Lost e o fim da TV

Um dos maiores sucessos da televisão vai destruir a própria TV. Entenda como, saiba o que vai mudar e veja por que você será um dos protagonistas desta história

Por Redação Super

Edição
236
Fevereiro de 2007

Texto Tiago Cordeiro

A televisão tem funcionado do mesmo jeito há décadas: canais com grades de programação definida mais pacotes de anúncios publicitários e assinantes de TV a cabo para sustentar a coisa toda. Ao espectador cabe escolher uma atração que esteja passando em tal horário e aproveitar os intervalos para buscar cerveja na geladeira. Isso vai acabar (calma, a cerveja continua).

É que está chegando a era da “TV 2.0”. Nela, você é quem manda. São milhares de opções de programas, para assistir na hora em que der na telha. Além disso, não basta ver o seriado favorito. Você pode participar dele, virar praticamente um co-autor. Ou fazer suas próprias séries, se estiver a fim. Não é devaneio. Parte dessa nova TV está aqui e agora: ironicamente, em um dos maiores sucessos televisivos da história. O festejado Lost tem por trás dele justamente os elementos que vão destruir a televisão como a conhecemos. Quer ver? Então responda rápido:

Quem são os Outros? Qual é o significado dos números que estão na capa desta revista? O que, afinal de contas, está acontecendo naquela ilha?? De todas as respostas que os devotos da série da ABC pedem a Deus, poucas estão na TV. Elas existem (pelo menos em parte), só que fora da televisão. Quem quiser entrar de cabeça na história dos sobreviventes do desastre com o vôo 815 da Oceanic Airlines, e que agora estão desaparecidos numa ilha cheia de acontecimentos inexplicáveis, deve mer­­­­­­­­­­gulhar na internet. Precisa conhecer o universo paralelo que os produtores e fãs da série criaram lá para resolver alguns mistérios da série.

Sim, pois Lost funciona como um jogo, elaborado com uma riqueza de detalhes que não cabe só na televisão. “O espectador assiste à série como quem joga um videogame. Ele ganha mais poder, armas e informações à medida que avança”, diz o professor de TV e cinema David Lavery, da Universidade Brunel, em Londres, e autor de Desvendando os Mistérios de Lost, que está sendo lançado no Brasil.

E para se manter afiado nesse jogo não adianta ficar sentado na poltrona, pegar uma cerveja na hora do intervalo e obedecer ao mantra “Continue com a nossa programação” depois que sobem os créditos.

A experiência de acompanhar Lost, afinal, não acaba quando um episódio termina. É nessa hora que o tal universo paralelo na rede começa a ferver. “A internet mudou o jeito como vemos TV. Instantaneamente, milhares de pessoas reagem ao episódio que acabou de ir ao ar. Seria idiota não prestar atenção a isso”, declarou o diretor J.J. Abrams, um dos criadores da série. Muitos desses fãs, aliás, “reagem ao episódio” MESES ANTES de ele passar na televisão. O que não falta é gente que se acostumou a ver Lost, e outras séries, sem que haja uma emissora transmitindo a coisa. É baixar num site qualquer de troca de arquivos e pronto. E isso é mais um sinal de que o futuro está aqui. De que a televisão que a gente conhece, aquela em que domingo é dia de Fantástico e que a novela das 8 começa religiosamente às 9, está dando seus últimos suspiros.

Para entender melhor essa revolução, voltemos ao dia 9 de novembro de 2006, logo após a exibição do 6º episódio da 3ª temporada de Lost. Era o penúltimo capítulo antes de uma pausa de 3 meses na série – que volta ao ar nos EUA a partir de 7 de fevereiro. Bom, nessa noite, fóruns de internet e blogs já tinham centenas de comentários sobre a polêmica da vez. Com base em uma única frase dita por um dos personagens, surgiu a tese de que o líder dos Outros, Benjamin Linus, é subordinado a Jacob Vanderfield, diretor da Hanso Foundation, a empresa por trás dos acontecimentos da ilha.

Detalhe: quem apenas assiste à série na TV nunca ouviu falar nesse tal Jacob Vanderfield. Ele só existe no mundo extratelevisivo de Lost – até setembro do ano passado, a Hanso Foundation tinha seu próprio site oficial, com lista de “membros da diretoria”. Claro que ele foi descoberto pelos fãs antes de a emissora que criou a série, a ABC, anunciá-lo oficialmente.

