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Criaturas

Um conto inédito de Carol Bensimon.

Tento pensar em minhas memórias como essas coisinhas que eu joguei dentro de uma fronha. Dei um nó na ponta e fui embora. O que você colocaria lá dentro? Não há tempo para refletir, há alguma calamidade, vidros quebrando lá fora, talvez fogo, certamente gritos, e os objetos dentro da casa estão dispostos de certa maneira, alguns acessíveis com uma esticada de mão, outros exigindo escadas, cadeiras, pontas dos pés. O fator pressa. O fator medo (o céu está ficando violeta, como se estivessem tentando sufocá-lo). O choro que vem do andar de cima. Uma sirene ao longe. Nessas circunstâncias, quem poderia escolher seus objetos mais importantes tendo a certeza de que aquela é, e será para sempre, a melhor lista? Como decidir entre um cortador de unhas e um soldadinho de chumbo? Supondo que se vá passar um tempo indeterminado em algum lugar onde não há cortadores de unha, e supondo que esse soldado de chumbo tenha sido um presente do seu avô, como optar por um e descartar o outro?

“Não compare maçãs com laranjas”, dizem. Taí uma das maiores besteiras que eu já escutei. Na vida, a gente tem que estar o tempo todo disposto a comparar maçãs com laranjas. Nenhum problema é um problema maravilhoso que envolve apenas laranjas ou apenas maçãs. E, sinceramente, ainda seria fácil se fossem duas frutas, dois objetos, duas pessoas, dois governos, enfim, duas possibilidades de qualquer coisa.

Tento pensar em minhas memórias como essas coisinhas que eu joguei dentro de uma fronha. Ao dizer isso, estou fazendo uma metáfora. Porque não houve tempo realmente para fronha, assim como não houve tempo para cortadores de unha ou soldados de chumbo. Eu só bati a porta e desci as escadas. Em algum ponto dessa trajetória, entre as escadas, as ruas, o cara barbudo da van que me ofereceu uma carona, a maioria das minhas memórias desapareceu. Restou um punhado. Como estou tentando dizer, não sei se são as mais felizes, as mais significativas ou as que contêm uma chave simbólica que pode me ajudar a entender o que está acontecendo agora, que é basicamente: eu em uma praia rochosa onde acho que nunca estive antes, cercada de pessoas com medo. Algumas até se parecem comigo. Outras são, bem, outras são outra coisa. Maçãs, laranjas e toda a salada de frutas.

(Laurindo Feliciano/Superinteressante)

Memória 1: a água que evapora de um telhado porque o sol começou a brilhar. Aquela fumacinha dançando sobre o triângulo que as telhas formam. Memória 2: um cervo no jardim. Não estou exatamente em contato com o cervo, mas o observo através de uma janela a uns seis metros de distância. Ele se movimenta com tanta cautela que a cena chega a ter um efeito cômico. Começo a pensar se a cautela tem estritamente a ver com a posição do cervo na cadeia alimentar, ou se outros animais com muitos predadores podem ser mais destemidos, por pura irresponsabilidade, é claro, como talvez um rato-do-banhado ou um guaxinim. Memória 3: estou comendo ovos com uma pessoa. Parece que tenho uma pessoa. Um namorado, talvez. Estou com essa pessoa e sinto que comemos, eu e ele, ovos com bastante frequência e nas mais variadas formas porque ele acredita que o ovo é um alimento muito versátil. Dessa vez, é uma espécie de panqueca, um omelete muito fino, e então você pode colocar o que quiser lá dentro. Não sei o que colocamos lá dentro. Acho que falamos muito pouco. Gostaria de saber se eu ainda o amo enquanto comemos ovos.

O barbudo faz correr a porta da van. Outros já estão sentados lá dentro, em silêncio. Eles abrem espaço para mim como se estivessem fazendo aquilo há bastante tempo, coletando pessoas, partindo de novo. A van arranca. Parecem todos meio atordoados, e é compreensível porque talvez estejam percebendo que o que não sabem é assustadoramente maior do que o que sabem ¿ eu, por exemplo, tendo apenas a água do telhado que evapora, o cervo, os ovos divididos com alguém. Para ser sincera, alguma vez a gente soube mais do que não soube? Quero parar de pensar. Olho para a rua através de uma abertura na cortina da van. Céu e céu. Acho que vejo uma bandeira preta. Tento me convencer de que é uma roupa preta, porque o preto sempre combinou com tudo, menos com bandeiras. É uma bandeira preta com a efígie de um homem.

Não estamos sentados em bancos, mas no chão da van. Não há bancos, provavelmente para que caibam mais pessoas. Somos quatro mulheres e três homens. Estou supondo que formamos algum tipo de grupo de “refugiados”, porque temos medo, porque não há bancos, porque não sabemos para onde estamos sendo levados. Na minha frente, uma garota de cabelo curto está girando o anel que usa no polegar. Ela olha para a própria mão enquanto faz isso. Percebo que seu moletom tem quatro manchas de sangue perto da cintura, como moedas bem pequenas, então procuro por outras marcas que posso não ter percebido antes. Um homem tem um hematoma esverdeado perto do olho direito. Outra mulher foi talvez puxada pela gola da camiseta, que agora deixa à mostra seus pequenos ossinhos do colo. É então que me levanto e tento me enxergar no reflexo do vidro. Tenho uma tatuagem na testa. Um círculo que não se fecha completamente.

