O sagrado está no ar
Povos que habitaram boa parte da Europa na Antiguidade, os celtas legaram uma religião que louvava a natureza, a tênue conexão entre este mundo e o Além e que valorizava a participação feminina nos rituais
Por Reinaldo José Lopes
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Mais uma vez, o ciclo que governa todas as coisas se fechara, e o outono dava lugar ao inverno. Nas colinas, fogueiras se acendiam devagar, sob a orientação sábia dos druidas, os sacerdotes celtas. Pessoas e animais buscavam abrigo em cabanas e celeiros. Naquela noite, as fronteiras tênues entre este mundo e o Além estavam ainda mais esgarçadas, e não seria nada sensato ignorar os sinais que a natureza mostrava. Por via das dúvidas, sacrifícios aos deuses podiam manter a escuridão a distância, até que o sol voltasse a brilhar com mais força, dali a vários meses.
Essa capacidade de identificar as conexões entre o mundo natural e o espiritual marcava a religião dos antigos celtas. Embora pouco se saiba sobre seus deuses e cultos, o fato é que eles deixaram sua marca sobre uma extensa região do continente europeu. Mesmo quando abraçaram o Cristianismo, os celtas mantiveram uma identidade religiosa própria e tão vigorosa que ajudou a salvar sua nova fé da decadência.
Não há muitas informações a respeito das origens da religião que eles praticavam, em parte porque nunca formaram um império unificado - eram, na verdade, um agrupamento de muitas tribos. O que unia os celtas, originalmente, era a língua, um dialeto do tronco indo-europeu ao qual também pertenciam o latim, o grego e os idiomas germânicos (ancestrais do inglês e do alemão de hoje). Por volta do ano 700 a.C., as tribos celtas deixaram seu lar ancestral na Áustria e no sul da Alemanha. Invadiram e colonizaram a França, a Inglaterra, a Irlanda e a Espanha. No Oriente, até um pedaço da Turquia virou domínio daquelas tribos. Os principais centros de sua cultura, porém, tornaram-se a Gália (atual França) e as Ilhas Britânicas.
Os vários povos celtas, em sua maioria, eram analfabetos e, por isso, os principais relatos sobre seu modo de vida vêm dos gregos e dos romanos, que lutaram ou comercializaram com eles, ou dos missionários cristãos, que os evangelizaram. Segundo esses relatos, os celtas eram agricultores e artesãos habilidosos, mas também guerreiros temíveis, que prezavam a coragem na batalha acima de tudo. O celta típico valorizava a generosidade e a beleza - a dos objetos de arte, a das canções dos bardos e, principalmente, a da natureza.
"Segundo os ensinamentos dos druidas, tudo no mundo possuía vida - de humanos a árvores, de animais a um rio, de lugares a idéias. Sendo assim, tudo era sagrado", afirma o escritor e estudioso de mitologia céltica Claudio Crow Quintino. Não admira que, com essa disposição em ver divindade em tudo, seja difícil apontar qual era o principal conjunto de deuses desse povo. "Não há uma homogeneidade no que se costuma denominar de mundo céltico. É possível falar de divindades locais e de semelhanças entre elas, mas não generalizar que elas fossem iguais", afirma a historiadora Adriene Baron Tacla, da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
Mesmo assim, havia alguns deuses em comum às várias tribos celtas: Lugh ou Lugus, um jovem deus guerreiro ligado ao Sol; Ogma ou Ogmios, senhor da literatura e da poesia; e várias versões de uma Grande Deusa, mãe ou esposa dos imortais, que comandava os mistérios da da morte e da fertilidade da terra. A vida desses seres era tão movimentada quanto a de qualquer mortal, mas uma história recorrente é o combate dos deuses contra criaturas ainda mais antigas, gigantes e monstros que habitavam o fundo do mar e representavam o caos primordial.