Pouco depois da exibição nos EUA, o episódio surgiu na internet. E já começavam a pipocar versões com legendas para várias línguas, feitas na raça por fãs que tinham acabado de baixar o episódio. Pronto: no dia 10 de novembro gente de todo o planeta dava suas contribuições à mais nova teoria sobre o que, afinal de contas, está acontecendo na ilha. Nesse processo todo, o que a TV tradicional fez foi transmitir o sinal de Lost para os EUA. O resto ficou nas mãos de pessoas comuns, como eu e você.

Quebra-cabeça online

Isso de baixar vídeos e discutir o assunto favorito na rede não tem nada de novo. Qualquer moleque de 14 anos acha que isso começou 3 segundos após o big-bang. Mas com Lost é diferente: os produtores, como disse J.J. Abrams, “prestam atenção nisso”. E usam a rede para colocar os fãs dentro da história. Desse jeito, o espectador participa efetivamente da série – e não apenas de formas jurássicas, tipo votando por telefone.

O maior exemplo disso são algumas pistas que eles colocam na série. Pistas que passam batido pelo espectador-padrão, o da poltrona e da cerveja, mas que dizem muito para os devotos mais xiitas. A mais importante delas foi um mapa da ilha que apareceu por uma fração de segundo na tela. Ele trazia um monte de inscrições borradas. Só quem tivesse gravado o episódio, ou baixado da rede, poderia decifrar, já que você tinha de pausar a exibição no momento exato em que o mapa surge para tentar ler algo. E foi o que aconteceu. Vários fãs se esfolaram para interpretar a coisa e, em alguns dias, o resultado dessas investigações estava na rede. Sites dedicados a Lost já traziam as 413 palavras (sendo 51 em latim) do mapa, agora escritas de forma legível e com as traduções necessárias.

E surpresa: as inscrições respondiam mistérios cruciais da ilha. Está lá, por exemplo, que os ursos polares que aparecem o tempo todo na floresta foram levados por cientistas, e que passaram por uma “terapia genética” para sobreviver ao calor. Mais uma peça se encaixava no quebra-cabeça da série.

Esse tipo de novidade se espalha entre os devotos com a rapidez de um vírus. Fóruns, comunidades do orkut e do MySpace, além da monstruosa Lostpedia (a “enciclopédia Lost”, mantida por milhares de fanáticos dentro da Wikipedia) repercutem tudo e recebem novas teorias. Assim, as especulações vão ficando cada vez mais complexas. No começo, falava-se que a ilha era o purgatório, e que todos os passageiros tinham morrido na queda. Hoje, com esse turbilhão de informações, os fãs recorrem a conceitos bem mais elaborados (veja na página 52). Até Stephen King resolveu entrar na discussão. O mestre das histórias de terror escreveu em um artigo na revista Entertainment Weekly: “Com exceção de Além da Imaginação e Arquivo X, nunca houve um programa com essa capacidade de capturar a imaginação. Lost é o começo da nova TV”. Recentemente, ele voltou a discutir o seriado, desta vez apresentando sua própria versão para o final da história. Como a primeira cena da série mostra um olho do personagem Jack se abrindo, ele terminaria voltando ao aeroporto de Sydney, de onde os passageiros saíram, e mostraria que tudo o que aconteceu foi uma alucinação provocada no personagem por um grupo de cientistas malucos. Os fãs acharam a teoria um fiasco. Simplória demais. Stephen King, pelo jeito, está por fora do tal universo paralelo. Aí fica difícil de entrar para valer no jogo.

A grande transposição do programa para a “vida real”, aliás, foi mesmo um jogo: o Lost Experience. Entre maio e setembro de 2006, uma combinação de pistas foi espalhada por blogs, mensagens de voz em secretárias eletrônicas, anúncios de jornal e “sites oficiais” da Hanso Foundation, criados pelos produtores. O objetivo era mobilizar fãs do mundo todo para que eles encontrassem os 70 trechos de um vídeo de 6 minutos e meio que, montado, fornece informações cruciais sobre a trama. Agora, quem acompanhou o Lost Experience sabe que os números formam a tenebrosa Equação de Valenzetti e viram o que a Dharma foi fazer na ilha. Tudo isso faz parte do seriado. E nada passou na TV.

