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Esportes – Da flecha à bola

A paixão mundial pelos esportes tem origem nos tempos pré-históricos em que o homem era caçador e coletor

Carl Sagan

A cena se repete a cada outono nos Estados Unidos: nas tardes de domingo assim como nas noites de segunda-feira, abandonamos tudo que estamos fazendo para olhar as pequenas imagens de 22 homens em movimento — precipitando-se uns sobre os outros, caindo, erguendo-se e chutando um objeto alongado feito da pele de um animal. De vez em quando, tanto os jogadores quanto os espectadores passivos são levados à exaltação ou ao desespero pelo desenvolvimento do jogo. Por todo o país, hipnotizados diante das telas de vidro, pessoas (na maioria homens) gritam e resmungam em coro. Dito assim, parece um comportamento estúpido, mas quando você pega o jeito é difícil resistir—e eu falo por experiência própria.

Atletas correm, pulam, batem, escorregam e é emocionante vê-los fazer tudo isso com tanta habilidade. Eles se atracam no solo. São precisos ao golpear ou arremessar um objeto marrom ou branco em rápido movimento. Em alguns jogos, tentam conduzir a coisa em direção ao que se convencionou chamar “meta”. Em outros, os jogadores fogem e depois voltam à “base”. Quase tudo é trabalho em equipe—e é admirável como as partes se encaixam formando um conjunto magnífico. Mas não são essas as habilidades que a maioria de nós usa para ganhar o pão de cada dia. Então, por que nos sentimos compelidos a ver pessoas correndo ou golpeando? Por que essa necessidade existe em todas as culturas? (Antigos egípcios, persas, gregos, romanos, maias e astecas também jogavam bola; o pólo é tibetano).

Alguns astros do esporte ganham por ano dez vezes mais que o presidente dos Estados Unidos. Depois de aposentados, ainda são eleitos para altos cargos. Em suma, são heróis nacionais. Mas por que isso acontece? Existe aí alguma coisa que está acima da diversidade dos sistemas políticos, sociais e econômicos. É um apelo que vem de muito longe. A maioria dos principais esportes é associada a uma nação ou cidade e contém elementos de patriotismo e orgulho cívico. Nosso time nos representa—nosso lugar, nossa gente—contra aqueles outros caras vindos de algum lugar diferente, povoado por pessoas estranhas, talvez hostis. (Na verdade, a maioria dos “nossos” jogadores não é realmenle daqui. São mercenários que freqüentemente se transferem de alma limpa para cidades adversárias em troca de uma paga adequada. Às vezes um time inteiro muda de cidade.)

Competições esportivas são confrontos simbólicos mal disfarçados. Essa não é exatamente uma idéia nova. Os índios Cherokee, por exemplo, chamavam sua antiga forma de jogar lacrosse (uma espécie de hóquei) de “o irmãozinho da guerra”. Max Rafferty, antigo superintendente de Instrução Pública da Califórnia, depois de xingar os críticos do futebol universitário de “vagabundos, comunas, beatnicks cabeludos”, proclamava: “Futebol é guerra sem mortes. Os jogadores possuem um brilhante espírito combativo que traduz o próprio espírito da América”. (Isso até que merece uma reflexão) Já o falecido treinador Vince Lombardi sempre dizia que a única coisa que importa é vencer. E George Allen, ex-treinador dos Redskins (time de futebol americano) de Washington não deixava por menos: “Perder é como morrer”.

De fato, falamos em ganhar ou perder uma guerra com a mesma naturalidade com que falamos em ganhar ou perder um jogo. Num comercial de recrutamento do Exército americano, feito para a TV, um tanque de guerra destrói outro numa manobra de blindados. Ao final do exercício, o comandante vitorioso diz: “Quando vencemos, todo o time vence, o tanque inteiro vence—não uma só pessoa”. Isso torna muito clara a relação entre esporte e combate. Fãs (abreviatura de fanáticos) do esporte agridem, espancam, às vezes até matam, atormentados pela derrota de seu time, ou quando são impedidos de comemorar uma vitória, ou ainda quando se sentem injustiçados pelos juízes.

