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O Milagre Econômico foi tão ruim assim?

Suas conquistas não duraram. A herança que ele deixou foi concentração de renda e aumento da desigualdade social

Textos Arthur Albolea

Entre os anos de 1968 e 1973, sob feroz ditadura militar, o Brasil viveu um período de extraordinária expansão econômica. O Produto Interno Bruto (PIB) do país crescia 10% ao ano ou mais. No setor da construção civil, o crescimento chegava a 15%. Na indústria, 18%. Mas nada disso evitou que o chamado Milagre Econômico acabasse com a fama que tem hoje – a de ter sido um dos períodos mais nefastos da história brasileira, marcado pela concentração de renda e pelo aumento da desigualdade social.

É verdade, a desigualdade aumentou durante o milagre. Mas será que nada prestou naquele período? Só para provocar a discussão, o jornalista Leandro Narloch – autor de Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil (Editora LeYa, 2009) – reuniu em seu blog alguns números picantes. O da venda de livros, por exemplo: ela triplicou entre 1964 e 1974. “A mortalidade infantil, que tinha aumentado entre os anos de 1955 e 1965, chegando a 131 mortes a cada 1 000 nascimentos, caiu para 113 em 1975”, escreve Narloch. “E a venda de geladeiras, item básico para uma boa alimentação, quadruplicou em 12 anos, numa onda de consumo equivalente à do Plano Real.”

Vistos assim, isoladamente, esses dados sugerem que houve conquistas importantes. Acontece que não é bem assim. Quando chegou ao fim, aniquilado pela crise do petróleo de 1974, o suposto milagre deixou como herança um bom punhado de abacaxis. O maior deles era a dívida externa. Para financiar o crescimento acelerado dos anos anteriores, o governo militar havia tomado muito dinheiro emprestado no mercado internacional. E a dívida explodiu. Em 6 anos, ela simplesmente quadriplicou – de US$ 3,7 bilhões em 1968, passou a US$ 12,5 bilhões em 1973.

As “conquistas” do milagre não resistiram à crise econômica dos anos seguintes. O crédito farto havia secado. “E as obrigações financeiras começaram a pesar como nunca”, diz o cientista político Carlos Gama, pesquisador da PUC do Rio de Janeiro. O alto preço do barril de petróleo fez a balança comercial brasileira entrar no negativo. E a inflação disparou, chegando perto dos 100% ao ano no final daqueles anos 70. Resultado: remarcação desenfreada de preços, estagnação, desemprego, pobres mais pobres, ricos mais ricos… Além de duas décadas de pacotes econômicos fracassados – até que o Plano Real começasse a estabilizar a economia, a partir de 1994.

 

Você decide
Argumentos a favor e contra o Milagre Econômico

A FAVOR

• Entre 1970 e 1980, fase final da ditadura militar, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) aumentou de 0,462 para 0,685 – numa escala que vai de 0 a 1.

• A expectativa de vida da população brasileira aumentou 9 anos nessa mesma década – o maior crescimento já registrado na história do País.

• No início da ditadura, em 1965, a taxa de mortalidade infantil era de 131 mortes a cada 1 000 nascimentos. Dez anos depois, em 1975, tinha caído para 113.

• De 1968 a 1973, houve um aumento de 138% no número de casas com televisão e de 75% no de lares equipados com fogão a gás ou elétrico.

• Nesse mesmo período, cresceu em mais de 150% o total de domicílios com saneamento básico e 139% o de casas com pelo menos um automóvel.

 

CONTRA

• A concentração de renda disparou durante o milagre. No índice de Gini, que vai de 0 a 1, ela saltou de 0,50 em 1960 para 0,62 em 1977 – o pior nível da história.

• O valor real do salário mínimo despencou. No final dos anos 70, eram necessárias 153 horas de trabalho para ganhá-lo, contra 65 horas em 1959.

• A fuga de trabalhadores do campo deu início ao processo de favelização das grandes cidades. Em 1957, São Paulo tinha 141 favelas. Em 1973, eram 525.

• Em apenas 6 anos, a dívida externa do Brasil simplesmente quadriplicou, passando de US$ 3,7 bilhões em 1968 para US$ 12,5 bilhões em 1973.

• Com a crise do petróleo de 1974 e o fim do milagre, a inflação saiu do controle. No final dos anos 70, ela já beirava os 100% ao ano.

Fontes: IBGE; IPEA; Cremesp; Leandro Narloch.