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Por que a Chape virou o segundo time de todo mundo

A ascensão da Chapecoense, o carisma da equipe e o impacto da tragédia na Colômbia contados por uma jornalista vizinha da Arena Condá

Eu cresci a duas quadras do Estádio Índio Condá. Da minha casa, bastava uma caminhada de dez minutos para a arquibancada verde e branca da Chapecoense. Sempre foi como estar em casa. Quando eu era criança, a Chape ia mal das pernas. No início dos anos 2000, a equipe quase decretou falência. Muitos lembram da série A de 2011 do Catarinense, campeonato em que a Chapecoense só entrou por desistência do Atlético de Ibirama. 2011, apenas cinco anos atrás.

É, vai tentar explicar esses últimos cinco anos da Chape. Foi uma ascensão maluca, uma escalada da última das séries para a mais nobre delas. Em Chapecó, não poderíamos pedir mais. Permanecer na série A já parecia muito. Porém, em 2014, 2015 e 2016, confirmamos que, sim, dá pra ser um dos melhores vinte clubes do país mesmo com uma receita “pequena”. No fim das contas, o futebol é definido dentro de quatro linhas e nelas esses guerreiros deram tudo o que tinham para nós. Além disso, a Chapecoense se apresenta como um clube humano: todos ganham juntos. As premiações pelas passagens de fase na Sulamericana foram divididas entre todos, desde o faxineiro até o maior salário da equipe (que por sinal não é grande para a realidade do futebol de alto nível, menos de R$100 mil).

Quem frequentava o estádio colocou na bagagem vários jogos memoráveis. Já vi chuva de pedra em final de estadual, vendaval que roubou a bola dos jogadores e chuva torrencial que deixou buracos gigantescos de água no gramado. Bom mesmo era sentir a água no corpo, se escondendo das pedras e sendo castigado pelo vento. A paixão pelo time ultrapassou todas essas barreiras climáticas.

Eu sempre tive a impressão de que a Chape não é uma equipe qualquer. Ela virou o segundo time de todo mundo. Não foram raras as conversas que tive com amigos que simpatizaram e torceram junto, mesmo tendo outro clube de coração. É difícil ver essa história linda e não querer participar, nem que seja um pouquinho. Tenho a crença de que os onze jogadores representavam uma cidade e tinham consciência disso. Nunca almejamos mais do que o possível, lutamos com a garra do povo do oeste, estávamos um pouquinho de cada dentro daquele gramado. Na humildade, reconhecendo nossos limites, doando todo o coração.

Na vida, todo mundo já teve um “momento Chapecoense”. Ser pequeno diante de uma situação e enfrentá-la com toda a alma, acreditando no seu potencial e desafiando a grandeza dos outros. Conquistando aos poucos e acreditando em triunfos maiores, como nossa primeira final internacional.

Gabriela com seus irmãos e primos na final do Campeonato Estadual deste ano (Acervo pessoal)

No jogo de volta das quartas-de-final, eu estava em Chapecó. Em 2015, foi onde paramos. Ali a gente já entraria para a história. Como de costume, a chuva castigou desde os minutos iniciais até o apito final do árbitro. Quando eu cheguei em casa, tremendo de frio e com o coração quente, pensei que nunca tinha visto uma apresentação tão perfeita. O time estava em sintonia, sufocando o adversário e fez uma partida magistral. Naquele dia, nos classificamos para a semi e comecei a acreditar que levantar a taça da Sulamericana não era mais sonho.

No meu TCC, onde escrevi histórias do futebol catarinense, o depoimento de Janga, ídolo da torcida, veio à cabeça. O aposentado volante veio ao oeste em 1977 e se apaixonou pelo clube e pela cidade. Nunca foi embora. Virou vendedor de cachorro-quente no estádio. Pois é, quando a Chape te fisga é difícil deixar de ser apaixonado.

Infelizmente, a luta de agora é fora dos gramados. Também passa pela mente o acidente de 2005, que foi outro momento triste do esporte em Chapecó. O time júnior de handebol da cidade estava em um microônibus que bateu. Os atletas que pediam socorro foram atropelados e o motorista do ônibus que bateu no veículo da delegação fugiu. Foi um baque que resultou em seis perdas para as famílias e para a cidade. Esse povo não merece essa dor. Naquela vez, sentimos sozinhos. Hoje, o mundo compartilha da dor verde e branca.

*A jornalista Gabriela De Toni é chapecoense – de time e nascimento.

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