Foi só nos últimos séculos de sua história independente que os celtas começaram a representar seus deuses em forma humana: a associação das divindades com as forças da natureza revelava-se na mistura delas com figuras de animais sagrados. Os jovens deuses guerreiros eram como javalis, ou tinham orelhas ou chifres de cervo. As deusas associavam-se a ursos, cavalos ou corvos. O nome da deusa irlandesa Morríghan, por exemplo, pode tanto ser traduzido como "Grande Rainha" quanto como "Corvo da Batalha". "Às vezes ela aparecia na forma de um corvo e, em outras, na de um lobo cinzento", conta Luciana de Campos, doutoranda em Letras da Unesp, em São José do Rio Preto. Como esses animais, conhecidos por devorar os mortos no campo de batalha, Morríghan apreciava a guerra - mas também era descrita como uma donzela formosa, capaz de iniciar os homens nos mistérios da morte e do renascimento.
As tribos celtas não apreciavam templos feitos por mãos humanas ou rituais pomposos. Bosques eram o melhor lugar para adorar os deuses, e rios, fontes e lagoas viviam recebendo oferendas de armas e jóias. Os pântanos, por estranho que pareça, também tinham seu lado sagrado, por representar a ligação entre a terra, que proporcionava as colheitas, e a água, que para os celtas era o caminho que conduzia ao Outro Mundo.
Sacrifícios de animais, como bois e porcos, eram parte importante desses rituais, mas certas ocasiões também incluíam a matança de pessoas. "Eram sacrificados os criminosos e os prisioneiros de guerra, mas esses rituais ficavam restritos a situações cruciais, de grande tensão", afirma Adriene Baron. Parece que a cabeça das pessoas oferecidas aos deuses ganhava um significado mágico: na França, havia um antigo portal de pedra cheio de nichos onde eram colocados crânios humanos. "Na Irlanda, quando a terra se tornava estéril, o rei também podia ser sacrificado, já que se considerava que a fertilidade do solo era de sua responsabilidade", diz Luciana de Campos.
ALMA IMORTAL
Os responsáveis por tentar decifrar o Livro da Natureza e garantir que a tribo estivesse em sintonia com ele eram os druidas, talvez o grupo mais importante da sociedade celta (leia quadro na página 38). "Eles eram muito mais do que sacerdotes: também desempenhavam o papel de poetas, legisladores, videntes e conselheiros", afirma Claudio Quintino. Sempre vestidos de branco, eles estudavam tanto os movimentos dos astros quanto o crescimento das árvores e plantas. Veneravam especialmente o carvalho, que lhes parecia um símbolo de como a vida e a morte estão ligadas: "O carvalho, no inverno, praticamente morre: sua seiva desce toda para as raízes nessa estação, evitando que ele congele, e retorna milagrosamente para os galhos na primavera. Por isso, os druidas o tomavam como exemplo dos mistérios da vida, da morte e do renascimento", diz Claudio.
Para alguns, isso seria sinal de que os druidas acreditavam na imortalidade da alma e numa eternidade na qual seria possível viver sempre jovem. "Numa lenda irlandesa, uma deusa se apaixona por um jovem chamado Connla e lhe dá de presente uma maçã que o impede de envelhecer. A fruta é o símbolo da imortalidade: ele a come num dia e no seguinte ela se regenera", diz Luciana. O lugar onde se podia gozar essa juventude eterna era chamado de Ynis Avalon (Ilha das Maçãs) pelos gauleses ou de Tir-Nan-Óg (Terra da Juventude) pelos irlandeses. Ele estaria do outro lado do Atlântico, segundo algumas versões, ou debaixo de colinas, de acordo com outras. Contudo, relatos de eruditos gregos sobre a religião dos gauleses (os celtas da Gália) sugerem que eles acreditavam no que hoje chamaríamos de reencarnação.
