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CARDOSO, Ilha do

Superinteressante edição 014
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A ilha dos tesouros

A Ilha do Cardoso, vem sendo preservada como santuário ecológico para abrigar animais e vegetação, que sobreviveram as ações devastadoras da colonização.

A ilha do Cardoso, no litoral sul de São Paulo, está sendo preservada para que centenas de espécies animais e vegetais possam sobreviver.

 

Por Roberto Muylaert Tinoco

 

Conta a lenda que em 1627 apareceu na vila de Iguape, no litoral sul de São Paulo, um velho marinheiro desertor. Ele trazia embrulhado em folhas de plantas uma boa quantidade de ouro. O marinheiro dizia que, perdida entre a floresta e os morros da ilha do Cardoso, 60 quilômetros ao sul de Iguape, havia uma lagoa tão cheia de ouro que até a mata possuía um brilho dourado. O ouro, jurava ele, era suficiente para cobrir as ruas da vila e bastava mergulhar as mãos nas águas da lagoa para trazê-las carregadas do metal. Centenas de pessoas tentaram, em vão, descobrir ouro na lagoa da ilha do Cardoso. Mas até hoje ela é conhecida como lagoa Dourada.

São outros, na verdade, os tesouros dessa ilha a UNESCO, organismo das Nações Unidas que trata de assuntos de ciência e cultura, a incluiu entre os lugares que devem ser preservados em caráter de urgência. De fato, a ilha é um dos últimos santuários ecológicos do mundo, criadouro de aves, camarões, ostras e peixes que, além de povoar todo o litoral sul do Brasil, alcançam o Rio Grande do Norte (a quase 4 mil quilômetros de distância), como ficou comprovado por pesquisas do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo. Desde 1962 transformada em Parque Estadual, a ilha do Cardoso está tecnicamente sob a proteção do governo.

Localizada na altura da divisa de São Paulo com o Paraná, quase 90 por cento dos seus 14 mil hectares (140 quilômetros quadrados) estão cobertos pela mata atlântica. Trata-se de uma verdadeira ilha dentro de outra, uma minúscula amostra do que foram as majestosas florestas litorâneas de antigamente. Separada do continente por um estreito canal de águas salobras, uma linha divisória natural entre o passado e o presente da costa brasileira, e defronte à ilha de Cananéia, é um valioso estoque natural de plantas e animais que sobreviveram às ações devastadoras da colonização.

Para os ecologistas, o enorme valor ambiental da ilha do Cardoso apóia-se num tripé paisagístico de primeira grandeza: mangue, restinga e mata atlântica. O Departamento Estadual de Recursos Naturais de São Paulo vem desenvolvendo desde 1985 na própria ilha, cursos abertos a escolas em geral com o objetivo de discutir a relação homem natureza. Para isso, existem ali laboratórios de Biologia e alojamento para estudantes e monitores na extremidade norte da ilha. O único povoado, a vila do Marujá, onde vive a grande maioria das noventa famílias de pescadores que constituem a população do Cardoso, fica no outro lado, entre a ilha propriamente dita e a restinga que avança no território paranaense. A característica principal de uma restinga é a de ganhar terreno do mar, estirar uma ponta de areia a partir de um ponto da costa, criando, a princípio, apenas um quebramar natural. Muitas vezes, no entanto, ela se prolonga, seguindo o remanso que criou, e se transforma numa comprida planície paralela à costa, como é o caso, por exemplo, da restinga da Marambaia, no Estado do Rio. Vários fatores contribuem para a formação de uma restinga, mas pelo menos três são fundamentais: a presença de mares rasos; a existência de uma corrente litorânea esbarrando numa ponta da costa; a abundância de areia em suspensão na água do mar e, naturalmente, muito tempo. Uma restinga como a da ilha do Cardoso leva, no mínimo, 7 mil anos para se formar.

