O vinho das almas
Consumida há milênios por comunidades indígenas na Amazônia, a ayahuasca, bebida psicoativa considerada sagrada pelos nativos, deu origem a doutrinas urbanas no Brasil e, hoje, difunde-se por todo o mundo
Por Lauro Henriques Jr.
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"Eu mal fechara os olhos de novo e um enorme cristal colorido surgiu diante de mim. Dele emanavam diversas figuras, todas formadas por linhas luminosas que se misturavam ao meu corpo, que também era constituído de filetes de luz. Era uma sensação indescritível, de unidade entre todas as coisas. De repente, esse cristal tomou a forma de uma serpente luminosa que foi me engolindo - era como se eu entrasse por um túnel dentro de mim mesmo. Então, à minha frente, surgiu um ser que associei a um anjo, que senti que estava ali para explicar o sentido de minha vida. Como se lesse meus pensamentos, ele disse: o Bem é a Verdade."
Relatos impressionantes como esse compõem o universo das experiências com a ayahuasca, o "cipó dos espíritos". A bebida, utilizada em rituais xamânicos por índios amazônicos, foi introduzida nos meios urbanos brasileiros e deu origem a três doutrinas que a têm como sacramento, ou seja, veículo de comunhão com Deus: Santo Daime, União do Vegetal (UDV) e Barquinha. Para elas, a ayahuasca é a chave deixada por Deus no mundo vegetal para que o homem chegue até Ele. E, numa espécie de diáspora verde, nos últimos anos, essas crenças espalharam-se pelo mundo, com centros nos Estados Unidos, na Europa e até no Japão.
GÊNESE VEGETAL
Obtida da fervura de duas plantas amazônicas - o cipó jagube (Banisteriopsis caapi) e o arbusto chacrona (Psychotria viridis) -, a ayahuasca representa, na tradição indígena, o elo de ligação com o mundo espiritual. Mais de 70 tribos na Amazônia têm a bebida - de cor escura, próxima ao ocre - como o centro de sua cosmogonia. O pajé é o mediador entre os espíritos e a comunidade: ao beber o chá, ele abre a porta da dimensão sobrenatural para os demais membros da tribo e conduz o ritual de forma que todos tenham sucesso em sua jornada sagrada. "Dentro da estrutura ritual está a segurança, pois o chá mexe com a alma das pessoas. Acessamos o 'porão' de nossa existência, onde confrontamos nosso lado sombrio", diz Víctor Nieto, ayahuasquero peruano que há dois anos conduz sessões ritualísticas com a bebida no Brasil. "A ayahuasca é como o oceano: a pessoa não pode temê-lo, mas deve respeitá-lo."
O chá intriga os estudiosos há décadas, em especial no que se refere à sua origem: como os índios descobriram que a união de duas plantas, que são inativas isoladamente, gera uma bebida psicoativa? "Uma explicação é a de que, através dos séculos, por meio de tentativa-e-erro, os nativos tenham chegado ao chá. Mas essa visão reducionista é, no mínimo, insuficiente para explicar o nascimento da ayahuasca, que requer a associação de duas plantas", diz o etnofarmacologista americano Dennis J. McKenna, uma das maiores autoridades no tema. "É impossível afirmar, mas talvez a resposta resida na versão dada pelos pajés de que, por meio de uma intervenção divina, as próprias plantas lhes revelaram o segredo."
DOUTRINAS DA FLORESTA
Esse caráter de revelação divina em torno da ayahuasca é justamente um dos pilares da constituição das crenças que a comungam de maneira ritualística. A doutrina do Santo Daime, por exemplo, foi fundada pelo seringueiro Raimundo Irineu Serra, em 1931, seguindo instruções que teria recebido de Nossa Senhora da Conceição, que ele chamou de Rainha da Floresta, durante experiências com o chá. O núcleo original, criado em Rio Branco, no Acre, desmembrou-se em várias ramificações que somam hoje cerca de 5 mil seguidores, para quem a ayahuasca, ou daime, seria um ser divino. Os adeptos, porém, ressaltam que não há uma idolatria do chá. "A bebida é sagrada, pois cremos que ela contém uma partícula de Deus em si e, como tal, nos remete ao Criador. Análogo ao que ocorre com a hóstia na Igreja Católica - por meio dela as pessoas adoram a Deus", diz Marcos Moyses, líder de um igreja do Santo Daime em Belo Horizonte.