“Lost está mudando a forma de fazer seriados. Essa é uma tendência que não tem mais volta. Os programas de TV serão cada vez mais multimídia”, diz J.B. de Oliveira, o Boninho, diretor do reality show Big Brother Brasil, da Rede Globo. “Nunca um seriado tinha rompido dessa forma as barreiras do aparelho de televisão”, reforça David Lavery.

Pirataria nas ondas da TV

Essa “quebra de barreiras”, no entanto, também causa polêmica. Hoje, novidades do entretenimento americano, como as séries Heroes e Jericho, fazem sucesso no Brasil antes mesmo de saírem na TV a cabo. Basta ir a centros de pirataria, como o Stand Center, na avenida Paulista, em São Paulo, para encontrar os últimos episódios de qualquer seriado – e levar os dvds para casa a preço de carne de segunda.

A facilidade para baixar arquivos na rede, mais a farta distribuição de legendas criadas por fãs, ampliou tanto o público das séries “inéditas” que hoje tem até camelô locando dvds piratas. Essa história incomodou a Adepi (Associação de Defesa da Propriedade Intelectual), que ameaçou processar os fã-clubes que colocam legendas na rede. O Lost Brasil, maior site do país dedicado ao seriado, interrompeu essa atividade – o que só aumentou o número de pessoas que divulga suas próprias legendas na rede.

O designer Daniel Melo, administrador do Lost Brasil, defende a causa dizendo que os leigos são mais capazes de fazer o trabalho do que as emissoras de TV: “A melhor forma de você assistir a um seriado é com legendas feitas por quem entende dele”, diz.

Para segurar a onda, algumas emissoras tentam impor restrições. A ABC, por exemplo, tem feito a experiência de transmitir Lost em tempo real pela web. Mas, para não prejudicar emissoras de outros países que compraram os direitos de exibição do seriado, ela só libera os vídeos para computadores instalados nos EUA. Ah, claro: não adianta nada.

Hoje qualquer brasileiro, senegalês ou groenlandês pode usar o computador para captar, ao vivo, o próprio sinal da ABC. Isso mesmo: ao vivo. Os responsáveis por isso são sites asiáticos, na maioria chineses, que estão pirateando o sinal de emissoras de todo o mundo e transmitindo-os na rede. É o caso do SopCast, do PPLive e do TVUNetworks. Só este último oferece sozinho, para qualquer lugar do planeta, 40 canais, incluindo ABC, ESPN, Fox, CBS, Cartoon Networks... Para ter tudo isso no micro, é só baixar de graça um programa no site.

Claro que isso é ilegal, mas é praticamente impossível de controlar. E, mesmo que esse tipo de pirataria acabe, a invasão da internet aos domínios da TV dificilmente será revertida. Tanto que algumas emissoras se renderam de vez à rede. A MTV brasileira, por exemplo, promete reduzir a praticamente zero a exibição de clipes. A emissora alega que ninguém mais tem paciência de esperar para assistir a um vídeo musical na emissora quando pode encontrá-lo a qualquer momento na web. Agora ela aposta em uma programação com games e programas de entrevistas e de auditório. As músicas vão se concentrar no MTV Overdrive, um site em que dá para assistir a clipes e postar vídeos caseiros.

Outros veículos vão ainda mais longe. Em dezembro de 2006, Yahoo! e Reuters criaram um espaço especial para fotos e vídeos produzidos por pessoas comuns, com suas câmeras e celulares. Os editores avaliam todo o material postado no site You Witness News e escolhem quais deles vão ganhar destaque. Mas nada deu tanta voz a tanta gente quanto o maior fenômeno de mídia do século 21. Ele mesmo: o YouTube.

Posto, logo existo

Se a interatividade de Lost prepara o fim da “TV 1.0”, o YouTube é o grande protótipo da “TV 2.0”. O site foi criado em fevereiro de 2005 por 3 funcionários da Pay Pal, uma companhia de pagamentos online. Eles só queriam facilitar a troca de vídeos entre amigos, mas a ferramenta ganhou tanta notoriedade que, em pouco mais de um ano, se transformou numa marca conhecida em praticamente todos os cantos do mundo. Isso fez com que o Google comprasse o YouTube por US$ 1,65 bilhão, o equivalente ao que a rede americana Target pagou pelas 257 lojas de departamento da rede Mervyns. Todos os dias, internautas assistem a 100 milhões de vídeos lá, e postam outros 65 mil. “Se você não está postando, você não existe”, disse à revista Wired o executivo Rishad Tobaccowala, CEO da consultoria americana Denuo.