A costa brasileira tem belos exemplos de restingas. As mais impressionantes pelo tamanho são as do Rio Grande do Sul, abrigando as lagoas dos Patos e Mirim. Na ilha do Cardoso, a restinga se estende por quase 40 quilômetros, formando um pequeno mundo de transição para os seres vivos instalados entre a praia e a mata. A vegetação das restingas é uma verdadeira salada mista criada pelo encontro das plantas colonizadoras da areia com aquelas que vivem nas planícies e serras litorâneas. Há uma interpenetração nesse encontro, mas ainda assim é possível encontrar uma certa ordem no aparecimento das espécies vegetais desde a praia até o interior.

As mais próximas da praia são as que melhor suportam a salinidade do ambiente. Além do contínuo borrifo da maresia, elas agüentam o próprio sal deixado pela maré alta ou trazido pela brisa depois que seca a areia da praia. Sol, calor, sal, areia e a constante evaporação de qualquer fonte de umidade não é de espantar que a paisagem de uma restinga se pareça, em alguns lugares, com as caatingas do sertão nordestino. São cactos, bromélias e capins uma vegetação que os índios chamavam de jundu. Ela forma uma zona de transição entre as plantas da beira da praia e a mata atlântica, quando o solo arenoso ganha uma camada de folhas secas, tornando-se mais rico em matéria orgânica e permitindo o desenvolvimento de plantas num ambiente úmido e sombreado.

Distantes da praia, as árvores alcançam alturas de 20 ou 30 metros. Ali, samambaias gigantes e uma enorme quantidade de cipós já denunciam a presença da mata atlântica. As espécies mais resistentes, como a quaresmeira (gênero Tibouchina), que após uma queimada é das primeiras a fazer o reflorestamento natural, podem chegar a poucos metros do mar. A mata atlântica recobre não apenas todo o interior da ilha como até o topo dos morros (o mais alto mede 800 - metros), constantemente envoltos em neblina. De dentro dessa massa vegetal surgem pequenos riachos de água doce que correm para o mar. Nos canais tranqüilos do manguezal, a água doce que desceu das montanhas mistura-se e lentamente com o sal trazido pelas marés. O resultado é uma água salobra, uma espécie de sopa turva e morna enriquecida por argilas e restos de vegetais decompostos.

O mangue é considerado pelos biólogos marinhos como uma incubadeira natural para inúmeras espécies de peixes que, depois de acrescidos, vão para o alto - mar. Tainhas, robalos, camarões e caranguejos começam suas vidas como minúsculos habitantes do mangue. Boa parte do consumo de frutos do mar no país depende, portanto, da preservação dos manguezais. que já vão se tornando escassos ao longo do litoral brasileiro.

Antigamente eles pontilhavam o litoral, do Amapá até o sul de Santa Catarina. Mas foram sistematicamente destruídos por aterros e derrubadas, a pretexto de obras de saneamento. Afinal, o mangue sempre teve fama de lugar insalubre, foco de doenças malignas transmitidas pelos mosquitos abundantes que se desenvolvem nas poças de água. Só recentemente houve uma conscientização da importância desse ecossistema. Mas os aterros e derrubadas continuam, agora por outros motivos abertura de loteamentos e corte de madeira para carvão.

Se isso continuar, muitas conseqüências desagradáveis irão castigar os moradores dessas regiões. A pior delas poderá ser uma deformação rápida e descontrolada dos terrenos adjacentes aos manguezais destruídos, resultante da derrubada dos quebramares naturais que são o emaranhado das raízes das árvores típicas do mangue. Na região da ilha do Cardoso, o mangue é ainda uma paisagem de inesperada harmonia no encontro da floresta com o mar. E isso talvez valha mais do que o ouro dos sonhos do velho marinheiro.

 

Para saber mais:

Pantanal, terra das águas (SUPER número 9, ano 4)

As cordiais acrobacias do Muriqui

(SUPER número 11, ano 4)

No rumo das aves migratórias

(SUPER número 4, ano 5)

Depois da tempestade vem a vida

(SUPER número 12, ano 7)

 

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