Set - 1996

Reggae: Paredão de som

Solo fértil, luz do sol e umidade do mar.Foi em São Luís, no Maranhão, que a ervado reggae melhor germinou no Brasil

por Texto Otávio Rodrigues

"Brilha a luz de João Carcará

Madre de Deus das estrelas que tem fé

Itanatty, brincadeiras cazumbás

Brilha a estrela de Antônio José

Banda Guetos e a Tribo que é de Jah

Brilha a estrela que urrou no Pindaré"

"Luzes e Estrelas", de Inaldo Bartolomeu, Toada de Boi da Mocidade de Rosário, Maranhão, 1997

Quarta-feira, 18 de setembro de 1996. O carro do Corpo de Bombeiros atravessou São Luís levando Antônio José Pinheiro Silva, o “Lobo”, morto um dia antes num acidente de carro. No longo trajeto entre o bairro de São Francisco e o Cemitério Jardim da Paz, no Maiobão, milhares de pessoas alinharam-se nas calçadas e acostamentos, acenando, gritando ou vertendo lágrimas. Antônio José não era coronel, deputado, ministro, jogador de futebol ou artista de TV. Era DJ de reggae, profissão pouco conhecida e nada nobre – mas isso apenas aos olhos da elite maranhense. Pra “massa regueira”, formada principalmente pelos excluídos, era um adeus emocionado e muito justo a um dos mais importantes personagens do reggae do Maranhão.

Antônio José era um cara bacana, estava sempre de bem com a vida. Começara, ainda moleque, tocando no Clube Quilombo, onde mexia com discos de vários gêneros, e não apenas reggae, o que decerto contribuiu para a variedade instigante de suas seqüências. E foi ele um dos primeiros a encarar o público olhos nos olhos, no momento em que os equipamentos de amplificação e controle passaram a ser colocados em mesas, e não mais nos móveis monolíticos (que forçavam os DJs a trabalhar de costas). Suas performances incluíam cantorias, refrãos gostosos feitos no improviso e até scattings, à moda dos melhores da Jamaica. Uma de suas criações, “Menina Linda”, sobre música de Willie Lindo, será lançada agora neste final de 2004 pelo cantor maranhense Jorge Thadeu.

Naquela quarta-feira triste, quando o caixão do Lobo desceu à sepultura, coberto pelas bandeiras do Brasil e da Jamaica, salpicado por responsórios, fotos, camisas e outras lembranças atiradas por familiares, amigos e fãs, caía definitivamente a ficha de que o reggae no Maranhão era bem mais do que “coisa da negrada”, dos salões de periferia e clubes de chão batido. A massa regueira, que já havia dado prova de força elegendo vereador, estava ali, chorando sentida, mostrando que também era capaz de fazer um herói.

Trinta anos atrás...

Para entender o significado das homenagens a Antônio José, é preciso voltar uns 30 anos no tempo, até o meio dos anos 70, quando esse jovem DJ ainda usava fraldas e o som da Jamaica começava a pegar no Maranhão. Naquela época, é bom lembrar, o reggae experimentava sua explosão na Inglaterra, não era cidadão do mundo como hoje. Bob Marley, por exemplo, trilhava o caminho das pedras e quase ninguém no Brasil nem sequer ouvira falar dele.

Acontece que na capital maranhense, assim como em cidades do interior, especialmente as da Baixada (junto ao litoral oeste do estado) e as dos vales dos rios Itapecuru e Mearim, havia quem desde os anos 60 sintonizasse emissoras de rádio do Caribe. Outro fator importante foi a proximidade do porto de Belém, onde marinheiros e descascadores de batatas de toda parte do mundo alimentavam o comércio de LPs e singles de segunda mão.

Foi no mercado do Ver-o-Peso, na capital paraense, em 1975, que o pioneiro Riba Macedo comprou seus primeiros discos de reggae. E então, com as jóias embaixo do braço, começou a aparecer nas festas dos amigos discotecários de São Luís (era assim que se chamavam os DJs), sempre tentando uma brecha entre um merenge, uma disco music e um bolerão... “Ninguém gostava. Falavam pra mim: ‘Riba, larga mão desse negócio, isso é música de arraial!’”