E muita gente está começando a existir no mundo do entretenimento. Nesse caso, de um jeito bem mais direto do que os fãs “participativos” de Lost. Com a massificação do YouTube, o espectador se transforma em produtor para valer. Veja o caso de Lonelygirl15. Os vídeos de Bree, a gatinha manhosa de 15 anos que faz confidências para a câmera, comoveram a rede. Descobriu-se depois de algumas semanas que Bree não era real, e que Lonelygirl15 é um seriado – de orçamento quase zero, mas ainda assim um seriado. A protagonista é a atriz neozelandesa Jessica Rose, de 19 anos. Os criadores são o roteirista Ramesh Flinders e o médico residente Miles Beckett. E um quarto que os dois dividem na Califórnia serve de cenário. Até agora, a série levou 94 episódios à internet e teve uma audiência acumulada de 24 milhões de espectadores.

O produtor americano Bill Lawrence é outro que experimentou o “posto, logo existo”, e se deu bem. Ele apresentou à Warner um piloto de um seriado cômico que conta bastidores da TV. Nobody’s Watching foi descartado. Em junho, Lawrence postou trechos do programa no YouTube e conquistou 600 mil espectadores. Diante desse sucesso, a NBC resolveu comprar 6 episódios para veicular na internet. Se der certo, Nobody’s Watching vai estrear na programação. Isso se ainda existir uma programação, diga-se. Continue o texto, que você vai ver.

O fim dos canais

A revolução que o YouTube começou só vingará mesmo quando a TV digital estiver tinindo. É que a televisão de hoje, a analógica, recebe a programação na forma de ondas de rádio. E funciona exatamente como um aparelho de rádio: tudo tem hora certa para passar. Com a TV digital essa limitação deixa de existir. As atrações, em formato digital, virão de uma vez só no aparelho, por banda ultralarga, como se fossem dvds inteiros que chegam voando pela sua janela. Mas e aí? Que vantagem Maria leva?

“A seguinte: em dois anos, você poderá interromper um seriado no meio para baixar um filme extra que conta a vida de algum personagem novo, e depois retomar o episódio do ponto onde parou”, diz Walter Duran, diretor de tecnologia da Philips para a América Latina. Quer dizer: você terá como pegar sua cerveja na hora que bem entender, sem perder nada.

Essa nova televisão promete ficar melhor ainda com a chegada da IPTV – sigla em inglês para “TV via internet”. Existe uma corrida para criar a televisão que receba o sinal de imagens por meio dos mesmos cabos que conectam o computador à rede. A Microsoft, uma das maiores entusiastas desse modelo, está investindo US$ 400 milhões no projeto. Quando a TV funcionar via web, poderemos assistir a um programa enquanto gravamos vários outros, seremos capazes de pagar contas nos intervalos e de interromper a programação para atender ao telefone. A TV terá uma home page com seus programas favoritos. Quando isso virar realidade, poderemos estar perto da próxima bomba: o fim dos canais de TV.

“O formato atual, com emissoras mantendo seus próprios canais, onde a programação é organizada de acordo com os interesses de poucas pessoas, está em decadência aberta”, aposta Andrew Kantor, jornalista americano especializado no mercado de tecnologia. “As redes vão fornecer conteúdos para uma grande biblioteca online. Os programas terão hora certa para serem postados, mas você poderá assisti-los a qualquer hora.”

Na prática, isso significa acordar no meio da noite querendo assistir ao 3º episódio da 18ª temporada de Os Simpsons. E ter como fazer isso sem dvd, sem baixar no micro nem nada. É só ir até o aparelho e pedir pra começar a exibição.

Num mundo sem canais, qualquer projeto caseiro de entretenimento, como Lonelygirl15, teria, a princípio, mais condições de brigar por audiência. E por anunciantes. Foi o que fez o consultor de informática britânico Andy Steward. Inconformado com os péssimos horários em que as provas de iatismo passam na televisão, ele criou a Sail.tv, uma emissora de internet dedicada ao esporte. Não faltaram pequenos anunciantes para sustentar o projeto de Andy. Pode acontecer com você também.