Em 1985, a primeira-ministra britânica se viu obrigada a denunciar o comportamento brutal de embriagados torcedores ingleses que, num jogo em Bruxelas, na Bélgica, atacaram um grupo de italianos pelo simples fato de eles torcerem pelo seu próprio time. Dezenas de pessoas morreram quando as arquibancadas despencaram. Em 1969, após três disputadas partidas de futebol, tanques de El Salvador cruzaram a fronteira de Honduras, enquanto bombardeiros salvadorenhos atacavam portos e bases militares hondurenhas. Essa “guerra do futebol” fez milhares de vítimas. Tribos afegãs, no passado, jogavam pólo com as cabeças decepadas de antigos adversários. E há seiscentos anos, onde hoje é a Cidade do México, havia um campo de jogos onde nobres suntuosamente vestidos assistiam a competições entre times uniformizados. O capitão da equipe perdedora era decapitado e seu crânio colocado numa prateleira, ao lado dos de.outros companheiros de desgraça—um incentivo possivelmente mais estimulante que a própria vitória.

Vamos supor que, como quem não quer nada, você está mexendo no seletor de canais da TV e sintoniza um jogo que não Ihe diz nada de especial —por exemplo, um amistoso de vôlei entre a Birmânia e a Tailândia. Como você decide por qual time torcer? Mas espere um pouco: por que torcer por qualquer deles? Por que simplesmente não apreciar a partida? Muitos de nós não conseguem manter essa atitude imparcial. Queremos participar da disputa, nos sentirmos membros de um time. Esse sentimento nos domina e quando menos percebemos lá estamos nós: “Vai, Birmânia”.

No começo, nossa lealdade pode oscilar fazendo-nos incentivar primeiro um time, depois outro. Às vezes torcemos pelo mais fraco. Outras vezes, vergonhosamente, viramos bandeira: do perdedor para o – ganhador, quando o placar já parece definido. (Quando um time sofre sucessivas derrotas numa temporada, a lealdade de alguns de seus torcedores pode balançar.) O que buscamos é vitória sem esforço. Queremos ser arrebatados por algo como uma pequena, segura e vitoriosa guerra.

O mais antigo evento atlético organizado de que se tem notícia remonta à Grécia pré-clássica, há 3 500 anos. Durante aqueles primeiros Jogos Olímpicos, uma trégua suspendia todas as guerras entre as cidades-estado gregas. Os jogos eram mais importantes que as batalhas. Nessas competições os homens participavam nus e não era permitida a entrada de mulheres na platéia. Por volta do século VIII a.C., as Olimpíadas consistiam em corridas (muitas modalidades), saltos, arremesso de objetos (inclusive dardos) e lutas (às vezes até a morte). Embora nenhuma dessas competições fosse praticada em equipe, elas foram fundamentais para o desenvolvimento dos modernos esportes coletivos e também para a caça esportiva.

A caça é tradicionalmente considerada um esporte, quando não se come o que se captura — uma condição muito mais fácil de ser cumprida pelos ricos do que pelos pobres. Desde os primeiros faraós, a caça esteve associada à aristocracia militar. O aforismo do escritor Oscar Wilde sobre a caça à raposa na Inglaterra—”o indizível em busca do incomível” — alusão ao elitismo dessa prática. Já os precursores do futebol, hóquei e esportes afins eram chamados “jogos do populacho”, reconhecidos como substitutos da caça, que não podia ser praticada por jovens que precisavam trabalhar para viver.