Segundo Claudio Quintino, porém, o pensamento druídico era mais complexo do que os gregos imaginavam: "Para os celtas, todas as criaturas possuíam alma, e quando uma delas deixava de existir, a energia que a animava era absorvida por outras criaturas ao redor - pessoas, animais, objetos. Ou seja, a alma seria divisível. Partes dela permaneceriam vivas na memória de quem conheceu o morto, nos seus filhos, no trabalho que realizou. E o Outro Mundo não seria o Além, mas sim um estado de percepção. Existe um belo ditado irlandês segundo o qual 'Tir-Nan-Óg é uma terra linda que começa atrás da minha casa'."
Outra característica singular da cultura celta é o papel de destaque das mulheres, que tinham grande liberdade social e, muitas vezes, eram rainhas poderosas de sua tribo. Ainda há dúvidas sobre a existência de druidesas, mas é certo que algumas divindades femininas tinham grande importância. Além de Morríghan, era comum o culto a uma trindade de deusas que portavam frutas, pão e uma taça ritual. Mas havia também um lado guerreiro dessas divindades, porque, como protetoras das colheitas e da terra, elas defendiam o território que a tribo ocupava. Houve até quem visse nisso um sinal de que as Grandes Mães eram as divindades principais dos celtas, e de que os deuses masculinos não passavam de maridos subordinados. Os estudiosos, contudo, afirmam que isso é uma reinterpretação moderna da religião celta, e não corresponde às crenças originais desse povo.
Novo Deus, mesma fé
Com exceção da Irlanda e da Escócia, todas as terras célticas tinham virado províncias de Roma depois da metade do século 1 da era cristã. A princípio, o resultado disso foi a simbiose dos deuses romanos com suas contrapartes celtas: Lugh passou a ser identificado com Mercúrio ou Apolo, e a Grande Mãe com Minerva, por exemplo. Conforme os séculos passavam, no entanto, a mudança foi sendo bem mais radical. Os romanos acabaram abraçando o Cristianismo como religião oficial, e as regiões habitadas pelos celtas tornaram-se cristãs.
Ironicamente, foi na isolada Irlanda que a nova religião adquiriu maior força. Um jovem bretão chamado Patrício, levado como escravo num ataque de piratas pagãos irlandeses, evangelizou a ilha por volta do ano 430, criando um Cristianismo especificamente celta. "A vida monástica era muito importante, e as comunidades tinham grande autonomia. Além disso, as mulheres podiam ajudar o padre na missa, o que jamais acontecia no continente", conta João Lupi, professor de Filosofia Medieval da Universidade Federal de Santa Catarina.
Os monges irlandeses levavam vida solitária e cheia de penitências, mas, como seus ancestrais, acreditavam num contato muito próximo com o divino, além de manter o mesmo corte de cabelo que os druidas - a frente da cabeça, até as orelhas, completamente raspada, com o resto do cabelo longo, preso numa trança. Por estarem praticamente livres das invasões bárbaras da época, os religiosos da Irlanda se tornaram grandes estudiosos da Bíblia, e chegaram a ir para o continente como missionários, fundando mosteiros e ensinando latim na Gália, na Suíça e na Itália. "Não é exagero dizer que os monges irlandeses salvaram a Europa, cuja cultura andava muito decadente naquela época", diz Lupi.
Talvez o exemplo mais belo de como a nova fé se fundiu com a espiritualidade celta seja a oração conhecida como Lorica (Armadura, em latim), ou Fáed Fíada (O Grito do Cervo, em irlandês). Atribuída a São Patrício e escrita nas duas línguas, ganhou esse nome porque, conta-se, quando a rezava, o santo se transformava num cervo para iludir os que queriam fazer-lhe mal. "Eu me levanto hoje/ Pela força do céu/ Luz do Sol/ Esplendor do fogo/ Rapidez do relâmpago/ Velocidade do vento/ Profundeza do mar/ Estabilidade da terra/ Firmeza da rocha." A imagem do que era divino, afinal, ainda brotava da natureza. F
Sabedoria do carvalho
Quando os romanos conquistaram as terras celtas na Gália e na Bretanha, uma de suas primeiras providências foi acabar com os druidas. Aparentemente, os invasores sabiam que, assim, destruiriam a espinha dorsal da sociedade celta. "Os druidas tinham muito mais poder e gozavam de muito mais respeito do que os próprios reis", diz a estudiosa Luciana de Campos, da Unesp. "O rei não passava de um chefe militar e poderia ficar pouco tempo no cargo, mas um druida continuaria por muito tempo."
