Hipocrisia faz mal à saúde

Mas há algo acontecendo, sim. Vigora no país uma lei que vale só para alguns

Por Redação Super

Denis Russo Burgierman

Quando a TV Cultura demitiu a jornalista Soninha Francine, divulgou uma nota ao público afirmando que não podia aceitar que o descumprimento de uma lei “seja uma atitude defendida” pela apresentadora de um programa, ainda mais um programa como o RG, voltado para jovens. Parece justo. Incitação ao crime é crime também e ninguém vai negar a uma empresa o direito de demitir um funcionário criminoso. Se Soninha, que perdeu o emprego por ter dado um depoimento para a reportagem de capa “Eu fumo maconha”, publicada no mês passado na revista Época, está mesmo pregando por aí que as pessoas têm que usar drogas, então a demissão foi corretíssima.

Mas será que ela está? Será que o depoimento que ela deu é mesmo uma incitação ao uso de drogas? Vamos ver. Peguemos um pedaço da sua declaração publicada na revista: “Fumo muito pouco, em festas ou casa de amigos. Não incentivo ninguém a fumar”. Opa, isso não parece uma apologia das drogas. Mais um trecho: “Há pessoas que pensam que fumar maconha é desajuste, crime. Considero mais danoso dizer que alguém que fuma é criminoso do que qualquer efeito da droga. É esse tipo de tratamento que cria a marginalidade, o gueto”. Ou ainda: “Lógico que a maconha tem efeitos negativos para a saúde, mas isso não pode fazer de seu uso um crime”. Onde foi que a TV Cultura viu uma defesa do uso da maconha? Mais adiante, Soninha diz: “Várias vezes, depois de fumar, pensei: ‘Puxa, é tão bom e causa tanto medo e desgraça’. Um é expulso de casa, outro apanha da polícia ou perde o emprego”. Profético.

Não é verdade que Soninha foi demitida por pregar o descumprimento de alguma lei – ela não pregou e a Constituição garante a todos os brasileiros o direito de expressão. Ela perdeu o emprego porque as pessoas e as empresas no Brasil querem distância dessa polêmica, que é tão relevante quanto urgente. Soninha está na rua porque não se eximiu nem quis varrer a discussão para debaixo do habitual tapete. Ao contrário, infelizmente, da maioria das empresas de comunicação, dos formadores de opinião, dos legisladores e dos educadores, que preferem silenciar quando o assunto é drogas.

Não estou defendendo aqui a descriminalização da maconha – embora, honestamente, eu ainda não tenha encontrado nenhum argumento razoável contra ela. Defendo, isso sim, o debate franco. O silêncio só interessa aos grandes traficantes – que faturam uma fortuna sem nenhuma fiscalização do governo, sem pagar impostos e sem medo de ir para a cadeia, enquanto a sociedade finge que não está acontecendo nada.

Mas há algo acontecendo, sim. Vigora no país uma lei que vale só para alguns. Funciona mais ou menos assim: se você é pobre e é pego com maconha, vai preso. Se é rico, é possível que a polícia nem o incomode, para evitar problemas – vai que você é filho de alguém importante. Ou, quem sabe, um subornozinho livre sua cara. Se você é grande traficante, fique sossegado. Se é pequeno traficante, ai, ai, ai. Se o delegado está de bom humor, você é usuário; se está de mau humor, é traficante – tão vaga é a tipificação dos crimes. E, se você quiser discutir o assunto a sério, é acusado de incitar um crime. Em resumo, a lei, do jeito que está, não funciona.

Ninguém sabe ao certo quantos usuários de maconha há no Brasil – um dos efeitos do silêncio hipócrita é que ele torna impossível conseguir dados confiáveis para dimensionar o fenômeno. Mas calcula-se que, no mínimo, cinco milhões dêem suas tragadinhas (há quem fale em 40 milhões). Nenhum deles parece disposto a parar porque é ilegal. Ou seja, o uso da maconha é fato consumado, queiramos ou não. Não adianta se fazer de avestruz.

Afinal, quem são esses cinco (ou 40) milhões de usuários? Quantos deles têm problemas de saúde por causa da droga? Quantos sofrem com a dependência? Quantos são menores de idade? Quantos pulam para outras drogas, mais perigosas? Quantos tiram benefícios da maconha (um alívio para o estresse, uma alternativa para drogas mais danosas à saúde, um auxílio para a atividade artística)? Serão eles gente produtiva, competente, criativa, como Soninha, ou criminosos perigosos que ameaçam a sociedade? Enquanto não soubermos responder com clareza a essas perguntas, será muito difícil definir uma política pública e uma legislação decente para o assunto. E só teremos as respostas no dia em que falar abertamente do assunto não acarretar em punição.

Os artigos publicados nesta seção não traduzem necessariamente a opinião da Super.

Soninha não defendeu o uso da maconha. Ela apenas propôs um debate – que se faz urgente