Androgenia cultural: O sexos se confundem

Terninhos, tênis, mocassinos. Nas mulheres, cabelos curtinhos; nos homens, longos cacheados. De repente, parece que a androginia tomou conta do mundo.

por Judith Patarra, Lina de Albuquerque

Seres esféricos, fortes, vigorosos, tentam galgar o Olimpo, a montanha sagrada onde moram os deuses gregos. Querem o poder. Possuem os dois sexos ao mesmo tempo, quatro mãos, quatro pernas e duas faces idênticas, opostas. Diante do perigo, o chefe de todos os deuses, Zeus, decide cortar ao meio os andróginos (do grego andrós, aquele que fecunda, o macho, o homem viril; e guynaikós, mulher, fêmea). “Sede humildes”, podemos supor que trovejou o grande deus, arremetendo os raios que apavoraram os tempos anteriores à descoberta do fogo. Ao enfraquecer o homem e a mulher, assim criados, Zeus condenou cada metade a buscar a outra, o desejo extremo de reunir-se e curar a angustiada e ferida natu-reza humana.

Este, resumidamente, é o mito do amor tal como o filósofo grego Platão (428-348 ou 427-347 a.C.) o descreveu nos diálogos de O banquete, reproduzindo o relato feito por Aristófanes, o mais famoso comediógrafo grego (450-388 a.C.), durante um jantar e simpósio, encontro onde se tomava vinho e se trocavam idéias. Estava presente, entre muitos outros convidados ilustres, o filósofo Sócrates (470-399 a.C.) Deve ter sido uma noitada daquelas, mas não se pode dizer que começou ali a preocupação da humanidade com a androginia. Numerosas cosmogonias, anteriores à civilização grega, explicaram o mundo a partir de um ovo primordial, o símbolo da fertilidade.

Para a Biologia, andrógino é o ser que possui os dois sexos ao mesmo tempo e é capaz de reproduzir-se sozinho (não no caso dos humanos). O mesmo que hermafrodita. Mas para os psicólogos, médicos e até estilistas, a androginia é sobretudo um fenômeno cultural, nada tem a ver com a bissexualidade ou o homossexualismo. “O que está em jogo é o papel social desempenhado pelo indivíduo. A pessoa andrógina não precisa ter, necessariamente, comportamento sexual ambíguo”, explica o sexólogo Oswaldo Rodrigues Júnior, de São Paulo, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Sexualidade. Ele dá exemplos de incorporação de papéis sociais do sexo oposto: o homem que não tem vergonha de chorar e expor sentimentos, cuida dos filhos, participa das tarefas domésticas, ou a mulher que impõe opiniões, assume o sustento da casa, exerce profissões consideradas “masculinas”.

O psicanalista Renato Mezan, da Pontifícia Universidade de São Paulo, expõe com clareza: “São fatores sociais que aos poucos esfumaçam as diferenças entre os gêneros e embaralham a consciência que homens e mulheres tinham de sua identidade e função social. Por isso é impossível explicar a androginia apenas em termos psicológicos. Ela não é uma opção sexual e está no plano do consciente”. Entre as vanguardas culturais, é verdade, sempre existiram andróginos — artistas, burgueses contestatórios, suf-fragettes (militantes femininas que exigiam o direito de votar). Mas com certeza nunca a confusão foi tão grande como agora.

“A diferença entre os gêneros diminuiu com a entrada da mulher de classe média no mercado de trabalho, principalmente em posições executivas, o que fica mais evidente nos Estados Unidos”, observa a antropóloga Bela Feldman-Bianco, da Universidade de Campinas, São Paulo. “O fenômeno nada tem a ver com a Biologia. Um número crescente de mulheres reage contra a estereotipia dos papéis sexuais. Não querem mais saber se ‘isso é coisa de homem ou de mulher’”. Ela acredita que muito da androginia moderna veio do movimento feminista americano, que identificava o feminino como conservador. E do gosto gay na moda, na beleza, na decoração. Renato Mezan reconhece com clareza: falta ao homem tranqüilidade para executar atributos do outro sexo sem sentir-se diminuído. “Assumir os dois lados da sexualidade e da sensualidade ainda é uma questão de caso a caso. De outro lado, negar as diferenças pode gerar um híbrido, nem isso nem aquilo. Aí, há privação das qualidades de ambos,” expõe.

O dilema provoca ásperas discussões. Radical, Camille Paglia, professora de Literatura da Universidade de Arte da Filadélfia, nos Estados Unidos, sustenta no livro Personas sexuais que a androginia não passa de arma das feministas contra o princípio masculino: “Serve para anular os homens, significa que eles devem ser como as mulheres, e as mulheres podem ser como quiserem”. Ela acredita, em todo caso, que o culto do masculino será preservado graças aos gays — o que não deixa de ser, também, uma inversão. Menos contundente, o estilista e cabeleireiro Diaullas de Ná, de São Paulo, oferece sua opinião: “A androginia é um jogo lúdico, em que o homem projeta seu lado masculino na mulher, e a mulher projeta seu lado feminino no homem. Um jogo que globaliza, traça um círculo de 360 graus em torno do outro, totalmente diverso do homossexual, autocentrado, ou do bissexual que separa com rigidez o masculino do feminino”.