A partir de 1976, quando botou nas festas seu Sonzão Guarany – na época, como era comum, um sistema de som com apenas duas caixas e dois toca-discos –, Riba conseguiu espalhar o ritmo jamaicano e inspirar a primeira geração do reggae no Maranhão. Surgiram DJs, radioleiros (donos de radiola, como são chamados os sound systems), clubeiros (donos de clubes, os salões de dança) e colecionadores. “Eu tocava Jesse Green, Jimmy Cliff, Desmond Dekker, Toots (Hibbert, líder dos Maytals). Quando aquele disco This Is Reggae Music, o de capa amarela, apareceu no Maranhão, eu já tinha o meu fazia tempo!”

A cena que se desenvolveu a partir daí se baseou principalmente no gosto pelo ritmo. O batidão típico da música jamaicana, superamplificado e distribuído entre um número cada vez maior de caixas acústicas, seduziu a galera nos salões. Mas havia também a mística do reggae, já que os maranhenses identificavam-se com o jeitão dos jamaicanos nas capas de discos, com fotos da vida em favelas, a maconhagem, os problemas dos negros com a polícia... Ora, não é preciso estudar sociologia pra notar que a realidade de uns e outros é bem parecida.

Dez anos mais tarde, dezenas de clubes e radiolas chacoalhavam a ilha – tem essa ainda: São Luís, como a Jamaica, é uma ilha. O reggae tornara-se uma diversão boa e barata, oferecia bailes com luz negra e, delícia das delícias, a oportunidade de dançar junto, no chamego, à moda das “serestas” – os bolerões bregas, muito populares no Nordeste desde sempre.

Melô-banhô

Nos anos 80, emergiram os “intelectuais” do reggae. Entre eles, Fauzi Beydoun, hoje líder da Tribo de Jah, e Ademar Danilo, que, graças à “massa regueira”, elegeu-se vereador em 1992, abrindo caminho para outros (em 2004, José Eleonildo Soares, o Pinto da poderosa radiola Itamaraty, foi o vereador mais votado da cidade).

De 1984 a 1987, Fauzi e Ademar apresentaram juntos o programa Reggae Night, na Mirante FM. Com conhecimentos da cultura jamaicana, inglês na pinta e bem fornidas estantes de discos, a dupla deu uma injeção de conhecimento nos ouvintes, abriu os microfones para outros conhecedores, como os veteranos Zequinha Rasta e Viegas, e pavimentou o que seria o melhor período do reggae no Maranhão, que vai de 1985 a 1995. Foi a era da música de grandes como Jimmy Cliff, Gregory Isaacs, Max Romeo, U. Roy, Doctor Alimantado, Dennis Brown, John Holt, Big Youth, I Jah Man e Jacob Miller, sem falar em outros, menos conhecidos mas também brilhantes, como Eric Donaldson, Jimmy London, Lloyd Parks e Pat Kelly.

O grande decênio consagrou grandes radiolas, algumas com 80 caixas acústicas ou mais, formando paredões de notável efeito visual e sônico. Práticas comuns na Jamaica foram espontaneamente incorporadas, como a raspagem dos selos dos discos, para despistar os curiosos, e o confronto de radiolas em disputas que alcançavam o amanhecer. Sem falar no reggae de praia, precisamente o domingo no extinto Toque de Amor, na Ponta da Areia, um dos clubes mais queridos na categoria conhecida como “melô-banhô” – afinal, o mar está logo ali.

Clubes e programas de rádio popularizaram-se na mesma medida, ajudando a produzir personagens únicos. Por exemplo, os “traficante de discos”, que iam dez ou mais vezes pra Jamaica a cada ano em busca das “pedras” – o tipo de reggae que agrada à massa, necessariamente baixudo e bem marcado, e de preferência exclusivo, já que uma seqüência “destruidora” ou “avassaladora” podia, como pode ainda, determinar o sucesso de uma radiola.

E se consagrou também nesse período a concorrência desleal entre algumas radiolas, os roubos de música e até os tiros na noite escura. Igual à Jamaica. Mas, como diziam os Mutantes, “posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o meu rock’n’roll”...