Segundo alguns especialistas, o nome dessa casta sacerdotal significaria "a sabedoria do carvalho", ressaltando a relação deles com a árvore sagrada. Outros interpretam a palavra "druida" como "o de visão verdadeira", capaz de enxergar o Outro Mundo mesmo vivendo neste. Seja como for, o fato é que as famílias mais nobres consideravam uma honra entregar seus filhos ao treinamento de mais de 20 anos que o cargo exigia. Toda a instrução dos druidas era feita oralmente, embora vários deles soubessem escrever em grego. Além de estudar todos os detalhes da natureza, eles também memorizavam a história de sua tribo - alguns dos exercícios incluíam decorar cerca de cem mil versos. Carregavam uma foice de ouro, com a qual cortavam o visgo - uma planta parasita que brota dos galhos de alguns carvalhos e que, para eles, tinha propriedades mágicas.
As divinas estações do ano
Para as tribos celtas, as estações do ano sucediam-se como os ponteiros de um relógio sagrado. Cada mudança marcava os ciclos de morte e renascimento - tão importantes para a crença celta - e era preciso comemorar esses ciclos com rituais e festas. É claro que tais festivais tinham características próprias de região para região, mas quatro deles parecem ter sido especialmente importantes e difundidos. Seus nomes, em irlandês antigo, são Imbolc, Beltane, Lughnasad e Samhain.
O Samhain, cuja descrição abre esta reportagem, parece ter inspirado, pelo menos em parte, o Halloween moderno. Era o festival do inverno, comemorado em 1º de novembro. "Essa festa celebrava o sobrenatural. Era o momento em que a divisão entre o mundo dos mortos e o mundo dos vivos se dissolvia", conta a historiadora Adriene Baron Tacla, da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Todo tipo de prodígio podia acontecer, como a transformação de cisnes em lindas jovens, que se uniam a amantes humanos.
Para celebrar a primavera, havia Imbolc, em 1º de fevereiro. Comemorava-se o fato de que as ovelhas tinham começado a produzir leite para seus filhotes - a vitória da vida sobre a morte. Havia oferendas especiais à deusa Brígida (depois considerada uma santa cristã), que era ligada a este animal.
Quando o verão ia se aproximando, no primeiro dia de maio, muitos dos celtas, tanto na Bretanha e Irlanda quanto na Gália, celebravam o Beltane. O nome da festa talvez significasse "fogo de Bel", ou seja, um deus chamado Belenos, ligado ao Sol. Como em Samhain, havia grandes fogueiras, e os druidas faziam com que o gado as atravessasse para se purificar. Também há relatos sobre um ritual de fertilidade no qual as pessoas tinham relações sexuais ao ar livre, nos campos.
Para comemorar a colheita, em 1º de agosto havia Lughnasad. Como o nome sugere, Lugh era o deus a quem a festa era dedicada. Às vezes, encenava-se um tipo de peça teatral, na qual um jovem guerreiro, representando a divindade, tinha de lutar contra outro homem da tribo, no papel de um gigante, para alimentar seus soldados. "Esse festival era propício para a realização de assembléias, e talvez acontecessem jogos e um banquete", diz Adriene.
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Livros
Mitos e Lendas Celtas, de Charles Squire. Nova Era, 2003
Os Celtas, de Robin Place. Melhoramentos, 1989
Os Mitos Celtas, de Pedro Pablo May. Angra, 2002 5
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