E a grana?

Por falar em anunciantes, e a publicidade graúda, como fica nesse ambiente todo fragmentado? O modelo atual, com megaempresas injetando caminhões de dinheiro em programas de grande audiên­cia, talvez não sobreviva se a tal “grande biblioteca online” destruir os canais de TV. E isso mudaria um bocado de coisas. Em primeiro lugar, o futuro de séries como Lost estaria comprometido. Só o 1o episódio da série, com uma hora de duração, custou US$ 12 mihões – o equivalente a 125 capítulos de uma novela da Globo. Aliás, custou também o emprego de Lloyd Braun, presidente de entretenimento da ABC, por ele ter permitido um gasto desses.

Seja como for, esse tipo de excentricidade só é possível porque as empresas americanas investem mais de US$ 65 bilhões por ano em publicidade televisiva. Só que a torneira está fechando, segundo analistas. Se nos anos 50 o seriado I Love Lucy tinha 68% de audiência nos EUA, hoje, o concurso de cantores American Idol, programa mais popular de lá, não passa dos 27%. A “culpa”, no caso, é justamente da maior oferta de programas. Como o espectador já tem dezenas de opções, não hesita em mudar de canal quando entram os comerciais. E os anunciantes fogem. O buraco da internet é ainda mais embaixo, porque ninguém imaginou até agora um jeito eficiente de fazer dinheiro com os sites de compartilhamento de vídeo, e muito menos com a troca de arquivos.

Mesmo assim, há quem aposte nos pequenos nichos de mercado. “Antigamente, dizia-se que 20% de tudo o que os estúdios, emissoras e editoras lançavam virava hit. Hoje, 99% de tudo o que é produzido pode dar algum tipo de lucro, ainda que pequeno. O segredo está em tirar pouco de muitos produtos culturais”, escreve o jornalista americano Chris, editor-chefe da revista Wired, em seu livro A Cauda Longa.

Já existem sites que ajudam as pequenas emissoras de TV na web a ganhar o pão de cada dia. Além de oferecer um servidor para você deixar seu vídeo, como o YouTube faz, a Revver levanta anúncios publicitários para serem acoplados a cada vídeo. O criador fica com metade da grana. Fritz Grobe e Stephen Voltz, os pais de um filmete em que pastilhas Mentos enfiadas em garrafas de Coca Light formam uma bomba de gás carbônico, conseguiram US$ 35 mil de patrocínio das duas empresas com a brincadeira.

Mas ganhar alguns milhares de dólares com um vídeo caseiro é uma coisa. Investir milhões para buscar bilhões em anúncios é outra. O próprio YouTube, do alto da montanha de dólares que o Google pagou por ele, ainda é um saco sem fundo, que dá prejuízo de US$ 500 mil todo mês.

O futuro da publicidade e o do entretenimento andam de mãos dadas. Se um parar, o outro empaca. E, por enquanto, a solução para problemas como o do YouTube está longe. A TV está mudando, mas o que será dela é um mistério ainda mais difícil do que responder o que, afinal de contas, está acontecendo na ilha. Alguma teoria?

 

Publicitário por um dia

A linha “faça você mesmo” que dá as cartas em Lost e no YouTube também está na publicidade. A tendência é tão forte que, no intervalo do SuperBowl 2007, a final do campeonato de futebol americano e maior vitrine da publicidade no país, vão passar 3 comerciais feitos por leigos. Isso para uma audiência de 90 milhões de pessoas. Mas nem sempre os resultados são os que os publicitários esperam. A GM americana fez um concurso de anúncios online no ano passado para promover o Chevy Tahoe, um SUV daqueles que ocupam quase duas faixas de pista. A empresa fornecia um clipe com o carro andando por belas paisagens nevadas, e os internautas inseriam o texto da campanha. A maior parte dos anúncios tecia loas à camionete. Só que um monte de gente aproveitou a chance para protestar contra os SUVs, já que eles bebem muita gasolina e estão entre os maiores emissores de CO2, colaborando com o aquecimento global. Aí tome anúncios do tipo: “Você gosta de neve? Então aproveite logo, porque esse carro imbecil vai mudar o mundo”. Outros tiravam uma com a conotação sexual de carros muito grandes, como este aqui: “Você tem inveja do pênis dos outros. Acha que vai arranjar mulher com esse carro...” Tudo isso foi parar no YouTube, claro. Digite “Chevy Tahoe ad” no site e sinta o drama.