Empresária e especialista de moda, Costanza Pascolato há anos analisa a influência da androginia no estilismo. “A moda contemporânea não pára de brincar com as diferenças entre os gêneros. Com isso expressamos nossas idéias mutantes sobre o que é ser homem ou mulher”, escreveu em 1988, num artigo de jornal. Hoje ela acrescenta: “Um ligeiro toque de ambigüidade aumenta o lado sensual das pessoas. O masculino e o feminino exagerados são menos sexy. Há uma qualidade misteriosa em Marlene Dietrich e Greta Garbo, que vem em parte da sugestão de virilidade lá no fundo de sua personalidade”.

O problema está no risco de perder-se a nitidez dos gêneros pois, como analisa Renato Mezan, as pessoas nesse caso aderem a modas em busca de orientação: “Em geral, as tendências são mais rigorosas do que as anteriores, gerando um espírito de gangue”. É o temor da antropóloga Cynthia Sarti, da Universidade de São Paulo: “Acho que existe alguma coisa perversa na androginia, pois faz supor algo que não é: impõe uma imagem sem sugerir nenhum novo masculino ou feminino. Nega as diferenças. Sinto a idéia como totalitária, e nada mais nocivo à humanidade do que posturas antidemocráticas”.

Pode ser, mas convém lembrar que a intenção, por trás dos modismos em geral, e da androginia em particular agora, depende sempre do contexto social. Por exemplo, na Alemanha pré-nazista dos anos 20, os cabelos curtos usados pelas mulheres eram uma contestação ao ideal feminino pregado pelos nazistas, que pensavam nas mulheres como robustas valquírias de longos cabelos loiros, engomadas nas suas roupagens regionais, vivendo em regime de dedicação exclusiva aos três Ks: Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja). Vestir-se como homem, pensar e agir como um marxista era ser mesmo muito do contra.

É possível que estejamos convivendo, atualmente, com uma acentuada tendência à alteridade — conceito desenvolvido pelo psicoterapeuta Carlos Byington, de São Paulo, um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica.“O dinamismo da alteridade consiste na interação igualitária das polaridades”, escreveu em obscuro dialeto profissional no livro Dimensões simbólicas da personalidade.

A psicóloga Leniza Castello Branco, de São Paulo, completa e clarifica o raciocínio: “A mulher recupera seu lado masculino sem tornar-se lésbica, e o homem seu lado feminino sem tornar-se gay”. Para essa psicoterapeuta, a androginia traria um retorno do reprimido: o corpo, o sexo, a magia, o feminino. “Por causa do reprimido existe carnaval em todas as culturas”, explica. “Permite-se a vivência do contrário, a inversão. O pobre se veste de rico, o homem se veste de mulher, alguns se fantasiam de animais. O carnaval é a festa de Dioniso, o deus pagão que representava o campo, a fertilidade, o vinho. Ele nasceu da coxa de Zeus, um andrógino, pois gestou um filho.”

Os primeiros andróginos explícitos da atual voga no Brasil começaram a aparecer na década de 70, inspirados em cantores pop americanos e, logo em seguida, brasileiros. Naquela época não se viam, como hoje, homens e mulheres anônimos vestidos e penteados com tal ambigüidade — terninhos, tênis, mocassinos, cabelos quase recos —, capazes de provocar tanta confusão que fica impossível distinguir uns das outras. “Em caso de dúvida é mulher”, ensinam os moradores de San Francisco, talvez os americanos mais acostumados a conviver com a androginia em voga em todo o mundo. Aliás, é da psicoterapeuta americana June Singer, autora do livro Androginia — rumo a uma nova teoria da sexualidade, a comparação do andrógino com o ovo fecundado. Ela considera que, por reunir características psicológicas abrangentes, a androginia é a chave do futuro. Talvez seja um exagero, mas, para que dela fique alguma marca indelével na história humana, será preciso que assuma resolutamente o que é específico de cada gênero. Sem prejuízo da divisão de responsabilidades sociais e sem a soberba dos seres esféricos que pretenderam invadir o Olimpo. Haverá mais chances de sucesso na vida afetiva e profissional e nenhuma necessidade de invejar os deuses.

Para saber mais:

Um suposto gene gay

(SUPER número 3, ano 7)

O que os genes podem explicar

(SUPER número 12, ano 7)

 

Para todos os gostos e todas as neuroses

Eis um roteiro sucinto para você atravessar com segurança essa balbúrdia sexual moderna.

Heterossexual — O que sente atração sexual por pessoas do sexo oposto.

Homossexual — O que se sente atraído por pessoas do mesmo sexo. Uma perene discussão entre os cientistas ainda não estabeleceu se sua origem é biológica ou cultural. Em todo caso, concorda-se que tem motivos inconscientes, mas não patológicos.

Bissexual — O que sente atração pelos dois sexos. O psicanalista Renato Mezan faz uma descrição desse estado: “Aparece um desejo desesperado de fazer as duas coisas. Não é tranqüilo e ele não goza. Parece alguém que está querendo pular a própria sombra”. A alta incidência de Aids em mulheres casadas, mono-gâmicas, sem contato com drogas injetáveis, pode ser atribuída a maridos bissexuais.