E aí, o sonho acabou?

Em 1995, o reggae já era um negócio extremamente lucrativo no Maranhão, o que fez crescer a barriga da maioria dos que já estavam no lance, bem como os olhos de empresários, promotores e radialistas que nada tinham a ver com a história. Os programas de rádio perderam o caráter informativo e cultural dos anos 80, tornando-se servis aos interesses de radioleiros e clubeiros. Na busca do santo graal da exclusividade e do lançamento de sucessos, muitas “pedras falsas” foram empurradas na goela dos regueiros.

Em 1996, uma loja de discos de São Luís começou a piratear as músicas de grande sucesso nas radiolas, lançando-as descarada e sistematicamente em coletâneas, sem pagar direitos aos autores ou editoras, mas cobrando preço de importado pelo CD. Isso contribuiu para que alguns radioleiros passassem a procurar artistas do terceiro e quarto escalões do reggae como, Honey Boy e Bill Campbell, com o propósito de fazer encomendas diretas de músicas. Até Joe Gibbs, famoso produtor e dono de estúdio na Jamaica, entrou na dança.

Com tecladinhos meia-boca e uma boa percepção das batidas que andavam a agradar os maranhenses nos salões, artistas e produtores atenderam ao chamado e acabaram por criar uma nova linguagem para o reggae local, algo que nem de longe lembra os clássicos de outros tempos, nem resvala no reggae eletrônico de boa cepa. Em sonoro e castiço português, ficou difícil aturar as radiolas maranhenses nos dias de hoje.

Outro aspecto que conta muito para esse sucateamento estético é a atitude dos novos DJs. Contrariando a idéia de que as coisas na Jamaica Brasileira iriam seguir curso igual às da Jamaica Jamaicana, como sempre e naturalmente aconteceu, os donos do microfone não desenvolveram as técnicas nem o conteúdo de suas ladainhas – algo que na matriz, de tão bem resolvido e relevante, acabou gerando nada menos que o rap. Com slogans repetidos até o esgotamento e, às vezes, embromando no inglês sobre as músicas, essa turma não acenou, até agora, com sequer uma filigrana de mudança. A grande promessa aí, infelizmente, desceu à sepultura naquela tarde de 18 de setembro de 1996.

 

Os muitos verões do reggae

1969

No tempo em que se fumava cachorro com lingüiça, um jovem de 21 anos chamado Jimmy Cliff aparece no Brasil defendendo a canção “Waterfall” no Festival Internacional da Canção. O jamaicano vai ao programa do Chacrinha e grava um disco por aqui, Jimmy Cliff in Brazil, cantando até em português!

1971

Caetano Veloso compõe “Nine Out of Ten”, durante o exílio em Londres e a inclui no álbum Transa. Diz a letra: “Caminhando pela Portobello Road ao som do reggae/ eu estou vivo...” Nesse mesmo ano, Luís Vagner e Paulo Diniz fazem parceria no primeiro reggae em português, “Bahia Comigo”, que aparece no LP Paulo Diniz (Odeon).

1979

Os baianos Jorge Alfredo e Chico Evangelista (ex-Arembepe, uma das primeiras bandas de reggae do Brasil) entram com “Reggae da Independência” no Festival da Tupi.

1980

Bob Marley vem ao Brasil. Joga bola, dá umas bolas, enche a cara de suco de frutas nas típicas lanchonetes do Rio... E se manda, sem cantar um “a”. Pouco depois, Peter Tosh faz um show histórico (e cheio de fumaça) no Palácio das Convenções, em São Paulo, durante o 2o Festival Internacional de Jazz. Ainda nesse ano, Gilberto Gil e Jimmy Cliff excursionam pelo Brasil arrastando milhares de pessoas ao Mineirinho (Belo Horizonte), Estádio da Fonte Nova (Salvador), Geraldão (Recife), Maracanazinho (Rio) e Portuguesa (São Paulo).

