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O fenômeno atmosférico que deu origem a “O Grito”, de Munch

As nuvens laranjas da obra de Edward Munch são um pôr do Sol real registrado no diário do pintor norueguês – e a meteorologia tem duas explicações para ele

Mês passado você descobriu, aqui na SUPER, que existe uma Sociedade de Apreciação das Nuvens. “Para nós, elas são a poesia da Natureza [sim, com “N” maiúsculo] e a mais igualitária de suas demonstrações”, afirma o manifesto dos meteorologistas amadores. Até aí, tudo bem. Há quem escolha o jornalismo como profissão – cada louco com as suas manias.

O problema é que agora o hobby alcançou o próximo nível – e um grupo de pesquisadores dedicou um artigo científico inteiro a explicar algumas das nuvens mais famosas (e assustadoras) da história da arte: a massa laranja atrás do homem desesperado na pintura O Grito, do norueguês Edvard Munch.

É claro que esse céu apocalíptico não precisa ter existido na prática – a graça das artes plásticas é que a nuvem que você pinta pode ser da cor que você quiser. Mas há bons motivos para acreditar que o laranja não seja só o crepúsculo da Noruega. A primeira teoria atmosférica sobre O Grito data de 2003, e envolve a explosão do vulcão Krakatoa na Indonésia em 1883 – uma das maiores erupções da história moderna, contemporânea à idealização do quadro.

Naquele ano, o vulcão em si e os tsunamis subsequentes vitimaram pelo menos 36 mil pessoas. Passada a pior parte, uma enorme quantidade de dióxido de enxofre (SO2) pegou carona nos ventos de grande altitude, e a substância se espalhou por toda a atmosfera. Reações químicas posteriores com o novo “ingrediente” aumentaram a concentração de ácido sulfúrico (H2SO4) em nuvens Cirrus, que passaram a refletir a luz do Sol com mais intensidade.

Resultado? Uma queda de 1,2 °C nas temperaturas médias do Hemisfério Norte no verão daquele ano – e meses à fio com o pôr do Sol mais bonito da história registrada (a estrela chegou a ficar púrpura ou lavanda em certas regiões). O fenômeno diário cessou lentamente, conforme todo o ácido sulfúrico caia em forma de chuva ácida, e o céu só voltou ao normal em fevereiro de 1884, quase um ano depois.

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Em uma curta matéria publicada na Reuters em 2003, astrônomos vão ao ponto de Oslo, capital da Noruega, em que Munch observou a cena que inspirou sua pintura – e encontram bons motivos para acreditar que o vulcão tem culpa no cartório artístico.

“É muito satisfatório estar no exato ponto em que o artista teve essa experiência”, afirmou, na época, Donald Olson, da Universidade do Texas. “A real importância de encontrar o lugar, porém, era determinar o ângulo e a direção do olhar na pintura. Nós verificamos que Munch olhava para o sudoeste – exatamente onde apareceram os crepúsculos do Krakatoa no inverno de 1883.”

Dito isso, caso encerrado, certo?

Não, é óbvio. Mais de dez anos depois, nesta segunda-feira (24), um artigo apresentado em uma reunião da União Europeia de Geociências em Viena contesta a teoria explosiva com uma explicação mais amena: uma rara aparição de nuvens estratosféricas polares, conhecidas em inglês como “nuvens de madrepérola” pela maneira peculiar como refletem a luz.

Típicas do inverno em regiões próximas dos polos, elas são onduladas, e batem com precisão com as anotações no diário do pintor. Em um coletiva de imprensa, Helene Muri, da Universidade de Oslo, afirmou: “crepúsculos com cor de fogo perduram por anos após a erupção. Já a visão de Munch, da forma como é descrita em seu diário, foi uma experiência única em sua vida.”

Segundo ela, cientistas que documentaram o fenômeno em 2014 também ficaram de queixo caído com a felpuda psicodélica. “São tão bonitas que você pensa que está em outro mundo.”

É difícil desempatar a disputa. Há lindas fotos das madrepérolas no céu – mas não há boas imagens do pôr do Sol pós-Krakatoa, o que torna a comparação impossível. Na dúvida, fique com a imagem abaixo, de uma nuvem estratosférica polar sobre a Antártida.  

(Alan R Light | CC BY 2.0/Reprodução)