“Tatuaram você”, alguém diz. “Os filhos da puta.” Mas eu não me viro rápido o suficiente. Talvez eu não queira saber sobre a minha tatuagem.

Estou na praia há seis noites e cinco dias. Outros chegaram há mais tempo, ou pelo menos agem como se tivessem, tratando com uma normalidade embasbacante nossa triste situação improvisada. Não quero achar normal que a gente esteja vivendo em barracas aqui, esperando a bateria do último celular ligado terminar para então cair em algum tipo de isolamento total que essas seis ou sete pessoas que despontam como “líderes” parecem achar o caminho mais interessante para todo nós.

Acho que posso dizer que existe algo de muito bonito nesse lugar. A beleza, no entanto, está misturada a alguns elementos perturbadores. Por exemplo, há centenas, talvez milhares, de criaturas marinhas que vieram morrer na areia. Acredito que sejam algas, mas com um formato quase humano, a ponta é uma pequena cabeça descabelada. Caminho entre esses seres, não há outro jeito, sentindo o cheiro levemente metálico de decomposição e sal, e então vejo que uma garota instalou um colchonete alguns metros adiante e está de pé sobre ele. Sento ao lado dela. Ela sorri. De repente, coloca as mãos no chão e logo mais as pontas do pé, deixando o corpo magro sustentar uma espécie de v invertido por algum tempo. Pergunto o que ela está fazendo, e ela diz “o cachorro olhando para baixo”.

(Laurindo Feliciano/Superinteressante)

“O quê?”, falo de novo.

Ela se senta no colchonete com as pernas cruzadas.

“A posição de yoga.”

Então olha para mim.

“Muito feio o que fizeram com você.”

“O que fizeram comigo?”

Toca na minha testa.

“Isso.”

“Você sabe o que é?”

Ela contrai rapidamente o rosto, como se não estivesse acreditando na minha dúvida.

“Significa que mandaram você para um lugar.”

“Que tipo de lugar?”

“Onde achavam que podiam te curar.”

Ficamos em silêncio.

Eu olho para as cabecinhas das algas porque não sei se devo continuar perguntando.

“Eu conheço alguém que esteve com você lá.”

“Sério?”

“Você quer encontrar com ela?”

Sentamos as três em um tronco. Além das criaturas marinhas mortas, há todos esses troncos. Isso porque, nessa praia, um rio deságua no mar, e ele deve ter carregado por anos e anos árvores que tinham caído lá em cima, nas montanhas, até que toda a madeira pesada encontrasse a areia e afundasse na areia e nunca mais saísse dali. A outra mulher é um pouco mais velha que nós. Ela também tem a tatuagem do quase-círculo, mas o dela precisaria de mais tinta para se tornar um círculo fechado.

“Nossas tatuagens são diferentes”, eu digo.

“Você dava uma cadeira sobre feminismo na universidade.”

“Eu dava?”

Ela atira uma pedra na água.

“Eles acham que você é realmente perigosa. Quer dizer, achavam. Agora não importa mais.”

Não sei o que ela quer dizer com isso, mas a declaração me deixa triste. Não importa mais? O que pode acontecer quando alguém não importa mais?

Ficamos olhando para o mar, como se esperássemos que algo viesse dali, boas ou más notícias, embora muito provavelmente qualquer surpresa, incluindo a aparição de pessoas com o estandarte preto, fosse chegar por terra, pelas estradas curvas que desembocam nessa praia. Mas algo nos faz olhar para o mar.

“O que você sabe sobre cervos?”

“O quê?”

“Eu alguma vez falei para você sobre cervos? A gente já se conhecia antes.”

“Sim. Bom, você morou em um lugar com cervos. Eu não sei se você quer falar sobre isso.”

“Eu quero.”

“Não era longe daqui. Uma hora dirigindo, talvez. Nas montanhas.”

“Eu tinha um namorado?”

A mulher se inclina para me olhar melhor.

“Um namorado? Cara, eles fizeram um bom trabalho com você, hein? Você nunca teve um namorado. Quer dizer, eu não sei o que você tava fazendo quando tinha 13 ou 14 anos, mas depois disso eram com certeza as garotas que faziam o seu coração acelerar. Cabelo verde, manifestos feministas, maratonas de seriados queer com pipoca, isso não te diz nada?”

“Eu tinha uma namorada então.”

“Você tinha.”

“Eu posso encontrar ela?”

“Ela pode estar aqui ou em outro acampamento. Você pode implorar pela van. Você pode roubar a van. Você pode se embrenhar no mato e encontrar as ruínas da sua velha casa. Mas você não se lembra de nada. Vai poder se apaixonar de novo pela mesma pessoa?”

Então ela se vira para a outra, a garota do colchonete.

“O que você tá fazendo?”

“Eu tô cortando essa criatura.”

A garota realmente cortou com um canivete uma das criaturas marinhas. Tirou fora toda aquela parte que parecia uma corda e deixou apenas a cabeça descabelada e uma parte do pescoço.

“Dá para fazer uma flauta com isso.”

A gente olha para ela. Sorrimos, as três, mas nenhuma boca chega a abrir a ponto de mostrar os dentes. Eu a ajudo com os furos. Depois, colocamos areia dentro para acelerar o processo de secagem. Em três dias, teremos alguma música. Nenhuma notícia deve chegar por terra ou por mar.

Carol Bensimon é escritora, autora do romance Todos Nós Adorávamos Caubóis (Companhia das Letras), entre outros.