As outras linhas ayahuasqueras também relativizam a importância do chá. "Ele é um veículo para o contato com o sagrado, mas não o aspecto exclusivo da doutrina", afirma Antônio Geraldo da Silva Filho, líder de uma das ramificações da Barquinha, em Rio Branco, no Acre. Criada em 1945 pelo ex-marinheiro Daniel Pereira de Matos, a Barquinha também nasceu de uma revelação: o fundador da crença teria recebido a visita de dois anjos que lhe deram um livro azul, instruindo-lhe para iniciar o culto. Segundo Antônio Geraldo, a denominação da crença resume o compromisso dos fiéis, cerca de 500 no total. "O nome Barquinha refere-se ao fato de todos navegarmos numa mesma barca em direção a Deus, nosso destino", diz. "Nessa viagem, o chá é um grande aliado, porque com ele a pessoa aprende que deve andar na linha. Pois a bênção de chegar a Deus se dá mediante o merecimento de cada um."
Na União do Vegetal também está presente essa noção de merecimento, da necessidade do esforço pessoal para o contato com o sagrado. "A encarnação terrena só ocorre para que possamos evoluir espiritualmente. Por isso, é preciso portar-se corretamente no dia-a-dia, o que inclui exercitar os valores morais, trabalhar, ter uma família e abandonar qualquer vício", afirma Almir Nahas, dirigente de um núcleo da UDV na cidade de São Paulo. Contando hoje com cerca de 11 mil fiéis, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal foi fundado em 1961, em Rondônia, por José Gabriel da Costa, que tomou contato com o vegetal, como os adeptos denominam o chá, quando trabalhava como seringueiro na região amazônica. A doutrinação na UDV é feita exclusivamente de forma oral, como estipulado por seu fundador. "O conhecimento memorizado, passado oralmente, respeita o tempo de cada um", diz Almir.
Na verdade, a transmissão oral dos ensinamentos - herança da cultura indígena - é característica marcante de todas as linhas ayahuasqueras. Em vez de tratados teológicos, a doutrinação baseia-se principalmente nos cânticos, que funcionam como uma espécie de mantras evangelizadores. O sincretismo é outro ponto em comum. "Os três grupos constituem uma mesma tradição fundamental, que é a da apropriação cristã do uso da ayahuasca", afirma a antropóloga Bia Labate, co-organizadora do livro O Uso Ritual da Ayahuasca. "Há ainda a influência de outros elementos da religiosidade brasileira, como das crenças de origem africana, do esoterismo europeu, do Kardecismo e, claro, do componente indígena."
Apesar do parentesco, às vezes o relacionamento entre as crenças é espinhoso, com acusações mútuas, como a de abandono da tradição. "Isso é natural. Como em todos os fenômenos sociais, existem rivalidades. Numa leitura mais crítica, é uma competição pela alma de fiéis, uma disputa por territórios simbólicos comuns", diz Bia Labate.
ÊXTASE SAGRADO
Todas as linhas pregam que é indispensável uma purificação orgânica, mental e espiritual para o encontro com o sagrado. E o purgatório começa na hora de tomar o chá, que tem um gosto tão amargo que o sujeito paga alguns pecados só por ter experimentado. Também conhecida como "la purga", a ayahuasca pode ter um forte efeito purgativo, provocando vômito e diarréia. Para os adeptos, esse suplício é a fonte de cura. "Essa depuração é necessária para nos livrarmos de toda a sujeira acumulada ao longo da vida, como culpas, medos e outras fixações negativas", diz Alex Polari, um dos líderes do Cefluris, maior corrente do Santo Daime. Feita a "faxina", o fiel estaria apto para as visões e o contato com Deus.