Então talvez os jogos de equipe não sejam apenas ecos estilizados das antigas guerras; talvez eles também satisfaçam um desejo quase esquecido de caçar. Mas, se nossa paixão pelo esporte é tão profunda e tão difundida, é possível que esteja arraigada em nós—não em nosso cérebro, mas em nossos genes. Os 10 mil anos decorridos da invenção da agricultura não são tempo suficiente para que tais predisposições tenham evoluído. Se quisermos entendê-las, precisamos retroceder ainda mais. A espécie humana tem centenas de milhares de anos. No entanto, somente nos últimos 3 por cento desse período, que engloba toda a nossa história, levamos uma existência sedentária, baseada no cultivo do solo e na criação de animais. Nos primeiros 97 por cento de nossa estada na Terra, adquirimos tudo o que é caracteristicamente humano. Podemos aprender algo sobre esses tempos com as raras comunidades caçadoras / coletoras ainda não corrompidas pela civilização.

Perambulamos com nossos filhos e nossos pertences nas costas, seguindo a caça e buscando fontes de água. Acampamos por um tempo, logo prosseguimos a marcha. Para proporcionar alimento ao grupo, os homens passam a maior parte do tempo caçando, enquanto as mulheres colhem. Um típico bando itinerante, uma família extensa composta de parentes e consangüíneos, soma algumas dúzias de indivíduos—embora centenas de nós, com a mesma língua e cultura, nos reunamos anualmente para cerimônias religiosas; trocas, casamentos, narrações de histórias. E muitas são as histórias de caça.

Estou me detendo principalmente nos caçadores, que são homens. Mas as mulheres têm um significativo poder social, econômico e cultural. Elas coletam os alimentos essenciais—nozes, frutos, tubérculos, raízes, assim como ervas medicinais, além de caçarem pequenos animais e informarem os homens dos movimentos dos grandes animais. Os homens também se dedicam à coleta e a uma parte considerável dos afazeres domésticos (embora não tenham casas). Mas caçar— apenas para comer, nunca por esporte —é a mais duradoura ocupação de qualquer homem que se preze.

Os meninos aprendem a abater pássaros e pequenos mamíferos com arcos e flechas. Adultos, sabem perfeitamente como fabricar armas, espreitar a presa, matá-la e cortá-la em pedaços que serão levados ao acampamento. Quando capturam o primeiro grande mamífero, passam a ser considerados adultos. Na cerimônia de iniciação, incisões rituais são feitas no seu peito ou nos braços; depois, uma erva é esfregada nos cortes, de modo que a cicatriz forme uma tatuagem. Esta significará uma espécie de condecoração; bastará um olhar para que se conheça a experiência de combate de cada um.

A integração com a natureza é tanta que, das muitas pegadas deixadas por um bando de animais, podemos dizer com certeza quantos são, distinguir as espécies, os machos e as fêmeas e até descobrir se algum era manco ou há quanto tempo passaram. Alguns filhotes podem ser capturados por meio de armadilhas espalhadas pelo campo; outros, com estilingues e bumerangues ou apenas com pedras jogadas com força e precisão. O homem pode aproximar-se e matar a golpes de borduna os animais que ainda não aprenderam a temê-lo. Para agarrar presas mais espertas, que se mantêm distantes, arremessamos lanças ou flechas envenenadas. Às vezes temos sorte e encurralamos um bando inteiro à beira de um penhasco.

O trabalho em equipe entre os caçadores é fundamental. Se não quisermos espantar a caça, devemos nos comunicar por mímica. Pelo mesmo motivo, devemos controlar nossas emoções—tanto o medo como o júbilo são perigosos. Somos ambivalentes em relação aos animais. Nós os respeitamos, reconhecemos que eles e nós temos algum parentesco, chegamos até a nos identificar com eles. Mas, se paramos para pensar na sua inteligência, no cuidado com que tratam os filhotes, se sentimos pena deles, a caça vai ser prejudicada; vamos trazer menos comida para casa e novamente nosso bando vai ficar em perigo. Ou seja, precisamos manter uma distância emocional entre nós e eles.

