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Ecstasy cura trauma, dizem pesquisadores

O MDMA, princípio ativo do ecstasy, pode ser a cura para o estresse pós-traumático.

As pesquisas científicas sobre o uso de MDMA, princípio ativo do ecstasy, para curar estresse pós-traumático ainda estão no começo. Mas o potencial está se revelando gigantesco. As histórias já registradas impressionam.

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Pegue por exemplo o caso da americana Rachel Hope, hoje com 43 anos. Vítima de seguidos abusos sexuais aos 4 anos, atropelada por um caminhão aos 11, Rachel desenvolveu um caso extremo de estresse-pós-traumático. Sua vida era um pesadelo. Por três décadas, ela viveu atormentada por uma sensação constante de que iria morrer a qualquer segundo: um pânico permanente, ininterrupto. Como resultado, seu organismo focava apenas na sobrevivência imediata e todo o resto funcionava mal. Nenhum machucado cicatrizava, seu sono era interrompido a noite toda aos berros, seus relacionamentos eram impossíveis, sua digestão não funcionava, o que impunha humilhações a cada evacuação e a privava de nutrientes. “Acho surpreendente eu não ter morrido”, disse ela, numa entrevista.

Por 20 anos, ela se tratou com dezenas de médicos, e a uma certa altura tomava 15 remédios psiquiátricos diferentes. Nenhum deles faziam o pânico ir embora. Eles apenas mantinham os sintomas mais ou menos sob controle, ao custo de uma infinidade de efeitos colaterais gravíssimos e de uma mente permanentemente nublada.

Até que, dez anos atrás, Rachel participou do primeiro teste científico sobre o potencial terapêutico do MDMA realizado no mundo desde que a droga foi proibida, nos anos 1980. Num ambiente tranquilo e controlado, ela tomou uma pílula branca e, sob o efeito dela, participou de uma grande seção de psicoterapia, que durou quase 8 horas. Quando o efeito passou, quase todos os seus sintomas haviam sumido. Nos meses seguintes, ela participou de mais duas seções iguais. Ao final da terceira, passou por um exame e o médico comunicou-lhe que ela não tinha mais estresse pós-traumático. Estava curada. “Como assim?”, disse ela, na entrevista reproduzida abaixo (em inglês). “De repente, em apenas oito horas, acabou?” A sensação que Rachel tem é que sua vida começou naquele momento.

O estudo do qual Rachel participou envolveu 20 pacientes que sofriam da doença havia muito tempo e já tinham tentado vários medicamentos e terapias, sem sucesso. O resultado, segundo a prestigiosa revista Nature, foi “espetacular”. Nada menos que 83% dos pacientes apresentaram grande melhora ou se curaram. Todos relataram algum progresso, nenhum sofreu efeitos colaterais indesejáveis. Os pesquisadores continuaram acompanhando os pacientes por anos e confirmaram que os bons resultados duraram, sem inconvenientes. Nenhum outro remédio no mercado chega nem perto dessa performance – e todos os outros precisam ser consumidos pela vida toda, enquanto o MDMA pode desencadear melhoras permanentes.

O sucesso é atribuído ao fato de que o MDMA deixa a pessoa num estado tranquilo, leve, e assim permite que o terapeuta aborde as querstões traumáticas que a estão perturbando. Sem ele, seria insuportável lembrar, poderia levar a pessoa ao pânico e assim reforçar ainda mais o trauma, num ciclo vicioso que para muita gente não tem saída.

Esse estudo só aconteceu graças a uma organização não-governamental chamada Maps (sigla em inglês de Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos), financiada exclusivamente por doadores. Isso porque as universidade tradicionais dificilmente fazem pesquisa com substâncias ilegais, e financiamento governamental é praticamente impossível.

Depois desse primeiro estudo, a Maps seguiu pesquisando. Está agora testando a substância em grupos pequenos nos Estados Unidos, Canadá, Suíça e Israel – e, embora nada ainda dessa segunda leva tenha sido publicado, os resultados impressionantes estão se repetindo. Ano que vem, o plano é expandir para outros países, inclusive o Brasil, onde se pretende financiar uma pesquisa com quatro pacientes usando crowdfunding. Em 2017, a Maps pretende fazer um grande estudo internacional, com centenas de pacientes em vários países do mundo, inclusive o Brasil. Será a última etapa antes de aprovar a terapia com MDMA para o público, o que pode acontecer em 2021.

“É importante lembrar que a substância só funciona quando acompanhada de um processo terapêutico”, diz o neurocientista Eduardo Schenberg, que dirige a organização brasileira que pretende realizar o estudo. “Não adianta tomar ecstasy numa rave e achar que assim você vai reduzir sua ansiedade.” Até porque muito daquilo que se vende como ecstasy no mercado negro não contém MDMA algum.

Os resultados promissores da terapia com MDMA para tratar estresse pós-traumático acendem a esperança de que a substância ajude também em casos de fobia e ansiedade,  distúrbios psiquiátricos muito comuns e difíceis de tratar. As pesquisas com MDMA acontecem num contexto em que várias substâncias que foram proibidas por décadas, inclusive maconha, LSD, ayahuasca e psilocibina, o princípio ativo do cogumelo alucionógeno, subitamente estão revelando grandes promessas terapêuticas. Todas elas tiveram suas pesquisas virtualmente proibidas por muitos anos e foram redescobertas apenas recentemente, graças a uma mudança de mentalidade no meio científico.

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