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Nunca fomos tão pacíficos

Populações em guerra contra governos, jovens em guerra contra a polícia, traficantes em guerra contra soldados... Muita guerra? Nada disso. Estamos na era mais pacífica da história

José Lopes

Síria, Wall Street, Rocinha… O corpo de Muammar Gaddafi perfurado e empalado em imagens que correram o mundo. O ano de 2011, não dá para negar, foi marcado por todo tipo de violência. Um dia antes da morte do ditador líbio, porém, o psicólogo Steven Pinker, de Harvard, publicava um manifesto na revista científica Nature, com o objetivo de demonstrar que o planeta nunca esteve tão pacífico quanto nas últimas décadas. Mais importante ainda: essa queda na violência teria sido contínua desde o fim da Idade Média. Piada de mau gosto?

Não depois de uma boa olhada na massa de estatísticas recolhidas por Pinker. Terrorismo? Está despencando. Guerras civis? Já foram piores. Limpeza étnica? Fora de moda. É fato que o psicólogo de Harvard, talvez o maior pop star da ciência hoje, adora uma polêmica. Em outro de seus livros, Tábula Rasa, ele se dedicou a demolir um dos mitos mais queridos do politicamente correto, o do bom selvagem. Pinker defende que somos sangrentos por natureza. Por outro lado, ele argumenta, transformações na sociedade e na cultura são o bastante para fazer com que as pessoas vivam em relativa paz.

Veja o caso dos humanos pré-históricos e de seus primos vivos hoje – as tribos de caçadores-coletores, que não mudaram seus hábitos culturais nos últimos milhares de anos – caso dos ianomâmis, da Amazônia, e dos sans, da Namíbia, entre centenas de outros. Em média, a taxa de morte por homicídio entre esses povos é centenas de vezes (isso mesmo, centenas) superior à que se vê no mundo desenvolvido hoje, e até no Brasil. Para cada gupo de 100 mil habitantes na Europa, por exemplo, acontece um assassinato. Nas sociedades de caçadores-coletores, são 500. No Brasil, 19.

Uma invenção foi a responsável por melhorar a situação ao longo da história: o Estado, que na essência significa deixar o monopólio da violência, o direito de matar, nas mãos de uma entidade central. Sem uma autoridade central para resolver conflitos, todo mundo tinha incentivos para tirar vantagens dos outros ou, quando prejudicado, de se vingar da forma mais cruel possível. Quando os Estados começaram a ficar mais fortes, era do interesse dos soberanos acabar com a pancadaria, não porque eles fossem bonzinhos, mas porque as brigas intermináveis drenavam recursos preciosos que poderiam ser usados para enriquecer o coletivo. Não é por acaso, afirma o psicólogo, que a taxa de homicídios na Europa começa a despencar no fim da Idade Média, quando os Estados se firmam.

A segunda revolução antiviolência começou no século 15, e tem a ver com a invenção da imprensa. Livros impressos, muito mais baratos do que os feitos à mão, fizeram o conhecimento circular de forma ampla pela primeira vez na história.

Aos poucos, foi se formando um diálogo global de ideias, e surgiu uma elite intelectual que passou a privilegiar a razão, e não a tradição ou a autoridade religiosa, como guia. E foi só questão de tempo até que essa livre troca de ideias gerasse um consenso em favor do pacifismo, da democracia e do comércio global.

Esses 3 fatores, pelo raciocínio de Pinker, foram fundamentais para a diminuição paulatina das guerras, da tortura e da perseguição religiosa. Países democráticos têm menos tendência a fazer política à base de bala e a entrar em guerra entre si. Nações que lucram com o comércio mútuo também têm chance menor de sair no tapa – a relação relativamente tranquila entre China e EUA está aí para provar.

Com tudo isso, as guerras têm caído de frequência. E, quando acontecem, tendem a ser menos intensas. Em 1461, por exemplo, 1% da população da Inglaterra (que era de 3 milhões de pessoas) morreu em uma única tarde, na Batalha de Towton. Foi um episódio isolado de uma guerra civil que durou 30 anos. E mesmo assim 1 em cada 10 homens adultos do país estava naquele campo de batalha. Nem a Segunda Guerra veria algo assim.

Outras formas de violência também têm diminuído. Os genocídios dos anos 90 e 2000 mataram um décimo dos que ocorreram no começo do século 20. E o terrorismo era 5 vezes mais comum na Europa dos anos 70 do que hoje. Por fim, formas de violência contra minoriais – ataques a negros e homossexuais, por exemplo – também estão em queda nos últimos 50 anos. Será que isso vai durar? Pinker aposta que sim. As decisões baseadas na razão, que guiaram o surgimento das democracias, continuariam mostrando que soluções pacíficas valem mais a pena. Não concorda? Então vem pro pau.