Para saber mais

Desvendando os Mistérios de Lost - David Lavery e Lynnette Porter, Editora Novo Século.

A Cauda Longa - Chris Anderson, Editora Campus.

Em Tempo Real - Cássio Starling Carlos, Alameda Editorial.

 

7 segredos de Lost

Informações extras dos produtores e teorias de fãs ajudam a desvendar alguns mistérios
Texto de Alexandre Versignassi

1 O significado dos números

4, 8, 15, 16, 23, 42. A seqüência numérica cheia de mistérios, que sempre aparece na série, ganhou uma explicação oficial. Ela faz parte de uma equação criada pelo matemático (fictício) Enzo Valenzetti. E diz quanto tempo resta até o fim do mundo. Alvar Hanso (1), o fundador da Dharma, anunciou isso num vídeo que os produtores de Lost fizeram para a internet. O que Valenzetti fez foi dar valores numéricos para os “fatores humanos e ambientais que levariam ao fim da humanidade”. E esses valores são 4, 8, 15, 16, 23 e 42. A explicação oficial termina aí, e você pode interpretá-la como quiser. Mas o ponto é que Hanso, após ter acesso à equação de Valenzetti, entrou de cabeça na idéia de salvar a humanidade da extinção. Como? Leia aqui embaixo.

2 As origens da Dharma

Se os números representam os fatores que vão levar ao fim do mundo, é preciso dar um jeito de alterá-los. Mas não basta caneta e papel. Segundo Alvar Hanso, para mudar os valores da equação precisaríamos manipular o meio ambiente e o comportamento das pessoas. Para entender isso melhor, vamos chutar o balde e partir para uma interpretação livre: se o número 4 representasse, vá lá, o nível da agressividade humana, precisaríamos baixá-la para 3 ou 2 para salvar o mundo. Hanso imaginou que, com muita pesquisa científica, daria para conseguir algo assim. Então, em meados dos anos 70, fundou a Iniciativa Dharma – sigla em inglês para Departamento de Heurística e Pesquisa em Aplicações Materiais. “Heurística” é o ato de descobrir coisas novas. E era descobrindo coisas, em campos que vão da psicologia ao eletromagnetismo, que a Dharma esperava mudar os fatores numéricos da equação. Para fazer isso de forma secreta, montaram seu aparato científico num lugar ermo: uma ilha que só a cúpula da Dharma sabe onde fica.

3 As experiências na ilha

Não está claro que tipo de pesquisa os cientistas foram fazer lá. Mas não faltam pistas. Algumas inscrições num mapa da ilha que apareceu na TV deixam claro que a Dharma alterou o gene de ursos polares para adaptá-los à selva. Essa seria uma forma de manipular o ambiente para mudar os fatores da equação de Valenzetti. Das experiências com gente, a mais óbvia aparece por toda a 2ª temporada: condicionar pessoas a apertar botões em intervalos fixos de tempo. Mas há outra que só apareceu no vídeo de Hanso: expor pessoas a um vírus mortal. O grupo de cientistas de Danielle Rousseau, que aportou na ilha no final dos anos 80, provavelmente morreu por causa desse vírus. Algumas teorias, aliás, defendem que Danielle e sua trupe foram enviados pela Dharma – apesar de ela ter dito que foi parar na ilha por acidente. Outros que talvez fizeram parte da Iniciativa são eles mesmos: os Outros.

4 Quem são os outros

Um porta-voz da Hanso Foundation, a empresa por trás da Dharma, disse numa entrevista (fictícia) ao canal ABC que a Iniciativa encerrou suas atividades em 1987. Então o que os Outros, que controlam instalações da Dharma, estão fazendo na ilha? Certas teorias dizem que alguns deles foram para lá quando eram crianças, nos anos 70, como parte das experiências da Iniciativa com seres humanos. Agora que estão na casa dos 30, 40 anos, eles seqüestrariam crianças para continuar essas mesmas experiências. Note que Benjamin Linus, o líder dos Outros, já disse que “passou a vida inteira na ilha”. Outras teorias defendem que eles sejam cientistas dissidentes da Dharma que resolveram ficar na ilha para salvarem-se do apocalipse. Seja como for, eles talvez não sejam os únicos “Outros” ali. Vire a página e confira.

