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Deixem os índios sozinhos

Desde 1987, a Funai cuida das tribos indígenas isoladas: aquelas que, por decisão própria, não se comunicam com populações externas. São 12 equipes que cuidam da saúde e tentam evitar conflitos nas 77 tribos monitoradas. Carlos Travassos, coordenador-geral de índios isolados e de recente contato, conta como é o trabalho com esses índios - e como uma dessas tribos quase foi exterminada em julho.

por Laura Folgueira

O que define uma tribo indígena "isolada"?

Quando elas não mantêm um diálogo contínuo com a sociedade externa - o que não quer dizer que eles não tiveram contato antes, nem que não haja contato com outros índios. O fato de elas não manterem contato conosco não significa que não entendem ou não observam quem são as pessoas ao redor. Os índios conhecem bastante sobre o território e sabem quais são os limites e fronteiras.

Por que é tão importante que as tribos isoladas permaneçam sem contato conosco?

É uma questão de respeito pela escolha dos povos. Em poucas situações - talvez se eles corressem risco de vida - pode-se agir. Mas tem que ser opção desses povos. As estatísticas provam que a resistência de saúde diminui em povos que entram em contato com populações externas. E o estado não tem estrutura para realizar o atendimento em regiões longínquas. Além disso, a cultura é mutável, qualquer relacionamento traria consequências à cultura deles. Missionários fundamentalistas são comuns, por exemplo. Eles trazem grandes conflitos, porque tentam impor uma religião que não é a dos índios. Isso tem uma ação negativa e fere a nossa Constituição e os tratados internacionais.

Como é feito o trabalho com essas tribos?


Nós garantimos que ninguém invada o território dos povos. Além disso, o diálogo deve ser de acordo com a vontade deles. É opção deles conversar ou não com a nossa sociedade, e não podemos fazer disso uma obrigação. Eles sabem onde estão as populações vizinhas, conhecem histórias de outras tribos - que muitas vezes envolvem massacres. Há ainda uma preocupação com a saúde, já que doenças contagiosas são a maior vulnerabilidade das tribos.

E como é possível cuidar da saúde dos índios sem, por exemplo, enviar médicos?

Só podemos pensar nas populações como um todo - se está tendo malária, se não está, e monitorar as populações saudáveis do entorno, o que é uma garantia de proteção dos índios isolados.

Você denunciou, pela Funai, a matança de índios no Acre. Como isso foi descoberto?

No começo de julho, tivemos a informação de que um grupo armado estava se aproximando da nossa base. Roubaram o nosso combustível e percebemos a presença de canoas, pegadas e rastros, que indicam que estavam por perto. Eles provavelmente estavam espreitando. Encontramos também um acampamento que tinha alguns objetos roubados da nossa base e uma mala preta com pedaços de flecha dos índios. Isso nos deixou muito preocupados, porque pode ser um sinal de que houve conflito com as populações isoladas, que nessa época da seca circulam pela região e descem os igarapés atrás de pescaria. Ainda estamos investigando a real situação por lá. Mas a boa notícia é que já encontramos a presença dos índios isolados andando na região.

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maio/2012

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