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Pelo fim do bullying de médicos contra enfermeiros

O desprezo de cirurgiões e especialistas por seus auxiliares pode estar matando pacientes

Theresa Brown*

O paciente estava com dor no peito. A análise inicial indicava que podia ser infarto, mas não tínhamos certeza. Quem pegou o caso foi o médico de plantão, um sujeito difícil. Como drogas mal administradas podem piorar o problema, uma enfermeira perguntou se não era melhor esperar o cardiologista. “Por quê?”, ele perguntou com desdém na frente da equipe. Foi como se a enfermeira tivesse desafiado a autoridade do médico, quando seu objetivo era apenas zelar pelo paciente. Isso aconteceu recentemente em um grande hospital dos EUA.

Muitos enfermeiros se sentem intimidados com piadas, menosprezo e agressões verbais que recebem de médicos. Eu também me sinto assim. No caso que relatei, felizmente o tratamento deu certo e o paciente ficou bem. Mas várias vezes a relação conturbada entre membros da equipe pode terminar mal. Quase metade dos funcionários de hospitais prefere ficar quieta a levantar questionamentos ou falar sobre problemas no tratamento para um médico de temperamento difícil, de acordo com uma pesquisa do Instituto para Práticas Seguras no Uso de Medicamentos, dos EUA, em 2004.

Ou seja, por causa do bullying, uma vida pode deixar de ser salva. Outros números do estudo mostram isso: entre enfermeiros que declararam ter desconfiado de erros de prescrição, 40% deram o remédio ao paciente mesmo assim – só para não ter de enfrentar o médico. E 7% afirmaram ter se envolvido em um caso de erro médico em que o bullying teve alguma parcela de culpa.

Claro, médicos não são os únicos a menosprezar colegas. Funcionários tiram sarro de residentes, enfermeiras antigas colocam médicos jovens à prova.Também é verdade que só uma pequena parcela dos médicos se comporta desse jeito. Porém, em uma estrutura vertical como a dos hospitais, quem tem mais poder gera um efeito cascata. Se as pessoas que estão em cima depreciam as demais, isso provavelmente vai ser reproduzido em todos os níveis.

A pior forma de bullying não é uma agressão flagrante. Na maioria das vezes a agressão vem na forma de um comentário sarcástico em vez de um insulto. O próprio paciente é vitima de bullying ao sentir que não está autorizado a falar o que pensa. Isso é grave, já que o trabalho de um hospital depende do diálogo entre as pessoas.

Que soluções poderíamos encontrar para esse problema? Clínicas e hospitais deveriam adotar padrões de comportamento para todos os funcionários, das recepcionistas ao presidente. Também precisam criar linhas de denúncia para que empregados possam reclamar do bullying confidencialmente. Os que fossem acusados passariam por treinamentos. E os que insistissem na prática perderiam privilégios, como o direito de receber pacientes particulares para cirurgias naquele hospital. Se é o que custa para salvar vidas, vale a pena.

*Theresa Brown é enfermeira nos EUA e autora do livro Critical Care, sem tradução no Brasil. Os artigos aqui publicados não representam necessariamente a opinião da SUPER.