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Superinteressante 237 - Espíritos

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Jerusalem é na Amazônia

Para os seguidores do Santo Daime, não há lugar mais sagrado no planeta que o Céu do Mapiá, pequena comunidade isolada na mata da Amazônia. Uma vez por ano, o lugar lota de peregrinos espirituais vindos de todas as partes do mundo.

Daniel Nunes Gonçalves

Numa golada só, a japonesa Fumie, 39 anos, toma o líquido marrom e espesso servido num copinho descartável de café. O gosto é amargo. Ela faz cara feia, respira e caminha do corredor para o seu lugar na roda do salão da igreja. Lá, Fumie se integra ao grupo de mais de 400 pessoas que canta e dança numa catedral de madeira no meio da floresta Amazônica. Trata-se do maior templo mundial de sua religião, o Santo Daime, e fica no alto de um morro da Vila Céu do Mapiá, no Amazonas. Coroa prateada na cabeça, ela usa um vestido verde e branco como o das outras mulheres que ocupam metade da igreja - a outra parte é exclusiva dos homens, de ternos brancos e gravatas azuis. Com um livreto de hinos nas mãos, Fumie se integra ao coro cantando no português dos caboclos. Ela não entende bem as palavras. Mas, quando fecha os olhos e sente o efeito do chá, cerca de 30 minutos após tomá-lo, sua experiência ganha sentido. Sob os efeitos alteradores de consciência provocados pela ayahuasca, bebida de origem indígena que mistura o cipó jagube com a folha chacrona, típicos da Amazônia, Fumie vê seres da floresta, sente-se conectada ao Universo, percebe luzes divinas, tem "insights" sobre sua vida. Está "sob a força" do Daime e, acredita, isso é suficiente para ajudar no processo de cura espiritual que a levou até ali.

Nossa turista oriental está em um ritual religioso bem diferente das missas católicas e cultos evangélicos. Não há padre ou pastor, tampouco se lê a Bíblia ou se ingere a hóstia sagrada. O centro do ritual é a bebida. Fumie está entre os muitos peregrinos que vieram de locais distantes do Brasil e do mundo para participar das 12 cerimônias do festival da virada do ano, entre dezembro e janeiro. Além dos visitantes, a maioria dos 600 habitantes da vila - alguns, caboclos da floresta, outros, forasteiros que se mudaram para lá - bailam no mesmo ritmo de dois-pra-lá-dois-pra-cá, tomando várias doses da bebida: 2, 5, 8 Chacoalham maracás e repetem "vivas" sempre que estimulados pelo grupo de líderes. A festa do Dia de Reis, acompanhada em janeiro pela de Super, durou nada menos que 12 horas. Detalhe: começou às 18 horas do dia 5, com o soar de um gongo e estouro de fogos de artifício, e acabou no amanhecer seguinte, demarcando o início do novo ano no calendário daimista. A disposição incansável dos fiéis tem um motivo: o festival do Céu do Mapiá é o grande encontro mundial dos adeptos do Santo Daime. Nessa época, todos os seguidores da religião sonham em estar ali. O que Jerusalém é para judeus, Meca para muçulmanos, o vilarejo amazônico do Céu do Mapiá é para os daimistas: o mais sagrado de todos os lugares.

"Conhecer o Mapiá é a realização de um sonho", conta Fumie, já refeita do transe. A moça, que abandonou um emprego de secretária em Tóquio, faz parte do grupo de 500 adeptos do Santo Daime que vivem fora do Brasil - de um total de 4 mil seguidores, espalhados por 80 núcleos no país e 20 no exterior, em países como EUA e Espanha. A complicada vinda ao Mapiá, segundo a japonesa, compensa. Ainda que ela tenha gasto US$ 2 mil para voar 24 horas de Tóquio a São Paulo, e mais 6 horas até Rio Branco, capital do Acre. Ainda que a peregrinação inclua mais 6 horas de táxi, em chão de terra, até a cidade de Boca do Acre, no estado do Amazonas (ao preço de R$ 300), localidade mais próxima para hospitais, mercados ou correios. E ainda que, de Boca do Acre, leve-se outras 6 horas ao longo do rio Purus e do igarapé Mapiá, uma viagem que custa R$ 600 e que pode ser muito mais longa se os rios não estiverem cheios.

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