpo de Cristo – não existia. Segundo o próprio cristianismo, Jesus havia subido aos céus para sentar-se à direita do Todo-Poderoso. Sem o tesouro-mor, os colecionadores logo se voltaram para objetos como a cruz, o santo sudário e os pregos que teriam crucificado Jesus. Apesar de terem sido usados só três pregos (um em cada braço e outro nos pés cruzados), 29 cidades da Europa afirmavam possuir uma das peças que fincaram Jesus na cruz, segundo Blom. Também perambulavam pela Europa dentes de Cristo, fios de cabelo de Cristo, fios da barba de Cristo. E até mesmo gotas do leite dos seios da Virgem Maria eram exibidos em 69 igrejas européias.

Coleções para todos

O costume de venerar objetos sagrados continua com toda força. Nós apenas trocamos de figurinhas. Um rapaz de 16 anos pode não dar a mínima para o Santo Sudário, mas nada garante que ele não vá tremer na base se puser na cabeça um capacete que foi usado por Ayrton Senna. “Pouca gente é imune ao culto aos antepassados e à magia física no tempo”, afirma Blom. Quanto mais intimidade o colecionador quer ter com a celebridade morta, mais íntimos são os objetos que procura guardar como talismãs. Você pode se perguntar o que o culto a relíquias cristãs tem a ver com um álbum de cartões telefônicos. Mas o impulso que move as duas coleções é o mesmo: resgatar um mundo que não existe mais e, se possível, ser capaz de controlá-lo.

Se a motivação permaneceu imutável por séculos, não se pode dizer o mesmo do perfil dos colecionadores. A partir do século 20, a produção em massa possibilitou que coisas antes restritas a reis – do papel higiênico perfumado e com marcas em alto-relevo a um copo de vidro – fossem acessíveis a toda a população. Antes, quem quisesse colecionar tinha de viajar pelo mundo, encontrar espécies raras de borboleta. Hoje, bugigangas coloridinhas, engraçadinhas, fofinhas e quase sem valor são reapropriadas: em vez de ir para o lixo, vão parar na gaveta ou na prateleira de gente que gosta de comprá-las, não tanto de usá-las. Se a bugiganga for produzida em edições limitadas, como cartões telefônicos, cairá no gosto de colecionadores facilmente.

A propósito, esse negócio de completar uma coleção é outra novidade do século 20. “Só com a produção em massa surgiu a ideia do conjunto completo”, afirma o historiador alemão. Antes dela, os sujeitos que saíam pela floresta para apanhar borboletas ou admiradores de orquídeas nunca pensaram em chegar ao fim de sua coleção. A indústria logo percebeu que hoje, pelo menos para as crianças, o legal é completar o álbum, ter todos os pokémons ou toda a série de miniaturas que recheiam ovinhos de chocolate.

No meio dessa inundação de coisas baratas, o que representa a história de uma época vira coleção com mais importância. Panfletos, pacotes de leite, embalagens de comida passam a valorizar a cada dia que ficam mais antigos e fora de moda. Décadas depois, são raridades: não há exemplo melhor do cotidiano de uma época que seu próprio lixo. O inglês Robert Opie, que guarda cerca de 500 mil embalagens, de caixas de televisão a caixas de fósforo, começou sua mania de juntar coisas quando comia salgadinhos. “Pensei no enorme pedaço de história social que eu estava prestes a jogar fora”, conta ele, que vive de vender ou alugar para filmes de época algumas embalagens.

Objetos aparentemente banais podem atingir valores absurdos para quem não é do ramo. Um exemplar do olho-de-boi, o primeiro selo brasileiro e um dos primeiros do mundo, impresso em 1843, chega a valer hoje 2,3 milhões de reais. O alto custo da brincadeira, entretanto, não intimida alguns compulsivos sem dinheiro. O americano Stephen Blumberg, por exemplo, foi preso em 1990 por ter roubado 24 mil livros raros de 268 bibliotecas. Ele se defende: roubou não para vendê-los, mas apenas porque “precisava tê-los”.

Colecionar é uma atividade dramática não só para loucos como esse. À parte as coleções de figurinhas e bonecos, elas nunca acabam. Sempre haverá o próximo selo criado por alguma ilha asiática ou mais um carro para ser miniaturizado. E não adianta lutar contra isso. Um colecionador, mesmo quando obtém uma raridade, não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste, para um colecionador, que pensar em completar uma coleção. Como afirma o historiador Blom, quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram a próxima peça.