Chamada de miração, a experiência visionária é considerada a chave para o conhecimento espiritual e engloba uma gama enorme de vivências, que vão desde o encontro com animais, espíritos e anjos até viagens por outras dimensões. É freqüente ainda o contato com beija-flores de luz ou com serpentes - nesse caso, associadas aos seres primordiais da mitologia indígena, e não à visão cristã do Mal. Esse "cinema astral", contudo, algumas vezes é menos florido, quando se confronta com aspectos sombrios da personalidade, e as visões podem assumir proporções aterradoras, como a de figuras esqueléticas com a pele se soltando. Nesse sentido, aproximariam-se da descrição do processo criativo feita pelo pensador francês Gaston Bachelar em sua obra A Terra e os Devaneios da Vontade: "Nem toda imaginação é acolhedora e expansiva. Almas há que formam as suas imagens por certa recusa de participar delas, como se quisessem retirar-se da vida do universo. Sentimo-las à primeira vista antivegetais. (...) Suas metáforas são violentas e cruas". Seja como for, a maioria dos relatos mostra que a experiência é sempre carregada de significado: falam de sentimentos de união com o todo, de gratidão, amor e perdão.
DESPERTAR INTERIOR
A relação entre as mirações e a química do chá também desperta a curiosidade dos pesquisadores. Explica-se. A folha da chacrona é rica em um alcalóide psicoativo chamado DMT, mas ele não age quando ingerido isoladamente, pois é metabolizado por uma enzima do estômago. É aí que entra o cipó: ele contém alcalóides que inibem a ação dessa enzima. Com a liberação do princípio ativo, ocorrem as visões e o estado de graça experimentado por quem toma o chá. "Refiro-me às plantas como 'mestres moleculares'. Elas são sagradas porque fazem essas moléculas especiais", afirma o químico Jace Callaway, da Universidade de Kuopio, na Finlândia, especialista na farmacologia da ayahuasca. "Mas a ciência moderna está muito aquém de explicar essa experiência única."
A ayahuasca ainda é tida por muitos como um alucinógeno. Os estudiosos, por sua vez, preferem qualificá-la como um enteógeno, termo que quer dizer "aquilo que gera a experiência de Deus dentro de si". Até aí tudo bem, mas como definir, de fato, se as visões têm uma natureza divina, ou se são meras alucinações? "Ao contrário das alucinações, que são distorções da realidade, as visões induzidas pela ayahuasca são representações simbólicas de aspectos críticos que as pessoas confrontavam em sua vida. Elas parecem fornecer um atalho valioso aos domínios do inconsciente", diz o psiquiatra norte-americano Charles Grob, da Universidade da Califórnia, especialista nos efeitos psicológicos da ayahuasca.
Do ponto de vista legal, o DMT, alcalóide presente na ayahuasca, é proibido para consumo humano por uma determinação da ONU. Por outro lado, muitos defendem que o uso religioso da bebida se enquadra em um contexto cultural primitivo e deve ser liberado. É essa a postura adotada pelo governo brasileiro desde 1986. Após diversas pesquisas, o Confen, antigo Conselho Federal de Entorpecentes, liberou o uso ritual do chá, com a recomendação de que ele não seja ministrado a crianças ou pessoas com problemas psiquiátricos graves. De fato, a bebida é muito forte e não pode ser ingerida por qualquer um. "A pessoa precisa ter um ego forte, de forma que possa transcendê-lo e depois voltar", diz a psicóloga argentina Silvia Polivoy, estudiosa do uso psicoterápico do chá. Para prevenir que o líquido seja consumido por pessoas com histórico de psicose ou esquizofrenia, ou que façam uso de antidepressivos, as doutrinas realizam entrevistas com os interessados para avaliar se eles podem participar do ritual.
Mas, por vezes, esse cuidado não é suficiente, como no polêmico caso do suicídio de um jovem que, em 1992, atirou-se em uma fogueira durante uma cerimônia com o chá na Amazônia. Os estudiosos, contudo, são cuidadosos ao analisar o tema. "Casos de suicídio, infelizmente, ocorrem entre pessoas de qualquer credo, e seria leviano associar esse fato ao uso da bebida", diz o psiquiatra Eliseu Labigalini Jr., da Universidade Federal de São Paulo, responsável por uma pesquisa que constatou as propriedades terapêuticas da ayahuasca na recuperação de alcoólatras.
