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Como mágicos mentalistas manipulam suas escolhas

A arte de ler mentes funciona porque seu corpo entrega suas respostas. Mentalistas dominam esses sinais – e controlam você

Com um deque de cartas nas mãos, envolto por uma plateia curiosa nas ruas de Londres, o mágico convida uma voluntária a memorizar uma carta, sem revelar a escolha. O ilusionista, então, folheia as cartas rapidamente, mostrando a ela todas as opções do baralho. “Foi muito rápido, vou fazer outra vez”, diz e, em seguida, repete a ação. A voluntária mal pisca os olhos, instigada pelo truque. “Já tem uma em mente?”. Ela confirma. Danny enfileira as cartas na mão, deixando todas visíveis, e pergunta: “sua carta está aqui?”. Não, não está mais lá. “É porque você está olhando muito perto.” Ele joga todas as cartas para cima, os holofotes se voltam para um prédio e, magicamente, lá está a projeção de um sete de ouros – justamente a carta escolhida por ela.

A cena não passa de ficção, é só a abertura do filme Truque de Mestre. Mas o número de Danny, interpretado por Jesse Eisenberg, é um dos mais conhecidos truques de mentalismo – a arte de ler pensamentos, mover e entortar objetos com o poder da mente. David Blaine faz o mesmo show online. Você escolhe a carta e, lá do outro canto do mundo, o mágico adivinha sua escolha. Como todo truque, o mentalismo não passa de uma trapaça bem explorada pelo mágico – e aceita pelo cérebro.

Você não escolhe nada

Quando Danny e David Blaine mostram as cartas e pedem a você para selecionar uma, eles sabem qual será sua opção. A escolha é deles, não sua. O truque é simples: o mágico corta um terço de uma das cartas e cola em outra inteira – esta será a “escolhida” por você. Por exemplo, o sete de ouros do filme estava colado a uma carta da mesma cor (poderia ser um oito de coração). Por estar adulterada, quando o mágico folheia e apresenta rapidamente as opções do baralho, essa carta dá uma leve “travada” antes de ser sucedida pela de cima – ou seja, leva mais tempo do que as outras para ser escondida. Esses poucos milésimos de segundo a mais de exposição são suficientes para influenciar sua escolha. É a única carta que você vê com clareza. Não tem erro: você (e qualquer outra pessoa) cairá na armadilha e selecionará essa carta.

Esses truques são conhecidos pelos mágicos como “força”. Há centenas de formas de forçar a sua escolha. Nos anos 1930, Theo Annemann, um dos grandes nomes da mágica na época, lançou um livro inteiro sobre o assunto: 202 Methods of Forcing (202 métodos de força, em tradução livre)– cada um deles ensina como preparar truques e passar aos espectadores a sensação de que a escolha é deles. Você pode devorar esse livro, se aprofundar ainda mais no assunto e, ainda assim, cair nos truques outras várias vezes.

É que seu cérebro gosta de acreditar no poder de escolha e livre-arbítrio – e chegará a extremos para provar que a escolha foi sua. “Quando pensa estar optando por algo, mas a escolha é modificada ou distorcida de algum modo, mesmo assim você sustenta sua posição e justifica sua ‘opção’. Você fabula”, contam os neurocientistas Susana Martinez-Conde e Stephen Macknik. “Em geral, isso é benéfico. É a fabulação que nos faz ver rostos em nuvens. Mas, em níveis superiores de cognição, a mente chega a extremos para preservar seu senso de ação, escolha e continuidade do eu”, completam.

Peter Johansson e Lars Hall, da Universidade Lund, na Suécia, provaram essa mania curiosa do cérebro. Eles convidaram voluntários para escolher entre a foto de duas mulheres: uma loira, outra morena. Em uma sala, acompanhado apenas pelo pesquisador, cada participante dizia de qual moça gostava mais. Logo depois, as fotos eram recolhidas, o pesquisador empurrava a foto ao voluntário e pedia a ele para dizer o porquê da escolha. Só que havia uma pegadinha: em 20% das vezes, as fotos haviam sido trocadas. Ainda que tivessem escolhido a loira, um terço dos homens, sem perceber, justificava a preferência pela morena.

