


Estamos falando de John Craig Venter. As últimas manchetes que o geneticista americano produziu foram no mês passado, quando anunciou a publicação de seu próprio genoma, ou seja, todos os 6,4 bilhões de letras genéticas que compõem seu DNA na seqüência certinha. Era a primeira vez que alguém decifrava o genoma de um ser humano usando como base um único indivíduo.
Venter é o mesmo sujeito que, lá nos anos 90, disse que o caminhão de dinheiro público despejado pelas nações (principalmente EUA e Reino Unido) no consórcio de institutos para decifrar o genoma era um desperdício.
A tarefa do consórcio era fundamental: quanto mais aprendermos sobre o genoma, maior será nosso poder sobre a vida. E sobre a morte. Se soubéssemos quais são todos os genes ligados ao câncer, por exemplo, teríamos mais munição para lutar contra a doença.
Quando olharam torto para ele, o jeito foi provar. Financiado por capital privado, Venter ajudou a criar a Celera, empresa que usaria uma nova estratégia de decifração genômica, criada por ele, para competir com o consórcio do Projeto Genoma Humano.
Pelos meios tradicionais, o consórcio realizou o seqüenciamento (sua decifração) em 3 meses. Com a estratégia de Venter, o mesmo trabalho foi feito em duas semanas. O projeto público estava mesmo encrencado.
Enquanto os cientistas se deleitavam nas sopas de letrinhas e com a técnica de seqüenciamento de Venter, que hoje virou o padrão nos laboratórios do mundo todo, o pai da genômica do futuro já estava pensando o que faria a seguir. E decidiu que, depois de aprender a seqüenciar vários genomas, estava na hora de começar a tentar escrevê-los. Venter decidiu recriar a vida.
A essa altura, os acionistas da Celera queriam outra coisa, bem mais rentável: que Venter transformasse sua base de dados genéticos em medicamentos aquelas pílulas maravilhosas contra doenças incuráveis que tagarelas do consórcio público estavam prometendo para logo que tivéssemos o DNA humano decifrado.
Já o nosso Dr. Frankenstein resolveu criar um novo instituto, agora definitivamente voltado a seus sonhos de vida sintética. Comprou um veleiro, transformou em laboratório e saiu navegando pelo mundo coletando genes. Pegava amostras de água de vários lugares e seqüenciava, em massa, todos os pedaços de DNA das criaturas ali presentes.
Venter chegou a sondar a possibilidade de navegar pelo rio Amazonas e realizar coletas ali, mas seus planos foram frustrados pelo governo brasileiro, que não queria ter sua biodiversidade pesquisada por um grupo estrangeiro. O pesquisador não gostou, claro. Em todos os lugares tivemos de pedir autorização aos governos, e nosso acordo era o de que as descobertas que fizéssemos não poderiam ser patenteadas, nem por nós, nem por esses países; seriam divulgadas publicamente, disse o cientista em 2005, quando esteve em São Paulo para dar uma palestra.
Então não é uma questão de eu achar que tenho direito de possuir os genes de qualquer coisa. É o contrário, alguns países é que acham que são donos dos organismos. E concluiu alfinetando: Se fosse hoje, Charles Darwin teria sido impedido de fazer sua pesquisa, referindo-se às viagens que o naturalista britânico fez no século 19 a bordo do navio Beagle, com passagem pelo Brasil. Foram essas expedições que o inspiraram a criar a Teoria da Evolução das Espécies.