Travesti — Homossexual que usa e exibe roupas e atributos do sexo oposto. Ele nega o seu gênero e torna a questão sexual o centro de sua vida. Alguns desejam tão obsessivamente pertencer ao sexo oposto que se submetem a cirurgias para retirar os órgãos masculinos.

Hermafrodita — Possui órgãos reprodutores masculinos e femininos, além de características sexuais secundárias, como pêlos, voz grossa, seios. É possível mudar, com ajuda da cirurgia, de um sexo para o outro. O nome vem de Hermafrodito, filho mitológico dos deuses Hermes e Afrodite. Etimologicamente, o nome significa “o que participa de Hermes e de Afrodite”, portanto, dotado de ambos os sexos. Assim, a mitologia já o distingue do andrógino, pois ele não pode ser dividido pelo facão de Zeus e é impotente para o sexo e a fecundação. O androginismo ex-pressa a fecundidade dos dois gê-neros; o hermafroditismo simboliza a esterilidade.

 

A porção feminina, talvez melhor

A androginia parece seduzir principalmente os jovens e por isso a música popular moderna a explora muito. Astros como o inglês David Bowie, o americano Michael Jackson, a jamaicana Grace Jones, o americano Prince, a irlandesa Sinéad O’Connor ou o inglês Boy George, entre numerosos outros, são exemplos expressivos. O poeta e crítico literário Affonso Romano de Sant’Anna, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro, julga o cantor e compositor Ney Matogrosso e seu grupo Secos & Molhados, da década de 70, precursores da onda musical andrógina no Brasil. “Matogrosso recuperou a tradição do cantor contralto medieval”, explica Sant’Anna.

O antropólogo Luiz Mott, professor da Universidade Federal da Bahia e presidente do Grupo Gay da Bahia, lembra que a música contemporânea expõe de maneira evidente sua face andrógina. “Muitos artistas são homossexuais e vivenciam certa androginia psicológica. Como são ricos e poderosos, exteriorizam livremente a condição por meio de roupas, adereços e penteados.” Mas nem sempre o compositor é homossexual. O baiano Gilberto Gil cantou a androginia em Superhomem - a canção, de 1979: “Um dia/vivi a ilusão/de que ser homem bastaria/...que nada/minha porção mulher/...é a porção melhor/...é a que me faz viver”. Ou Pepeu Gomes, heterossexual, na música Masculino/feminino, de 1984: “Ser um homem feminino/ não fere o meu lado masculino”.

Sucesso na televisão e no cinema

Buba, personificada pela atriz Maria Luíza de Mendonça, personagem da novela Renascer, da TV Globo, pretende ser hermafrodita, mas os psicólogos garantem que para bem personificar tal condição ela deveria ter pêlos e voz grossa. Há quem a imagine andrógina, mas o autor da novela, Benedito Ruy Barbosa, informa que quis caracterizá-la emocionalmente feminina. O tema da androginia foi mais corretamente explorado no cinema. O ensaísta e crítico Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, lembra dois filmes marcantes: Morte em Veneza, do italiano Luchino Visconti, baseado numa novela do escritor alemão Thomas Mann. “O adolescente por quem o velho compositor (o ator inglês Dirk Bogarde) se apaixona, personifica o andrógino enquanto figura de contemplação estética ambígua”, analisa Xavier. O outro filme é Teorema, do também italiano Pier Paolo Pasolini. Uma espécie de anjo exterminador (o ator Terence Stamp) seduz todos os membros de uma família burguesa conservadora. Um dos marcos da literatura moderna, Orlando, da instigante escritora inglesa Virginia Woolf, a longa narração da vida de uma personagem ora homem, ora mulher, foi levado ao cinema pela diretora inglesa Sally Potter. Convém não perder, pois qualquer que seja o resultado, o filme será mais fácil de ver do que o livro de ler.

Esses rapazes tão lindos

O inconsciente humano sempre conviveu com uma certa confusão entre os dois gêneros. Os escultores gregos clássicos fundiam feminino e masculino de tal forma que, não raro, os restauradores modernos equivocaram-se reconstruindo efebos (rapazes adolescentes) como se fossem moças. Nos antigos baixo-relevos da Índia, da mesma forma, quase não há separação por sexo; afinal, divindades precisam ser completas, não teria sentido empobrecê-las fazendo-as masculinas ou femininas. Os pintores também criaram mulheres e homens com jeito andrógino. “Todas as figuras masculinas do clássico italiano Leonardo Da Vinci (1452-1519) são femininas e até mereceram um estudo de Freud”, lembra a pintora e professora de desenho Ely Bueno, de São Paulo. “Os homens e mulheres de Marc Chagall (1877-1985) apresentam ambigüidades de gênero. O contemporâneo americano Andy Warhol (1927-1987) fez uma Marilyn Monroe que é ele próprio. Hoje, o ótimo cuiabano Humberto Spíndola faz figuras andróginas. São apenas alguns poucos exemplos”, garante a pintora.

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