Seu cérebro pode não saber como se desenrola um truque de mágica. Mas acredita cegamente no poder das suas escolhas. Uma boa dose dessa crença vem das palavras do mágico. Não à toa, enquanto executam esses números, os ilusionistas soltam frases do tipo “escolha livremente”, “mentalize a palavra que desejar”, “a escolha é toda sua”. Todas elas usadas para entregar ao cérebro os argumentos necessários para acreditar no seu poder de decisão, sem ser influenciado por ninguém.

(André Toma/Superinteressante)

Mágicos videntes

Antes de iniciar a gravação de um podcast, Daniel Harel, um mentalista israelense, pede ao apresentador para escrever o nome de um professor em um pedaço de papel e deixá-lo guardado no bolso.  No ar, Harel promete adivinhar o nome do sujeito. “Olhe para mim e visualize essa imagem, em letras grandes”, pede o mágico. “Agora pense em cada letra. Primeira letra, segunda letra, terceira letra, quarta letra… oh, é um nome grande… Vamos lá. Primeira letra, segunda letra, terceira letra, quarta letra, quinta letra, sexta letra, sétima letra.” E para por aí. “Você viu o que aconteceu? Seus olhos estavam seguindo minhas mãos até eu chegar à sétima letra. Foi quando você voltou a olhar para mim. O nome tem seis letras.” O apresentador confirma. A brincadeira segue, Harel pede a ele para pensar na primeira letra, depois no nome todo, mas sem dizer qualquer palavra. Em menos de um minuto, ele chega ao veredicto: Jordan.

Como chegou ao nome todo, Harel não revela. Faz parte do show e cada mágico tem a sua técnica. Mas o princípio básico da leitura de mentes é dominar a linguagem corporal. Alguns sinais são bem fáceis de captar. Por exemplo: quando alguém cria uma imagem na cabeça, os olhos geralmente se mexem para cima e para a direita; quando estão apenas relembrando fatos, os olhos sobem para a esquerda. Cada emoção (negativa ou positiva) muda a musculatura do seu rosto e sua postura. Isso só acontece porque cada tipo de pensamento ativa áreas diferentes do cérebro – e o movimento dos seus olhos (e de todo o corpo) entrega quais dessas regiões começaram a trabalhar.

A partir desses sinais, o mágico consegue “entrar” na sua mente. E adivinhar nomes ou qualquer outra coisa durante uma conversa – cada etapa desse bate-papo o ajudará a desvendar os sinais do seu corpo. “A ilusão da leitura da mente é uma mistura de psicologia com outras técnicas. Posso descobrir se você está mentindo, especialmente se eu tiver a oportunidade de observar sua linguagem corporal antes”, explica o mentalista Henrik Fexeus. “Isso vai me dar a oportunidade de detectar sua verdadeira linguagem corporal. Então, se eu pedir para você me falar o nome de cinco cachorros, incluindo o do seu, eu posso saber qual é o nome do seu animal”, conclui. Não tem escapatória. Seu corpo sempre revela a verdade.

Claro que alguns mágicos usam outros artifícios. Antes de espetáculos, na fila de entrada, alguns pedem a voluntários para escolher a palavra de uma revista, rasgar a página e jogar fora. Quando todos já se sentaram em suas poltronas, a página amassada já está nas mãos do mágico. Outros colocam espelhos minúsculos na palma das mãos, fecham os olhos e, de costas para o espectador, conseguem “adivinhar” a palavra que eles escrevem. Cada um tem a sua técnica, com ou sem a ajuda da neurociência, para criar seu próprio show.

[Este texto é parte do Dossiê SUPER: Ilusionismo, já nas bancas]

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