5 Uma civilização perdida

Quem estava na ilha antes de a Dharma chegar? O povo que fez a estátua de 4 dedos, aquela do final da 2ª temporada. Os produtores disseram no podcast de Lost que, sim, ela foi feita antes de a Iniciativa atracar na ilha. O mural aqui do lado, que fica num canto do hatch, mostraria o fim desse povo. Olha a parte em azul do quadro. Essa onda representaria o desastre que arrasou a população nativa: um tsunami – o mesmo que teria levado o navio Black Rock até o meio do mato. Mas a tragédia pode não ter matado todo mundo. Remanescentes ainda viveriam na ilha. E seriam o povo que anda sem deixar pegadas, sussurra no meio da floresta e faz as fogueiras sinistras que aparecem de vez em quando. Algo como “os outros Outros”. A ver.

6 O chefe supremo dos outros

Os nomes de Lost não existem em vão – John Locke e Danielle Rousseau, batizados em homenagem a filósofos, estão aí para provar. No caso dos Outros, a inspiração parece ter vindo da Bíblia. E isso pode revelar algumas coisas. Tipo: o líder Benjamin Linus teria um superior vivendo na ilha, Jacob. Ele só foi mencionado uma vez na série, e pode ser o ainda misterioso homem de tapa-olho (1). O fato é que, na Bíblia, Benjamin é o nome do filho preferido de... Jacob (Jacó, em português). O livro sagrado também diz que Jacó é filho de Isaac. E, sim, tem um Isaac em Lost. Ele é um curandeiro que vive na Austrália (2). Foi à clínica dele que Bernard levou Rose para tentar livrá-la de um câncer. É que Isaac usa o que ele chama de “força da Terra” para extirpar tumores e fazer com que paralíticos voltem a andar. A Dharma pesquisa a força magnética toda especial da ilha. Tão especial que destrói cânceres e cura paralíticos. Isaac, então, pode ter conexões com a Dharma. E até ser o chefão dos Outros. Pelo menos é o que está na Bíblia.

7 As infiltradas

Lybby

Não faltam suspeitas sobre a moça. Primeiro, ela não revela que já conhecia Hurley antes do vôo. Quando o gordinho diz “Te conheço de algum lugar...”, ela só fala: “Você tropeçou no meu pé enquanto embarcava no avião”. Mas sabe-se que isso não aconteceu. Também sabemos que o marido dela, morto, se chamava Dave. E que Hurley matou duas pessoas ao derrubar um píer com seu peso. E que ele tem um amigo imaginário chamado Dave. A suspeita é que os dois Daves sejam a mesma pessoa. Hurley teria criado o amigo imaginário por causa da culpa que sente por ter matado o Dave de Libby no píer. Por sinal, esse Dave freqüentava píeres, já que tinha um barco. O mesmo barco que Libby deu para Desmond. Tudo isso indica que ela colocou Hurley e Desmond de propósito na ilha. E que talvez seja uma espécie de recrutadora de “voluntários” para experiências da Dharma.

Cyndy

O escritor Gary Troup foi um dos passageiros que morreram na queda. Ele escreveu o livro Bad Twin (lançado na vida real). E dedica a obra ao amor de sua vida: a aeromoça Cindy, uma das sobreviventes. Bom, Bad Twin menciona a Hanso Foundation. Isso indica que Gary (e possivelmente Cindy) tenha alguma ligação com a Dharma. A aeromoça sumiu no meio do mato na 2ª temporada, mas volta agora, na 3ª. A ABC mostrou, num trailer, que ela está vivendo com os Outros. Parece bem feliz. Então nada impede que Cindy já soubesse o que estava acontecendo na ilha, e que tenha ajudado a levar os passageiros do vôo 815 para servirem de cobaias aos Outros. Talvez ela saiba muito mesmo. É que seu ex-amante Gary Troup chegou a fazer um outro livro. A obra se chama A Equação de Valenzetti – aquela mesma, que deu início à Dharma.