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O lado sombrio dos eSports

De lesões a doping, profissionais de videogame começam a enfrentar os mesmos problemas dos atletas de esportes tradicionais – e não adianta apertar reset

O Corinthians brilhou em 2015: conquistou o Brasileirão pela quinta vez. Além do triunfo esportivo, o clube embolsou R$ 10 milhões pelo título. Apesar dos oito dígitos em plena crise, há quem não se impressione tanto. Tem um grupo de jovens esportistas fazendo mais dinheiro com muito menos esforço físico. São os atletas de eSports – profissionais do videogame.

Também em 2015, os americanos do time Evil Geniuses foram campeões mundiais de Dota 2. Levaram mais que o dobro do prêmio do Timão – R$ 22,8 milhões. A final aconteceu na KeyArena Center, em Seattle, EUA, com mais de 10 mil fãs ensandecidos. Fora dali, outros 20 milhões de pessoas assistiram transmissões ao vivo via internet e TV, com direito a narrador e tudo.

E essa realidade não é exclusividade gringa. A final do campeonato brasileiro de League of Legends (LoL) rolou no estádio do Palmeiras, em São Paulo, com 12 mil pagantes – número ligeiramente maior que os 11,7 mil torcedores que fazem a média do atual campeonato brasileiro de futebol -, além dos mais de 850 mil aficionados assistindo pela internet.

As semelhanças entre os esportes convencionais e os eletrônicos não ficam só no campo da paixão. Os atletas de eSports estão entrando numa nova fase, das mais difíceis para qualquer modalidade de alto rendimento: com a profissionalização, a cobrança por competitividade tem comprometido gravemente a saúde e a ética dos gamers.

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1. Doping

Maradona, Lance Armstrong, Anderson Silva e Maria Sharapova também têm seus equivalentes no esporte digital: gamers que tomaram substâncias ilícitas para melhorar o desempenho. O assunto esquentou em 2015. Em uma entrevista, o bicampeão mundial de Counter Strike, Kory Friesen, afirmou que o uso de Adderall (uma anfetamina estimulante) era comum entre jogadores. “Todo mundo estava usando. Dá para perceber isso só de ver as gravações”, disse.

O Adderall é usado principalmente em tratamentos contra distúrbios de atenção. Ele ajuda na concentração e deixa o pensamento mais rápido – uma baita vantagem em um jogo de tiro frenético.

A declaração repercutiu. A ESL, Liga de Esportes Eletrônicos, começou a fazer exames antidoping surpresa (testes de saliva) em torneios internacionais a fim de evitar novos casos – até agora, ninguém foi pego. Com o crescimento dos eSports no Brasil, o antidoping também deve chegar por aqui. “Nós estamos analisando os próximos passos. Pedimos orientações para a Agência Mundial Antidoping (WADA) e vamos estudar as medidas. Depois das Olimpíadas esse assunto será observado com bastante atenção”, afirma Marco Aurélio Klein, Secretário Nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, do Ministério dos Esportes.

2. Lesões

Praticantes regulares de qualquer esporte repetem movimentos em treinos e jogos e, ao longo do tempo, as articulações mais exigidas ficam fragilizadas e suscetíveis a traumas. O mesmo acontece com os gamers. “É comum que atletas de eSport desenvolvam tendinite nos cotovelos e nos pulsos, além de dores constantes nos dedos e no pescoço”, afirma Levi Harrison, médico americano especialista em tratar gamers profissionais. “Isso acontece por causa dos movimentos repetitivos. Profissionais jogam por até 14 horas diárias. Não param para alongamentos, nem ao menos levantam os braços para esticá-los um pouco. É uma cobrança muito intensa para o corpo”, afirma.

As lesões podem ser graves a ponto de abreviar carreiras. Ano passado, o craque americano de LoL, Hai Du Lam, 22 anos, se aposentou após três anos. Hai estava no ápice. Sua equipe, a Cloud 9, foi vice-campeã nacional em 2015 e vencedora de um desafio global, com times da América do Norte, Europa e América Latina, em 2014. “Eu não podia mais ignorar meu pulso machucado. Ele me limitava e tirava minha confiança”, afirmou em comunicado.

Em alguns casos, os machucados deformam os atletas. “Dependendo da intensidade da lesão, dedos, pulso e cotovelo podem inchar muito. É assustador para quem não está acostumado”, afirma Levi, que também garante que há tratamentos para minimizar e recuperar lesões, aumentando a vida útil do atleta.

3. Corrupção

A manipulação de resultados, tão comum e debatida no futebol e em outros esportes tradicionais, também acontece nas competições digitais, só que com um nome gringo: elo boost ou elo job. Na prática, é quase a mesma coisa que acontece no campo: um jogador ou uma equipe perdem propositalmente para beneficiar outro atleta ou time.

No mundo dos eSports, essas vitórias arranjadas servem para acumular pontos em rankings, aumentar o nível do time e fazer fama dentro da comunidade de gamers. Mas os trapaceiros já vêm sendo punidos nas arenas eletrônicas.

Em 2014, a Riot Games, criadora de LoL, baniu 13 jogadores brasileiros por participar de um esquema de resultados forjados. E não era coisa de amador. Os atletas faziam parte da equipe Seven Wars, que chegou à semifinal de um campeonato importante em São Paulo poucos meses antes de ser desmascarada. “Tem sido prioridade para a Riot diminuir comportamentos desleais no ambiente competitivo”, afirma Fabio Massuda, gerente sênior de eSports da Riot.

Conforme os eSports se popularizam e movimentam mais dinheiro, os interesses financeiros em torno dos eventos viram assédio sobre os competidores. “Os eSports vêm se consolidando a cada ano. Por isso, infelizmente, ainda que haja casos isolados de desonestidade, técnicas e comportamentos condenáveis podem surgir”, afirma Fabio.

4. Machismo

Os esportes digitais também são um ambiente machista. E isso não se limita a personagens hipersexualizadas nos jogos. As mulheres com controle na mão são vítimas de violência e preconceito.

As meninas da equipe Pink Storm são prova disso. De Fortaleza, elas começaram a jogar LoL profissionalmente em 2015 e brilharam. Conquistaram resultados, fãs e um nome forte na região. Um jogador de elite viu potencial no time e se ofereceu para treiná-las. Ótimo, por que não? Devido ao grande número de meninas querendo entrar na equipe, criaram um segundo time. Só que, para selecionar as novas jogadoras, o técnico pediu, via mensagem de celular, que as candidatas enviassem fotos nuas para serem escolhidas.

O treinador foi mandado embora, mas a história não é um caso isolado nos eSports. “A gente liga o chat, e se o cara ouve voz de menina, para de respeitar”, conta Camila Natale, atleta internacional de Counter Strike pelo time Innova Pink. “A gente ainda é muito xingada, mas isso deve mudar. Cada vez mais meninas estão jogando, e mais campeonatos femininos estão rolando”, conta. “Mas os prêmios femininos ainda são inferiores: em campeonatos nacionais, os meninos ganham placas de vídeo incríveis e a gente recebe uns mouses ruinzinhos”, afirma Camila. “Espero que, com o tempo, as coisas fiquem equiparadas.”

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