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Um Nobel na USP?

As aulas mais desafiadoras, os alunos mais inteligentes. É o misterioso curso de ciências moleculares, que forma pesquisadores científicos de primeira linha - e uns estudantes um tanto quanto... Peculiares

Karin Hueck 

Na biblioteca, uma turma de 10 alunos está conversando. Alguns estudam, outros tentam dormir nos sofás rasgados encostados à parede. Quase todos deveriam estar em aula, mas isso não os impede de contar piada e falar alto. De repente, um menino franzino de óculos interrompe a conversa e pergunta: “Como faço para descobrir o resto de uma divisão de um número com infinitos algarismos, se eu olhar a partir do último algarismo para o primeiro?” Nesse momento, todos aqueles alunos que antes se divertiam ficam calados e olham fixamente para um ponto invisível no chão. Ao mesmo tempo, todos ligaram o modo “calcular” de seu cérebro para resolver a questão. “Isso deve ser uma função linear”, palpita alguém. “Não, espera aí. Eu tenho isso no meu computador”, diz outro. E o que era uma conversa amena vira um debate de ciência avançada. E antes que você, assim como a reportagem da SUPER que presenciou a cena, pergunte: “quem são essas pessoas, meu Deus?”, eis a resposta: são os alunos de um curso de graduação misterioso, que forma as melhores cabecas da USP e pesquisadores de nível internacional – as ciências moleculares.

Escondida no favo 22 do prédio apelidado de colmeia da Universidade de São Paulo, está a apertada sede do curso de ciências moleculares. Lá dentro, todos os anos cerca de 20 novos moleculentos (como eles se apelidaram) iniciam uma jornada de 4 anos por aquilo que o escritor Mark Twain chamou de “o antídoto para o veneno da superstição”: a ciência. No caso, as matérias mais temidas pelos reles mortais: matemática, química, física, biologia e computação. O objetivo do curso é formar pesquisadores top de linha. E nesse sentido o curso de ciências moleculares (o CCM) é um grande sucesso. Das turmas formadas até 2008, 41% dos ex-alunos concluíram o doutorado e 28% têm um pós-doutorado no currículo (isso sem contar as outras dezenas de alunos que ainda estão no meio do caminho). São índices que nenhum outro curso de graduação possui.

Se você também ficou interessado em seguir essa bem-sucedida carreira de pesquisador e abriu o manual da Fuvest, o vestibular da USP, para se matricular nas moleculares, provavelmente deu de cara com um pequeno imprevisto: o CCM não está disponível para inscrição. Primeiro, é preciso passar em qualquer curso da universidade para então prestar outra prova e participar de uma dinâmica de grupo. Só depois de aprovado por testes de lógica e raciocínio (veja alguns exemplos de perguntas no quadro), você fará parte desse seleto grupo de cabeças privilegiadas. Qualquer aluno da USP pode se inscrever, mas é comum que os mais bem classificados no vestibular recebam uma cartinha de convocação. É por essa e outras que o CCM carrega o estigma de ser um curso de elite, feito apenas por geninhos e superdotados beirando o savantismo. Um passeio pelos corredores do favo 22, no entanto, mostra algo bem diferente.

Orgulho nerd
As provas de matemática do 1º semestre das moleculares são famosas. Começam às 6 horas da tarde de um dia letivo qualquer e terminam às 8 horas. Do dia seguinte. De madrugada, os alunos pedem pizza e se entopem de café. Debatem as questões entre si e consultam livros e anotações. “É muito divertido, a gente passa a noite inteira lá fazendo a prova, tentando resolver as questões”, diz um dos testados. Às vezes, o professor apronta uma pegadinha para os estudantes e inclui alguma questão que nunca foi resolvida na história da matemática. E os alunos vão à loucura.