1986

Os Paralamas, que já haviam apresentado o ska aos brasileiros em Cinema Mudo (1983) e O Passo do Lui (1984), aparecem com Selvagem? (EMI), um tesouro de gravões, porradas secas e efeitos dub. É referência até hoje. No mesmo ano, o guitarreiro Luís Vagner, um dos gurus do samba-rock, autor de “Camisa 10”, entre outros sucessos dos anos 70, lança o álbum Ao Vivo, ponto culminante de sua bem bolada fase reggae.

1987

O bloco Olodum lança Egito Madagascar (Warner), disco seminal do samba-reggae criado pelo mestre Neguinho do Samba. Jimmy Cliff, Paul Simon, Bill Laswell e Michael Jackson, entre outros, pagam pra ver. “Pagam”, claro, é modo de falar.

1989

Os pancadões do dancehall e do ragga explodem nos bailes blacks de São Paulo. O funk e o samba-rock, tradicionais no repertório de equipes como Zimbabwe, Chic Show e Black Mad, ganham a companhia do reggae moderno de Shabba Ranks, Admiral Bailey, Frighty & Colonel Mite, J.C. Lodge e Cutty Ranks.

1990

Falar a Verdade, primeiro disco do Cidade Negra (CBS), ainda com Ras Bernardo nos vocais e produzido pelo baixista e dubman Nelson Meirelles, marca a entrada das bandas brasileiras de reggae nas grandes gravadoras. No mesmo ano, os Wailers de Bob Marley vêm pela primeira vez ao Brasil para uma série de shows memoráveis. O Circo Voador, no Rio, quase despenca.

1991

O cantor e compositor jamaicano Gregory Isaacs chega para o primeiro e histórico show em São Luís. Mas esquece a banda na Jamaica! Pra não frustrar a massa regueira que lota o Estádio Nhozinho Santos, acaba rolando um improviso com integrantes da Tribo de Jah e Universal Youth (da Guiana Inglesa), entre um e outro pout-pourri disparado pelo DJ Natty Naifson. Vinte dias depois, já com o visto vencido, mas devendo um show na cidade, o cool ruler é protagonista de uma frustrada tentativa de fuga a bordo de um jatinho e vai parar na delegacia.

1998

Correndo por fora, longe das grandes gravadoras e sem tocar no rádio, a Tribo de Jah torna-se ícone dos fãs de reggae brasileiro. O sucesso dos maranhenses acaba semeando o surgimento de uma legião de bandas rasta de garagem, adeptas do lema “Uma guitarra na mão e um baseado na cabeça”. Graças a Deus, há exceções. Entre os nomes dessa geração, destaque para o trabalho-solo do baixista e compositor Edu Sattajah, do paulista Leões de Israel, Gérson da Conceição, baixista, cantor e compositor maranhense, fundador do já extinto Mano Bantu, e os mineiros do Manitu.

2000

Surgem as primeiras dub sessions em São Paulo, dando a largada na formação de uma cena de outsiders do reggae. Sem excesso de cores e boinas, a confraria mistura a cultura dos sound systems jamaicanos, piques de ragga, toques do dub europeu e ritmias brasileiras, que podem ir do funk carioca ao bumba-meu-boi. Nessa lista, DigitalDubs e Apavoramento (Rio), Lord Breu (Salvador), Léo Vidigal e Corpo Santo (Beagá), Yellow P, Dubversão e Bumba Beat (São Paulo), entre outros.

2002

Gilberto Gil vai pra Jamaica e grava Kaya N’Gan Daya quase todinho nos estúdios Tuff Gong, de Bob Marley, gilberteando vários clássicos do rei do reggae. Participam as I-Threes (Rita Marley, Marcia Griffiths e Judy Mowatt) e a dupla Sly & Robbie.

2004

Uma safra de bons nomes aponta para um futuro mais criativo no reggae brasileiro. No Rio, chamam atenção Reggae B. (banda alternativa de Bi Ribeiro, dos Paralamas), Gustavo “Black Alien” e Marcelinho da Lua. Em São Paulo, Vilson Dub (herdeira d’O Vaca de Pelúcia), Firebug (produzida pelo festejado baixista americano Victor Rice) e o combo de skazeiros do Sapobanjo.

 

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