Por 1 milhão de anos nossos ancestrais masculinos correram de cá para lá, atirando pedras em pássaros, perseguindo filhotes de antílopes, derrubando-os no chão e, aos gritos, aterrorizando bandos de animais selvagens. Suas vidas dependiam da habilidade na caça e do trabalho em equipe; não só eram bons caçadores como bons guerreiros. Então, depois de muito tempo—digamos, alguns milhares de séculos —, uma predisposição natural para caçar e trabalhar em equipe estará incorporada em muitos recém-nascidos. Por quê? Porque os caçadores incompetentes ou frouxos tendem a deixar menos descendentes. Não estou querendo dizer com isso que nossa herança contém informações do tipo como confeccionar uma ponta de lança afiada a partir de um pedaço de pedra ou como emplumar uma flecha: essas coisas são ensinadas ou deduzidas. Mas o prazer de caçar, isso eu aposto que está arraigado.

A seleção natural ajudou a moldar nossos ancestrais como soberbos caçadores. A evidência mais clara do sucesso do estilo de vida caçador / coletor é o simples fato de ter-se propagado por cinco continentes e durado 1 milhão de anos. Após 40 mil gerações, em que a matança de animais era nossa defesa contra a inanição, tais inclinações ainda devem estar conosco. Ansiamos por extravasá-las. Os esportes de equipe nos proporcionam essa possibilidade. Uma parte de nós sonha fazer parte de um pequeno bando de semelhantes em busca de uma intrépida, ousada conquista. As tradicionais virtudes masculinas—seriedade, inventividade, modéstia, coerência, conhecimento profundo dos animais, amor pela vida ao ar livre — eram todos comportamentos adaptativos na época da caça / coleta. Até hoje admiramos essas características, embora quase tenhamos esquecido por quê.

Além dos esportes, há poucas válvulas de escape disponíveis. Podemos reconhecer nos adolescentes o jovem caçador, o aspirante a guerreiro, saltando pelos telhados, dirigindo motocicletas sem capacete, arranjando encrencas para o time vencedor na celebração depois do jogo. Se esses ímpetos não forem submetidos a alguma forma de controle, podem se transformar em algo mais grave (embora nossos índices de homicídios sejam equivalentes aos dos !Kung, uma tribo do sul da África). Tentamos assegurar que esse gosto ritual pelo ato de matar não se volte contra os humanos. Nem sempre conseguimos.

Ao pensar como são poderosos esses instintos de caçador, fico preocupado. Temo que o futebol de segunda-feira à noite seja uma saída insuficiente para esses modernos caçadores / coletores, enfiados em seus macacões, aventais, uniformes ou ternos. Penso naquele antigo legado de não expressarmos nossos sentimentos e mantermos distância daqueles que matamos—e isso tira um pouco do prazer do jogo. Os caçadores / coletores geralmente não apresentavam perigo para si mesmos: primeiro, porque sua economia era relativamente saudável (muitos tinham mais tempo livre do que nós); segundo, porque, como nômades, tinham poucas posses, quase nenhum roubo e pouca inveja; porque, também, a arrogância e a cobiça não eram apenas considerados males sociais mas ainda; algo muito próximo a uma doença mental; porque as mulheres tinham poder político real e tendiam a exercer influência estabilizadora antes que os garotos se lançassem a suas flechas envenenadas; e porque, enfim, quando sérios crimes eram cometidos—assassínios, por exemplo—o bando em conjunto passava a sentença e o castigo.

Os caçadores / coletores organizavam democracias igualitárias. Eles não tinham chefes nem hierarquias políticas ou empresariais que valessem a pena galgar. Não havia contra quem se revoltar. Assim, se estamos encalhados a algumas centenas de séculos de quando deveríamos estar, se—embora não por falha nossa—nos encontramos na era das armas nucleares, com emoções do Plistoceno mas sem as salvaguardas sociais do Plistoceno —, talvez possamos ser desculpados pelo futebol das segunda – à noite.

Para saber mais:

A ciência constrói atletas

(SUPER número 3, ano 5)

Olha a bola!

(SUPER número 12, ano 7)

A ciência do tetra

(SUPER número 6, ano 8)