Um certo grau de nerdismo é pré-requisito para levar o curso adiante. E não estamos falando do tipo cosplay-RPG-senhor-dos-anéis (embora muitos moleculentos não fizessem feio como estrelas do seriado The Big Bang Theory). Estamos falando do tipo nerd incansável por conhecimento. Basta ver as piadas que eles contam para quebrar o gelo: – Por que a galinha atravessou a faixa de Moebius? – Para chegar do mesmo lado! (A faixa inventada pelo matemático alemão Moebius é tipo um anel retorcido, com apenas um lado. Achou graça agora?) E mais: mesmo nas horas vagas, os alunos do CCM estão voluntariamente resolvendo desafios de física ou química na lousa. Só pelo bem da ciência. “O diferencial desses alunos é que eles são muito esforçados, e querem sempre saber mais. Nós até gostaríamos de só ter gênios no curso, mas nem sempre os encontramos”, diz Henrique Fleming, professor do Instituto de Física, que leciona nas moleculares. Não é à toa, então, que as aulas ministradas lá nos dois primeiros anos da graduação estão entre as mais difíceis da universidade. E a recompensa por ser tão nerd é a possibilidade de fazer o que nenhum outro aluno da USP faz: misturar as ciências.

Troca-troca
Grenoble, França. Numa cidadezinha do sudeste francês está um importante acelerador de partículas europeu, que atende pesquisadores de 19 países e a universidade local. “Percebeu-se que o acelerador era usado diversas vezes para as mesmas pesquisas. Os cientistas não conversavam entre si. Aí a universidade criou um curso multidisciplinar”, diz Fleming. É dessa ideia que veio a inspiração para o CCM. Se os alunos sobreviverem aos dois primeiros anos da graduação, eles podem escolher qualquer disciplina de qualquer instituto da universidade para seguir os estudos. Muitos agarram a oportunidade. É o caso de Fabio Tal, ex-aluno que virou professor do CCM, que em sua iniciação científica misturou biologia com matemática para entender a orientação de pombos-correios. Ou de Fábio Engelmann, ex-aluno, que durante o mestrado estudou terapia fotogênica contra câncer e agora é dono de uma empresa que desenvolve adesivos para a pele que avisam se o protetor solar ainda está fazendo efeito.

“Em ciência de ponta, a fronteira entre as áreas não é clara. Dois dos campos mais estudados hoje só evoluíram por causa da multidisciplinaridade: a análise do genoma humano e os estudos ambientais”, diz Saulo de Barros, coordenador do CCM. Isso não significa, no entanto, que os moleculentos saiam por aí experts em todos os campos do conhecimento. Significa apenas que eles têm uma noção maior de outras disciplinas do que o graduado comum – e que no futuro terão uma rede de contatos mais extensa. Isso é bom para a prometida carreira de pesquisador, mas pode atrapalhar quem não gosta da vida acadêmica. A maioria das empresas não sabe da existência da graduação em ciências moleculares e às vezes até concursos públicos têm receio em aceitar a inscrição de pessoas formadas no CCM. Como o empreendedorismo também não é oficialmente incentivado nos corredores da colmeia, resta aos moleculentos virarem pesquisadores. Nisso, sem dúvida, eles têm sido eficientes. Muitos dos 253 trabalhos publicados por ex-alunos saíram em revistas científicas de destaque no exterior. Quem sabe no meio desses autores não aparece o primeiro Prêmio Nobel do Brasil? “É possível que o prêmio saia daqui. Não dá pra prever o futuro, né?”, diz o coordenador do curso.

Seja um moleculento
Veja aqui duas perguntas que foram usadas na prova de seleção do curso. Confira as soluções no site da SUPER

Rotação
Newton propõe uma experiência para provar o movimento da Terra em torno de si: “Construa uma torre e, do alto dela, deixe cair uma esfera de ferro”. Segundo Newton, se a Terra gira, a esfera não cai no pé da torre, mas ligeiramente à frente. Explique a ideia da experiência e estime a altura da torre e sua localização ideal para que o efeito seja detectável.

Bactérias
Uma população de bactérias foi colocada em um meio de cultura saturado de um determinado antibiótico. A maioria das bactérias morreu. No entanto, algu-mas sobreviveram e deram origem a linhagens resistentes a esse antibiótico. a) Explique o processo segun-do a teoria lamarquista de evolução. b) Explique o processo segundo a teoria darwinista.

Para saber mais

Curso de Ciências Moleculares
www.cecm.usp.br