As doutrinas ayahuasqueras consideram o corpo o solo sagrado sobre o qual prepararão o templo para a morada de Deus. Para os fiéis, é como se presenciássemos a segunda vinda de Cristo, só que desta vez ele diria: "Prepara a tua igreja sobre uma planta". Ou seja, o despertar do deus interior seria fruto da reunificação entre o mundo sagrado e o natural. Uma mensagem que, ao poucos, parece se difundir entre uma tribo composta por modernos pajés em todo o mundo. Como diz a música Gênesis, do compositor Caetano Veloso: "Primeiro não havia nada (...) / Mas o espírito de tudo / Quanto ainda não havia / Tomou forma de uma jia / (...) / Assim passou a haver / Tudo quanto não havia / (...) / Diz que existe essa tribo / De gente que toma um vinho / Num determinado dia / E vê a cara da jia / Gente que toma um vinho / Dizem que existe essa gente / Dispersa entre os automóveis..."
O jardim dos deuses
Assim como a ayahuasca, em todo mundo existem centenas de outros vegetais utilizados de maneira ritualística. Com registros que datam de quase 5 mil anos, as plantas consideradas sagradas acompanham o homem desde seus primórdios. Algumas teorias especulam até que elas teriam participado na formação da cultura e das próprias religiões. "Evidências arqueológicas têm sugerido que as idéias humanas a respeito das divindades, do sobrenatural, nasceram das experiências com as plantas mestras", diz o etnofarmacologista americano Dennis J. McKenna. A curiosidade científica, claro, também deu margem a teorias excêntricas, como a do antropólogo canadense Jeremy Narby, que especula que a forma da molécula do DNA - uma dupla espiral - seria o contraponto molecular das serpentes vistas pelos xamãs em transe.
"As inteligências com as quais os xamãs afirmam se comunicar levam a um conhecimento de difícil descrição. As plantas sagradas alteram os paradigmas com os quais nos relacionamos normalmente", diz Narby. Conheça algumas destas "entidades verdes" que fascinam a humanidade.
Cogumelos - São utilizados por culturas de todo o planeta desde a Antiguidade. Entre os astecas mexicanos, os fungos eram considerados mensageiros sagrados de Deus.
Iboga - Usada em cerimônias da religião Buiti, presente em vários países africanos, a raiz do Tabernanthe iboga é consumida em rituais por mais de 1 milhão de fiéis.
Jurema - Comunidades indígenas e sertanejos no Nordeste do Brasil fazem, com base na Mimosa hostilis, planta natural da caatinga, o vinho sagrado da Jurema, usado em rituais do mesmo nome.
Maconha - Embora esteja associada ao universo do narcotráfico, há registros milenares do emprego religioso da Cannabis sativa. Um exemplo são os adeptos do movimento Rastafari, na Jamaica, que a consideram uma planta divina.
Paricá - Índios no Brasil, na Colômbia, no Peru e na Venezuela inalam o pó feito de sementes da Piptadenia peregrina. O paricá possui o alcalóide DMT, o mesmo presente na ayahuasca.
Peiote - Popularizado pelas narrativas do antropólogo Carlos Castañeda, o cacto é sagrado para índios norte-americanos. Nos Estados Unidos, a Igreja Nativa Americana comunga o peiote em cerimônias legalmente.
Salvia Divinorum - Utilizada em cerimônias pelos xamãs mazatecas mexicanos, há registros de que era associada a uma entidade feminina guardiã da sabedoria.
São Pedro - Consumido em rituais indígenas na Bolívia, no Equador e Peru, é obtido com o cozimento conjunto dos caules de dois cactos. O princípio ativo atuante é o mesmo do peiote.
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Livros:
Ayahuasca, Ralph Metzner, Editora Gryphus, 2002
Guiado pela Lua, Edward MacRae, Editora Brasiliense, 1992
O Uso Ritual da Ayahuasca (2ª edição), Beatriz Caiuby Labate e Wladimyr Sena Araújo (orgs.), Editora Mercado de Letras, 2004
Onde Barquinha (Centro Espírita Daniel Pereira de Matos). Tel. (68) 227-3968, e-mail: agsfilho@hotmail.com
Víctor Nieto (sessões com a ayahuasca à moda indígena peruana), e-mail: vnietop@hotmail.com
Sites:
Santo Daime: www.santodaime.org
União do Vegetal:www.udv.org.br 4
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